O verão que mudou minha vida

Jenny Han · Capítulo 45 de 48

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O verão que mudou minha vida

Capítulo 45

Eu finalmente entendi Conrad. Quer dizer, eu entendi o que ele quis dizer quando falou que não conseguia lidar com tudo aquilo, comigo. Eu também não conseguia. Só queria passar cada segundo na casa de praia com Susannah. Aproveitar até a última gota do verão e fingir que aquele era igual a todos os verões que já tínhamos passado juntos. Era tudo que eu queria.

45

EU DETESTAVA A véspera da partida, porque era dia de faxina e, quando éramos pequenos, éramos proibidos de ir à praia, para não levarmos areia para dentro de casa. Lavávamos toda a roupa de cama e varríamos a areia, colocávamos todas as pranchas e boias no porão, limpávamos a geladeira e preparávamos sanduíches para comer na viagem. Minha mãe assumia o comando esses dias. Ela fazia questão. “Assim fica tudo pronto pra próxima vez”, dizia. O que ela não sabia era que Susannah contratava faxineiras depois que saíamos e antes que voltássemos no ano seguinte.

Peguei Susannah ligando para a empresa de limpeza uma vez, agendando uma visita. Ela cobriu o bocal do telefone com a mão e sussurrou, culpada: “Não conte pra sua mãe, Belly, está bem?”

Fiz que sim com a cabeça. Era um segredo nosso, e eu gostava daquilo. Minha mãe gostava de limpar a casa e não acreditava que faxineiras ou empregados devessem fazer aquilo que ela considerava nosso trabalho. Ela sempre perguntava: “Você pediria a outra pessoa que escovasse seus dentes ou amarrasse seu cadarço só porque pode pagar?” A resposta era não.

“Não ligue tanto pra areia”, sussurrava Susannah, quando me via entrando na cozinha com uma vassoura pela terceira vez. Eu varria mesmo assim. Sabia o que minha mãe diria se pisasse em um grãozinho que fosse.

* * *

Naquela noite, no jantar, comemos todas as sobras que restavam na geladeira. Era uma tradição. Minha mãe assou duas pizzas congeladas, requentou yakisoba e arroz chinês, fez uma salada aproveitando os tomates e uma alface murcha. Também tinha um pouco de sopa de mexilhões e umas costelinhas de porco, além da salada de batatas que Susannah fizera mais de uma semana antes.

Era uma mistureba de comida velha que ninguém queria.

Mas todo mundo comeu. Nós nos sentamos à mesa da cozinha, examinando as travessas cobertas com papel-alumínio. Conrad ficava me olhando; toda vez que eu olhava de volta, ele desviava o olhar. Queria dizer a ele que eu estava ali, que sempre estaria.

Estávamos todos quietos quando Jeremiah quebrou o silêncio, como alguém que quebra a casquinha de um crème brûlée.

— Esta salada de batatas tem gosto de mau hálito — reclamou.

— Deve ser sua boca — retrucou Conrad.

Todos rimos, e foi um alívio. Porque tínhamos do que rir. Porque era diferente de tristeza.

Então Conrad anunciou:

— Esta costelinha está mofada.

E começamos a rir de novo. Parecia que eu não ria fazia muito tempo.

Minha mãe revirou os olhos.

— Mofo não mata, é só raspar. Dá aqui pra mim. Eu como.

Conrad ergueu as mãos, como se estivesse se rendendo, depois equilibrou a costelinha com o garfo e a depositou no prato da minha mãe, fazendo firula.

— Bom proveito, Laurel.

— Você mima demais esses garotos, Beck — reclamou minha mãe, e tudo parecia normal novamente, como uma noite qualquer.

— Belly foi criada comendo sobras, não foi, chuchuzinho?

— Fui. Fui uma criança negligenciada, alimentada apenas com comida velha que ninguém mais queria.

Minha mãe segurou um sorrisinho e empurrou a salada de batatas para mim.

— Mimo mesmo — disse Susannah, fazendo carinho no ombro de Conrad e depois na bochecha de Jeremiah. — Eles são uns anjinhos. Por que eu não os mimaria?

Os meninos se entreolharam por um segundo. Então Conrad falou, esticando os braços para bagunçar o cabelo do irmão:

— Eu sou um anjinho. Jere está mais pra um querubim.

Jeremiah afastou a mão dele.

— Conrad não tem nada de anjo. É um demônio.

Era como se a briga não tivesse existido. Garotos são assim: eles brigam e depois esquecem.

Minha mãe pegou a costelinha que Conrad tinha passado para ela, examinou a carne e largou.

— É, não dá pra comer isto mesmo — anunciou, com um suspiro.

— Mofo não mata — declarou Susannah, rindo e tirando o cabelo da frente dos olhos. Ela ergueu o garfo. — Sabe o que mata?

Todos a encaramos.

— Câncer — disse, triunfante.

Susannah tinha a melhor cara de paisagem do mundo. Sustentou a expressão impassível por quatro segundos antes de explodir em uma gargalhada. Afagou o cabelo de Conrad até que ele finalmente esboçou um sorrisinho. Dava para ver que ele não queria sorrir, mas sorriu. Por ela.

— Ouçam. Vai ser assim. Eu vou ao meu acupunturista. Vou tomar os remédios. Vou continuar lutando contra isso da melhor maneira possível. Meu médico diz que, a esta altura, é o máximo que posso fazer. Eu me recuso a envenenar ainda mais meu corpo ou a passar mais tempo em hospitais. Quero ficar com as pessoas que importam pra mim, ok?

Ela nos olhou.

— Ok — respondemos, ainda que aquilo não parecesse nem um pouco ok. Nunca seria ok.

Susannah continuou:

— Quando eu for embora, não quero ter a aparência de alguém que passou a vida inteira em um hospital. Quero pelo menos estar bronzeada. Tão bronzeada quanto a Belly.

Ela apontou para mim com o garfo.

— Beck, você vai precisar de mais tempo para ficar tão bronzeada quanto a Belly. Não dá pra conseguir essa cor em um único verão.

Minha filha não nasceu bronzeada, levou anos pra ficar assim. E

você ainda não está pronta — ponderou minha mãe, falando de maneira simples e lógica.

Susannah ainda não estava pronta. Nenhum de nós estava.

* * *

Depois do jantar, cada um foi arrumar sua mala. A casa ficou silenciosa — silenciosa até demais. Fiquei no meu quarto, guardando roupas, sapatos e livros na mala. Até que chegou a vez de guardar meu maiô. Eu ainda não estava pronta. Queria dar mais um mergulho.

Coloquei o maiô e fiz dois bilhetes, um para Jeremiah e outro para Conrad. Em cada um deles escrevi: “Mergulho à meia-noite. Me encontre em dez minutos.” Deslizei um bilhete embaixo da porta do quarto de cada um e desci a escada correndo o mais rápido que consegui, a toalha balançando atrás de mim como uma bandeira. Eu não podia deixar que o verão terminasse daquele jeito. Não podíamos ir embora sem compartilhar pelo menos um momento feliz juntos.

A casa estava escura, e andei até o quintal sem acender as luzes.

Não precisava, eu sabia o caminho de cor.

Assim que cheguei do lado de fora, mergulhei na piscina. Foi mais um pulo de barriga que um mergulho. O último do verão, talvez o último da minha vida — pelo menos naquela casa. A lua estava branca e brilhante, e fiquei esperando pelos garotos boiando de costas, contando estrelas e ouvindo o barulho do mar. Quando a maré estava baixa como naquela noite e as ondas sussurravam e gorgolejavam, parecia uma canção de ninar. Eu queria viver aquele

momento para sempre. Como se estivesse em um daqueles globos de neve. Um momento congelado no tempo.

Os garotos da Beck chegaram juntos. Deviam ter se encontrado na escada. Estavam usando seus calções de banho. Eu me dei conta de que não tinha visto Conrad de calção o verão inteiro, que não ficávamos juntos na piscina desde o primeiro dia. E, com Jeremiah, eu tinha nadado apenas no mar, e só umas duas vezes.

Quase não havia nadado naquele verão, só com Cam ou sozinha. Pensar naquilo me deixou extremamente triste. Aquele poderia ter sido nosso último verão e quase não tínhamos nadado juntos.

— Oi — cumprimentei, ainda boiando de costas.

Conrad mergulhou o dedo do pé na água.

— Não está meio frio pra nadar?

— Medroso! — gritei. — Pule na água e acabe logo com isso.

Eles se entreolharam. Então Jeremiah correu e se jogou na piscina como uma bomba, e Conrad fez o mesmo. Eles espalharam duas montanhas de água e eu engoli vários litros, porque estava rindo, mas não liguei.

Nadamos até a parte funda da piscina, e fiquei batendo os pés para me manter na superfície. Conrad esticou o braço e tirou minha franja da frente dos olhos. Foi um gesto sutil, mas Jeremiah viu. Ele se virou, nadando até a borda da piscina.

Fiquei meio triste por um segundo, mas então, de repente, do nada, a lembrança me veio à mente. Uma memória guardada em meu coração como uma folha seca no meio de um livro. Levantei os braços e comecei a girar em círculos, como uma bailarina aquática.

Rodando, comecei a recitar:

— Maggie, Milly, Molly e May / Foram à praia passear outra vez /

Maggie encontrou uma concha encantada / E seus problemas sumiram no que a concha cantava. / Milly brincou com uma estrela solitária / Os cinco bracinhos moles, na areia esticados...

Jeremiah riu.

— Molly só viu um monstro terrível / que a perseguiu com um sopro de bolhas temível. / May voltou com uma pedra redonda / pequena e solitária como o mundo que a ronda...

Então, até Conrad se juntou no fim do poema, quando falamos, ao mesmo tempo:

— Mas não importa quanto ou no quê nos percamos / é sempre no mar que nos encontramos.

Fez-se um silêncio, ninguém disse uma palavra.

Era o poema preferido da Susannah. Ela nos ensinara quando éramos crianças, havia muito tempo, em uma de suas caminhadas pela natureza, enquanto nos mostrava conchas e águas-vivas.

Naquele dia, andamos pela praia, de mãos dadas, e recitamos o poema, falando tão alto que eu achei que iríamos acordar os peixes.

Sabíamos aquele poema de cor, assim como sabíamos o juramento à bandeira.

— Esse pode ser nosso último verão aqui — comentei, de repente.

— Sem chance — discordou Jeremiah, boiando ao meu lado.

— Conrad vai para a faculdade, e você para o acampamento de futebol… — lembrei.

Ainda que o fato de Conrad ir para a faculdade e Jeremiah para as duas semanas de acampamento não tivesse nada a ver com o fato de que não voltaríamos no próximo verão, não mencionei o que nós estávamos pensando: que Susannah estava doente, que ela poderia não ficar boa, que ela era o laço que nos mantinha unidos.

Conrad balançou a cabeça.

— Não importa. Sempre vamos voltar.

Por um momento, eu me perguntei se ele estava se referindo apenas a ele e a Jeremiah, mas então ele completou: