Polícia e sociedade: gestão de segurança pública e controle social

Auto-avaliação da polícia para a segurança pública

Auto-avaliação da polícia para a segurança

pública

Neste ponto, apresentamos o ponto de vista da própria Polícia sobre a segurança pública na cidade de Salvador e sobre a sua avaliação de desempenho feita pelos chefes de família das camadas populares.

Responsável constitucionalmente pela segurança pública, em geral, e proteção do cidadão, em particular, a Polícia demonstrou dificuldades em explicar as razões pelas quais 82,57% dos chefes de família consideraram ineficaz a sua atuação junto da comunidade. Esta avaliação, concluiu por uma atuação negativa, caracterizada pela negligência e também pelo descuido, apatia, agressividade e truculência. Tais características foram traduzidas como falta de respeito para com o cidadão, além da ausência de uma ética que reconheça e diferencie culpados e inocentes.

Ao tentarem justificar os porquês de uma avaliação tão negativa, os policiais responsabilizaram dois agentes: a sociedade e o governo. A postura dominante foi, pois, transferir a responsabilidade da ineficácia policial para o outro, considerado o culpado por todos os males. Quer dizer, sob o olhar dos Polícias são de fato a sociedade e o Estado os únicos imputáveis e, conseqüentemente, tal postura mantém o ‘eu’ isento de quaisquer responsabilidades por aquelas atitudes negativas denunciadas. Eis, portanto, um grave problema e um desafio singular à gestão da segurança pública.

Quanto à dimensão da responsabilidade pessoal pelos atos avaliados pela sociedade, não houve referências a respeito. Quando existe a inclusão do individual no nível das relações interpessoais, tais relações se inserem no sentido unilateral do outro.

A análise qualitativa permitiu reconhecer que 93% dos policiais entrevistados avaliaram a sociedade e o governo como responsáveis por sua ineficácia.

Essa culpa atribuída à sociedade e ao governo por alguns policiais, está alicerçada no fato da primeira ignorar o marginal e, o segundo, por não oferecer condições mínimas de trabalho à corporação. As políticas de Segurança Pública, segundo eles, estão fundadas em critérios estritamente econômicos, deixando muitas áreas sem condições de assistência e, portanto, de trabalho para o policial.

De acordo com esses policiais, a sociedade avalia erroneamente a sua atuação, porque, se ocorre, por exemplo:

[…] uma troca de tiros, dizem que foi um policial. Isto acontece,

porque é mais fácil colocar a culpa em quem é um alvo – a

Polícia.

[…] A Polícia não tem bola de cristal, para adivinhar tudo que

acontecerá. É importante ter a colaboração da comunidade

para agir certo. Por exemplo: se um ladrão preso for aquele que

serve à comunidade, então ela não vai gostar da atuação da

Polícia, porque aquela é uma pessoa considerada influente na

comunidade.

É compreensível que os policiais se defendam argumentando haver injustiças em relação a eles, advertindo, adicionalmente, que “[…] perto ninguém quer e longe dela ninguém vive”.

Em resumo, na visão dos policiais, as pessoas discriminam a Polícia e, mesmo quando são por eles atendidas, não reconhecem seu trabalho realizado. Pode-se, entretanto, questionar este raciocínio, argumentando que isso constitui uma conseqüência, e não uma causa, pois a avaliação negativa decorre justamente da ineficácia dos serviços prestados, como se encontra demonstrado no quadro traçado pelas camadas populares sobre a insegurança que a Polícia lhes transmite.

Em relação ao governo, de fato, este poder público não fornece condições à Policia para que ela possa desempenhar o papel que lhe cabe, de proteger o cidadão. Na verdade, falta aparelhamento adequado para um policiamento ostensivo e é nesse sentido que os policiais entrevistados se defendem, apelando para tal argumento como justificativa de sua ineficácia. Dir-se-ia, no entanto, que nem uma coisa, nem outra, pois a segurança pública não é de responsabilidade única da Polícia. Sua eficácia envolve medidas que atingem diretamente os aspectos do quadro da violência social, como visto anteriormente. Para a sociedade, isso constitui um campo de complexidade, além de representar um dos maiores desafios para todos.

