Polícia e sociedade: gestão de segurança pública e controle social

O fenômeno burocrático na dinâmica do poder

Outra abordagem da organização burocrática foi desenvolvida por Blau e Scott. Simplificada com a utilização de tipologias organizacionais, tal abordagem se baseava no beneficiário principal da organização. Os benefícios angariados pela parte principal da organização vão se constituir na sua razão de ser. Para ele existem quatro categorias de participantes: os membros da organização; os proprietários ou dirigentes; os clientes; e o público em geral.

A essas categorias corresponderiam, respectivamente, os seguintes tipos de organização: associação de benefícios mútuos; organizações de interesses comerciais; organizações de serviços; e organizações de Estado.

Essa tipologia enfatiza a força de poder e a influência do beneficiário sobre as organizações, a ponto de condicionar a sua estrutura e seus objetivos (Blau & Scott,1970).

O fenômeno burocrático na dinâmica do poder

Segundo Crozier, a principal debilidade das teorias sociológicas da burocracia reside no fato de elas procurarem explicar o desenvolvimento e a persistência dos processos burocráticos, sem levar em consideração os problemas de governo, termo este empregado por analogia ao vocábulo da ciência política (1970).

Ao analisar o fenômeno burocrático, considera que os fenômenos do poder acompanham necessariamente todos os processos de integração social, admitindo, já no limite, não haver integração ou sociedade possível sem poder. O poder é um campo de incertezas das ciências sociais, difícil de se esclarecer. Por muito tempo, a sociologia e a ciência política recuaram, para mais uma vez perceberem que nenhuma relação concreta entre indivíduos ou grupos humanos poderia jamais ser despojada de sua dimensão de poder.

Conforme a análise desenvolvida por Crozier (1970, p.20), certos progressos ocorreram nesse caminho, a exemplo não só da teoria

das decisões 4, como também dos conhecimentos empíricos e experimentais da sociologia das organizações. Os problemas do poder, segundo ele, manifestam-se, particularmente, sob três diferentes aspectos: aspecto moral, aspecto lógico e aspecto metodológico, a saber:

• Aspecto moral indica que se acumularam tabus, como o da

dominação e da dependência, considerados como categorias

morais e não como fatos;

• Aspecto lógico aponta para os fenômenos de poder que

exigem ao mesmo tempo uma análise racional clássica, de

ordem instrumental e uma análise oposta, de ordem afetiva. O

poder só se concebe na perspectiva de um objetivo, o que

significa que o jogo do poder, de certa forma, obedece sempre

às regras de uma racionalidade fundada sobre a eficácia. No

entanto, ele introduz ao mesmo tempo certos fenômenos

afetivos poderosos. Com isso, o jogo do poder encontra-se

igualmente condicionado pelas possíveis reações afetivas dos

indivíduos que se comprometem e que por ele não deixarão de

ser afetados;

• Quanto ao aspecto metodológico, toda relação de poder é

condicionada por uma série de restrições estruturais, que

condicionam as regras do jogo, inclusive não se podendo

modificar sem que haja uma repercussão sobre o conjunto do

qual faz parte. Portanto, do ponto de vista estrutural, argumenta

que nenhuma relação de poder pode ser dissociada dos

conjuntos institucionais nos quais ela se desenvolve, admitindo

que, dessa forma, não pode haver campo neutro.

Diante desses obstáculos, ainda consoante esse autor, os sociólogos e cientistas políticos tenderam a se refugiar na descrição e a fracionar suas análises do tipo do poder, em função de métodos de exercício utilizados por eles como coerção, disposição de recompensas, ou, então, pelos mecanismos de identificação do poder do especialista e de poder legítimo. Tais abordagens, contudo, não permitiram a compreensão de como se operam as arbitragens entre os diferentes tipos de poder.

Ao declarar que poderes vindo de fontes diferentes não têm medida comum e não podem ser comparados, tornou-se impossível compreender e prever de que forma, na realidade, esses poderes diferentes se compõem e se equilibram entre si. Os múltiplos poderes exercidos sobre as mesmas pessoas são, evidentemente, de natureza diferente e é importante não confundí-los. Dessa forma, Crozier propõe uma análise estratégica do poder, que permite medir as forças em questão, e descobrir as leis de sua negociação e de sua composição.

Assim, considera os fenômenos do poder não mais sob o ângulo único de um detentor, mas enquanto relações entre indivíduos ou entre grupos e, no limite, como processos que atingem, com seus objetivos e suas regras de jogo, a organização da qual participam os diversos protagonistas.

A dinâmica de uma negociação de poder é como o resultado de um jogo onde limites e restrições constituem passagens obrigatórias, bem como ocasiões de manipulação para os protagonistas, tendendo a determinar, finalmente, sua estratégia, inseridos no conjunto da organização de que fazem parte. Os objetivos formais e informais, fixados pela organização e aceitos pelos participantes, assim como, as regras do jogo que lhes são impostas, ou que eles se impuseram, vão constituir seus próprios limites. Conforme, ainda, a análise desenvolvida observa-se que objetivos e regras não agem diretamente, pois limitam a liberdade de ação dos jogadores e tendem a distinguir setores nos quais ou a ação é completamente previsível, ou outros, onde domina a incerteza. Do ponto de vista de Crozier, o poder de um jogador depende do controle que ele pode exercer sobre uma fonte de incerteza. Isso afeta seu comportamento no quadro das regras do jogo impostas pela organização, o que vai distanciá-lo dos teoremas mecanicistas sobre o uso do poder, teoremas esses que são expressos na demonstração do poder que se adquire.