Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 9 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 9

Estava a perder a cabeça, sentado ali a olhar para os olhos dela.

Era necessária um a retirada estratégica. Afinal, ele não tinha qualquer intenção de casar.

Nunca.

9

Linnet foi deitar-se pensando na ruga profunda que Piers tinha entre as sobrancelhas.

Existiria ali porque ele tinha dores constantes, ou seria porque tinha um feitio desgraçado?

Apesar do seu bom senso, havia qualquer coisa na ferocidade dos olhos dele e nas rugas de

dor em torno da sua boca que a fazia querer arreliá-lo, fazê-lo rir, obrigá-lo a escutá-la.

O que era absurdo. Ele era um hom em que, claram ente, tinha tom ado a decisão de passar

a vida sozinho e, segundo todas as indicações, nunca pensara duas vezes no assunto.

No entanto, ela continuava pensando na testa dele e adorm eceu a im aginar um Piers cuj o

rosto se tinha suavizado com o riso, um Piers que não era Piers.

Acordou e viu aquela testa a franzir-se para ela.

— Nem sequer se virou quando eu entrei pesadam ente no seu quarto, com a bengala e

tudo. Falei com você duas vezes e lim itou-se a continuar aí deitada com esse sorrisinho

estranho no rosto.

— Que horas são? — m urm urou ela, zonza, afastando o cabelo da cara.

— Está a alvorecer. — Sentou-se à beira da cam a com o se fossem am igos de longa data.

— A m inha perna dói-m e com o o diabo, portanto, podifazendo o favor de se preparar para ir

nadar? E a única coisa que m e faz passar a dor.

— Nadar — disse ela, virando-se de lado, com um a m ão sob a face. Estava ainda m eio a

dorm ir e parecia- que ele tinha saído diretam ente do seu sonho.

— Pensa que vou nadar com você?

Ele enterrou os dedos na coxa.

— Despache-se. O Sol está a nascer.

— Dói assim tanto?

— A m assagem aj uda. — Parecia que estava a falar por entre dentes cerrados. — A

senhora cheira bem .

— Madressilva — disse ela, satisfeita com o cum prim ento. — Sabe, na verdade, o senhor

não devia estar no m eu quarto.

— Porque não? Se form os descobertos, o pior que pode acontecer é term os de nos casar

e, de qualquer m odo, j á se espera que nos casem os. Nestas circunstâncias... — Encolheu os

om bros.

Ela pensou que as circunstâncias eram , provavelm ente, a sua falta de virilidade. E ele tinha

razão quanto ao fato de ninguém poder supô-la arruinada se o hom em em questão era

incapaz de causar a ruína. Virou-se de costas e espreguiçou-se voluptuosam ente. — Realm ente, isto é engraçado.

— O quê? Ter um hom em no seu quarto? Com a sua reputação, pensava que isso fosse

um a segunda natureza.

— A sua reputação fez-m e pensar que o senhor seria espirituoso, por isso estam os am bos

surpreendidos. — Ela sentou- -se e balançou os pés para fora da cam a, pelo que ficaram

sentados lado a lado.

—Já teve m uitos hom ens no seu quarto? — perguntou ele, parecendo curioso.

— Nenhum . Nem sequer o putativo pai do m eu pretenso bebê. Para ser franca, não m e

im porto de estar sozinha com um hom em . Precisam ente no m om ento em que um a m ulher

se descontrai o suficiente para se sentir m inim am ente cordial, é garantido que ele salta em

cim a.

— Nunca tive essa experiência — disse ele, laconicam ente. — Pode fazer o favor de se

vestir? Prom eto não saltar em cim a.

— Qual é a pressa?

— A m aré está alta. A piscina está cheia e o Sol acabou de nascer. Confie em m im , esta é a

m elhor altura para nadar.

— Eu não vou tirar a roupa toda.

Ele voltou a encolher os om bros.

— Com o quiser. Mas, se levar saias com pridas, eu não vou m ergulhar para ir buscá-la ao

fundo da piscina.

— Levo a m inha chem ise — disse Linnet, sentindo-se subitam ente entusiasm ada. — E o

senhor... bem , tam bém tem de levar algum a coisa vestida.

