O verão que mudou minha vida

Jenny Han · Capítulo 28 de 48

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O verão que mudou minha vida

Capítulo 28

— Ótimo. E então? Com qual dos dois foi seu primeiro beijo?

— Eu contei isso a você?

— Contou. Você disse que seu primeiro beijo tinha sido com um garoto na praia quando você tinha treze anos.

— Ah. — Olhei para o rosto dele, iluminado pela lua. Cam estava quase sorrindo. — Adivinha.

— O mais velho. Conrad — anunciou ele, sem pensar duas vezes.

— Por que acha que foi com ele?

Ele deu de ombros.

— Só um palpite, pelo jeito como ele olha pra você.

— Ele mal olha pra mim — retruquei. — E você errou, Sextus. Foi com Jeremiah.

28

Quatorze anos

— VERDADE OU CONSEQUÊNCIA? — perguntou Taylor para Conrad.

— Não estou brincando — respondeu ele.

Taylor fez bico e protestou:

— Ah, deixa de ser gay!

— Você não devia usar a palavra “gay” desse jeito — advertiu Jeremiah.

Taylor ficou sem palavras.

— Eu não quis insinuar nada, Jeremy — disse ela, por fim. — Só quis dizer que ele está sendo um chato.

— Só que “gay” não significa “chato”, Taylor. Sabia? — retrucou Jeremiah.

Ele estava falando em um tom sarcástico, mas até mesmo aquele tom desagradável era melhor do que o zero de atenção que eu recebia. Provavelmente ele só estava irritado com toda a atenção que ela estava dando a Conrad.

Taylor deu um suspiro exagerado e se virou para ele.

— Conrad, deixa de ser chato. Vem brincar de verdade ou consequência com a gente.

Ele a ignorou e botou o volume da TV no máximo, então apontou o controle remoto para Taylor e fingiu abaixar o volume dela até o mínimo. Eu ri alto.

— Tudo bem, ele não quer brincar. Steven, verdade ou consequência?

Steven revirou os olhos.

— Verdade.

Os olhos da Taylor se iluminaram.

— Certo. Até onde você foi com a Claire Cho?

Eu sabia que ela vinha guardando aquela pergunta havia algum tempo, esperando o momento exato de fazê-la. Claire Cho era uma garota com quem Steven saíra durante a maior parte do primeiro ano; Taylor dizia que Claire tinha patas de elefante, mas eu achava que os tornozelos dela eram perfeitamente esguios. Achava Claire Cho toda perfeita.

Steven ficou vermelho.

— Não vou responder.

— Você tem que responder. Estamos brincando de verdade ou consequência; você não pode simplesmente sentar aqui e ouvir os segredos das outras pessoas se não for participar — falei.

Eu também queria saber o que tinha rolado entre os dois.

— Ninguém contou nenhum segredo ainda! — protestou ele.

— Mas vamos contar, Steven — retrucou Taylor. — Agora seja homem e abre o bico.

— É, Steven, abre o bico, seja homem — disse Jeremiah, entrando na conversa.

Nós dois começamos a repetir:

— Seja homem! Seja homem!

Até Conrad abaixou o volume da TV para ouvir a resposta.

— Tudo bem — concordou Steven. — Se vocês calarem a boca, eu conto.

Ficamos quietos, na expectativa.

— E aí? — perguntei.

— Nós... Nós nos tocamos — confessou ele, por fim.

Eu me recostei no sofá. Eles se tocaram. Nossa. Que interessante. Meu irmão e a namorada se masturbaram. Que esquisito. Que nojento.

Taylor parecia muito satisfeita.

— Muito bem, Stevie.

Ele sorriu para ela e anunciou:

— Agora é minha vez.

Steven olhou ao redor, e eu me afundei nas almofadas do sofá.

Torci para que ele não me escolhesse e me obrigasse a confessar em voz alta que eu nunca tinha nem beijado um garoto.

Conhecendo meu irmão, era bem o tipo de coisa que ele faria.

Qual não foi minha surpresa quando o ouvi declarar:

— Taylor. Verdade ou consequência?

Steven tinha mesmo entrado na brincadeira.

— Você não pode me escolher, porque eu acabei de fazer uma pergunta pra você. Tem que escolher outra pessoa — retrucou Taylor.

Era verdade, aquela era a regra.

— Está com medo, Tay-Tay? Não tem coragem?

