Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 6 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 6

do quarto.

6

Nessa noite, ao j antar, o pai de Linnet relatou que o duque de Windebank se tinha atirado

à sua proposta com um a velocidade m uito pouco digna.

— Aparentem ente sabia tudo a seu respeito. E Zenobia, era óbvio que você tinhas razão.

Ele ficou im pávido, se não intim am ente deliciado, perante o rum or do pequeno escândalo da

Linnet.

— A Linnet andava nas bocas da alta sociedade m uito antes dos infelizes acontecim entos

da últim a noite.

— Ele não estava tão interessado na sua beleza com o na sua educação, acredites ou não.

Eu disse- que a Linnet tinha a m esm a educação que qualquer m enina devia ter e que era a

m ulher m ais inteligente que eu conhecia, e isso fê-lo calar-se. Não com você im aginar porque

nunca voltou ele a casar. A m ulher raspou-se para França há uns anos, não foi? E tam bém

levou o rapaz com ela.

— Ela era francesa, claro. E ele conseguiu o divórcio — esclareceu Zenobia. — Constou

que custou duas m il libras esterlinas com prar a liberdade. E depois nunca fez nada com ela.

— Abanou a cabeça. — Podia ter tido qualquer quantidade de possíveis herdeiros.

— Eu não gosto nada de toda esta prom oção da m onarquia — disse Lorde Sundon.

— Absolutam ente obcecado com o assunto da m onarquia, se querem saber. Disse-m e que

um tio-tetravô do lado do pai era íntim o do rei Henrique VIII.

— Não foi esse que teve seis m ulheres? — perguntou Linnet.

— Teve-as e assassinou-as — respondeu Zenobia com deleite, brandindo o garfo. — Tal

com o a história do Barba Azul, só que foi tudo verdade.

— Sej a com o for, o Windebank está feliz porque tem o sangue dos Tudor nas veias e agora

vai ter tam bém o sangue dos Hanoverianos através da nossa Linnet.

O visconde tinha um ar m uito m ais feliz do que nessa m anhã.

— Tudo está bem quando acaba bem — concluiu ele, acabando o seu copo de vinho.

— Um dia, havem os de recordar todo este episódio e havem os de nos rir.

Linnet não conseguia bem im aginá-lo.

— Calculo que tenhas enviado um a nota ao príncipe — disse Zenobia a Linnet. Ela assentiu

com a cabeça, apesar de não ter feito nada do gênero.

— Vou encontrar-m e com ele hoj e à noite em Vauxhall.

Na verdade, planeava dorm ir um a bela soneca na carruagem enquanto ela andasse às

voltas por Londres.

— Vauxhall? — perguntou Zenobia, duvidosa. — Felizm ente está um a bela noite, m as parece um local estranho para um encontro. Seria de esperar que ele te levasse para qualquer

pavilhão real.

— Provavelm ente é o que vai fazer — disse o pai. — Só tens de estar de volta de m anhã.

O Windebank quer conhecer-te. Eu disse- que querem os enviar-te para Gales o m ais

depressa possível. Não há interesse em ficares por Londres.

Em casa deles, a m ãe tinha sido alvo de todas as críticas pelas suas indecências. Mas, por

vezes, Linnet pensava que o pai era igualm ente indecente de um a m aneira diferente. Um a

m aneira m ais desprezível, verdade fosse dita.

— Acho que tudo isto vai resultar m elhor do que se tivesse acontecido de form a diferente

— continuou o pai. — Afinal, o Augustus nunca podia, ter casado contigo. E não há um único

duque disponível este ano. Um dia, o Marchant vai ser duque.

— Podia ter arranj ado algo m elhor do que um lírio coxo — observou Zenobia. — O duque

vai arranj ar um a licença especial?

O visconde acenou com a cabeça.

— Claro. Vai trazê-la am anhã. E enviou um m ensageiro a Gales esta tarde, de m odo que o

filho possa ser avisado. Não é m uito norm al obter m ulher e filho sem aviso prévio, com o

sabes.

— Tens de te certificar de que o casam ento se realiza depressa — disse Zenobia — para o

caso de a visita de Linnet a Vauxhall esta noite não ter o efeito desej ado.

