Polícia e sociedade: gestão de segurança pública e controle social
Perspectiva das camadas populares
Outro argumento é que:
[…] quando se pega um menor ele vai logo falando, tenho os
meus direitos e o problema da segurança é social e só haverá
uma solução a longo prazo. Esperar passar esta geração para
vir a de controle rígido de natalidade, que se faz necessário. Se
não há vagas nas escolas e nos hospitais; assim como se não
houver unificação das Polícias não haverá melhora. Temos que
tentar melhorar.
Perspectiva das camadas populares
Para os chefes de família (74,3%) não há esperanças quanto às mudanças da segurança para as áreas de baixa renda da cidade,
conforme poderá ser verificado através da tabela 48.
Nessa perspectiva, poder-se afirmar que o quadro futuro da segurança pública no Brasil, sob a ótica das camadas populares, é de falta de confiança no governo e o de desesperanças no futuro.
Tabela 48 - Tendências da Segurança Pública sob a Ótica da
Família
Tendências da Segurança Nº Freqüência Pública Citações
Melhorar 28 25,7 %
Piorar 34 31,2 %
Ficar na mesma 47 43,1 %
Base 109 100.0 %
Fonte: Pesquisa de Campo
Os 74,3% dos chefes de família que acreditam que a tendência da segurança é piorar ou ficar na mesma justificaram esta descrença, alegando o pouco interesse e a falta de vontade dos governantes. Segundo os entrevistados, os projetos governamentais para a área de segurança pública não são implementados. Por sua vez, a Polícia continua despreparada para prestar os serviços de proteção demandados pela comunidade, e prosseguem auferindo salários incompatíveis com o grau de sua responsabilidade pública. O descompromisso dos vereadores eleitos pela corporação é gritante, pois quando se encontram na Câmara não cumprem o que prometeram no período eleitoral. Desse modo, um conjunto de aspectos sócio-políticos estruturais estão diretamente inter relacionados com a problemática da segurança pública não existindo qualquer perspectiva de solução pelo governo. Os chefes de família sobre estes aspectos perderam as esperanças em qualquer tipo de mudança, especialmente em aspectos mais relacionados com os extratos menos favorecidos economicamente na sociedade.
Os depoimentos seguintes refletem esta visão quase conformista dos chefes de família
[…] nada melhora para os pobres e existe pouco interesse
pelos governantes; nesta região só tem pobre; acredito que
deveria colocar mais policiais nas ruas e estes saberem que
estão ali para nos proteger; […]sentiria segurança se soubesse
que a rua está policiada; […] ninguém põe nada em prática; […]
se os governantes quisessem melhoraria; […] nesse ano de
eleição quem faz festa é quem ganha; são pessoas
despreparadas que vão para a cama e não fazem nada; não há
nada de concreto para melhorar a segurança: são projetos que
ficam só no papel; tudo aqui no Brasil acaba na mesma coisa;
até agora não vejo preparação da Polícia; […] Só os políticos
influentes podem fazer algo; mas não se interessam pelos
nossos problemas. No futuro se tornará estável. Continuará por
muito tempo assim até que uma providência seja tomada pelas
autoridades. […] Terá de acontecer algo muito sério para se
tomar uma providência. […] O bairro tem crescido muito e a
possibilidade de combater a violência está cada vez mais
remota. […] O governo tem interesse na manutenção da Polícia
autoritária […] o povo não tem a atenção que merece; se
matarem um policial está arriscado no mínimo em três meses
eles te revistar, mas quando cair no esquecimento, um abraço.
Outro argumento mencionado pelos chefes de família sobre a tendência de a segurança pública piorar centra-se na falta de políticas educacionais e na interdependência desse fator com a segurança. Pode-se ver a maneira como alguns deles interpretam a relação da educação com a segurança, ao afirmarem que pode constituir uma ameaça para o governo e para a Polícia. A declaração que se segue ratifica tal assertiva:
[…] Falta educação, não há interesse pela educação das
camadas pobres: existe o interesse de o cidadão não se educar
para que o mesmo dê trabalho a Polícia e aumente os seus
serviços; […] se o cidadão tiver conhecimento, não precisará da
Polícia, então a vontade é que haja desordem para que haja
Polícia. Só com muita educação para mudar a segurança.
O quadro sobre o futuro, traçado pelas camadas populares, é estarrecedor. Nele, vê-se o desemprego, o tráfico de drogas, crianças de 10 a 12 anos com arma na mão e os baixos salários dos policiais. E, segundo um dos chefes de família, caso se leve em conta o modo como as mães estão criando os filhos, a tendência é para piorar. Esta visão transparece no seguinte depoimento: “[…] ninguém, nem a polícia nem o governo, toma uma atitude efetiva; eu não tenho esperança, porque o jeito que as mães estão criando seus filhos não vai dar em nada que preste; não há futuro; é o marginal ensinando para criança que vira marginal”.
