O verão que mudou minha vida
Capítulo 16
Era loucura. Era o Jeremiah!
Ele nunca havia se comportado daquela maneira, e eu só tinha olhos para Conrad, mesmo quando ele ficava mal-humorado e
distante, como naquele momento. Eu nunca nem considerara a hipótese de ter alguma coisa com Jeremiah, não quando havia Conrad. E claro que essa possibilidade também não tinha passado pela cabeça dele. Eu era só uma colega. Uma companhia para o cinema, a garota com quem ele dividia o banheiro e compartilhava segredos. Eu não era o tipo de garota que ele beijaria.
16
Quatorze anos
EU SABIA QUE seria um erro levar Taylor para a casa de praia. Sabia.
Mas levei mesmo assim. Taylor Jewel, minha melhor amiga. Os garotos da nossa turma a chamavam de tesouro, e ela fingia odiar o apelido, mas na verdade adorava.
Taylor sempre dizia que precisava me reconquistar quando eu voltava da casa de praia. Que precisava me fazer querer estar presente na minha vida real, com a escola, os garotos e os amigos.
Ela sempre tentava me juntar com o amigo mais bonitinho do cara por quem estivesse obcecada no momento, e eu deixava. Às vezes íamos juntos ao cinema ou a uma lanchonete, mas eu nunca me interessava de verdade, não completamente. Aqueles garotos não chegavam nem aos pés do Conrad ou do Jeremiah, então para que insistir naquilo?
Taylor sempre foi a amiga bonita, para quem os meninos olhavam.
Eu era a engraçada, que fazia os garotos rirem. Achava que, com ela ao meu lado, eu provaria que era bonita também. Tipo: Viram só? Eu sou igual a ela, nós somos iguais. Mas não éramos, e todo mundo percebia. Eu acreditava que levar Taylor comigo na viagem me garantiria convites para os passeios noturnos no calçadão e para os luaus na praia. Achava que meu status social mudaria naquele verão, que eu finalmente seria convidada para tudo.
Pelo menos eu estava certa nessa última parte.
Taylor sempre implorava para que eu a levasse. Eu resistia aos pedidos, dizendo que a casa ficaria muito cheia, mas ela sabia ser convincente. A culpa na verdade era minha: eu falava o tempo todo dos garotos. E, lá no fundo, também queria que ela fosse. Taylor era minha melhor amiga, afinal de contas. E ela odiava o fato de não dividirmos tudo, cada momento, cada experiência. Quando ela entrou para a turma de espanhol avançado, insistiu para que eu entrasse também, embora eu nem soubesse nada do idioma. Ela dizia que era “para nossa viagem para Cabo, após a formatura”. Eu queria mesmo era ir para as Ilhas Galápagos ver a patola-de-pés-azuis. Meu pai disse que me levaria, mas eu não contei a Taylor. Ela não ia gostar nadinha de saber disso.
Fui buscá-la no aeroporto com minha mãe. Ela usava um short curto e uma regata que eu nunca tinha visto. Quando a abracei, tentei não soar invejosa ao perguntar:
— Onde você arrumou essa roupa?
— Presente da minha mãe — explicou, me entregando uma das malas. — É uma graça, não acha?
— Muito.
A mala estava pesada. Achei que ela talvez tivesse esquecido que só ficaria uma semana com a gente.
— Ela está se sentindo culpada por causa do divórcio, então começou a comprar um monte de coisas pra mim — continuou Taylor, revirando os olhos. — Também me levou para fazer as unhas. Olha só! — Ela ergueu a mão direita, com as unhas longas e quadradas pintadas com um esmalte cor de framboesa.
— São de verdade?
— Claro! Dã! Eu não uso unhas postiças, Belly.
— Achei que você precisasse deixar as unhas curtas por causa do violino.
— Ah, é. Mamãe finalmente me deixou largar o violino. Obrigada, divórcio! — Então completou, com um ar de quem entende bem do assunto: — Você sabe como é.
Taylor era a única garota da nossa idade que ainda chamava a mãe de mamãe. Também era a única que não era ridicularizada por causa disso.
Os garotos no aeroporto não tiraram os olhos dela, dando uma boa conferida nos seios e no cabelo loiro. É um sutiã com enchimento, eu queria dizer. É meio frasco de xampu clareador. O
cabelo da Taylor não era tão amarelo. Mas é claro que eles não ligavam para isso.
Meu irmão era o único que não estava nem aí para ela, porque a achava extremamente irritante. Fiquei me perguntando se ele já tinha alertado Conrad e Jeremiah a respeito dela.
— Oi, Ste-ven — cumprimentou Taylor, em uma voz cantada.
— Oi — murmurou ele.
Taylor se virou para mim, revirando os olhos. Chato, fez com os lábios, sem emitir som, enfatizando o fim da palavra.
