Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 5
— Isso está na natureza dos lordes. Realm ente. Só os pobres é que se preocupam com a
honestidade nos dias que correm .
5
Linnet saiu da sala e dirigiu-se im ediatam ente ao quarto da m ãe, o único lugar onde tinha
a certeza de não ser incom odada.
Não havia m udado m uita coisa desde que a m ãe m orrera. Continuava a ser o m esm o
boudoir florido de quando Rosaly n era viva, sem a coisa m ais im portante: a pessoa cintilante,
encantadora, que o tinha tornado seu.
Que tinha feito o m arido am á-la, por m uito infiel que fosse. Que tinha feito todos aqueles
outros hom ens am á-la tam bém .
Que tinha am ado Linnet por m ais do que a sua beleza.
Linnet sentou-se ao toucador exatam ente com o fizera quando tinha apenas catorze anos,
destroçada pela m orte súbita da m ãe. Havia pó sobre as escovas de prata; tinha de lem brar
a Tinkle que se certificasse de que as criadas lim pavam os quartos convenientem ente.
Tocou em cada um a delas, recordando a m aneira com o a m ãe se sentava no seu
banquinho, escovando o cabelo e rindo-se a bom rir com o que quer que Linnet contasse.
Nunca ninguém se ria das suas piadas com o a m ãe. Rosaly n tinha o dom de fazer qualquer
pessoa sentir-se a pessoa m ais espirituosa do m undo.
Linnet suspirou. A m ãe teria gostado da piada sobre a fragata ligeira a entrar no cais. E
depois teria posto um bocadinho de perfum e e corrido para ir ter com algum hom em
querido, delicioso, os olhos ainda a brilhar.
Finalm ente, Linnet tirou o dedo da escova de prata e levantou a cabeça. O retrato de
Rosaly n sorria, com um a covinha, lá da parede. Linnet sorriu e, sem sequer olhar para o
espelho que estava à sua frente, sabia que tinha aparecido na sua face precisam ente a m esm a
covinha. Precisam ente os m esm os caracóis, com o prim averas pálidas. Os m esm os grandes
olhos azuis, a m esm a boca travessa de cerej a, o m esm o...
O m esm o, não.
Oh, ela tinha o encanto da m ãe. Sabia-o. Era capaz de lançar um sorriso cintilante a um
hom em exatam ente com o a m ãe, e só um hom em esquisito não ficaria com um a expressão
levem ente vidrada nos olhos. Zenobia cham ava- o sorriso da fam ília dizia que era a m aior
herança delas. Mas o que Linnet não fez foi...Continuar.
Ela nem sequer gostava de ser beij ada, verdade fosse dita. Os beij os eram suj os e a saliva...
bem , a saliva era noj enta.
Sem pre pensara que um dia um hom em entraria lentam ente no salão de baile e ela
Com preenderia que era o único que podia tolerar beij ar. Mas não apareceu nenhum que
desencadeasse essa com preensão, nem um a única vez durante a tem porada. Era por isso que
nam oriscava tão loucam ente com o príncipe.
Um a m enina que nam ora com um príncipe é geralm ente dispensada de nam oriscar com
outros hom ens, que percebiam exatam ente a razão, por isso ela não estava a ser indelicada.
Além disso, nos seus m om entos livres, lançava geralm ente sorrisos cintilantes para m anter
um a porção deles à sua volta. Fazia-a sentir-se com o se estivesse no palco, ao estilo de
Zenobia.
Quem poderia pensar que a coisa m ais im portante de todas — essa qualidade da m ãe que
praticam ente a definira — não existiria, tão explicitam ente, na única filha de Rosaly n?
E, no entanto, assim era.
Não só não desej ava hom ens, com o nem sequer gostava m uito deles.
Eram grandes e peludos e tinham tendência a cheirar m al. Mesm o o pai, que ela am ava,
agia com o um m iúdo. Queixava- -se e choram ingava e com portava-se do m odo m ais
enfadonho. Eram todos com o m iúdos, pensava ela. E quem podia desej ar um m iúdo?
A voz da m ãe soava- na cabeça e ela respondia- com irritação: com dotes de cavalo ou
não, os hom ens continuavam a ser criaturas patéticas.
Mas isso fê-la pensar num a coisa. Se Piers era im potente, então...
Então, era im potente.
Não teriam de se beij ar. Ela não teria de suportar tudo o que im plicava um hom em com
dotes de cavalo, que (obrigada, m ãe!) a revoltara e tanto horrorizara durante anos.
Tudo o que tinha de fazer era parecer estar à espera de bebê o tem po suficiente para casar
com ele e depois fingir que tinha perdido a criança.
Ainda não encontrara um hom em que ela não tivesse sido capaz de encantar e de pôr de
bom hum or. Aprendera aos pés de um a m estra, afinal. A m ãe tinha m antido o pai com
disposição afável — m esm o depois de ele ter de pôr fora de casa o tutor francês de Linnet e
de expulsar da sua cam a nova outro am ante.
De fato, ela podia arranj ar um argum ento racional para casar com Piers. Um a razão é que
nunca haveria de o enganar. (Um hom em com o problem a dele tinha de recear essa
possibilidade.)
Ela era o m elhor que ele podia ter esperado: bela e casta. Na realidade, praticam ente
estofo de santidade.
Levantou-se e lançou um últim o olhar em redor do quarto da m ãe.
— Tenho saudades suas — disse ela ao retrato risonho que estava na parede. — Muitas
saudades. — Mas as palavras causaram - um aperto no coração, pelo que se apressou a sair