O verão que mudou minha vida

Jenny Han · Capítulo 24 de 48

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O verão que mudou minha vida

Capítulo 24

Até que paramos na porta de casa, e Jeremiah falou com Conrad, em um tom áspero que não costumava usar:

— Mamãe não pode ver você nesse estado.

Foi quando percebi — ou me lembrei — que Conrad estava bêbado, que não estava consciente de nada que tinha dito ou feito naquela noite. E ele provavelmente não se lembraria de nada no dia seguinte. Seria como se nada tivesse acontecido.

Corri para o quarto assim que entramos. Eu queria esquecer o que tinha acontecido no carro e me lembrar só de como Cam me olhara na escada, com o braço encostando no meu ombro.

24

NO DIA SEGUINTE, nada. Não que Conrad tenha me ignorado, porque isso teria sido alguma coisa, alguma prova de que algo acontecera, de que algo tinha mudado. Mas não: ele continuou me tratando do mesmo jeito de sempre, como se eu ainda fosse a pequena Belly, a garota de rabo de cavalo bagunçado e joelhos ossudos que corria atrás deles na praia. Eu devia ter imaginado.

Só que não importava se ele estava tentando me afastar ou me puxar para perto, a fonte da força ainda era a mesma: Conrad.

Cam passou uns dias sem me ligar. Eu não o culpava, e também não liguei para ele, mesmo pensando em fazer isso. Mas eu não sabia o que dizer.

Quando ele finalmente me ligou, nem tocou no assunto da festa.

Só me chamou para ir ao drive-in. Aceitei, mas fiquei preocupada. Ir ao drive-in significava que íamos transar? Tipo fazer sexo selvagem, com as janelas do carro embaçadas e os bancos reclinados para trás?

Porque era isso que as pessoas faziam no drive-in, não? Tinha a área das famílias e o lugar dos casais assanhados, mais para o

fundo do terreno. Eu só tinha ido lá em família, com Susannah, minha mãe e todo mundo, e também com os garotos, mas nunca como parte de um casal, jamais em um encontro.

Certa vez, Jeremiah, Steven e eu fomos espionar Conrad em um de seus encontros. Susannah deixou Jeremiah pegar o carro, mesmo que ele não tivesse tirado a carteira definitiva ainda. O drive-in ficava a uns cinco quilômetros de casa, e todo mundo naquela cidade dirigia — até as crianças, no colo dos pais. Conrad ficou furioso quando nos pegou xeretando; ele estava indo para a lanchonete quando nos viu. Foi muito engraçado. Seu cabelo estava todo bagunçado, e ele gritou com a gente, com os lábios cheios de gloss. Jeremiah quase morreu de rir.

Eu queria que Steven e Jeremiah estivessem lá, no escuro, me espionando e morrendo de rir. Seria reconfortante, e eu me sentiria mais segura.

Fui com o moletom do Cam, o zíper puxado até o pescoço. Cruzei os braços, como se estivesse tremendo de frio. Ainda que eu gostasse do Cam, ainda que quisesse estar ali, tive uma vontade súbita de saltar do carro e voltar a pé para casa. Só tinha beijado um garoto na vida, e nem tinha sido um beijo de verdade. Taylor me chamava de freira. Talvez eu tivesse mesmo vocação para levar uma vida celibatária. Talvez devesse entrar para um convento. Eu nem sabia se aquilo era um encontro de verdade. Talvez Cam tivesse perdido o interesse por mim naquela noite na festa e só quisesse ser meu amigo.

Ele mexeu no rádio até encontrar a estação certa. Então, batucando no volante, perguntou:

— Quer pipoca ou alguma outra coisa?

Eu meio que queria, mas tive medo de ficar com comida presa nos dentes, então disse que não e agradeci.