Os entrevistados ainda enfatizaram que o aumento do desemprego acentua a tendência de a segurança piorar, porque com isso torna-se difícil qualquer mudança. Além do mais, observam que não há mais respeito ao outro, os testemunhos que se seguem:
[…] os vagabundos não respeitam mais; não se pode mais
retornar ao local onde se mora, na Meireles os ladrões pensam
que vamos olhar, espiar, são todos pivetes e hoje não respeitam
os mais velhos; antes os ladrões baixavam a cabeça quando
alguém da rua o reconhecia; hoje está difícil; […] a polícia civil
não respeita ninguém, invade as casas sem autorização: todo
dia na televisão a gente vê despreparo da Polícia; é excluído da
instituição, mas continua com a arma na cintura e atirando em
quem quer; nós corremos perigo no momento em que não tem
policiais nas ruas; […] acho que piorou, porque ninguém vem
aqui falar sobre o policiamento. Os políticos não olham para a
periferia.[…] Enquanto não acabar o desemprego, o pobre vai
continuar a roubar. Os assaltos, mortes, agressões, brigas de
família, as pobres construções, drogas, são coisas que
acontecem aqui e me deixam chateado. […] Gostaria de morar
em um lugar mais tranquilo, com pessoas mais tranquilas,
menos alcoolizadas e violentas. Porque já estou aqui há muito
tempo e não vi melhora nenhuma. Deixa a desejar já que
tiraram todos os postos e a Delegacia. Tem policiamento, mas
não é suficiente para a quantidade de pessoas;
[…] Com o crescimento de tráfico de drogas, no bairro a
situação vai piorar. O tráfico de drogas vai acabar mandando no
bairro. Se o tráfico de drogas se fortalecer, isto aqui vai parecer
um morro do Rio de Janeiro. O bairro está cada vez mais
violento e ninguém faz nada para mudar. O desemprego só fez
aumentar, e com fome muitos são obrigados a roubar e traficar
drogas;
[…] A violência do tráfico é muito pior e a tendência é eles se
fortalecerem no bairro. Nenhuma mudança significativa ocorreu
por aqui e a crise social se fez aumentar, portanto, tendência é
piorar. Alto índice de desemprego. Aumento da população;
[…] O policial que trabalha aqui na Liberdade deveria ser
rotativo. O salário não é compatível, ele fica viciado. Não tem
investimento na segurança. O investimento é feito na aparência.
Se continuar com este salário que está vai piorar. O que a gente
precisa é de pão e circo. O bairro cresce e os problemas vão
aumentando. Porque até agora não resolveram nada e daqui
pra frente vai piorar tudo. Não vejo os políticos se manifestarem
para melhorar;
[…] A curto prazo a tendência é piorar. Má remuneração, falta
de consciência dos governantes. Aumenta o número de
bandidos, o povo está ficando com fome, aumenta roubos,
assaltos e tudo mais.
A despeito dessas manifestações, para 25, 7 % dos chefes de família entrevistados, a tendência da segurança é para melhorar. Ressalve-se, contudo, que estes também já perderam as esperanças em um futuro melhor para a segurança pública. Assim, pode- se afirmar que a descrença no poder público atingiu 100 % dos chefes de família entrevistados, conforme se pode inferir das seguintes declarações:
[…] há a esperança, porque se acabar a esperança, acaba a
vontade de viver; […] se houver vontade política: os ‘cabras’
eleitos recebem votos e não fazem nada […] com o
melhoramento da educação, haverá mais diálogo sobre este
assunto, na escola se ouve mais sobre a segurança do bairro.
E, se a gente falasse mais sobre a segurança esse problema
seria melhor respondido.
Retendo uma visão de conjunto, podemos avaliar o futuro da segurança pública – segundo a totalidade dos policiais e dos chefes de família – como pessimista. O ponto de vista por eles expresso foi da mais absoluta desesperança e de um melancólico derrotismo, mormente pelo descrédito de uma tomada de posição por parte do governo quanto à resolução dos problemas da violência que atinge a todos indistintamente na sociedade.
Retomando algumas das observações que se consideraram mais relevantes, pode-se dizer que a insegurança social constitui uma das principais crises do Estado – senão a mais grave – que se relaciona diretamente não só com a omissão do Poder Público, como também com a ineficácia da Polícia na sociedade. Esta crise expressa o nível de insegurança individual e social, um profundo quadro de violência.