O verão que mudou minha vida

Jenny Han · Capítulo 21 de 48

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O verão que mudou minha vida

Capítulo 21

Steven passou o resto do dia bravo, mas valeu a pena. Também foi bem irônico que ele tivesse implicado comigo por não ter peitos, porque dois verões depois eu comecei a precisar mesmo usar sutiã

— e para valer.

21

NA NOITE EM que Steven foi embora, desci para uma de minhas sessões de natação noturna e encontrei Conrad, Jeremiah e Clay Bertolet, nosso vizinho, bebendo cerveja sentados nas espreguiçadeiras. Clay morava mais para baixo na nossa rua e frequentava Cousins Beach havia quase tanto tempo quanto nós.

Era um ano mais velho que Conrad, mas ninguém gostava muito dele. Acho que só o chamaram porque não tinham alternativa.

Travei na hora, enrolando a toalha mais junto ao corpo. Fiquei na dúvida se seria melhor voltar, porque Clay sempre me deixava nervosa. E eu não precisava nadar, podia deixar para a noite seguinte. Mas não voltei. Tinha tanto direito de estar ali quanto eles

— talvez até mais.

Então me aproximei, fingindo confiança, e os cumprimentei. Só não tirei a toalha. Era estranho ficar ali de biquíni e toalha enquanto todos estavam vestidos.

Clay se virou para mim, estreitando os olhos.

— Oi, Belly. Quanto tempo! — Ele deu uma batidinha na espreguiçadeira ao lado da dele. — Senta aqui.

Eu odiava gente que falava “Quanto tempo!”. É um cumprimento muito idiota. Mas me sentei mesmo assim.

Ele se inclinou e me deu um abraço. Clay cheirava a cerveja e perfume caro.

— E aí, como vai? — perguntou.

Conrad falou antes mesmo que eu pudesse responder:

— Ela está ótima. Mas já está na hora de dormir. Boa noite, Belly.

— Não vou dormir agora, vou nadar — retruquei, tentando não soar como uma garotinha de cinco anos.

— Acho que você deveria entrar — interveio Jeremiah, largando a cerveja. — Sua mãe vai ter um treco se souber que você andou bebendo.

— Quê? Eu não estou bebendo.

Clay estendeu sua Corona, dando uma piscadela.

— Então beba! — Ele parecia bêbado.

Hesitei, e Conrad disparou, irritado:

— Não faz isso, cara. Belly é uma criança, pelo amor de Deus.

Olhei feio para ele e retruquei:

— Para de falar como o Steven.

Por um ou dois segundos, cogitei aceitar a cerveja. Seria a primeira vez que eu beberia algo alcoólico, mas só estaria fazendo aquilo para contrariar Conrad, e não ia deixar que ele controlasse meus atos. Então me virei para Clay e recusei:

— Não quero, obrigada.

Conrad assentiu em um movimento imperceptível.

— Agora vai dormir, vai.

Eu me senti como quando Steven e Jeremiah me excluíam de propósito. Senti as bochechas ardendo.

— Sou só dois anos mais nova que você — rebati.

— Dois anos e três meses — corrigiu Conrad na mesma hora.

Clay riu, e senti seu hálito de cerveja.

— Droga, minha namorada tinha quinze. — Então olhou para mim antes de se corrigir: — Ex-namorada.

Abri um sorrisinho sem graça. Por dentro, só queria fugir dele e daquele bafo, mas Conrad nos olhou de um jeito que… Bem, eu estava adorando. Era ótimo estar roubando o amigo dele, mesmo que por apenas cinco minutos.

— Hã… Isso não é ilegal? — perguntei.

Clay riu de novo.

— Ah, Belly, você é muito fofa.

Senti o rosto vermelho.

— Hã… E então? Por que vocês terminaram?

Não sei por que perguntei, eu já sabia a resposta: porque Clay era um idiota. Sempre foi. Lembro que ele tentava dar aspirina para as gaivotas porque tinha ouvido em algum lugar que isso faria o estômago delas explodir.

Clay coçou a nuca.

— Não sei. Ela teve que ir pra um acampamento de equitação ou algo do tipo. E namoro a distância é uma merda.

— Mas seria só durante o verão — comentei. — Acho burrice terminar só por causa de um verão.