Ela hesitou.

— Tudo bem. Verdade.

Steven deu um sorrisinho maldoso.

— Quem você beijaria nesta sala?

Taylor pensou por alguns segundos, então fez aquela cara marota que ela sempre fazia. Era a mesma cara que tinha feito quando pintou o cabelo da irmãzinha de azul, aos oito anos. Ela esperou até que todos estivessem prestando atenção e anunciou, triunfante:

— Belly.

Fez-se um minuto de silêncio retumbante, e todo mundo começou a rir — Conrad foi quem riu mais alto. Joguei uma almofada em Taylor, com força.

— Isso não é justo. Você não respondeu a verdade — reclamou Jeremiah, apontando o dedo para ela.

— Respondi, sim — disse Taylor, de maneira afetada. — Eu escolheria Belly. Olha só, a irmãzinha preferida de todo mundo, Jeremy. Ela está ficando uma gata, bem debaixo do seu nariz.

Escondi o rosto em uma almofada. Eu sabia que estava mais vermelha que Steven. Principalmente porque não era verdade: eu não estava ficando uma gata debaixo do nariz de todos eles, e todos sabíamos disso.

— Taylor, cala a boca. Cala a boca, por favor.

— É, cala a boca, Tay-Tay — disse Steven, também meio corado.

— Se você falou mesmo a verdade, então beija a Belly —

retrucou Conrad, os olhos colados de volta na TV.

— Ei! — protestei, encarando-o. — Eu sou um ser humano. Você não pode me beijar sem minha permissão.

Ele se virou para mim e declarou:

— Mas não sou eu quem vai beijar você.

Protestei com mais veemência:

— Mesmo assim, permissão não concedida. Pra nenhum de vocês.

Desejei poder mostrar a língua para ele sem ser acusada de ser um bebê.

Taylor interveio depressa:

— Eu escolhi verdade, não consequência. É por isso que não vamos nos beijar.

— Nós não vamos nos beijar porque eu não quero beijar você —

afirmei. Senti que estava vermelha, em parte porque estava com raiva, mas também porque estava lisonjeada. — Agora chega de falar disso. É a sua vez de perguntar — disse para Taylor.

— Tudo bem. Jeremiah. Verdade ou consequência?

— Consequência — respondeu ele, recostando preguiçosamente no sofá.

— Certo. Beije alguém nesta sala, agora.

Taylor lançou um olhar confiante para ele e esperou.

Senti como se todos estivessem sentados nas pontas das cadeiras, esperando Jeremiah dizer alguma coisa. Ele realmente faria aquilo? Ele não era o tipo de garoto que recusava um desafio.

Eu estava curiosa para saber o tipo de beijo que ele daria; se seria um beijo de língua ou um selinho. E também queria saber se aquele seria o primeiro beijo deles ou se ele e Taylor já haviam se beijado alguma vez naquela semana — talvez no fliperama, quando eu não

estava olhando. Eu tinha quase certeza de que já havia rolado um beijo.

Jeremiah se levantou.

— Moleza — retrucou, esfregando as mãos e dando um sorriso.

Taylor sorriu de volta e inclinou a cabeça para o lado, o cabelo cobrindo um pouco seus olhos.

Então Jeremiah se virou para mim e perguntou:

— Pronta?

E, antes que eu pudesse responder, ele me deu um beijo na boca.

Ele estava com a boca um pouco aberta, mas não foi um beijo de língua. Tentei empurrá-lo para longe, mas ele continuou naquilo por alguns segundos.

Eu o empurrei de novo, e ele caiu de volta no sofá, na pose mais despretensiosa que conseguiu. Todos estavam sentados, boquiabertos, com exceção do Conrad, que não parecia nem um pouco surpreso. Mas Conrad nunca parecia surpreso. Eu, por outro lado, estava com dificuldade até para respirar. Tinha acabado de dar meu primeiro beijo. Na frente de outras pessoas. Na frente do meu irmão.

Eu não podia acreditar que Jeremiah tinha roubado meu primeiro beijo daquele jeito. Eu queria que tivesse sido especial, mas acabou acontecendo no meio de uma brincadeira de verdade ou consequência! Não dava para ser menos especial. E, para piorar, ele só tinha feito aquilo para deixar Taylor com ciúme, não porque ele gostava de mim.