— Posso levar calções interiores, se quiser — disse ele, parecendo não ter qualquer

interesse no assunto.

Linnet correu para trás do pequeno biom bo ao canto do quarto, fascinada por descobrir

com o era fácil estar com Piers. O fato de saber que ele não ia tentar beij á-la ou aj oelhar-se,

ou, pior que tudo, perder o controle e lançar-se num a espécie de com bate, tornava um prazer

estar com ele.

— Sabe — gritou ela, por cim a do biom bo, enquanto enfiava um vestido pela cabeça —,

não quero assustá-lo, m as o senhor é precisam ente o gênero de hom em com quem eu

gostaria de casar.

Ele grunhiu.

— Sinto que não está a babar-se em cim a de m im — disse ela, querendo explicar. — Sei

que não está a lam ber os beiços e fazendo um a im itação de Chapeuzinho Verm elho.

— Não seria eu o lobo, e não a m enina?

— Sabe o que eu quero dizer. — Saltou de trás do biom bo.

— Podia fechar-m e o resto do vestido? Sem a m inha criada, vestir-m e é m ais difícil do que

eu pensava.

Virou-se de costas e ele abotoou o vestido até acim a. Ela voltou a deleitar-se com um a

sensação de liberdade desconhecida.

— Ninguém disse que estar arruinada era tão divertido — disse ela, feliz. — Não tenho o

m ais pequeno m edo de que m e arranque os botões.

— Eu tenho a im pressão de que estar arruinado é geralm ente bastante m ais divertido do

que isto. Fala sem pre assim tanto? — resm ungou ele. — Por am or de Deus, vam os em bora.

Descreveram a últim a curva do cam inho; Piers colocou o sinal verm elho na vertical, e lá

estava ele.

O m ar estava, nesse dia, de um azul m ais escuro. E a piscina parecia tão plácida com o um

relvado bem tratado, m as, em vez de verde, o m ar refletia azul-turquesa para o céu. O sol

incidia obliquam ente na água, dourando as ondas m inúsculas que batiam na barreira entre

a piscina e o m ar.

— É tão lindo — exclam ou Linnet.

— Frio com o gelo, a esta hora — disse Piers. Estava a despir o casaco. Linnet desviou os

olhos para a piscina. Não estaria bem ... com ê-lo com os olhos quando ele, claro, não estava

fazendo- o m esm o.

Mas, um m inuto m ais tarde, ela não conseguiu evitar olhá-lo de novo.

Ele tinha despido a cam isa. Cam isa. Despida. Estava na presença de um hom em quase nu.

Bem , não era exatam ente o que parecia, m as... ele era belo. Pela prim eira vez em toda a sua

vida, pelo m enos nesta questão, tinha de adm itir que talvez a m ãe tivesse razão. Aqueles

m úsculos..

Ele tinha as costas viradas para ela e o m odo com o os seus om bros se m oviam , e depois o

m odo com o a parte superior do tronco se adelgaçava ao descer para a cintura e...

Ele estava a descalçar as botas!

Linnet não conseguia desviar os olhos. Estupidam ente, um a vozinha aguda na sua m ente

tinha com eçado a narrar a cena toda. Ele está a dobrar-se... Sim ! Vai tirar os calções. Está a

puxá-los sobre as ancas. Hm m m m ... o... o rabo dele é... — a voz parecia estar um tanto

estrangulada. — Diferente. Diferente do m eu. Musculado, tam bém . Ele... — a voz engasgou-

se outra vez.

— Irá virar-se para aqui?

— Que disparate, eu disse- que ia ficar com os calções interiores, não disse? Perante o

ronco de Piers, Linnet assustou-se com o se um a arm a se tivesse disparado.

Tinha de se controlar. Ele era im potente, por am or de Deus. E ela estava a com ê-lo com os

olhos da m aneira m ais escandalosa... com o se estivesse naquele bordel de que a tia falara.

Ela era um a pessoa horrível. Pervertida, na verdade.