Dei risada.
— Taylor, esses são Conrad e Jeremiah. O Steven você já conhece, né?
Eu estava curiosa para saber quem ela escolheria. Quem acharia mais bonito, mais engraçado. Melhor.
— Oi — cumprimentou ela, examinando-os, e eu logo soube que Conrad era o escolhido.
Fiquei feliz, porque eu sabia que Conrad nunca se sentiria atraído por ela.
— Oi — responderam os garotos.
Então Conrad voltou a atenção para a TV, como eu sabia que faria. Jeremiah lançou um de seus sorrisos maliciosos e disse:
— Então você é amiga da Belly, é? A gente achava que ela não tinha amigos.
Fiquei esperando que ele sorrisse para mim, para mostrar que estava brincando, mas fui ignorada.
— Cala a boca, Jeremiah! — retruquei.
Ele finalmente sorriu para mim, mas de um jeito superficial, logo se voltando para Taylor.
— Belly tem milhares de amigos — informou Taylor, com seu ar descolado. — Eu por acaso pareço alguém que andaria com uma esquisitona?
— Sim — disparou meu irmão, do sofá. — Parece.
— Me deixa em paz, Steven — disse Taylor, de cara feia. Ela se virou para mim: — Por que você não me mostra o nosso quarto?
— Sim, Belly, por que não faz isso? Por que não vai logo ser a escrava da Taylor? — comentou Steven, se deitando outra vez.
Eu fingi que não era comigo.
— Vamos, Taylor.
Logo que chegamos, Taylor se jogou na cama perto da janela, que era a minha — eu sempre dormia ali.
— Ai, meu Deus, ele é tão fofo!
— Qual deles? — perguntei, embora já soubesse a resposta.
— O moreno, óbvio. Adoro homens morenos.
Revirei os olhos por dentro. Homens? Taylor só tinha saído com dois garotos, e nenhum deles chegava perto de ser um homem.
— Duvido que role alguma coisa — avisei. — Conrad não liga para garotas.
Eu sabia que não era verdade. Ele ligava para garotas. Pelo menos tinha ligado bastante para aquela Angie, do último verão, com quem chegara aos finalmentes.
Os olhos castanhos de Taylor brilharam.
— Amo desafios. Não lembra que eu consegui me eleger presidente do grêmio no ano passado? E representante de turma no ano retrasado?
— Claro que lembro. Eu era sua gerente de campanha. Mas o Conrad é diferente. Ele... — Hesitei, procurando a palavra certa para fazer com que Taylor desistisse. — É meio... perturbado, sabe?
— Como assim?
Voltei atrás na mesma hora. Talvez “perturbado” fosse uma palavra forte demais.
— Não quis dizer exatamente “perturbado”, mas ele pode ser meio intenso. Fechado. É melhor tentar o Jeremiah. Acho que faz mais o seu tipo.
— E o que isso significa, Belly? — perguntou. — Que eu sou fútil?
Rasa?
— Bem...
Ela era tão rasa quanto uma piscininha infantil.
— Esquece.
Taylor abriu a mala e começou a tirar suas coisas lá de dentro.
— Jeremiah é bonitinho, mas eu quero o Conrad. Vou virar a cabeça daquele menino.
— Depois não diga que não avisei.
Eu não via a hora de dizer que tinha avisado, faria isso assim que o momento chegasse. E queria que chegasse logo.
Ela pegou um biquíni amarelo de bolinhas.
— Será que o Conrad vai achar intenso o bastante?
— Esse biquíni não cabe nem na Bridget! — respondi.
A irmãzinha da Taylor, Bridget, tinha sete anos, e era pequena para a idade.
— Exatamente.
Revirei os olhos.
— Depois não diga que eu não avisei. E você está sentada na minha cama.
Colocamos as roupas de banho. Taylor se enfiou no biquíni minúsculo, e eu botei um maiô preto com sutiã reforçado e decote bem fechado. Enquanto nos trocávamos, ela me observou e disse:
— Belly, seus peitos cresceram mesmo.
Enfiei uma camiseta pela cabeça, retrucando:
— Não é pra tanto.
Mas era verdade, meus peitos tinham crescido. Quase da noite para o dia. Não eram daquele tamanho no verão anterior, eu tinha certeza. Eu os odiava. Eles me deixavam mais lenta, e eu não conseguia mais correr, o que era vergonhoso. Por isso usava camisetas largas e maiôs.
Eu não ia aguentar os meninos falando dos meus peitos. Eles com certeza iam implicar, Steven ia me mandar vestir uma roupa, e eu procuraria o buraco mais próximo para enfiar a cabeça.
— Qual seu tamanho agora? — perguntou Taylor, com um tom acusatório.
— M — menti. Estava mais para um G.