E tinha funcionado. Taylor encarava Jeremiah como se ele a tivesse desafiado. E acho que foi exatamente o que ele fez.

— Nojento — protestou Steven. — Que brincadeira podre. Estou fora — anunciou, olhando para a gente com uma expressão de desgosto e saindo da sala.

Eu me levantei também, assim como Conrad.

— Até mais — falei. — E, Jeremiah, você ainda me paga.

Ele deu uma piscadela e disse:

— Uma massagem nas costas seria um bom pagamento?

Joguei uma almofada na cabeça dele e saí batendo a porta. O imbecil ainda fingiu que estava flertando comigo. Era tão paternalista, tão humilhante.

Levei uns três segundos para perceber que Taylor não tinha vindo atrás de mim. Ela continuava lá, rindo das piadas idiotas do Jeremiah.

No corredor, Conrad me olhou daquele jeito dele e disse:

— Você sabe que adorou o que aconteceu.

— Como você pode saber? Você é obcecado demais consigo mesmo pra prestar atenção em qualquer outra pessoa.

Ele se afastou, dizendo:

— Eu presto atenção em tudo. Até mesmo na coitadinha da Belly.

— Vai se ferrar! — gritei, porque foi a única coisa em que consegui pensar.

Eu podia ouvi-lo rindo enquanto ele fechava a porta do quarto.

Fui para o meu e me enfiei embaixo das cobertas. Fechei os olhos e repassei o que tinha acabado de acontecer. Os lábios do Jeremiah tinham tocado os meus. Meus lábios já não eram mais só meus.

Tinham sido tocados. E pelo Jeremiah. Eu finalmente tinha sido beijada, e fora meu amigo Jeremiah quem fizera isso. Meu amigo Jeremiah, que tinha me ignorado a semana inteira.

Eu precisava falar com Taylor, conversar com ela sobre meu primeiro beijo, mas não podia, porque ela estava lá embaixo, beijando o mesmo garoto que havia acabado de me beijar. Eu tinha certeza.

Quando ela subiu para o quarto, mais tarde, fingi que estava dormindo.

— Belly? — sussurrou ela.

Não respondi, só me mexi um pouco.

— Eu sei que você está acordada, Belly. E eu perdoo você.

Tive vontade de me levantar e dizer: “Ah, você me perdoa? Bem, pois eu não perdoo você por estragar meu verão.” Mas não disse nada. Continuei fingindo que estava dormindo.

* * *

Acordei bem cedo na manhã seguinte, pouco depois das sete, e Taylor já tinha saído. Eu sabia que ela ia sair. Fora assistir ao nascer do sol com Jeremiah. Estávamos planejando ver o nascer do sol um

dia antes de ela ir embora, mas sempre perdíamos a hora. Ela partiria dali a dois dias, e tinha escolhido ver o sol nascer com Jeremiah. Claro.

Botei o maiô e fui para a piscina. De manhã cedo estava sempre um pouco frio lá fora, com um ventinho gelado, mas eu não ligava.

Nadar de manhã me dava a sensação de nadar no mar.

Teoricamente, nadar no mar é ótimo, mas a água salgada faz meus olhos arderem demais, então não faço isso com tanta frequência. E

a piscina é mais reservada. Mesmo que todo mundo a use também, de manhãzinha e à noite ela é só minha — e da Susannah, claro.

Quando abri o portão para a piscina, vi minha mãe sentada em uma das espreguiçadeiras, lendo um livro. Ela não estava lendo de verdade, e sim segurando-o aberto enquanto encarava o vazio.

— Oi, mãe — cumprimentei, mais para tirá-la do transe do que qualquer outra coisa.

Ela ergueu os olhos, assustada.

— Bom dia. Dormiu bem?

Dei de ombros e deixei a toalha em uma cadeira ao lado dela.

— Acho que sim.

Minha mãe protegeu os olhos do sol e me encarou.

— Você e a Taylor estão se divertindo?

— Muito. Estamos nos divertindo à beça.

— Onde ela está?

— Quem sabe? Quem se importa?

— Vocês duas brigaram? — perguntou minha mãe, em um tom casual.

— Não. Só estou começando a desejar que ela não tivesse vindo pra cá. Só isso.

— Melhores amigas são importantes. São a coisa mais próxima de uma irmã que podemos ter. Não desperdice essa amizade.

— Não estou desperdiçando nada. Por que você tem sempre que colocar a culpa em mim? — retruquei, irritada.

