Polícia e sociedade: gestão de segurança pública e controle social
Violência sofrida pela polícia
[…] Meu irmão, de apenas 27 anos, solteiro, cheio de planos,
sofreu atropelamento e teve lesão corporal.
Tabela 28 - Violência Sofrida no Trânsito. (Chefes de Família)
Violência no Trânsito Nº Cit. Freqüência
Atropelamento 6 100,0%
Outros 0 0,0%
Base 6 100,0%
Fonte: Pesquisa de Campo
Estes depoimentos refletem, de alguma forma, a ausência de ações governamentais concretas, relativas ao trânsito e de uma infra estrutura nas áreas populares. Tal ausência se reflete também nas demais áreas de vida cotidiana dos extratos menos favorecidos economicamente, o que, de forma enfatizada é referida pelos inquiridos. Como se observa confronta-se nesse espaço social aqueles tipos de violência recortados por Mafesolli, a monopolizada, a anômica e a banal articulando entre si com a cumplicidade daqueles cujos interesses servem, no sentido de salvaguardar a já precária condição humana, ultra conseqüente do campo social e do esgarçamento do propósito das instituições à serviço público.
Violência sofrida pela polícia
Em relação à violência contra a pessoa do policial, verificou-se que a lesão corporal e o homicídio constituem os fatos mais freqüentes. O homicídio e, sobretudo, a lesão corporal caracterizam as ações mais sofridas pela Polícia. Estas agressões estão positivamente correlacionadas com o próprio contexto de insegurança social em que muitos deles vivem e trabalham. De entre múltiplas agressões referidas salientam-se as agressões diretas e/ou assaltos aos membros da família, ameaças de vizinho com arma de fogo, furtos, assaltos pessoais dentro de coletivo, morte de familiares na troca de tiros entre a Polícia, assaltantes e traficantes. Aliás, estes são alguns exemplos de ocorrências cotidianas por eles relatados.
Tabela 29 - Violência Sofrida pela Polícia na própria Pessoa (Polícia)
Violência contra a Nº Citações * Frequência Pessoa
Homicídio 3 15,8%
Lesão Corporal 9 47,4%
Roubo no Ônibus 2 10,5%
Roubo no Banco do Bairro 1 5,3%
Briga de Vizinhos 2 10,5%
Outros 2 10,5%
Base 19 100,0%
Fonte: Pesquisa de Campo.
(*) O número de citações é superior ao número de observações
devido às respostas múltiplas (6 no máximo)
No que se refere à violência registrada contra o patrimônio dos polícias entrevistados, podemos ver que 50% das mesmas são representadas por roubo ou assalto à residência e o roubo de
veículos (tabela 31).
Tabela 31 –Violência Sofrida pela Polícia Contra o Patrimônio
Violência contra o Patrimônio Nº Cit. * Frequência
Roubo 4 50,0%
Furto de Veículo 4 50,0%
Outros 0 0,0%
Base 8 100,0%
Fonte: Pesquisa de Campo.
(*) O número de citações é superior ao número de observações
devido às respostas múltiplas (3 no máximo).
Estas referências relativas à violência contra o patrimônio da Polícia respeitam, não apenas a roubos de veículos, mas também, freqüentemente roubo de documentos e assaltos à própria polícia, conforme se depreende de alguns dos depoimentos feitos pela Polícia:
[…] encontrava-me na fila de uma loja quando, no caixa, um
menor tomou o dinheiro e saiu correndo;
[…] o meu Carro foi roubado na rua;
[…] meu irmão foi assaltado em frente à faculdade e meu pai
também teve o carro furtado embora recuperado depois pela
Polícia;
[…] três elementos invadiram a casa e amarraram a minha
sogra, minha esposa e os pedreiros que trabalhavam no
momento. Levaram o carro e alguns objetos.
Sublinhe-se que, mais adiante, faremos a comparação entre a violência sofrida pelas famílias e referida pela Polícia. Essa comparação de dados referentes ao patrimônio e aos tipos de violência mencionados anteriormente, pretende ilustrar e reafirmar a vulnerabilidade a que estão sujeitos, tanto a Polícia, como as camadas populares, vulnerabilidade bem demonstrativa das condições de vida e de trabalho de ambos e das práticas
generalizadas de violência no Brasil. (ver figuras 12 e 13).
Figura 12 - Comparativo Violência Sofrida Contra o Património
(Família e Polícia)
Fonte: Pesquisa de Campo
Figura 13 - Comparativo Violência Pessoal Sofrida (Polícia e
Família)
Fonte: Pesquisa de Campo
Dir-se-ia que tais condições objetivas de vida e de trabalho da Polícia, conforme será tratado de forma mais detalhada em item próprio, refletem as múltiplas faces da violência social e, ao mesmo tempo, esclarecem sobre os limites e possibilidades de atuação desta instituição na sociedade.
Do exposto gostaríamos de salientar que, das entrevistas feitas aos chefes de família e à Polícia sobre as suas experiências de violência sofrida salientamos os aspectos mais relevantes desses depoimentos. Os relatos emitidos por uns e por outros, refletem e reafirmam o contexto geral da violência e da criminalidade nas áreas populares dos grandes centros urbanos do país. Nos depoimentos ficaram claras descrições de agressões, agressões por vezes muito violentas (caso de homicídios), as quais caracterizam o cotidiano das camadas populares e o trabalho policial nessas áreas. Uma
tentativa de síntese quantitativa destes relatos pode ver-se na tabela
33. Conforme já foi referido anteriormente, maior incidência de violência sofrida pela Polícia diz respeito aos atentados contra a própria pessoa e, em relação aos chefes de família, os referentes ao patrimônio, que envolvem roubo e furto.
Tabela 33 –Comparação da Violência Sofrida pela Polícia e Família
Violência Sofrida/Tipo Crime Família* Polícia*
Violência contra o Patrimônio 58,9% 42,1%
Violência Pessoal 48,2% 100,0%
Violência Sexual 3,6% –
Violência no Trânsito 10,7% 10,5%
Base 56 19
Fonte: Pesquisa de Campo.
(*) Questão de múltipla escolha. Valor superior a 100%
Em síntese, podemos de alguma forma concluir que, em Salvador, o ambiente de vida e de trabalho das camadas populares e da Polícia é de insegurança e medo, conforme se pode constatar pelos dados e informações recolhidas. Parece ser uma evidência a generalização da violência e a omissão dos poderes públicos na garantia da segurança de vida da população.