Eu tinha nutrido minha paixão por Conrad durante anos letivos inteiros; aquele sentimento aguentaria meses, anos até. Era como um alimento, algo que me sustentava. Se Conrad fosse meu namorado, eu nunca terminaria só por causa de um verão — ou de um ano.

Clay me encarou com aqueles olhos pesados, meio sonolentos, e perguntou:

— Você tem namorado?

— Tenho — respondi, inevitavelmente olhando para Conrad.

Está vendo? , queria dizer. Não sou mais uma garotinha boba de doze anos apaixonada por você. Sou uma pessoa de verdade. Com um namorado de verdade. Quem ligava se não era verdade? Os olhos de Conrad reluziram, mas seu rosto permaneceu inexpressivo.

Jeremiah, por outro lado, pareceu surpreso.

— Você tem namorado, Belly? — Ele franziu a testa. — Você nunca contou pra gente.

— Não é nada sério. — Eu me concentrei em um fio solto do colchonete da espreguiçadeira. Já estava arrependida de ter mentido. — Na verdade, é totalmente sem compromisso.

— Está vendo? Qual o sentido de manter um relacionamento desses durante o verão? E se você conhecer outra pessoa? — Clay deu uma piscadela de brincadeira. — Tipo agora?

— A gente já se conhece há dez anos, Clay.

Não que ele tivesse reparado em mim antes, claro.

Ele me cutucou com o joelho.

— Prazer, Clay.

Eu ri, mesmo não tendo graça. Pareceu a coisa certa a fazer.

— Oi, eu sou a Belly.

— E aí, Belly? Quer ir na festa na fogueira na minha casa amanhã à noite? — perguntou ele.

— Hã… Claro — respondi, tentando não parecer animada demais.

Conrad, Steven e Jeremiah sempre iam à festa da grande fogueira de Quatro de Julho que Clay fazia, porque costumavam estourar fogos de artifício naquela área da praia. A mãe dele sempre providenciava ingredientes para os tradicionais petiscos de marshmallows assados no fogo com uma camada de chocolate entre eles. Uma vez pedi para Jeremiah me trazer um, e ele trouxe.

Estava meio queimado e borrachudo, mas comi mesmo assim. Era um pedacinho da festa. Eles nunca me deixavam ir, e eu nunca tentava convencê-los; só ficava observando da varanda dos fundos da casa, de pijama, com minha mãe e Susannah. Elas bebiam champanhe, e eu tomava cidra sem álcool.

— Achei que você tinha vindo nadar — comentou Conrad, de repente.

— Minha nossa, Con, deixa ela em paz — interveio Jeremiah. —

Ela vai nadar se quiser.

Jeremiah e eu nos entreolhamos como se quiséssemos dizer: Por que Conrad está agindo como um pai chato? Conrad jogou o cigarro na lata de cerveja meio vazia e retrucou:

— Faça o que quiser.

— Pode deixar — respondi, mostrando a língua para Conrad e me levantando.

Tirei a toalha e entrei de cabeça na piscina, em um mergulho perfeito. Fiquei submersa por um tempo e depois comecei a nadar de costas, para conseguir ouvir a conversa.

Clay comentou baixinho:

— Cara, esta cidade está ficando um saco. Quero voltar logo pra casa.

— É, eu também — concordou Conrad.

Então Conrad queria ir embora? Bem, parte de mim já sabia disso, mas doeu escutar mesmo assim. Fiquei com vontade de responder: “Então vai logo de uma vez. Se não quer ficar, não fica.

Vai embora.” Mas eu não ia deixar que Conrad acabasse com meu bom humor, não quando as coisas finalmente estavam começando a melhorar.

Pelo menos eu tinha sido convidada para a festa de Quatro de Julho do Clay Bertolet. Eu agora era parte do grupo dos mais velhos. A vida era boa. Ou pelo menos estava ficando boa.

* * *

Passei o dia todo pensando no que usar. Como eu nunca tinha ido àquela festa, não fazia ideia do que as pessoas vestiam. Grandes chances de fazer frio, mas quem queria ir todo empacotado para uma festa com fogueira? Ainda mais na minha primeira festa. E

também não queria que Conrad e Jeremiah me enchessem o saco por estar arrumada demais. Acabei decidindo ir de short e camiseta, descalça.

Quando chegamos lá, vi que tinha feito a escolha errada. As outras meninas estavam todas de vestido e minissaia, os pés calçados com botas. Eu saberia disso se tivesse amigas na cidade.