Tirou os sapatos sem desatar os laços, puxando as m eias para baixo. Tinha de pensar

naquilo com o se estivesse a tom ar banho com ... com um irm ão. Era isso o que ele era. Além

disso, ela m antinha a chem ise vestida e ele tinha voltado a vestir os calções interiores. Ela

deu um a olhadela furtiva. Eram brancos e pareciam cobrir a área pertinente.

— Pode aj udar-m e outra vez com os m eus botões? — gritou ela.

Ele chegou-se ao pé dela por trás e Linnet pareceu sentir a pele a arder com o seu toque.

Se ele adivinhasse, ela cairia m orta de vergonha.

— Então com o se nada? — conseguiu dizer. — Salto lá para dentro e depois sei o que

fazer?

— Eu m ostro- — disse ele. — Vai sentir frio. Mete um dedo lá dentro e desata a correr

por aquele cam inho acim a.

Não, não desataria. Naquela altura, qualquer coisa fria seria um a boa ideia. Algo

acontecera à sua tem peratura interior e sentia-se verm elha com o um tom ate m aduro. Mas

estava a trem er.

— Vou saltar j á lá para dentro, sim ?

Ele com eçou a dizer qualquer coisa, m as ela pulou de im ediato para cim a da rocha plana que ele indicara na véspera e saltou. Por um segundo, houve um ím peto vertiginoso de ar.

A chem ise voou para cim a e depois... oh, m eu Deus... nunca sentira tanto frio na sua vida. O

frio passou por ela enquanto ela se afundava, com o se gelo afagasse todo o corpo, com o se

os ossos tivessem congelado.

Um instante depois, um braço forte envolveu a cintura e ela sentiu a água a correr na outra

direção. Rom peu a superfície da água, espantada, e inspirou um grande gole de ar, m al

acreditando que ainda estava viva.

— Sua grande palerm a! — estava Piers a gritar. Estava viva. Não... estava apenas

parcialm ente viva, porque nunca tinha tido tanto frio na sua vida. A única coisa quente no

m undo inteiro era o corpo j unto ao dela.

— Estou ge-gelada — balbuciou, enrolando os braços em volta do pescoço e colando o

corpo ao seu. Era bom . Ele estava outra vez a gritar, m as ela tinha água nos ouvidos e não

ouvia m uito bem . Era m elhor assim , os braços e as pernas enrolados em volta dele. E ele

ainda tinha um braço à volta dela, tam bém .

De repente, ela conseguiu com preender o que ele estava a dizer.

— Não quero largá-lo — disse ela, abanando o cabelo m olhado para o afastar da cara,

porque não queria tirar nem um braço do corpo dele. — Eu vou ficar gelada. Ou afogar-m e.

O senhor está qu... quente.

— Nadar, lem bra-se? — disse ele. Tinha os dentes cerrados, o que parecia sugerir que ele

tinha tanto frio com o ela. Mas não estava habituado a ele?

— Eu sei que está aqui para nadar — disse ela. — Diga-m e com o se faz, e eu... e eu penso

nisso. — De fato, ela não ia largá-lo até estarem fora da piscina com pletam ente.

Mas ele afastou, desapiedadam ente, o corpo dela do seu. Ela ofegou com a perda do calor

e os seus dentes recom eçaram instantaneam ente a bater.

— Precisa de aprender a boiar — rosnou ele. Havia algo horrivelm ente sinistro no seu

tom de voz.

Ela aprendeu a boiar com toda a facilidade.

— Vou m orrer assim , está bem ? — disse ela, o rosto rodeado — por água gelada, os dentes

a baterem com o castanholas.

— Acho que é m elhor sair agora — disse ele, parecendo exasperado.

— Aqu... aqueça-m e prim eiro — disse ela.

Com um palavrão abafado, puxou-a contra você. Foi tão m aravilhoso com o da prim eira

vez. Com um suspiro de alívio, pôs a cabeça no om bro e deixou a incrível fornalha do seu

corpo penetrar- nos poros. Mas, um segundo depois, braços fortes estavam em volta da sua

cintura, erguendo-a no ar e depositando-a na borda da piscina. Ela levantou os pés para cim a.