Reiteradamente, os policiais entrevistados recorreram aos limites da avaliação da sociedade sobre sua atuação. Ao se defenderem, afirmaram que somente avalia a atuação da Polícia negativamente quem não conhece os verdadeiros recursos de que ela dispõe para combater a criminalidade. Contudo, reconhecem o próprio despreparo para a atuação em policiamento ostensivo e investigatório, voltados para a ordem e a proteção sociais, e tudo isso aliado à falta de equipamentos e de vestuário. Do ponto de vista deles, há necessidade de se promover uma reciclagem periódica na Policia, a fim de verificar se vale a pena continuar sendo policial. Segundo um deles, os mais preparados estão em outros locais, assim como as melhores viaturas.

No tocante às condições objetivas de trabalhos, declararam:

[…] aqui só tem uma viatura que chega meia hora depois do

crime, devido ao despreparo e à péssima orientação que

recebiam antes;

[…] É preciso que o governo aumente o salário do policial e dê

mais segurança para o seu trabalho;

[…] Aqui, é uma cidade dentro de outra cidade,e,no mínimo

deveria ter duas Delegacias e mais de oito viaturas. A pessoa

que chama a viatura quer que ela chegue na hora e o número

dela é reduzido e as ocorrências são grandes.

Saliente-se que foi, apenas, um o número de policiais que não concordou com a avaliação negativa da Polícia. Para este, a ação policial no bairro deveria ser avaliada como uma ação enérgica e que é uma minoria que avalia negativamente a ação da Polícia. No seu entender, não existe a possibilidade dos organismos de segurança satisfazerem aos anseios de todos, principalmente dos envolvidos em atividades ilícitas. Além disso, todos eles afirmam ser a Polícia a que maior volume de serviços presta à comunidade, ressaltando que:

[…] quando solicitam a Polícia, o fato já aconteceu há alguns

minutos e quando chega a viatura o marginal já se evadiu;

[…] a população em geral tem um censo crítico muito aguçado

para quem sente na pele todos os efeitos dos problemas; há 10

policiais para atender a necessidade de mais ou menos 400 mil

pessoas do bairro mais populoso da cidade; por mais esforço

que a Polícia faça, não é reconhecida; só a enxergam quando

precisam dela.

Portanto, na perspectiva dos policiais entrevistados, eles não podem satisfazer a todos por trabalharem reprimindo a criminalidade. Quando fazem esta declaração, observam que às vezes é mesmo um ente querido da sociedade quem têm de deter.

Defendem-se, ainda, utilizando o argumento de que a sociedade tem uma visão errônea da Polícia, vendo no policial uma pessoa sem outra opção na vida e, não raro, consideram-no um profissional corrupto que ganha mal e não têm instrução.

Por outro lado, os policiais enfatizam a falta de investimento na Polícia, o baixo poder aquisitivo dos seus componentes, a falta de armamento e a insuficiência do contingente para o atendimento da grande demanda de segurança na comunidade. Além desses fatores, destacaram os baixos salários que recebem como um dos fatores de falta de motivação entre eles.

O governo vem privilegiando certas áreas, na cidade de Salvador, com mais segurança pública. Esta situação é reconhecida por 72,41% dos policiais que responderam ‘sim’ e 6,90% dos que responderam ‘mais ou menos’ quando questionados sobre a existência, em Salvador, de áreas mais seguras que outras. As opiniões totalizaram 79,71%, traduzindo o privilégio que o governo concede a certas áreas da elite, em detrimento dos bairros pobres. Os vários depoimentos que se seguem, na seqüência da pergunta feita, corroboram a idéia dominante da crítica social sobre o caráter discriminatório das políticas públicas de segurança.

[…] o Caminho das Árvores tem mais policiamento. Aumenta

em números de homens e quantidade de viaturas. Isso se deve

aos empresários que bancam. O governador pensa assim; dá

mais segurança a quem tem dinheiro. E não adianta reclamar;

[…] o poder aquisitivo é diferente. Há áreas nobres da cidade

que têm policiamento ostensivo, e logo são mais seguras;

[…] as áreas nobres têm um policiamento melhor e com mais

infraestrutura;

[…] os bairros nobres são mais privilegiados do que os bairros

pobres

[…] Há mais segurança nos bairros nobres, pela distribuição de

renda, a área mais pobre tem menos que as mais rica;

[…] devido ao baixo nível de criminalidade em outro locais. No

centro de cidade tem mais segurança, porque tem comércio,

bancos, etc. Nos bairros de poder aquisitivo maior, como Barra,

etc;

[…] é o que se diz. Existem lugares com melhor poder

aquisitivo, que recebe mais atenção em relação à segurança;

[…] a área da elite é mais policiada, tem mais viaturas e as de

baixa renda tem, mas não é muito. Na área pobre, o

policiamento existe, mas é precário;

[…] se chegar ao Centro Histórico, veremos que é a área mais

segura de Salvador. Isto é, o governo investiu em segurança na

área mais turística e de maior poder aquisitivo;

[…] em áreas nobres, há o interesse do governo em dar mais

segurança;

[…] o Caminho das Arvores tem mais policiamento, por ser uma

área nobre.