— Você não disse que as garotas vinham arrumadas! — acusei Jeremiah.

— Você está ótima, deixa de besteira — disse ele, indo até o barril de cerveja.

Sim, um barril de cerveja. Nada de biscoitos ou marshmallows.

Eu nunca tinha visto um na vida real, só nos filmes. Fui atrás de Jeremiah, mas Conrad me segurou pelo braço, com um aviso:

— Não beba. Minha mãe vai me matar se eu deixar você beber.

Afastei a mão dele.

— Você não tem que me deixar fazer nada.

— Ah, deixa disso.

— Quer ver? — retruquei, marchando até a fogueira.

Eu nem sabia se queria beber ou não, mas esperava encontrar alguns marshmallows, embora fosse bem improvável que Clay

tivesse providenciado depois da bebedeira da véspera.

A festa da fogueira parecia bem legal na teoria, mas estar lá era outra coisa. Jeremiah ficou conversando com uma garota de saia jeans e biquíni azul, vermelho e branco, e Conrad conversava com Clay e uns outros caras que não reconheci. Achei que Clay fosse pelo menos me cumprimentar depois daquele flerte insistente da noite anterior, mas ele nem olhou na minha cara, e ainda por cima estava com a mão nas costas de uma garota.

Fiquei sozinha ali, perto do fogo, fingindo esquentar as mãos, mesmo que não estivessem frias. Foi quando o vi. Ele também estava sozinho, bebendo água de uma garrafinha. Parecia não conhecer ninguém por ali. E parecia ter a minha idade. Só que algo nele demonstrava segurança e conforto, como se fosse mais novo que eu, mesmo não sendo. Tive que olhar com muita atenção para entender o que era, e quando entendi foi quase uma epifania.

Eram os cílios, tão longos que quase batiam nas maçãs do rosto.

Tudo bem que elas eram bem pronunciadas, mas os cílios não deixavam de ser enormes. O garoto tinha o queixo proeminente e a pele clara e macia, da mesma cor dos flocos de coco tostados que a gente coloca no sorvete. Toquei meu rosto e fiquei aliviada ao perceber que o sol tinha secado a espinha que aparecera dois dias antes. Aquele garoto tinha a pele perfeita. Para mim, tudo nele era perfeito.

Ele era alto, mais alto que Steven e Jeremiah, talvez até mais que Conrad. Parecia descendente de japonês, ou quem sabe meio coreano. Era tão lindo que eu tinha vontade de desenhar o rosto dele — e olha que eu nem sabia desenhar.

Ele reparou que eu estava olhando, então tentei disfarçar. Quando olhei de novo, ele me pegou pela segunda vez. E só acenou, de leve.

Senti o rosto ardendo de vergonha. Não tinha alternativa senão cumprimentá-lo. Fui até ele e estendi a mão, dizendo “Oi”, mas me arrependi na mesma hora. Quem em sã consciência fazia isso?

Ele apertou minha mão, sem dizer nada. Ficou só me encarando, como se estivesse tentando descobrir alguma coisa.

— Conheço você de algum lugar — disse, por fim.

Tentei não sorrir. Não é isso que os caras falam para dar em cima das mulheres num bar? Fiquei me perguntando se ele havia me visto na praia, usando meu novo biquíni de bolinha. Eu só tinha tido coragem de usar aquele biquíni uma vez, mas talvez tivesse sido justamente quando ele reparou em mim.

— Talvez você tenha me visto na praia.

Ele fez que não com a cabeça.

— Não... Não é isso.

Então não tinha sido o biquíni. Tentei de novo.

— Quem sabe na sorveteria?

— Não, também não… — Depois de um tempo, foi como se uma luzinha se acendesse na cabeça dele. Com uma risadinha, o menino perguntou: — Você fez aula de latim?

Quê? Como assim?

— Hum… Já fiz.

— E você por acaso já foi à Convenção de Latim que acontece lá em Washington?

— Fui.

Quem era aquele garoto, afinal?

Ele assentiu, satisfeito.

— Eu também. No nono ano, não foi?

— Foi…

No nono ano eu usava óculos e aparelho. Odiei que ele me conhecesse daquela época. Por que não podia ter me conhecido só agora, de biquíni de bolinha?

— É de lá que conheço você. Eu estava tentando me lembrar…

— Ele abriu um sorriso. — Meu nome é Cam, mas na Convenção de Latim era Sextus. Salve.