— As toalhas estão ali — gritou ele.

Ela olhou para ele, tão aturdida que, a princípio, não percebeu o que ele estava a dizer. Na

água, Piers sentia-se em casa, no seu elem ento. Enquanto ela o observava, ele girou e deu

im pulso na parede da rocha, deslocando-se à superfície da água até m eio da piscina. Prim eiro

um braço e depois o outro em ergiram da água, e depois ele afastou-se com o um raio, bolhas

a redem oinharem atrás dele. Havia três toalhas. Linnet pegou num a e enrolou-a em volta do

seu tronco tiritante, depois pegou noutra e enrolou-a em volta do cabelo. Regressou à rocha

e observou Piers a cortar a água, um a piscina a seguir à outra.

Ele não dava sinais de parar, por isso ela voltou atrás, pegou na terceira toalha e depois

de arranj ar um lugar na borda da piscina, enrolou nela os pés e os tornozelos.

Depois disso, sentou-se, com pletam ente envolta em toalhas à exceção do rosto, e

observou as superfícies largas das costas e dos om bros de Piers, enquanto ele percorria

velozm ente a piscina para um lado e para o outro.

Pouco a pouco, o seu corpo aqueceu, porque ela continuava sentada com o num casulo, e

o sol da m anhã derram ava-se sobre ela. Se a visse, Mrs. Hutchins desm aiaria. Desm aiaria?

Teria um ataque de apoplexia. Não só Linnet estava sentada ao lado da água, vestida com nada m ais do que um a chem ise, m as havia um hom em quase nu a pouco m ais que a distância

de um braço.

Nesta situação, um as sardas pareciam não ter tanta im portância, por isso ela inclinou a

cabeça para trás e bebeu o sol e o céu azul transparente. Estava tão longe, acim a da sua

cabeça, que ela não conseguia im aginar onde term inava. Muito, m uito lá em cim a, um a ave

m arinha descrevia círculos preguiçosos, talvez à procura de um peixe.

Piers tocou na borda, contou cinquenta piscinas. Não parou, apenas deu um a cam balhota

e nadou para o outro lado. O seu corpo estava tom ado de um a espécie de energia febril que

não exigia o grau de m édico para ser diagnosticada. Sessenta piscinas. Estava exausto, m as

ainda havia um rio de lava derretida sob a sua pele.

Por fim , içou-se para fora da água, os olhos a irem diretam ente para Linnet. Ela tinha a

cabeça inclinada para trás e o seu pescoço era crem e pálido ao sol. A toalha

tinha- escorregado do cabelo, que estava espalhado sobre o tecido branco em caracóis de

um ruivo-escuro.

Enquanto ele estava, dificilm ente, a tentar controlar-se, ela soergueu-se e abriu os olhos.

— Lam ento m uito quase o ter afogado — disse ela, os olhos a lançarem aquele sorriso

secreto que ele...

Bem , que ele gostava de ver.

— Na realidade, não tencionava — continuou ela. — E que o senhor está m uito m ais

quente que eu.

Ele estava quente, porque um sensual corpo fem inino se enrolara a ele, agarrando-se

com o algas a um a corda.

— Agora parece estar bastante quente — disse ele, ouvindo o tom áspero da sua própria

voz. Bem , não é que ela não percebesse porque parecia ele tão zangado. Graças a Deus, pela

sua reputação.

Ela pestanej ou.

— Eu tirei as toalhas todas! O senhor deve estar gelado.

— Levantou-se, o que fez as toalhas caírem ao chão.

Seria um sacrilégio cham ar àqueles seios glândulas m am árias. Eram gloriosos, roliços,

dóceis... A chem ise era transparente com a água. Colava-se às ancas, a um sítio escuro, lindo,

entre as suas pernas.

— Olhe, tom e um a destas — disse ela. Atirou- um a toalha e ele conseguiu apanhá-la e

enrolá-la à volta da cintura.

— Sabe? — Ela olhou-o e subiu- às faces um pequeno brilho colorido.

— O quê? — disse ele, voltando a arranj ar-se discretam ente e a apertar m ais a toalha à

volta da cintura.