— Bem , relativam ente a isso... — disse o pai.

Perante o tom de voz do pai, Linnet ficou tensa. Ela sabia, tinha-o ouvido um m ilhão de

vezes.

— Pai, não pode sim plesm ente m andar-m e lá sem um a dam a de com panhia — disse ela,

furiosa.

— Odeio evocar um a verdade dolorosa, m as j á não precisas de um a dam a de com panhia

— disse ele, evasivam ente. — Em bora possam os convencer Mistress Hutchins a

acom panhar-te, se insistires.

Zenobia estreitou os olhos.

— Estás a querer dizer-m e, Cornelius, que estás pensando m andar a sua filha única para

as regiões selvagens de Gales sem escolta?

— Não é boa altura para eu sair de Londres — disse o visconde Sundon, com eçando a

gabar-se.

— Não m e sinto bem fazendo um a viagem tão grande sozinha, especialm ente indo

encontrar-m e com um Monstro — disse Linnet. Manteve a voz baixa, m as firm e,

precisam ente com o a m ãe teria feito. E, exatam ente para ter a certeza absoluta de que ele a

percebia, fitou-o com um olhar furioso que aprendera com a tia.

— O conde de Marchant tem sido inj ustam ente caluniado— explicou o pai. — O pai

contou-m e tudo. Ele é um m édico brilhante, sabem . Lem bram -se de que a m ãe o levou para

França; bem , ele tirou lá um curso universitário. Depois voltou para aqui e fez o m esm o em

Oxford e depois foi adm itido no Colégio Real de Médicos com vinte e três anos de idade, o

que é praticam ente inédito, e depois foi para Edim burgo e fez lá qualquer coisa, ou talvez

tenha feito isso antes do Colégio...

— Cornelius — disse Zenobia, interrom pendo a sua fanfarronada —, você é um covarde

precioso.

— Não sou covarde! — exclam ou o visconde. — Tenho coisas im portantes fazendo aqui

na cidade. Para que saibam , vai haver reunião na Câm ara dos Lordes, e eu sou m uito

im portante, m uito im portante m esm o. A m inha opinião é necessária, essencial.

— És um covarde a encolher-se — disse Zenobia. — Não, queres lá ir e enfrentar o

Monstro você próprio, em bora estej as a m andar a sua filha, a sua filha grávida, para o cam po,

para casar com ele.

Agora que Zenobia se tinha apoderado da história, Linnet com eçou a sentir-se com o um a

daquelas donzelas que andavam à volta do Rei Artur e, invariavelm ente, davam com você

nos anéis de um a enorm e serpente. A tia transform ava frequentem ente qualquer

acontecim ento num m elodram a, em bora tivesse de se adm itir que aquilo era digno de um

pequeno dram a.

— Estás a pôr a sua filha à m ercê de um selvagem — acusou Zenobia, com a voz a elevar-

se.

De um a form a bastante surpreendente, o visconde não se atem orizou.

— Já decidi. Não vou a Gales.

Linnet conhecia aquele tom de voz m al-hum orado; não iria.

— Porque não? — perguntou ela, antes de Zenobia poder introm eter-se.

— Eu não sou um proxeneta da m inha filha — troou o pai.

— Posso ter sido um cornudo para a m inha m ulher, m as não vou aum entar a m inha

vergonha sendo proxeneta da m inha filha única.

— Já o fez — respondeu bruscam ente Linnet. — Negociou-m e esta tarde, m entindo sobre

o bebê que todos nós sabem os que eu não trago no ventre.

O m axilar de Lorde Sundon ficou rígido.

— A sua m ãe nunca teria falado com igo dessa m aneira.

Era verdade. Linnet não se lem brava de um a única ocasião em que a voz de Rosaly n

tivesse perdido o seu tom doce, m usical. Enquanto a voz de Linnet rangia com a raiva que

não conseguia conter dentro de você.

— Lam ento desiludi-lo, m as o tom da m inha voz não altera a verdade.

— A verdade é que todas as raparigas são negociadas de um a form a ou de outra — disse

Zenobia. — Mas eu acho, realm ente, que devias acom panhar a pobre Linnet, Cornelius. O que

acontece se o Marchant olha para a m enina e recusa casar com ela?