A distribuição percentual destas opiniões (tabela 40) confirma, mais uma vez, o tratamento diferenciado das políticas de segurança pública, segundo um critério econômico e social, isto é, por classe social, privilegiando as classes mais altas. Existem apenas decisões complementares para as áreas turísticas da cidade, privilegiadas com maior policiamento. Prevalece, desse modo, o critério econômico, em detrimento da equidade e justiça social.

Tabela 40 - Segurança Pública na Cidade de Salvador (Polícia) 8

Áreas mais Seguras Nº.Cit. Freqüência

Sim 21 72,4%

Não 6 20,7%

Mais ou Menos 2 6,90

Base 29 100,0%

Fonte: Pesquisa de Campo

Observa-se que 100% da Polícia entrevistada conhecia os critérios utilizados nas decisões políticas da gestão da segurança pública da cidade, uma vez que todos os entrevistados emitiram idênticas opiniões sobre esse assunto. Contudo, percebe-se que esse domínio de conhecimento é utilizado para justificar a baixa qualidade da ação policial nas áreas populares da cidade e, não, como um conhecimento crítico para a sua capacitação profissional.

Em síntese, de acordo com os membros da Polícia o tratamento diferenciado do governo em questões de segurança, segundo critérios econômicos, seria a razão pela qual prevalece a insegurança. Nesse sentido, reafirmam que:

[…] nos bairros nobres há mais segurança; a distribuição de

renda nas áreas mais pobres é menor que as mais ricas e,

nestas, o nível de criminalidade é baixo; a área da elite é mais

policiada, tem mais viaturas do que as de baixa renda;

[…] na área pobre, o policiamento que existe é precário; os

bairros nobres são mais seguros.

O privilégio da segurança, argumentam, enfaticamente, os policiais entrevistados, é para quem possui dinheiro e este fato evidencia-se quando o governo promove maior segurança em bairros como Barra, Graça e Pituba, bairros habitados por pessoas de melhor nível de renda. Os bairros turísticos também são privilegiados pelos poderes públicos, que vêm neles a possibilidade de auferir mais receita pública. Essas áreas apresentam melhores padrões de segurança, com maior policiamento e mais infra-estrutura, a exemplo do Pelourinho, situado no centro histórico de Salvador. O depoimento que se segue reflete com muita clareza a mencionada discriminação das políticas públicas de segurança:

[…] Chegando-se ao Centro Histórico, ver-se-á que é a área

mais segura de Salvador; isto é, o governo investiu em

segurança na área mais turística e de poder aquisitivo. No

Pelourinho há vigilância 24 horas. O centro da cidade é uma

área privilegiada porque é onde se localizam o comércio e

bancos.

A discriminação por classe social é notória e, segundo a Polícia, é acentuada, tomando-se como referência o Caminho das Árvores, área que apresenta o maior número de policiais por metro quadrado. O número de homens e de viaturas é maior e financiado por

empresários. Para 20,7% da Polícia entrevistada, conforme tabela

41, não há locais mais seguros que outros e, sim, áreas com maior ou menor nível de criminalidade. Nesse sentido, e invertendo a idéia da questão formulada, eles argumentaram que um maior nível de criminalidade poderia ser observado naquelas áreas onde

predominam habitações em terrenos invadidos.9 Tal visão poderá ser observada através da seguinte declaração: “[…] a política partidária poderia ser bem melhor. Está tudo nivelado por baixo: em uma área urbanizada é menos intensa a marginalidade […] Nas áreas onde predominam habitações em terrenos invadidos a criminalidade prolifera”.