— Não estou colocando a culpa em você. Por que acha que tudo sempre é com você, querida?

Minha mãe sorriu daquele seu jeito irritantemente calmo.

Revirei os olhos e pulei de costas na piscina. Estava congelante.

Quando voltei à superfície, gritei:

— Eu não acho!

E comecei a nadar. Cada vez que pensava em Taylor e Jeremiah, ficava com mais raiva e nadava mais rápido. Quando terminei, meus ombros ardiam.

Minha mãe tinha saído, mas Taylor, Jeremiah e Steven haviam acabado de chegar.

— Belly, você vai acabar ficando com os ombros largos se nadar demais — advertiu Taylor, enfiando o pé na água.

Eu a ignorei. O que Taylor sabia sobre exercícios físicos? Ela considerava passear de salto no shopping um esporte.

— Onde vocês estavam? — perguntei, boiando de costas.

— A gente só deu uma saidinha — respondeu Jeremiah, vagamente.

Judas, pensei. Um bando de traidores.

— Cadê o Conrad?

— Não tenho a mínima ideia. Ele é descolado demais para sair com a gente — respondeu Jeremiah, jogando-se em uma das espreguiçadeiras.

— Ele saiu pra correr — respondeu Steven, um pouco na defensiva. — Ele precisa voltar à forma para a temporada de futebol. E vai embora semana que vem, pra treinar, lembra?

Eu me lembrava. Naquele ano, Conrad partiria mais cedo para chegar a tempo da seleção para o time. Eu nunca achei que Conrad fosse do tipo que joga futebol americano, mas lá estava ele, treinando e tentando fazer parte da equipe. Eu apostava que tinha o dedo do Sr. Fisher naquilo; era a cara dele. Foi a mesma história com Jeremiah, que nunca levou o esporte muito a sério. Bem, Jeremiah nunca levava nada muito a sério.

— Acho que também vou entrar pro time no ano que vem — comentou Jeremiah, em um tom casual.

E deu uma olhadinha para Taylor, para ver se ela parecia impressionada. Não parecia. Não estava nem olhando para ele.

Vi Jeremiah murchar um pouco, e fiquei até com pena, apesar de tudo.

— Vamos apostar uma corrida, Jere — sugeri.

Ele deu de ombros e se levantou, tirando a camisa. Então foi até o lado mais fundo da piscina e mergulhou.

— Quer um braço de vantagem? — perguntou, voltando à superfície.

— Não. Acho que consigo vencer você sem isso — respondi, batendo as pernas. — Vamos lá!

Nadamos em estilo livre. Ele venceu a primeira e a segunda, mas eu ganhei a terceira e a quarta. Taylor estava torcendo para mim, o que só me deixava mais irritada.

* * *

Na manhã seguinte, Taylor saiu bem cedo de novo. Dessa vez, eu ia me juntar a eles. Ela e Jeremiah não eram os donos da praia, afinal.

Eu tinha tanto direito de assistir ao nascer do sol quanto eles. Eu me levantei, troquei de roupa e saí.

Não os vi de primeira; eles estavam bem mais longe que o normal, de costas para mim. Jeremiah a abraçava por trás, e os dois estavam se beijando. Ele não estava nem aí para o nascer do sol.

E... não era Jeremiah. Era Steven. Meu irmão.

Parecia um daqueles filmes com final surpreendente, quando tudo se encaixa e faz sentido. De repente minha vida tinha virado Os Suspeitos, e Taylor era a chefe da gangue. As cenas corriam pela minha memória: Taylor e Steven brigando, ele com a gente no calçadão naquela noite, Taylor dizendo que Claire Cho tinha elefantíase, todas aquelas tardes que ela passava na minha casa…

Eles não ouviram quando eu me aproximei, mas eu falei bem alto:

— Uau! Primeiro Conrad, depois Jeremiah e agora meu irmão.

Ela se virou, surpresa. Steven também parecia surpreso.

— Belly... — começou ela.

— Cala a boca! — Olhei para o meu irmão, que se encolheu um pouco, envergonhado. — Você é um hipócrita. Você nem gosta dela!

E ainda diz que ela manchou os neurônios com água oxigenada!

Steven pigarreou, olhando para nós duas sem saber o que dizer.

— Eu nunca disse isso.