— Não o fará — disse Sundon com frieza. — Todos nós sabem os...

Nesse m om ento, a porta abriu-se e Tinkle entrou.

— Sua Graça, o duque de Windebank, solicita a sua atenção.

— A esta hora? — perguntou o visconde.

— Ele está lá fora? — perguntou Zenobia.

Parecia que o duque estava realm ente na sua carruagem , à espera de saber se Lorde

Sundon podia conceder- um m om ento.

— Manda-o entrar — disse o visconde. Depois, virando-se para Linnet: — Acho que ele

não conseguiu esperar por am anhã para te conhecer.

— Ele não m e pode ver — disse Linnet, alarm ada. Olhou para o seu perfil esguio. — Com

este vestido não tenho qualquer evidência de descendência real.

— Eu disse- que quase não se via — disse o pai. — Senta-te depressa. E m elhor recebê-lo

na sala de estar cor de rosa.

O duque de Windebank devia ter sessenta anos, m as parecia m ais novo e era m uito

atraente. Tinha um perfil real, digno de um a m oeda, o que parecia adequado à sua classe

social. Um a m oeda rom ana, concluiu Linnet.

— Miss Thry nne — disse ele, fazendo um a reverência. — A m enina é tão bela com o as

pessoas a descreveram .

Linnet fez um a reverência, calculando-a com a inclinação precisa para indicar respeito por

um duque.

— Tenho m uita honra em conhecê-lo, Vossa Graça.

— Ora — disse ele, voltando-se de novo para o pai e para a tia de Linnet. — Tom ei sozinho

a iniciativa de vos interrom per a esta hora porque decidi escoltá-la pessoalm ente, Miss

Thry nne, a Gales. O m eu filho é um hom em brilhante, absolutam ente brilhante.

Fez um a pausa.

— Mas tem fam a de irascibilidade — disse Zenobia, dando- a sua versão do sorriso de

fam ília. — Faça favor de se sentar, Vossa Graça.

Apesar do seu aspecto j ovem , o duque rangeu quando se sentou, com o um a cadeira

deixada lá fora à chuva. Os seus olhos ficaram subitam ente vigilantes.

— O m eu filho tem sido m uito caluniado.

— Sugiro que dispensem os as form alidades — disse Zenobia, sentando-se com m uita

atenção ao drapeado da sua roupa. — Afinal, em breve vam os ser fam ília. Lorde Marchant

pode ficar m uito surpreendido, se não chocado, com a chegada da sua noiva e é natural que

Vossa Graça desej e acom panhar a querida Linnet.

— Bem , está com binado — disse o pai de Linnet, dispensando qualquer fingim ento de

relutância.

O duque desviou os olhos do visconde para Zenobia.

— Miss Thry nne vai viaj ar com um a dam a de com panhia? A senhora, talvez, Lady

Etheridge?

— Não há necessidade — respondeu Zenobia anim adam ente.

— Ela está arruinada. Não vale a pena vigiar um estábulo vazio, por assim dizer. Gostarias

de levar contigo Mistress Hutchins, m inha querida? — perguntou ela a Linnet.

Linnet olhou do pai para a tia e algo fam iliar feriu a região do coração. Mas era um a dor

antiga, um a dor fam iliar e foi facilm ente posta de lado.

— Acho que não — disse ela. — Se não se im porta, Vossa Graça, vou sozinha, com a m inha

criada, claro. Com o diz a m inha tia, as circunstâncias sugerem , decerto, que não é necessário

levar dam a de com panhia.

O duque acenou com a cabeça.

— Se m e dão licença — disse Linnet, levantando-se —, tenho um encontro em Vauxhall.

Os cavalheiros puseram -se rapidam ente de pé e Zenobia sucedeu , depois de aceitar (de

um m odo extrem am ente teatral) a aj uda do duque para se levantar.

Depois disso, Linnet subiu para a carruagem da fam ília, dando instruções ao cocheiro, Stubbins, para dar voltas por Londres, onde quer que apetecesse, e deixando os seus