Sobre a segurança vista do ângulo da área em que eles atuam – o bairro da Liberdade – tendo sido questionados: ‘e, aqui, na Liberdade é, diferente?’, cerca de 68% responderam que sim, e 14,3 %, mais ou menos. Somando estes percentuais, por semelhanças de idéias, dir-se-ia que 82,2% dos policiais entrevistados conhecem o tratamento diferenciado adotado pelo governo, segundo critérios econômicos. Apenas 17,8% discordaram do referido privilégio. Neste sentido afirmaram que: “[…] Existem pontos, como becos, que não existe segurança […] A viatura vai, mas é mais difícil. Nas áreas de baixa renda o serviço é precário […] Ao contrário, é um bairro violento. A violência baixou muito aqui”.

Tabela 41- Segurança Pública nos Bairros Populares (Polícia)

Segurança no Bairro da Nº Frequência Liberdade Citações

Sim 19 67,9 %

Não 5 17,9 %

Mais ou Menos 4 14,2 %

Base 28 100,0 %

Fonte: Pesquisa de Campo

Os 82,2% dos policiais que admitem ser a segurança das áreas populares diferente, por exemplo, da que vigora nas áreas nobres da cidade, avaliam que a segurança naquelas áreas é deficiente. Ao emitir tal opinião, eles acabam formulando uma auto-avaliação, porquanto atestam a própria deficiência de atuação naquelas áreas, argumentando o fato de elas serem muito populosas e pobres, dando como justificação o fato de a diferenciação existir no próprio bairro. Como exemplo, citam a segurança prestada à Avenida Lima e Silva, que conta, além do número de homens do policiamento normal, também com o do patrulhamento bancário, sendo, portanto, mais policiada que as demais.

Segundo eles, o bairro da Liberdade é muito violento. Ali acontecem homicídios, assaltos, crimes de dia e de noite, além de furtos, de violência entre familiares e assaltos a casas comerciais. Diante de tal contexto, argumentaram que o número de policiais é insuficiente para combater a criminalidade nas áreas populares.

O policiamento do bairro da Liberdade é feito, em cada turno, por quatro duplas. No Itaigara, são vinte duplas por turnos. Na opinião de um deles, o contingente policial que atua nessas áreas não é um dos melhores, mas também não é o pior. Eles próprios reconhecem que somente aumentar o efetivo operacional não vai resolver o problema da melhoria da segurança pública, conforme se pode inferir dos depoimentos seguintes:

[…] na área da Caixa D’Água tem policial, mas não tem

eficácia. […] A área é de topografia acidentada o que dificulta a

ação policial. […] o bairro é populoso e a população é de baixa

renda. Em relação ao bairro da Barra, aqui é menos seguro e é

mais violento. […] o crescimento demográfico, falta de

saneamento básico e a falta de estrutura, de segurança,

dificultam a manutenção de segurança.

Para 17,5% dos policiais entrevistados, a segurança pública na Liberdade não é diferente das demais áreas da cidade do Salvador. Admitem que existia mais segurança quando a Delegacia se localizava na rua Adelino Santos. No entanto, com a mudança desta Unidade, a criminalidade aumentou. De dia, segundo os policiais, o bairro da Liberdade é muito policiado, porém, à noite, o contingente é reduzido, assim como o número de viaturas. Um dos entrevistados asseverou que: “a viatura vai, mas, é mais difícil. Nas áreas de baixa renda, o serviço é precário; é um bairro violento; a violência baixou muito aqui”.

Quando questionados se fazia diferença para o policial trabalhar na Liberdade, isto é, em uma área popular da cidade do Salvador, 65,5% deles afirmaram não haver diferença. Contestaram, inclusive, argumentando que o policial é um só em todo local. E, mais: que tanto fazia estar na Avenida Peixe e trocar tiros com marginais, como estar na Barra e coibir a prostituição e o tráfico de drogas.

Os depoimentos sobre o trabalho policial em áreas populares reafirmam a violência dessas áreas na cidade do Salvador e, por outro lado, mostram o maior nível de exposição da Polícia em tais áreas.

[…] O trabalho é o mesmo em qualquer local;[…] Polícia é uma

só em qualquer lugar; tanto faz aqui, como na Barra e em

qualquer outra área; o serviço é o mesmo, quando se trata de

rádio patrulha, exige-se a mesma atenção;[…] o serviço policial

é sempre a mesma coisa; em um bairro como outro qualquer;

[…] o policial tem de estar preparado para agir em qualquer

lugar.

Dos 34,5% de polícias entrevistados que consideraram fazer diferença trabalhar no bairro da Liberdade, um deles declarou: “eu gosto de trabalhar aqui porque já conheço os marginais; fazem o tráfico, mas não o fazem na minha frente”.

