O verão que mudou minha vida
Capítulo 25
Então ele abaixou um pouco a cabeça e me beijou. Não soltei a maçaneta da porta. E só conseguia pensar: Queria que este tivesse sido meu primeiro beijo.
25
AINDA ESTAVA NAS nuvens quando cheguei em casa, relembrando tudo que tinha acabado de acontecer. Até que ouvi minha mãe e Susannah discutindo na sala.
O medo cresceu dentro de mim, senti como se algo apertasse minha cabeça. Elas nunca brigavam, não de verdade.
Eu só tinha visto isso acontecer uma vez, no verão anterior. Nós três tínhamos ido fazer compras em um shopping chique fora de Cousins, um daqueles lugares a céu aberto, em que as pessoas passeiam com cachorrinhos em coleiras bonitas. Eu vi um vestido de chiffon lilás, com alcinhas finas, adulto demais para mim, mas adorei.
Susannah sugeriu que eu experimentasse, só de brincadeira, então eu o vesti. Ela disse que eu precisava comprá-lo. Minha mãe balançou a cabeça na mesma hora, perguntando: “Ela tem quatorze anos. Onde usaria um vestido desses?” Susannah falou que aquilo não tinha importância, que o vestido tinha ficado perfeito em mim.
Eu sabia que não podíamos pagar, minha mãe havia acabado de se divorciar, mas pedi mesmo assim. Implorei. Minha mãe e Susannah
começaram a discutir no meio da loja, na frente das pessoas.
Susannah queria comprar o vestido para mim, mas minha mãe não aprovou a ideia. Eu disse que era melhor deixar para lá, que eu nem queria mais o vestido. Sabia que minha mãe estava certa, eu não teria onde usar uma roupa daquelas.
Quando voltamos para casa, no fim do verão, encontrei o vestido na minha mala, embrulhado em papel de seda, colocado cuidadosamente em cima das outras roupas, como se ele sempre tivesse estado lá.
Susannah tinha voltado à loja e comprado o vestido para mim. Era a cara dela fazer aquilo.
Minha mãe deve ter visto no armário, algum tempo depois, mas nunca tocou no assunto.
Parei no corredor, ouvindo a conversa, e me senti como a espiã que Steven sempre me acusava de ser. Mas não pude resistir.
— Laurel, eu sou adulta — escutei Susannah dizer. — Preciso que você pare de tentar controlar minha vida. Eu é que decido como quero viver.
Não esperei pela resposta da minha mãe. Entrei na sala e perguntei:
— O que está acontecendo?
Olhei para minha mãe enquanto falava. Sabia que soava como se a estivesse culpando, mas não liguei.
— Nada. Está tudo bem — retrucou ela, mas seus olhos estavam vermelhos, e ela parecia cansada.
— Então por que vocês estão brigando?
— Não estamos brigando, querida — garantiu Susannah, se aproximando e alisando meus ombros delicadamente, como se estivesse tentando desamassar um tecido. — Está tudo bem.
— Mas não parece.
— Bem, mas está — afirmou Susannah.
— Jura? — perguntei; queria acreditar.
— Juro — respondeu ela, sem hesitar.
Minha mãe se afastou, e deu para notar, pela postura dela, os ombros rígidos, que não estava tudo bem, que ela ainda estava triste, mas preferi ficar com Susannah e não a segui. Além disso,
minha mãe preferia ficar sozinha nessas situações. Era só perguntar ao meu pai.
— O que ela tem? — sussurrei para Susannah.
— Nada. Vem cá, Belly, me conta, quero saber como foi seu encontro com o Cam — pediu Susannah, me conduzindo até o sofá de vime do solário.
Eu devia ter insistido, devia ter tentado entender o que realmente estava acontecendo entre as duas, mas minha preocupação foi substituída pelo desejo de contar tudo sobre Cam, tudo. Susannah tinha o dom de fazer com que a gente se abrisse com ela e revelasse até os maiores segredos.
Ela se sentou no sofá e deu um tapinha na própria perna. Eu me sentei ao seu lado e deitei a cabeça em seu colo, e ela mexeu no meu cabelo.
O ambiente parecia seguro e confortável, como se a briga não tivesse acontecido. E talvez não tivesse sido mesmo uma briga, talvez eu é que tivesse entendido errado.
— Bom, ele é diferente de todos os garotos que já conheci —
comecei.
— Diferente como?
— Ah, o Cam é inteligente e não se importa com o que os outros pensam dele. E é tão bonito. Sabe, não consigo acreditar que ele tenha me notado.
Susannah balançou a cabeça.