Taylor pareceu aliviada.
— Ah, então estamos usando o mesmo, porque eu também sou praticamente M. Por que não usa um dos meus biquínis? Parece que você é da equipe de natação com esse maiô.
Ela me deu um biquíni de listras azuis e brancas, com laços vermelhos nas laterais.
— Eu sou da equipe de natação — lembrei.
Eu sempre competia no inverno, porque no verão estava sempre em Cousins. Fazer parte da equipe de natação me dava a sensação de que era apenas uma questão de tempo até eu estar na praia novamente.
— Ah, é mesmo… — retrucou Taylor. Ela balançou o biquíni de um lado para o outro. — Vai ficar tão bonitinho em você, com esse cabelo castanho e esses peitos novos.
Fiz uma careta e empurrei o biquíni para longe.
Parte de mim queria me exibir e surpreendê-los, mostrando como eu tinha crescido, como era uma garota de verdade; mas outra, mais sensata, sabia que aquilo seria meu fim. Steven jogaria uma toalha em cima de mim, e eu me sentiria com dez anos de novo, não com treze.
— Por que não?
— Eu gosto de nadar bastante — respondi.
O que era verdade. Eu gostava.
Ela deu de ombros.
— Tudo bem, mas não venha me culpar quando os garotos não falarem com você.
Dei de ombros também.
— Não ligo se eles falam ou não comigo, eu não penso neles desse jeito.
— Ah, está bom. Você é, tipo, obcecada pelo Conrad desde que nos conhecemos! Você não trocou uma palavra com os garotos da escola no ano passado.
— Taylor, isso faz muito tempo. Eles são como irmãos pra mim, de verdade. São todos que nem o Steven — retruquei, vestindo um short de ginástica. — Pode falar com eles à vontade.
A verdade era que eu gostava dos dois de maneira diferente, mas não queria que ela soubesse. Gostar de qualquer um deles, depois que ela escolhesse, seria como ficar com as suas sobras. Não que
isso fosse mudar a decisão da Taylor. Ela já tinha escolhido Conrad.
Minha vontade era implorar que ela escolhesse qualquer um menos Conrad, mas isso não funcionaria, na verdade. Eu também ficaria com ciúme se ela desse em cima de Jeremiah, porque ele era meu amigo, não dela.
Taylor levou séculos para resolver que par de óculos escuros combinava mais com o biquíni (ela tinha levado quatro) e pegou também duas revistas e o óleo de bronzear. Quando saímos, os garotos já estavam na piscina.
Tirei a roupa depressa, pronta para mergulhar, mas Taylor hesitou, ainda enrolada na toalha. Percebi que ela estava desconfortável por causa do biquíni pequeno, e gostei disso. Eu estava um pouco de saco cheio daquele exibicionismo todo.
Os meninos nem olharam para a gente. Eu tinha medo de que, com a presença de Taylor, eles talvez agissem de maneira diferente.
Mas lá estavam os garotos de sempre, afundando a cabeça uns dos outros na água.
Chutando os chinelos para longe, anunciei:
— Vamos pra piscina.
— Eu queria ficar um pouco no sol — disse Taylor. Ela finalmente se desenrolou da toalha e a estendeu em uma espreguiçadeira. —
Não quer deitar um pouco?
— Não. Está calor demais, quero nadar. E já estou bronzeada.
Era verdade. Minha pele estava caramelo-escuro. Eu me tornava uma pessoa muito diferente no verão, o que era ótimo.
Taylor, por sua vez, estava ridiculamente branca, uma boneca de porcelana. Mas eu sabia que não por muito tempo. Ela era boa naquilo.
Tirei os óculos e os deixei em cima das roupas, então fui até a parte funda da piscina e mergulhei. Senti um choque no corpo, mas um choque maravilhoso. Quando subi para tomar ar, joguei água nos garotos.
— Vamos brincar de Marco Polo — pedi.
Steven, que estava tentando afogar Conrad, parou e falou:
— Marco Polo é chato.
— Vamos brincar de briga de galo — sugeriu Jeremiah.
— O que é isso? — perguntei.
— A gente forma duas duplas, cada dupla com uma pessoa no ombro da outra, e uma tenta derrubar a outra — explicou meu irmão.
— É legal, eu juro — garantiu Jeremiah. Então chamou Taylor: —
Tyler, quer brincar de briga de galo com a gente? Ou não tem coragem?
Taylor espiou por cima da revista. Não dava para ver os olhos dela por causa dos óculos escuros, mas percebi que ela tinha se incomodado por seu nome ter sido pronunciado errado.
— É Tay-lor, não Tyler, Jeremy. E não, não quero brincar.
Steven e Conrad se entreolharam. Eu sabia o que se passava na cabeça deles.