Constata-se que as razões alegadas por aqueles policiais que não vêem diferença em trabalhar em um bairro pobre ou em um de alta renda são semelhantes às dos chefes de família que não vêem a violência e que se sentem seguros na área de baixa renda onde moram. É interessante ressaltar que ambas as avaliações são problemáticas, porque, como se viu anteriormente, são valores construídos no contexto de uma cultura de violência e com códigos de vida cruéis, logo, não condizentes com uma sociedade que se pretenda digna e ética, com paz e tranqüilidade sociais.

Os bairros populares na cidade do Salvador – campo das práticas da Polícia selecionado para este estudo – podem ser caracterizados pela violência, pela falta de segurança pública e por altos índices de criminalidade. Esse campo, por sua vez, não se diferencia da área de moradia da Polícia. Os policiais da categoria praça – soldados e sargentos – residem em áreas de baixa renda, o que aumenta, duplamente, como cidadão e como policial, a sua exposição à violência e à criminalidade.

Sobre a exposição da Policia à violência, os resultados obtidos das entrevistas com os policiais constam do quadro seguinte. Constatamos que, na condição de profissional de segurança pública, 79,31% deles encontram-se mais expostos à violência, do mesmo modo que às famílias as quais devem proteger. Tal fato revela, mais uma vez, que o fenômeno da violência nos grandes centros urbanos do país atinge todos indistintamente.

Tabela 42 - Exposição da Polícia à Violência

Exposição à Violência Nº Citações Freqüência

Sim 23 79,3 %

Não 6 20,7 %

Mais ou menos 0 0,0 %

Base 29 100,0 %

Fonte: Pesquisa de Campo

Como se pode ver, 79,3% dos policiais afirmam que, constantemente, se vêm envolvidos em situações de violência. Talvez um dos motivos seja o uso da farda que, segundo eles, os expõe mais à violência. Em outras palavras: o policial se torna mais vulnerável porque, através da farda, o criminoso o identifica mais facilmente, aumentando, como isso, o número de represálias. Falta linha de frente, e se o delinqüente conhece quem é o policial, isto acabará por constituir uma ameaça para ele. Várias vezes o profissional de segurança permanece exposto aos media, expondo, dessa forma, sua vida cotidiana a riscos e represálias pelo simples fato de ser Polícia.

Existem vários níveis de conflitos e, segundo alguns deles, o papel da Polícia é administrar tais conflitos. Contudo, existem policiais que se envolvem no combate aos marginais e terminam por morrer na ação.

Há os que afirmaram não se sentirem ameaçados pela violência (cerca de 21%). Esse mesmo sentimento, aliás, foi detectado entre aqueles chefes de família que, do mesmo modo, diziam não se sentiram ameaçados e tampouco reconheciam a violência. Pode-se deduzir que esses entrevistados constituem aquilo que poderia ser chamado de núcleo básico do mundo da contravenção social, uma nova ordem, um micro poder social com formas próprias de controle social. Existem, contudo, outros policiais que sentem medo e insegurança como cidadão. Essas duas diferentes maneiras de ver a realidade estão expressas nos depoimentos seguintes:

[…] não tenho medo da violência dos marginais, medo de ser

assaltado e até de ser morto, confio em Deus; no interior da

delegacia já estamos nos arriscando; todo profissional de

segurança pública se expõe a todo momento.

[…] Quando transitamos na área, somos logo reconhecidos

com frases como: aquele ali é policial e, para mim não fazem

nada.

Ao se encontrarem no ônibus, ou ao colocarem a farda no varal, eles temem ser reconhecidos como policiais. Aqueles que não se sentem expostos à violência, dizem ser uma questão de competência pessoal manejar situações de conflitos, conviver com a desconfiança, com a diversidade e a com própria violência. Conforme se poderá observar, existe um percentual semelhante de chefes de família que entende a obtenção da segurança pública através da capacitação individual. Pode-se deduzir que eles se encontram e se identificam nesse mesmo sentido.

A Polícia que entende a segurança como capacidade individual e não sente medo, cria suas próprias condições, admitindo que a violência está para todos como um fenômeno universal. Ressalva que o fato de ser policial lhes oferece mais responsabilidade e mais tranqüilidade. Daí, como policial, deve apenas cumprir o dever.

