Polícia e sociedade: gestão de segurança pública e controle social
A insegurança nos bairros populares de Salvador
chefes de família entrevistados. 1 Suas declarações reafirmaram as precárias condições de vida dos extratos menos favorecidos economicamente no país. Do universo considerado, apenas 15,60% dos chefes de família declararam sentir-se seguros, segurança que decorre da sua capacidade individual de relacionamento com os policiais, com os marginais e os com traficantes do bairro. Tudo isto, conforme se tentará explorar mais adiante, no item peculiar aconteceria dentro dos padrões e das normas dos valores do mundo da ilegalidade, quer dizer, no contexto de uma cultura da violência.
A insegurança nos bairros populares de Salvador
Para as camadas populares, a violência se expressa, sobretudo, no medo de sofrer algo via terceiros. As precárias condições de moradia são, freqüentemente, mencionadas como: a falta de infra-estruturas urbanas básicas, a existência de barulho e, ainda, a falta de espaço para lazer dos filhos adolescentes, aspectos estes que constituem uma das principais características do cotidiano dos bairros populares.
Violência sofrida pelas camadas populares
Mais de 51% dos chefes de família entrevistados declararam que já tinham sofrido algum tipo de violência, como agressão pessoal ou contra o próprio patrimônio, além de outras formas recorrentes de comportamentos agressivos.
Os quadros que se seguem refletem o contexto da insegurança social, confirmando mais uma vez, a generalização deste fenômeno na sociedade brasileira e as problemáticas que impõem à gestão da segurança pública e à Polícia.
Tabela 25 - Violência Sofrida no Bairro Contra o Patrimônio. (Chefes
de Família)
Violência contra o Nº Freqüência
Patrimônio Citações
Roubo 27 81,8%
Furto de Veículo 4 12,1%
Outros 2 6,1%
Base 33 100,0%
Fonte: Pesquisa de Campo
No que se refere à violência sofrida pelos chefes de família
entrevistados (tabela 25), particularmente no que respeita ao seu patrimônio, constatamos que, para cerca de 81,8%, o roubo foi a modalidade mais referida, ficando muito abaixo as referências a furtos de veículos. Nos roubos referidos, queremos salientar fatos citados como arrombamentos de lojas e assaltos à mão armada que são freqüentes na vida cotidiana do bairro. Note-se, também, que apenas 33 chefes de família acederam a responder a esta questão, pelo que as conclusões sobre este tipo de violência sobre o patrimônio não podem ser generalizadas.
Os assaltos às mercadorias sempre acontecem com agressão física, como nos casos de furtos de relógios, peças de carros, roupas em varal e outros objetos do ambiente interno das moradias. Estes acontecimentos constituem o cotidiano de vida familiar nas áreas populares. Além disso, podem ser mencionados os roubos que ocorrem nas áreas externas das casas como quando são levados móveis e cadeiras, de entre outros pertences encontrados. Constata-se, portanto, que a insegurança em que vivem é concreta, envolvendo agressões através de assaltos com arma de fogo, ou não, seja durante o dia ou à noite. Existem lojas que registram até três assaltos por mês, à mão armada, com ameaça de morte.
A violência contra a pessoa, sofrida pelas camadas populares, se caracteriza por assaltos à mão armada, discussões com vizinhos, agressões físicas associadas a roubo de pertences pessoais.
São, também, freqüentes agressões físicas cometidas em assaltos, nos ônibus, com tiroteios, no uso de armas por policiais, para intimidar, em roubos na porta de banco, assaltos na rua e em agressões cometidas pelo próprio companheiro, entre outras situações.
O quadro seguinte (tabela 26) apresenta a freqüência dos depoimentos relativos à violência pessoal, sofrida pelos chefes de família, os quais reiteram a situação de insegurança em que vivem estes extratos sociais menos favorecidos economicamente na sociedade.
Tabela 26- Violência Sofrida no Bairro Contra Pessoa (Chefes de
Família)
Violência contra Pessoa Nº Cit. * Frequência
Homicídio 3 11,2%
Lesão Corporal 7 25,9%
Roubo no Ônibus 4 14,8%
Roubo no banco do bairro 2 7,4%
Briga de vizinhos 4 14,8%
Outros 7 25,9%
Base 27 100,0%
Fonte: Pesquisa de Campo.
(*) O número de citações é superior ao número de observações
devido às respostas múltiplas (6 no máximo).
Poder-se-ia dizer que estes fatos refletem a fragilidade em que se encontram os laços de vizinhança e de amizade que tão bem caracterizam as relações comunitárias tradicionais. Sendo de fato verdade, eles revelam e reiteram os referenciais concretos para a análise do nível de insegurança em que vivem as camadas populares, aquelas que mais sofrem com os problemas da violência nos centros urbanos do país.
Tabela 27 - Violência Sexual Sofrida no Bairro (Chefes de Família)
Violência Sexual Nº. Cit Freqüência
Estupro 2 100,0%
Outros 0 0,0%
Base 2 100,0%
Fonte: Pesquisa de Campo
Quando questionados sobre a violência sexual, os chefes de família preferiram não entrar em detalhes, o que se compreende. Um deles, contudo, fez menção ao que ocorrera com a primogênita, embora não fizesse de forma detalhada.
Em relação à violência sofrida no trânsito, os atropelamentos apresentaram a maior freqüência, conforme poderá ser visto na
tabela 28. Alguns dos depoimentos sobre esse tipo de violência sofrida pelos chefes de família foram expressos da seguinte forma:
[…] meu irmão morreu atropelado ao tentar atravessar a rua.
Ele estava vindo para casa, pela calçada, quando um táxi, em
velocidade, o pegou. Ele bateu a cabeça no poste, causando
traumatismo craniano;
[…] Aqui as ruas são estreitas e os carros estacionam no
passeio. Desse modo, somos obrigados a andar pelas ruas;