A risada subiu de repente pela minha garganta, como bolhas de refrigerante. Aquilo era meio divertido.

— Salve, Sextus. Meu nome é Flavia. Quer dizer, eu sou a Belly.

Na verdade, meu nome é Isabel, mas todo mundo me chama de Belly.

— Por quê? — perguntou ele, me olhando com interesse genuíno, como se realmente quisesse saber.

— Meu pai me deu esse apelido quando eu ainda era pequena.

Ele achava Isabel longo demais. E todo mundo me chama de Belly

até hoje. É meio bobo.

Ele ignorou esse último comentário, perguntando:

— Mas por que não Isa? Ou Belle?

— Não sei. Acho que em parte porque adoro aquelas balinhas Jelly Belly, e meu pai e eu tínhamos uma brincadeira. Ele perguntava como eu estava me sentindo, e eu respondia com os sabores de Jelly Belly. Tipo ameixa se eu estivesse de bom humor…

Não cheguei a terminar a frase. Sempre falava sem parar quando estava nervosa, e eu definitivamente estava nervosa. Sempre detestei ser chamada de Belly. Primeiro porque não era um nome de verdade; era um apelido de criança, não um nome. Isabel parecia mais como chamariam uma garota exótica, do tipo que viaja para lugares tipo Marrocos e Moçambique, que pinta as unhas de vermelho e tem cabelo preto e franja. Belly evocava imagens de crianças gordas ou coisas excessivamente açucaradas.

— Bem, não gosto de Isa. Queria que as pessoas me chamassem de Belle. É mais bonito.

Ele assentiu.

— E significa isso mesmo. Bonita.

— Eu sei. Faço aula de francês.

Cam falou alguma coisa em francês, mas foi tão rápido que não consegui entender.

— Quê? — perguntei, me sentindo meio idiota.

Eu tinha vergonha de falar francês fora da sala de aula. Conjugar verbos era uma coisa, mas falar para valer, com fluência, era completamente diferente.

— Minha avó é francesa, então falo desde pequeno — explicou ele.

— Ah.

Comecei a me sentir meio boba por me gabar de estudar francês.

— O “v” se pronuncia como “u”.

— Quê?

— Em Flavia. O certo é falar Fla u-ia.

— Ah, eu sei, claro. Fiquei em segundo lugar no concurso de oratória. Mas Flauia parece meio bobo.

— Eu fiquei em primeiro — comentou ele, tentando não soar convencido. De repente me lembrei do garoto de camisa preta e

gravata listrada que impressionou todo mundo ao declamar Cátulo e garantir a vitória. Era ele. — Se acha bobo, por que escolheu esse nome?

Suspirei.

— Porque já tinham escolhido Cornelia. Todo mundo queria ser Cornelia.

— E todo mundo também queria ser Sextus.

— Por quê? — perguntei, mas me arrependi na mesma hora. —

Ah. Esquece.

Cam riu.

— O humor dos garotos do nono ano não é muito sofisticado.

Eu ri também. Então perguntei:

— Sua casa é aqui perto?

— Alugamos uma casa a dois quarteirões daqui. Minha mãe meio que me obrigou a vir pra esta festa — explicou ele, coçando a cabeça.

— Ah.

Eu queria parar de dizer “ah”, mas não consegui pensar em nada melhor.

— E você? Por que veio à festa, Isabel?

Levei um susto quando ele falou meu nome verdadeiro. Pareceu tão natural para ele. Eu me senti um pouco como no primeiro dia de aula, mas gostei.

— Não sei. Pra ser bem sincera, acho que só vim porque Clay me convidou.

Tudo que saía da minha boca parecia sem graça. Não sabia por quê, mas eu queria impressionar aquele garoto. Queria que ele gostasse de mim. Sentia que ele estava me julgando, julgando as bobagens que eu falava. Eu também sou inteligente, queria dizer.

Disse a mim mesma que estava tudo bem, que não importava se ele me achava inteligente ou não. Mas não era verdade.

— Acho que vou embora daqui a pouco — comentou ele, terminando de beber sua água. E não me olhou quando perguntou:

— Quer carona?

— Não. — Tentei esconder o desapontamento por ele já estar de partida. — Eu vim com aqueles garotos ali. — Apontei para Conrad e Jeremiah.

Ele assentiu.

— Percebi. Seu irmão não para de olhar pra cá.

