Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 5 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 5

— Isso está na natureza dos lordes. Realm ente. Só os pobres é que se preocupam com a

honestidade nos dias que correm .

5

Linnet saiu da sala e dirigiu-se im ediatam ente ao quarto da m ãe, o único lugar onde tinha

a certeza de não ser incom odada.

Não havia m udado m uita coisa desde que a m ãe m orrera. Continuava a ser o m esm o

boudoir florido de quando Rosaly n era viva, sem a coisa m ais im portante: a pessoa cintilante,

encantadora, que o tinha tornado seu.

Que tinha feito o m arido am á-la, por m uito infiel que fosse. Que tinha feito todos aqueles

outros hom ens am á-la tam bém .

Que tinha am ado Linnet por m ais do que a sua beleza.

Linnet sentou-se ao toucador exatam ente com o fizera quando tinha apenas catorze anos,

destroçada pela m orte súbita da m ãe. Havia pó sobre as escovas de prata; tinha de lem brar

a Tinkle que se certificasse de que as criadas lim pavam os quartos convenientem ente.

Tocou em cada um a delas, recordando a m aneira com o a m ãe se sentava no seu

banquinho, escovando o cabelo e rindo-se a bom rir com o que quer que Linnet contasse.

Nunca ninguém se ria das suas piadas com o a m ãe. Rosaly n tinha o dom de fazer qualquer

pessoa sentir-se a pessoa m ais espirituosa do m undo.

Linnet suspirou. A m ãe teria gostado da piada sobre a fragata ligeira a entrar no cais. E

depois teria posto um bocadinho de perfum e e corrido para ir ter com algum hom em

querido, delicioso, os olhos ainda a brilhar.

Finalm ente, Linnet tirou o dedo da escova de prata e levantou a cabeça. O retrato de

Rosaly n sorria, com um a covinha, lá da parede. Linnet sorriu e, sem sequer olhar para o

espelho que estava à sua frente, sabia que tinha aparecido na sua face precisam ente a m esm a

covinha. Precisam ente os m esm os caracóis, com o prim averas pálidas. Os m esm os grandes

olhos azuis, a m esm a boca travessa de cerej a, o m esm o...

O m esm o, não.

Oh, ela tinha o encanto da m ãe. Sabia-o. Era capaz de lançar um sorriso cintilante a um

hom em exatam ente com o a m ãe, e só um hom em esquisito não ficaria com um a expressão

levem ente vidrada nos olhos. Zenobia cham ava- o sorriso da fam ília dizia que era a m aior

herança delas. Mas o que Linnet não fez foi...Continuar.

Ela nem sequer gostava de ser beij ada, verdade fosse dita. Os beij os eram suj os e a saliva...

bem , a saliva era noj enta.

Sem pre pensara que um dia um hom em entraria lentam ente no salão de baile e ela

Com preenderia que era o único que podia tolerar beij ar. Mas não apareceu nenhum que

desencadeasse essa com preensão, nem um a única vez durante a tem porada. Era por isso que

nam oriscava tão loucam ente com o príncipe.

Um a m enina que nam ora com um príncipe é geralm ente dispensada de nam oriscar com

outros hom ens, que percebiam exatam ente a razão, por isso ela não estava a ser indelicada.

Além disso, nos seus m om entos livres, lançava geralm ente sorrisos cintilantes para m anter

um a porção deles à sua volta. Fazia-a sentir-se com o se estivesse no palco, ao estilo de

Zenobia.

Quem poderia pensar que a coisa m ais im portante de todas — essa qualidade da m ãe que

praticam ente a definira — não existiria, tão explicitam ente, na única filha de Rosaly n?

E, no entanto, assim era.

Não só não desej ava hom ens, com o nem sequer gostava m uito deles.

Eram grandes e peludos e tinham tendência a cheirar m al. Mesm o o pai, que ela am ava,

agia com o um m iúdo. Queixava- -se e choram ingava e com portava-se do m odo m ais

enfadonho. Eram todos com o m iúdos, pensava ela. E quem podia desej ar um m iúdo?

A voz da m ãe soava- na cabeça e ela respondia- com irritação: com dotes de cavalo ou

não, os hom ens continuavam a ser criaturas patéticas.

Mas isso fê-la pensar num a coisa. Se Piers era im potente, então...

Então, era im potente.

Não teriam de se beij ar. Ela não teria de suportar tudo o que im plicava um hom em com

dotes de cavalo, que (obrigada, m ãe!) a revoltara e tanto horrorizara durante anos.

Tudo o que tinha de fazer era parecer estar à espera de bebê o tem po suficiente para casar

com ele e depois fingir que tinha perdido a criança.

Ainda não encontrara um hom em que ela não tivesse sido capaz de encantar e de pôr de

bom hum or. Aprendera aos pés de um a m estra, afinal. A m ãe tinha m antido o pai com

disposição afável — m esm o depois de ele ter de pôr fora de casa o tutor francês de Linnet e

de expulsar da sua cam a nova outro am ante.

De fato, ela podia arranj ar um argum ento racional para casar com Piers. Um a razão é que

nunca haveria de o enganar. (Um hom em com o problem a dele tinha de recear essa

possibilidade.)

Ela era o m elhor que ele podia ter esperado: bela e casta. Na realidade, praticam ente

estofo de santidade.

Levantou-se e lançou um últim o olhar em redor do quarto da m ãe.

— Tenho saudades suas — disse ela ao retrato risonho que estava na parede. — Muitas

saudades. — Mas as palavras causaram - um aperto no coração, pelo que se apressou a sair