— Vamos, Taylor, vai ser divertido — falei, revirando os olhos. —
Deixa de ser covarde.
Ela encenou um grande suspiro, então largou a revista e se levantou, ajeitando a parte de trás do biquíni.
— Preciso tirar os óculos escuros?
Jeremiah sorriu.
— Não se ficar no meu time. Você não vai cair.
Taylor tirou os óculos mesmo assim, e só então percebi que os times estavam desiguais e que alguém teria que ficar de fora.
— Eu posso só assistir — ofereci, mesmo querendo brincar.
— Tudo bem, não vou entrar nesta — disse Conrad.
— Vamos fazer duas rodadas — propôs Steven.
Conrad deu de ombros.
— Tanto faz.
Ele nadou até a beira da piscina.
— Eu escolho a Tay-lor — anunciou Jeremiah.
— Não é justo, ela é mais leve — reclamou Steven, e então viu a cara que eu fiz. — É que você é mais alta que ela, só isso.
Eu não queria mais brincar.
— É melhor eu ficar só olhando. Não quero quebrar sua coluna, Steven.
— Hum, eu fico com você, Belly. Vamos ganhar desses dois. Aposto que você é mais durona que a pequena Tay-lor — provocou Jeremiah.
Taylor desceu os degraus e entrou na piscina devagar, tremendo por causa da temperatura da água.
— Eu sou bem durona, Jeremy — retrucou.
Jeremiah se abaixou na água, e eu subi nos ombros dele.
Estavam escorregadios, então foi difícil ficar parada no começo. Ele se levantou e endireitou o corpo.
Eu me mexi e passei as mãos no cabelo dele.
— Sou muito pesada? — perguntei, baixinho.
Ele era tão fraco e magrinho, eu tinha medo de machucá-lo.
— Você não pesa nada — mentiu ele, respirando fundo e segurando minhas pernas.
Tive vontade de dar um beijo na cabeça dele.
Taylor estava empoleirada nos ombros do Steven, bem na nossa frente, rindo e puxando-o pelo cabelo para tentar se equilibrar. Meu irmão parecia prestes a arrancá-la de cima dele e jogá-la do outro lado da piscina.
— Prontos? — perguntou Jeremiah. E, para mim, em um sussurro, disse: — O truque é se manter equilibrada.
Steven assentiu, e fomos para o meio da piscina.
Conrad, que estava do lado de fora, disse:
— Preparar, apontar, já!
Taylor e eu esticamos os braços e começamos a nos empurrar.
Ela não conseguia parar de rir, e, quando eu dei um empurrão mais forte, soltou um “Ah, droga!” e caiu para trás com Steven.
Jeremiah e eu começamos a rir e nos cumprimentamos com um high-five. Quando eles voltaram para a superfície, meu irmão se virou para Taylor e gritou:
— Eu falei pra segurar firme!
Ela jogou água no rosto do Steven.
— Eu segurei!
O delineador estava borrado e o rímel tinha começado a sair, mas ela continuava bonita.
— Belly? — chamou Jeremiah.
— Hum? — respondi.
Eu estava começando a me sentir confortável lá em cima, no alto.
— Cuidado.
Ele se jogou para a frente e, como eu não conseguia parar de rir, acabei engolindo um tanto de água, mas não liguei.
Quando nos levantamos, pulei nele de surpresa e dei um belo caldo.
— Vamos brincar de novo — sugeriu Taylor. — Eu faço par com o Jeremy desta vez. Steven, você pode ficar com a Belly.
Steven ainda estava emburrado, então disse:
— Con, assume meu lugar.
— Tudo bem — concordou Conrad, mas, pela voz, não parecia estar com a menor vontade de brincar.
Ele nadou até mim, e falei, na defensiva:
— Não sou tão pesada assim.
— Eu nunca disse que era.
Subi nos ombros dele. Eram mais musculosos que os de Jeremiah, mais fortes.
— Tudo bem aí em cima?
— Tudo.
Taylor, na nossa frente, estava com dificuldade para subir em Jeremiah. Ela escorregava, rindo sem parar. Os dois estavam achando aquilo muito engraçado. Engraçado até demais. Mordida de ciúme, fiquei observando a cena e demorei a perceber que Conrad estava segurando minhas pernas. O máximo de contato entre a gente havia sido quando ele esbarrou sem querer no meu joelho.
— Andem, vamos brincar — chamei.
O ciúme na minha voz era evidente até para mim. Odiei aquilo.
Conrad andou tranquilamente até o centro da piscina. Eu estava um pouco surpresa com a facilidade com que ele se movia com meu peso extra nos ombros.
— Prontos? — perguntou ele a Jeremiah e Taylor, que finalmente tinham conseguido se levantar.
— Sim! — gritou ela.
Vocês vão cair, pensei.
— Sim! — falei, em voz alta.