Quase engasguei.

— Meu irmão? Quem? Ele?

Indiquei Conrad, que não estava olhando para nós, e sim para uma garota loira com um boné do Red Sox, que também olhava para ele. Conrad estava rindo; ele nunca ria.

— É.

— Ele não é meu irmão. Age como se fosse, mas não é. Conrad só acha que é o irmão mais velho de todo mundo, é muito arrogante… Mas por que você quer ir embora? Vai perder os fogos.

Ele pigarreou, parecendo um pouco constrangido.

— Hã… Na verdade, eu tenho que estudar.

— Latim?

Cobri a boca com a mão para conter uma risadinha.

— Não. Estou estudando baleias. Quero fazer um estágio em um barco de observação e tenho uma prova no mês que vem —

explicou ele, coçando a cabeça de novo.

— Que maneiro!

Não queria que ele fosse embora e me deixasse sozinha ali. Ele era legal, e eu me sentia minúscula ao seu lado, pequena e preciosa como a Polegarzinha, de tão alto que o garoto era. Se ele fosse embora, eu ficaria sozinha de novo.

— Sabe, acho que vou aceitar a carona. Espera aqui, já volto.

Corri até Conrad tão rápido que levantei areia.

— Ei, vou pegar uma carona pra casa — anunciei, sem fôlego.

A loira de boné do Red Sox me olhou de cima a baixo antes de soltar um mero “Oi”.

— Com quem? — perguntou Conrad.

Apontei para Cam.

— Com ele.

— Você não vai pegar carona com um cara que acabou de conhecer — declarou Conrad.

— Mas eu conheço ele. É o Sextus.

Conrad estreitou os olhos.

— Hein?

— Nada. O nome dele é Cam e ele estuda baleias. E não é você quem decide com quem eu pego ou deixo de pegar carona pra casa. Só vim avisar por educação, não estava pedindo sua permissão, Conrad.

Dei a volta e saí andando, mas ele me segurou pelo braço.

— Não me interessa o que ele estuda. Você não vai pegar carona com esse estranho — anunciou em um tom despreocupado, mas segurando meu braço com força. — Eu levo você pra casa, se quiser ir embora.

Respirei fundo. Tinha que manter a calma. Não ia deixar Conrad me tratar como um bebê na frente de todo mundo.

— Não, obrigada — retruquei, tentando continuar andando, mas ele não deixou.

— Achei que você já tivesse namorado.

O tom era de deboche, e percebi que ele tinha sacado minha mentira da noite anterior.

Minha vontade era jogar um punhado de areia na cara dele. Tentei me desvencilhar.

— Me solta, Conrad! Está me machucando!

Ele soltou na mesma hora, com o rosto vermelho. Não estava machucando de verdade, mas eu queria que ele passasse tanta vergonha quanto estava me fazendo passar.

— Prefiro pegar carona com um desconhecido do que andar no carro de alguém que bebeu! — continuei, falando alto.

— Eu tomei uma cerveja. E peso oitenta quilos. Daqui a meia hora eu levo você pra casa. Deixa de ser chata.

Senti as lágrimas se formando nos meus olhos. Eu me virei para ver se Cam estava observando a cena. Sim, estava.

— Você é um babaca — falei.

Conrad me encarou e retrucou:

— E você é uma garotinha de quatro anos.

Enquanto eu me afastava, ouvi a loira perguntar:

— Ela é sua namorada?

Dei meia-volta, e eu e Conrad respondemos ao mesmo tempo:

— Não!

— Então é sua irmã? — perguntou a garota, confusa, como se eu não estivesse ali.

Ela usava um perfume muito forte que formava uma nuvem ao seu redor; era como se estivéssemos respirando aquela garota.

— Não, eu não sou a irmã mais nova dele.

Detestei que aquela garota estivesse presenciando tudo aquilo.

Era humilhante. E ela era bonita que nem Taylor, o que só piorava tudo.

— A mãe dela é amiga da minha mãe — explicou Conrad.

Então eu era só aquilo? A filha da amiga da mãe dele?

Respirei fundo e falei para a garota, sem pensar:

— Olha, eu conheço o Conrad desde que nasci, então já vou logo avisando que isso é um erro; melhor se jogar em cima de outro.

Conrad nunca vai amar alguém tanto quanto ama a si mesmo, então...

Levantei a mão e dei um tchauzinho debochado.