Os olhos da Taylor se encheram de lágrimas, e ela os secou com a manga do moletom. O moletom do Steven. Eu estava com raiva demais para chorar.

— Vou contar pro Jeremiah.

— Belly, fica calma. Você já está bem grandinha pra esse tipo de birra — interveio Steven, balançando a cabeça com aquele ar de irmão mais velho.

As palavras saíram da minha boca de um jeito seco, rápido, definitivo.

— Vai pro inferno!

Eu nunca tinha falado daquele jeito com meu irmão. Nunca achei que um dia falaria daquele jeito com ninguém. Steven piscou, atônito.

Foi quando saí de perto. Taylor veio atrás de mim, mas teve que correr para me alcançar, de tão rápido que eu andava. Acho que a raiva aumenta a velocidade.

— Belly, me desculpa — começou ela. — Eu ia contar. É que foi tudo rápido demais.

Parei e me virei para ela.

— Quando? Quando foi que as coisas aconteceram? Porque, pelo que sei, as coisas estavam acontecendo meio rápido com Jeremy, não com meu irmão.

Ela deu de ombros, impotente, o que me deixou ainda mais furiosa. Tadinha da Taylor, tão indefesa…

— Eu sempre tive uma quedinha pelo Steven. Você sabe, Belly.

— Na verdade, eu não sabia. Obrigada por me contar.

— Quando vi que ele também gostava de mim, foi, tipo… Eu nem conseguia acreditar. Não consegui raciocinar.

— Esse é o ponto. Ele não gosta de você. Só está usando você, porque você está disponível.

Sei que era algo cruel de se dizer, mas era verdade. Entrei em casa e a deixei do lado de fora.

Ela foi atrás de mim e me segurou pelo braço, mas a empurrei para longe.

— Por favor, não fica com raiva, Belly. Não quero que as coisas mudem entre nós, nunca — pediu Taylor, os olhos castanhos marejados.

Na verdade, o que ela estava dizendo era: não quero que as coisas mudem entre nós enquanto eu fico com uns peitos enormes, largo o violino e beijo seu irmão.

— As coisas não podem ficar iguais pra sempre — retruquei. Falei aquilo para magoá-la, porque sabia que ela ficaria chateada.

— Não fica brava comigo, Belly, por favor.

Taylor detestava que alguém ficasse bravo com ela.

— Não estou brava com você. Só não acho que somos amigas como antes.

— Não fala assim, Belly.

— Só estou dizendo a verdade.

— Olha, me desculpa, ok?

Eu a encarei por um segundo.

— Você prometeu que seria legal com ele.

— Com quem? Steven?

Taylor parecia genuinamente confusa.

— Não. Com o Jeremiah. Você disse que seria legal com ele.

Ela agitou a mão no ar.

— Ah, ele não liga.

— Liga, sim. Você não o conhece. — Não como eu conheço, eu queria acrescentar. — Não achei que você seria tão… tão… —

Procurei a palavra perfeita, para atingi-la como ela me atingira. — Tão galinha.

— Eu não sou galinha! — protestou ela, em uma vozinha fina.

Aquele era meu poder sobre ela, minha suposta inocência contra a suposta galinhagem de Taylor. Era tudo uma grande besteira. Eu teria trocado de lugar com ela sem pensar duas vezes.

* * *

Mais tarde, Jeremiah me chamou para jogar cartas. Não tínhamos nem olhado para o baralho o verão inteiro, e sempre jogávamos, era uma tradição nossa. Fiquei feliz por termos resgatado aquilo, mesmo que fosse um prêmio de consolação.

Ele distribuiu minhas cartas e começamos a jogar, mas estávamos agindo mecanicamente, com a cabeça em outro lugar.

Pensei que tivéssemos um acordo tácito de não falar sobre Taylor e que talvez ele nem soubesse o que acontecera, até que Jeremiah disse:

— Queria que você nunca tivesse trazido ela aqui.

— Eu também.

— É melhor quando somos só nós dois — continuou ele, embaralhando sua pilha.

— É.

Depois que ela foi embora, as coisas foram e não foram mais as mesmas. Continuamos amigas, mas não melhores amigas, não como antes. Mas ainda éramos amigas. Nós nos conhecíamos desde sempre, e não era fácil jogar fora toda uma história de amizade. É como se desfazer de uma parte de si mesmo.

Steven voltou a ignorar Taylor e ficar obcecado por Claire Cho.