Ele estava totalmente interessado no filme, e às vezes se inclinava para a frente, perto do para-brisa, para poder ver mais de perto. Era um filme de terror antigo, e Cam me contou que era bem famoso, mas eu nunca tinha ouvido falar. E, de qualquer forma, eu nem estava prestando muita atenção. Estava mais concentrada em Cam do que no filme. Ele mordiscava os lábios o tempo todo. Não olhou para mim nem deu risada comigo nas partes engraçadas,

como Jeremiah faria. Só ficou sentado no canto dele, encostado na porta, o mais longe possível de mim.

Quando o filme terminou, ele ligou o carro e perguntou:

— Vamos?

Fiquei muito decepcionada. Ele já queria ir embora. Não ia nem me levar para tomar uma casquinha ou dividir um sundae com calda quente. O encontro, se é que dava para chamar aquilo de encontro, tinha sido um fracasso. Ele não tentou me beijar nem uma vez —

não que eu fosse necessariamente retribuir o beijo, mas ele poderia ao menos ter tentado.

— Hum-hum — respondi.

Queria chorar, mas não sabia bem por quê; para falar a verdade, eu nem sabia se queria beijá-lo.

Voltamos em silêncio. Ele estacionou na frente da casa — prendi a respiração por um instante, com a mão na maçaneta da porta, esperando para ver se ele desligaria o carro ou se eu deveria simplesmente descer. Mas ele estacionou e recostou a cabeça no banco, fechando os olhos por um tempo.

— Sabe por que eu me lembrei de você? — perguntou, de repente. Era uma pergunta tão fora de contexto que levei um instante para entender do que ele estava falando.

— Na Convenção de Latim?

— É.

— Foi por causa da minha maquete do Coliseu? — brinquei.

Steven havia me ajudado a construir a maquete, e tinha ficado incrível.

— Não. — Cam agitou a mão no ar sem olhar para mim. — Foi porque achei você muito bonita. Talvez a garota mais bonita que já tinha visto na vida.

Eu ri. Dentro do carro, pareceu que eu estava rindo muito alto.

— Ah, sei. Conta outra, Sextus.

— É verdade — insistiu ele, elevando o tom de voz.

— Você só está falando isso pra me agradar.

Eu não podia acreditar naquilo. Eu não queria acreditar. Com garotos, um elogio como aquele era sempre a deixa para alguma piadinha.

Ele balançou a cabeça, comprimindo os lábios. Estava ofendido por eu não acreditar nele. Não era minha intenção magoá-lo, eu só não conseguia aceitar que aquilo pudesse ser verdade. Estava quase chateada pela mentira. Eu me lembro de mim naquela época, e certamente não era a garota mais bonita que ninguém já tinha visto na vida. Não com os óculos de fundo de garrafa, as bochechas enormes e o corpo infantil.

Então, Cam me encarou.

— No primeiro dia você usou um vestido azul. Era de veludo ou algo assim. Fazia seus olhos parecerem muito azuis.

— Meus olhos são cinza.

— Eu sei, mas com aquele vestido pareciam azuis.

E foi por isso que usei aquela roupa. Onde será que estava aquele vestido? Provavelmente em alguma caixa no sótão de casa, junto com todas as outras roupas de inverno. Bem, não importava: já estava pequeno demais.

Cam me olhava de um jeito tão fofo, esperando minha reação, com as bochechas coradas. Engoli em seco e perguntei:

— Por que você não falou comigo?

Ele deu de ombros.

— Você passou o tempo todo com seus amigos. Fiquei observando a semana toda, tentando tomar coragem. Não acreditei quando vi você naquela noite, na fogueira. Meio bizarro, né?

Cam riu, mas parecia um pouco constrangido.

— Meio bizarro — repeti, concordando.

Eu não conseguia acreditar que ele tinha reparado em mim.

Quem olharia para mim com Taylor ao meu lado?

— Quase mudei o poema de Cátulo de propósito, só pra você ganhar — comentou, relembrando.

Ele chegou um pouco mais perto.

— Que bom que você não fez isso — falei. Eu me estiquei e toquei o braço dele, com a mão trêmula. — Queria que você tivesse falado comigo.