— Belly, cala a boca — advertiu Conrad, com as orelhas vermelhas de raiva.

Tinha sido um golpe baixo, mas eu não ligava. Ele merecia.

A loira com boné do Red Sox franziu a testa.

— Do que ela está falando, Conrad?

— Ah, me desculpa, você não entendeu quando eu disse que você estava se jogando em cima de um idiota? — respondi, nervosa.

O rosto bonito dela se contorceu em uma careta de raiva.

— Sua vagabunda… — sussurrou ela.

Senti meu corpo se encolhendo. Queria poder retirar o que tinha dito. Nunca brigara com garota nenhuma — nem com ninguém, na verdade.

Por sorte, Conrad interveio, apontando para a fogueira.

— Belly, vai para a fogueira e me espera lá — mandou, ríspido.

Foi quando Jeremiah chegou.

— Ei, ei, o que está acontecendo? — perguntou ele, com seu sorriso tranquilo e bobo de sempre.

— Seu irmão é um idiota — respondi. — É isso que está acontecendo.

Jeremiah passou o braço pelos meus ombros. Ele cheirava a cerveja.

— Ora, vocês dois, comportem-se!

Eu me livrei do abraço dele e disse:

— Eu estou me comportando. Mande seu irmão fazer o mesmo.

— Espera aí, vocês também são irmãos? — perguntou a loira.

— Nem pensa em ir embora com aquele cara — alertou Conrad, virando-se para mim.

— Relaxa, Con — interveio Jeremiah — Ela não vai. Não é, Belly?

— disse ele, me encarando.

Assenti, contrariada, e lancei o olhar mais cruel que conseguia fazer para Conrad e para a loira, mas só quando já estava longe o bastante para que ela não me puxasse pelo cabelo ou algo do tipo.

Fui até a fogueira, tentando manter a cabeça erguida, mas por dentro eu me sentia uma criança que tinha levado uma bronca na própria festa de aniversário. Não era justo ser tratada como uma garotinha, coisa que eu não era. Aposto que eu e aquela loira tínhamos a mesma idade.

— O que foi aquilo? — perguntou Cam.

Eu estava segurando as lágrimas quando respondi:

— Quero sair daqui agora.

Ele hesitou, olhando na direção de Conrad.

— Acho que não é uma boa ideia, Flavia. Mas vou ficar aqui fazendo companhia pra você. As baleias podem esperar.

Quis dar um beijo naquele garoto na mesma hora e esquecer que eu conhecia Conrad. Seria perfeito só ficar ali, dentro daquele momento. Os primeiros fogos de artifício dispararam em algum lugar acima, subindo ao céu como uma chaleira assobiando alto. Eram dourados e explodiram em milhões de pedacinhos amarelos, chovendo como confetes sobre nós.

Cam e eu ficamos sentados perto do fogo; ele falando sobre baleias, e eu, sobre uma porção de coisas bobas, como o fato de ser secretária do clube de francês e de minha comida favorita ser sanduíche de carne de porco desfiada. Ele contou que era vegetariano. Ficamos quase uma hora batendo papo. Eu sentia Conrad nos observando o tempo todo e fiquei tentada a mostrar o dedo do meio para ele — detestava quando ele ganhava.

Esfreguei os braços quando começou a esfriar, e Cam me emprestou o moletom dele. Era quase um sonho virando realidade: ficar com frio e um garoto me emprestar seu moletom, em vez de

jogar na minha cara que era muito esperto por ter se lembrado de levar um casaco.

A camiseta dele tinha STRAIGHT EDGE escrito acima do desenho de uma lâmina de barbear.

— O que isso significa? — perguntei, fechando o zíper do moletom. Estava quentinho e tinha cheiro de garoto, mas no bom sentido, claro.

— É uma filosofia de vida — explicou Cam. — Não bebo nem uso drogas. Eu era mais radical, não tomava remédios nem cafeína, mas acabei deixando isso pra lá.

— Por quê?

— Por que eu era radical ou por que deixei pra lá?

— As duas coisas.

— Eu acredito que não devemos poluir nosso corpo com substâncias que não sejam naturais. E deixei isso pra lá porque estava enlouquecendo minha mãe. E porque estava com muita saudade de tomar refrigerante.

