O verão que mudou minha vida
Capítulo 39
Comi um pedaço grande.
— Hum… Bolo de baunilha. Meu preferido.
— E não é de caixinha! — acrescentou minha mãe.
39
CONRAD CONVIDOU NICOLE, a menina do boné do Red Sox, para ir à casa de praia. À nossa casa. Eu não consegui acreditar que a tal garota estava ali, na minha frente. Era muito estranho ter outra menina em casa além de mim.
Lá pelo meio da tarde, eu estava no deque, sentada à mesa de piquenique, comendo Doritos, quando eles chegaram. A menina usava short curto e camiseta branca, com óculos escuros no topo da cabeça. Não havia sinal do boné do Red Sox. Ela parecia chique, parecia pertencer àquele lugar. Diferente de mim, que estava vestida com uma camiseta velha que servia de camisola. Achei que Conrad pelo menos fosse entrar com ela em casa, mas os dois ficaram no outro lado do deque, deitados nas espreguiçadeiras. Eu não conseguia ouvir o que falavam, mas podia escutar as risadas histéricas.
Depois de uns cinco minutos, não aguentei. Peguei o telefone e liguei para Cam, que disse que chegaria em meia hora, mas não demorou nem quinze minutos.
Eles entraram em casa quando eu e Cam estávamos decidindo a que filme assistir.
— O que vocês vão ver? — perguntou Conrad, sentando-se no sofá em frente ao nosso.
A garota do boné se sentou ao lado dele. Praticamente no colo.
Não olhei para ele ao responder:
— Nós dois ainda estamos resolvendo — respondi, com bastante ênfase no “nós dois”.
— Podemos assistir também? — perguntou Conrad. — Vocês conhecem a Nicole, né?
Então Conrad de repente tinha decidido ser sociável, depois de passar o verão inteiro trancado no quarto?
— Oi — cumprimentou ela, parecendo entediada.
— Oi — respondi, na melhor imitação daquele tom que consegui fazer.
— Oi, Nicole — cumprimentou Cam. Fiquei com vontade de dizer para ele não ser tão amigável, mas sabia que não seria levada a sério. — Eu estava a fim de ver Cães de Aluguel, mas a Belly quer ver Titanic.
— Sério? — perguntou a garota.
Conrad riu, então comentou, debochado:
— Belly ama Titanic.
— Eu amava quando tinha uns nove anos — retruquei. — Para sua informação, queria ver agora pra poder rir.
Eu consegui me manter supertranquila. Não deixaria que ele me alfinetasse na frente do Cam de novo. E, para falar a verdade, eu continuava adorando Titanic. Como não amar um romance a bordo de um navio destinado a afundar? Eu tinha certeza de que Conrad também gostava, mesmo fingindo que não.
— Eu voto em Cães de Aluguel — anunciou Nicole, examinando as próprias unhas.
Desde quando a opinião dela contava? E o que ela estava fazendo ali, afinal?
— Dois votos pra Cães de Aluguel — anunciou Cam. — E você, Conrad?
— Acho que vou votar em Titanic — respondeu ele, em um tom malicioso. — Cães de Aluguel é tão ruim quanto Titanic. Muito
superestimado.
Estreitei os olhos.
— Sabe de uma coisa? Acho que vou mudar meu voto para Cães de Aluguel. Parece que você perdeu, Conrad.
Nicole me encarou, desafiadora.
— Bom, então eu mudo meu voto para Titanic.
— Quem é você? — sussurrei. — Desde quando ela tem o direito de votar em alguma coisa aqui?
— Desde quando ele tem? — indagou Conrad, dando uma cotovelada em Cam, que pareceu assustado. — Estou brincando, cara.
— Vamos ver Titanic — decidiu Cam, tirando o DVD da caixinha.
Nós nos sentamos para assistir, petrificados. Todos os outros riram na parte em que Jack pega o leme e grita “Eu sou o rei do mundo”. Eu fiquei em silêncio. Mais ou menos na metade do filme, Nicole falou alguma coisa no ouvido do Conrad, e os dois se levantaram.
— A gente se vê mais tarde, pessoal — anunciou Conrad.
Soltei um assobio baixinho assim que eles saíram.
— Eles são nojentos. Aposto que foram lá pra cima fazer aquilo.
— Fazer aquilo? Quem fala “fazer aquilo”? — indagou Cam, admirado.
— Cala a boca. Você não acha essa garota nojenta?
— Nojenta? Não. Acho ela bem bonitinha. Talvez só tenha exagerado no blush…
Eu ri, ainda que involuntariamente.
— Blush? O que você sabe sobre blush?
— Eu tenho uma irmã mais velha, lembra? — disse ele, abrindo um sorriso. — Ela gosta de maquiagem. E a gente divide o banheiro.
Eu não lembrava que Cam tinha irmã.
— Enfim… Ela usa mesmo blush demais. Fica laranja! E onde será que enfiou aquele boné? — refleti.
Cam pegou o controle remoto e pausou o filme.
— Por que você está tão obcecada com ela?
— Não estou obcecada! Por que estaria? Aquela garota não tem personalidade. Parece um parasita. Ela olha pro Conrad como se
ele fosse Deus.
Sabia que Cam estava me julgando por ser tão má, mas eu não conseguia parar de falar.
Ele me olhou como se quisesse dizer alguma coisa, mas ficou quieto. Em vez disso, colocou o filme para rodar de novo.
Ficamos sentados no sofá, vendo o filme em silêncio. Perto do fim, ouvi a voz do Conrad na escada e, sem pensar, me aninhei perto do Cam, apoiando a cabeça no ombro dele.
Conrad e Nicole voltaram lá de cima, e ele olhou para mim e Cam por um segundo antes de dizer:
— Avisa minha mãe que fui levar a Nicole em casa.
Mal olhei para ele.
— Ok.
Assim que eles saíram, Cam se endireitou, e eu também. Ele suspirou.
— Você me chamou pra fazer ciúme nele?
— Nele quem?
— Você sabe quem. Conrad.
Senti um calor subindo pelo meu peito até chegar às bochechas.
— Não.
Parecia que todo mundo queria saber como estavam as coisas entre mim e Conrad.
— Você ainda gosta dele?
— Não.
Ele soltou o ar.
— Está vendo? Você hesitou.
— Não hesitei! — Eu tinha hesitado? Mesmo? Eu tinha certeza de que não. — Sinto até nojo quando olho pro Conrad — respondi.
Dava para ver que ele não acreditava naquilo. E eu também não.
Porque a verdade era que, quando eu olhava para Conrad, tudo que eu sentia era um desejo que nunca passava. Como sempre. Eu estava diante daquele cara muito legal, que gostava de mim de verdade, e, lá no fundo, ainda gostava do Conrad. Essa era a verdade. Eu nunca o esquecera. Eu era que nem Rose, naquela balsa improvisada estúpida.