Pelo fato de o policial estar diariamente exposto à possibilidade de confrontos com criminosos, em bairro popular com alto índice de violência é comum as seguintes declarações:

[…] É o local onde moro; conheço um a um e não faço distinção

entre pretos e brancos, todos me respeitam quando passo;

[…] Cada bairro tem um nível de pessoas e o policial tem de

trabalhar com todos os tipos;

[…] É a pior área em termos de Polícia para se trabalhar, a

incidência de crimes é muito grande e impera a lei do silêncio.

Mas mudou alguma coisa, antes havia áreas que a Polícia não

entrava; é mais perto da minha residência e das outras

atividades que tenho.

Afirmam, alguns, que gostam de trabalhar no próprio serviço, isto, nos bairros populares. Esses bairros se caracterizam, como já visto em itens anteriores, por um maior número de ocorrências criminais e carências de todas as espécies, isto é, tudo aquilo que decorre das necessidades de um povo pobre. Nessas áreas, segundo os policiais, torna-se muito difícil capturar o traficante: Ele é o Caveira.

Todavia aqueles que não se sentem expostos à violência, dizem ser uma questão de competência pessoal em manejar situações de conflitos, conviver com a desconfiança, com a diversidade e a com própria violência.

Não obstante todas as circunstâncias adversas na cidade de Salvador, 92,9% dos policiais gostam de residir nesse local por uma questão de costume, como afirmaram, em virtude das relações já criadas e desenvolvidas. Trata-se de uma alternativa, de um desejo, de uma vontade de estar no urbano, dando asas ao imaginário do prazer, no aqui e agora da cidade. Para uns, isso se justifica, pela oportunidade e disponibilidade de emprego, pelo lazer e atendimento médico, e pela segurança que oferece; para outros justifica-se pelo costume.

Uma síntese da visão desses policiais entrevistados a esse respeito, pode ser examinada a seguir:

[…] Na cidade grande as coisas são mais fáceis: escola, locais

de trabalho; minha vida é toda aqui; gostaria de morar em

Salvador, mas moro em Arembepe por falta de condições;

[…] porque foi aqui que nasci, cresci e Salvador é uma das

cidades mais belas que conheço; a cidade tem todos os

elementos de lazer com praia etc.;

[…] sempre morei na cidade e me acostumei com o cotidiano.

Embora afirme conhecer outras cidades na função, os policiais entrevistados gostam da cidade e consideram bom viver em Salvador, porque nela há de tudo, só falta dinheiro. Esta opinião, que aborda também outros aspectos, pode ser melhor compreendida através de alguns testemunhos, como, por exemplo:

[…] Morei sempre aqui e não conheço outro lugar. O Bairro

Guarani tem de tudo: posto de saúde, banco, posto de gasolina,

só não tem segurança. Tem uma boca de fumo;

[…] Já morei fora e adoro Salvador. Aprendi a gostar. A orla é

maravilhosa, o perfil antropológico único;

[…] Nasci aqui e estou acostumado. Não pretendo morar em

outro lugar. Nunca saí daqui e acho tudo bom na cidade. A

cidade está bem administrada; o único problema é o Bahia Azul

que deixa muitos buracos na cidade. É minha cidade natal, é

semelhante a Salvador. Adoro. Meus familiares são todos

daqui. Não tenho opção. É a terra que nasci. Tenho medo de

sair, nasci e me criei aqui. Conheço outros Estados, mas

Salvador é o local mais propício para se morar, por causa do

clima e da estrutura. Nasci aqui e todos me conhecem;

[…] Eu sou alguém. Você é respeitado pelo fato das pessoas te

conhecerem.

Como se vê, os que diziam não gostar da cidade utilizavam o argumento de que havia uma grande incidência de ocorrências policiais, ressaltando daí, a preferência por residir no interior, onde há uma identificação maior entre o povo e a Polícia. Salienta-se que essa justificativa expressa bem o vínculo que muitos mantém com o interior, em contraposição às exigências do trabalho no centro urbano. Tal dicotomia pode ser observada em composições literárias, ou mesmo em músicas regionais, quando são relatados os dramas vivenciados pelos retirantes nordestinos: “eles abandonavam a região em que viviam, acalentando o sonho de ser feliz na cidade grande”. É aquela velha dualidade entre campo e cidade, ainda tão presente na memória e no imaginário daqueles policiais que viveram no interior.