Eu também adorava refrigerante. Fiquei feliz por não estar bebendo, porque não queria que ele pensasse mal de mim, e sim que me achasse interessante e descolada, do tipo que não liga para o que os outros pensam — assim como ele. Daria tudo para ser sua amiga. E beijá-lo.

Cam foi embora na mesma hora que a gente. Ele se levantou logo que viu Jeremiah se aproximando para me chamar.

— Até mais, Flavia.

Comecei a abrir o zíper do moletom, mas ele disse:

— Pode ficar. Depois você me devolve.

— Anota meu número — sugeri, estendendo a mão para pegar o celular dele.

Nunca tinha dado meu telefone para um garoto, e me senti muito orgulhosa da minha ousadia.

— Eu teria dado um jeito de pegar o casaco de volta mesmo sem seu número — disse ele. — Sou inteligente, lembra? Tirei o primeiro lugar em oratória.

Tentei não sorrir enquanto me afastava e gritava:

— É, até que dá pro gasto!

Parecia obra do destino termos nos conhecido. Achei aquilo a coisa mais romântica que já tinha acontecido na minha vida. E era mesmo.

* * *

Fiquei observando enquanto Conrad se despedia da garota de boné, que o abraçou. Ele retribuiu meio sem vontade. Fiquei feliz por ter estragado a noite dele, mesmo que só um pouco.

Outra garota me parou no caminho para o carro. Ela usava o cabelo castanho-claro preso em duas marias-chiquinhas e uma blusa rosa decotada.

— Você gostou do Cam? — perguntou, em um tom muito casual.

Eu me perguntei de onde ela o conhecia. Achei que ele fosse um zé-ninguém — assim como eu.

— Não conheço ele direito — respondi.

A menina pareceu relaxar. Estava aliviada. Eu conhecia aquele olhar sonhador e esperançoso. Devia ser o mesmo que eu fazia quando falava do Conrad, quando tentava arranjar desculpas para enfiar o nome dele nas conversas. Fiquei triste por nós duas.

— Eu vi o jeito como a Nicole falou com você — comentou a garota, de repente. — Não liga, não. Ela é uma pessoa horrível.

— A garota de boné? É, ela tem cara de ser horrível mesmo —

concordei, antes de dar um tchauzinho e seguir com Conrad e Jeremiah para o carro.

Conrad dirigiu; estava completamente sóbrio, e eu sabia que estivera assim o tempo todo. Ele deu uma olhada no moletom do Cam, mas não disse nada. Não trocamos uma palavra. Fui no banco de trás com Jeremiah, que até tentou fazer piada, mas ninguém riu.

Eu estava ocupada demais pensando, lembrando tudo o que acontecera naquela noite. Foi a melhor noite da minha vida, pensei.

No anuário da escola do ano anterior, Sean Kirkpatrick escreveu que eu tinha “olhos tão claros” que dava para “ver minha alma”

através deles. Sean era um garoto tímido da aula de teatro, mas mesmo assim gostei do elogio. Taylor fez pouco caso, dizendo que só Sean Kirkpatrick repararia na cor dos meus olhos quando todos

os outros caras estavam ocupados olhando para os meus peitos.

Mas dessa vez não era Sean; era Cam, um cara de verdade. E ele tinha reparado em mim antes de eu ficar bonita.

* * *

Eu estava escovando os dentes no banheiro de cima quando Jeremiah entrou e fechou a porta. Ele se apoiou na pia e perguntou:

— O que está acontecendo com você e o Con? Por que estão tão irritados um com o outro?

Jeremiah detestava ver gente brigando. Era um dos motivos pelos quais sempre bancava o palhaço para aliviar qualquer clima pesado.

Era bonitinho, mas também um pouco irritante.

Cuspi a pasta de dentes antes de responder:

— Hã… Porque ele é super-novo-maxi-estranho?

Nós dois rimos. Era uma de nossas piadinhas internas, uma fala de O Clube dos Cinco que passamos um verão todo repetindo, quando eu tinha oito anos, e ele, nove.

Jeremiah pigarreou.

— Sério, pega leve com ele. Con está em uma fase difícil.

Aquilo era novidade para mim.

— Como assim?

Jeremiah hesitou.

— Olha, não sou eu que vou contar pra você.

— Ah, qual é! A gente conta tudo um pro outro, Jere. Não temos segredos, lembra?

Ele sorriu.

— Eu sei, mas esse eu não posso contar. Não é um segredo meu.

Fechei a cara e reclamei: