O verão que mudou minha vida

Jenny Han · Capítulo 20 de 48

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O verão que mudou minha vida

Capítulo 20

Mas não compreendi.

— Juízo pra você também, seu mané.

Ele suspirou e balançou a cabeça, como se estivesse lidando com uma criança.

Tentei não deixar aquilo me incomodar. Steven estava indo embora, e as coisas não seriam as mesmas sem ele. Eu podia deixá-lo partir sem puxar nenhuma briguinha boba.

— Manda um oi pro papai — pedi.

Em vez de voltar logo para a cama, fiquei um tempo na varanda, meio triste e chorosa. Mas claro que nunca admitiria isso para meu irmão.

Aquele de certa forma seria um último verão, e em muitos sentidos. Conrad começaria a faculdade no outono; ele ia para Brown e provavelmente não voltaria no verão seguinte. Na certa estaria fazendo algum estágio ou curso de férias, ou quem sabe um mochilão pela Europa com seus novos amigos. Tudo indicava que Jeremiah iria para o acampamento de futebol americano de que tanto falava. Só sei que muita coisa poderia acontecer até lá. De repente me ocorreu que eu precisava dar tudo de mim naquele verão, precisava que valesse a pena, para o caso de não haver outro. Eu ia fazer dezesseis anos, também estava ficando velha. As coisas não podiam continuar iguais para sempre.

20

Onze anos

NÓS QUATRO ESTÁVAMOS deitados em uma canga enorme esticada na areia. Conrad, Steven, Jeremiah e eu, bem na beiradinha, no meu lugar — quando me deixavam ficar. Aquele era um desses raros dias.

Estava tão quente que meu cabelo parecia em chamas. Os meninos jogavam cartas, e eu só ouvia a conversa.

— Vocês preferem ser fritos no azeite ou ter a pele arrancada com uma faquinha de serra? — perguntou Jeremiah.

— Azeite — respondeu Conrad. — Acaba bem mais rápido.

— Azeite — repeti.

— Faca — anunciou Steven. — Tem mais chances de eu conseguir atacar o cara e arrancar a pele dele.

— Mas isso não é uma opção — retrucou Conrad. — A pergunta é como você prefere morrer, não como poderia se defender.

— Está bem. Azeite, então — disse Steven, emburrado. — E

você, Jeremiah?

— Azeite. Sua vez, Con.

Conrad ergueu os olhos para o sol, estreitando-os bem, e perguntou:

— Vocês preferem um dia perfeito que se repetisse para sempre ou passar a vida inteira só tendo dias medianos?

Jeremiah ficou quieto por um tempo. Ele adorava aquela brincadeira, adorava cogitar as possibilidades.

— Se eu escolhesse um dia perfeito, saberia que ele estava se repetindo, tipo naquele filme, O Feitiço do Tempo?

— Não.

— Então eu escolho o dia perfeito.

— Bem, se o dia perfeito envolvesse... — começou Steven, mas olhou para mim e ficou quieto de repente. Eu odiava quando ele fazia aquilo. — Também fico com o dia perfeito.

— E você, Belly? — Conrad olhou para mim. — Prefere o quê?

Minha mente girava enquanto eu tentava encontrar a resposta certa.

— Hum... Acho que eu preferiria viver uma vida inteira de dias medianos. Pelo menos sempre teria a esperança de um dia perfeito.

Não ia querer repetir o mesmo dia a vida inteira.

— É, mas você não ia saber — argumentou Jeremiah.

— Ah, no fundo, no fundo, a gente sempre sabe — retruquei, dando de ombros.

— Mas que idiotice — interveio Steven.

— Ah, não acho idiotice. Eu concordo.

Conrad me olhou do jeito que eu acho que os soldados olham uns para os outros quando estão no meio de uma guerra. Como se fôssemos um time.

Não consegui me segurar e fiz uma dancinha de deboche para Steven.

— Viu? Conrad concorda comigo.

— “Conrad concorda comigo” — repetiu Steven, em uma voz fininha e debochada. — Conrad me ama, Conrad é maravilhoso.

— Cala a boca, Steven! — gritei.

Ele riu e disse:

— Minha vez. Belly, você prefere comer maionese todos os dias ou passar o resto da vida assim, sem peitos?

Eu me virei, peguei um punhado de areia e joguei na cara dele.

Steven estava rindo, então um bocado entrou na sua boca. Mais um tanto de areia grudou nas bochechas molhadas.

— Vou matar você, garota! — gritou ele, pulando em cima de mim.

Rolei para longe e consegui escapar, então retruquei, desafiadora:

— Me deixa em paz! Se você me machucar, vou contar tudo pra mamãe!

— Você é insuportável! — rebateu ele, agarrando minha perna com força. — Vou jogar você na água.

Tentei afastá-lo com um chute, mas só serviu para jogar mais areia em seu rosto, o que, claro, o deixou ainda mais furioso.

— Deixa ela em paz, Steven. Vamos dar um mergulho — sugeriu Conrad.

— É, vamos lá — concordou Jeremiah.

Steven hesitou.

— Tudo bem — aceitou meu irmão, cuspindo areia. — Mas vou matar você mesmo assim, Belly.

Ele apontou para mim e depois passou o dedo pela garganta, em um gesto ameaçador.

Mostrei o dedo do meio para ele e dei as costas, mas por dentro estava tremendo. Conrad tinha me defendido. Conrad se importava com minha vida e minha segurança.