Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 4
verdade, durante os anos anteriores, m as Linnet não foi capaz de o dizer.
— Eu não vou a nenhum bordel — afirm ou.
— Nesse caso — disse Zenobia alegrem ente —, sugiro que te sentes e escrevas um a
notinha a esse príncipe travesso. Fazes bem em preferires Augustus ao bordel, realm ente.
Um a pessoa odeia com eçar o casam ento com um a m entiria que envolva bebês. O casam ento
leva-nos a um as m entirias inofensivas pela própria natureza da vida: todas essas tentações.
Encom endam -se sem pre dem asiados vestidos, gasta-se em , excesso. Já para não falar nos
hom ens. — Beij ou as pontas dos dedos.
— Mas eu queria...
— Estou tão contente por não estar casada neste m om ento — disse Zenobia. — Não que
estej a feliz por o querido Philip ter m orrido, claro. Ah, bem ...
Zenobia desapareceu.
E o que Linnet queria do casam ento j á não era um a questão passível de discussão.
4
— Deves estar a brincar — disse Piers a Prufrock. — Eu enviei ao m eu pai um a lista de
requisitos para um a m ulher que enchia um a página.
— Deu um a leitura fascinante — disse Prufrock. — Eu apreciei especialm ente aquela
parte em que adm itia a sua incapacidade na cam a. E a m ancha de lágrim a m esm o ali na
página...
— Não foi um a lágrim a — explicou Piers, irritado. — Foi brande, palerm a.
— Ah, bem — disse Prufrock. — Porque odeio pensar que se pôs a chorar em cim a da
carta. Quando podia estar a gem er na sua cam a solitária.
— Porque havia eu de não gem er? — questionou Piers, perguntando-se se havia de beber
outro copo. — Hás de m ostrar-m e o hom em com um a lesão com o a m inha que não tenha o
coração despedaçado por causa do futuro atroz que tem pela frente.
— Atroz e atro — corrigiu Purfrock. — Não perca o seu toque alterativo agora,
precisam ente no m om ento do clím ax.
O desespero por nunca ter tido um a boa m ulher ao seu lado, a am argura por saber que
nunca terá um a m ãozinha peganhenta a enrolar o polegar, o... Ou chegar aquilo que
interessa realm ente, anos sem dar um a queca — disse Prufrock.
— Isso é um a tentativa para m e sentir m elhor?
— Não é tão bom com o se diz — com entou ele, com inequívoca falta de convicção.
— Onde frequentaste a escola? — inquiriu Piers. — Você é culto dem ais para m ordom o.
A m aioria dos m ordom os que conheço diz coisas com o Com o desej ar, m eu senhor, e ficam
por aí. A nossa conversa devia ser assim : Prufrock, traz-m e um a m enina. E depois você devias
dizer Com o desej ar.
— Qual seria a vantagem ? — perguntou Prufrock. — Nestas circunstâncias?
— Boa observação — m urm urou Piers. — Bem , acho que vou nadar. A m aré está cheia.
Saiu do castelo pela porta oeste, ainda a cogitar no m ordom o. Com o pensava desde que o
contratara há um ano atrás, o hom em devia estar ao serviço do pai, isto é, devia ser um
espião. Era evidente.
Mas onde raio é que o velho conseguira encontrar um m ordom o assim , um m ordom o
com o Prufrock, com sentido de hum or e um a língua m ais afiada do que o próprio Piers? Em
sum a, provavelm ente, o único m ordom o no m undo que Piers conservaria no castelo m esm o
sabendo que era um m aldito espião?
A única possibilidade era o pai saber ou perceber realm ente algum a coisa sobre ele e, um a
vez que isso era im possível, pôs de parte a ideia.
A piscina estava escavada na rocha à beira-m ar e ficava cheia na m aré alta, m as protegida
do pior das ondas. Era um cenário m agnífico, um lago na rocha a brilhar, azul-safira,
enquanto a luz com eçava a desvanecer-se. O m ar tinha acalm ado com o acontecia m uitas
vezes ao crepúsculo e ele ficou parado por uns m om entos a olhar para lá da piscina para o
m odo com o o m ar se encrespava continuam ente, seguindo um tértue rasto dourado de luz.
Depois, abanou-se e despiu a roupa. Se ele aprendera algum a coisa sobre a sua perna nos
anos anteriores era que, se não fizesse exercício todos os dias, doía- com o o diabo. Na
véspera não tinha nadado e nesse dia estava a sofrer as consequências. Não que em
geral doesse, m as sem nadar ficava com um a dor que não conseguia suportar sem pensar
em opiláceos. Não eram bons, nem esses m om entos, nem os opiláceos.
Mergulhou de cim a de um a rocha, m uito fundo, sentindo o cabelo a soltar-se — raio,
esquecera-se de tirar a fita outra vez — e o corpo a deleitar-se enquanto a perna se m ovia
livrem ente sem transportar o peso do corpo. Sem pensar, com eçou a im pulsionar-se para a
frente, avançando através da água com um a velocidade que não conseguia em terra;
Braçada após braçada, continuava, dez piscinas, vinte... às cinquenta estava cansado, m as
obrigou-se fazendo outras dez, e depois içou-se para cim a das rochas com um m ovim ento
suave, a água a escorrer dos om bros e dos braços. Antes da lesão, nunca prestara m uita
atenção ao corpo. Agora sentia-se satisfeito com a força dos om bros e do tórax. Em bora o
m édico que havia nele soubesse que aquilo não passava de vaidade sem qualquer valor.
— Meu senhor — disse um j ovem lacaio, avançando e estendendo- um a grande toalha.
Piers levantou os olhos para ele.
— Você é novo. Com o te cham as?
— Ney then, m eu senhor.
— Soa a um a doença terrível. Não, m ais com o um problem a intestinal. Lam ento, Lorde
Sandy s, o seu filho contraiu ney then e não terá nem um m ês de vida. Não, não, não há nada
que eu possa fazer. Sandy s teria preferido ouvir isso a ouvir sífilis.
Ney then pareceu perplexo.
— A m inha m ãe disse sem pre que m e deram o nom e de um santo, não de um a doença.
— Qual deles?
— Bem , cortaram a cabeça, sabe? E depois ele pegou nela e levou-a pela estrada fora
durante m uito tem po. Todo o cam inho de regresso a casa, acho eu.
— Com plicado — com entou Piers. — Para não dizer im provável, em bora um a pessoa
tenha de pensar nas galinhas e nas suas capacidades post-m ortem . Ela pensava que você
herdarias o m esm o dom ?
Ney then pestanej ou.
— Não, m eu senhor.
— Talvez tivesse esperança. Cabe às m ães prever esse gênero de possibilidade, afinal de
contas. Estou tentado a cortar-te a cabeça apenas para ver se ela tinha razão. Às vezes, as superstições m ais im prováveis acabam por ter, de fato, fundam ento.
O lacaio recuou.
— Meu Deus, você é m uito j ovem , não é? Ora, porque te m andou o Prufrock aqui? Não que
eu não aprecie a toalha.
— Mister Prufrock m andou-m e dizer- , m eu senhor, que está um paciente à espera.
— Há sem pre um ou dois pacientes aqui à volta — disse Piers, secando o cabelo. — Tenho
de tom ar banho prim eiro. Estou coberto de sal.
— O sinal não está levantado, por isso Mister Prufrock disse-m e que o inform asse.
— Não, banho antes do paciente. A m inha vida j á é dem asiado caótica sem o m eu
m ordom o a dizer-m e o que fazer.
— Este fez a viagem toda desde Londres — explicou Ney then. — E ele é um grande senhor.
— Grande, é grande, ele? Provavelm ente gordo dem ais para o seu coração. Apanha a
m inha bengala do chão e dá-m e, se fazes favor.
Ney then obedeceu.
— Ele não é gordo — disse ele. — Eu vi-o entrar. O que quero dizer é que tem um ar
im portante. Está todo vestido de veludo e é m agro com o um espeto. E tem um a cabeleira.
— Outro m oribundo — concluiu Piers, com eçando a subir o cam inho. — Precisam ente
aquilo de que precisam os por aqui. Muito em breve terem os de ter o nosso próprio cem itério
lá atrás.
Parecia que Ney then não tinha nada a dizer em relação a isso.
— Claro que você não vais estar lá — assegurou- Piers um a vez que consegues levar a sua
cabeça de volta a casa para seres enterrado no cem itério da sua aldeia. Mas estou a com eçar
a sentir-m e um a versão negra do Flautista de Ham elin. Vêm a Gales procurar-m e e m orrem .
No dia seguinte, acontece m ais do m esm o.
— O senhor cura alguns deles, não é? — perguntou Ney then.
— Alguns — disse Piers. — A m aior parte. Por um a razão. Eu sou especialista de anatom ia
patológica, o que significa que sou realm ente m elhor com corpos m ortos. Eles não se
contorcem e não apanham infecções. Quanto aos vivos, tudo o que posso fazer é observá-los.
Às vezes, não sei nada senão depois de eles m orrerem e, nessa altura, é tarde dem ais. Às
vezes, abro os cadáveres e continuo a não fazer a m ais pequena ideia daquilo que lhes
aconteceu.
Ney then estrem eceu.
— Fazes m uito bem em ser lacaio e não m édico — disse- Piers, com eçando a subir o
cam inho rochoso de volta ao castelo.
— Nós, os cirurgiões, estam os sem pre a cortar pessoas, m ortas ou vivas. E a única m aneira
de saberm os o que está lá dentro, sabes.
— Isso é noj ento.
— Não te preocupes — disse- Piers. — Se conseguires fazer andar o seu corpo decapitado
até casa, eu não posso abri-lo e descobrir o que te aconteceu, pois não?
Ney then continuou calado.
— Nunca penses em ir em bora — disse Piers, transpondo a últim a rocha. — O Prufrock
vai querer a m inha cabeça se m ais pessoal se for em bora por causa dos m eus com entários
im pensados.
O silêncio de Ney then parecia indicar que não se iria em bora ainda.
Piers chegou a casa.
— Suponho que vou ver esse paciente antes de tom ar banho.
— Assim , m eu senhor? — perguntou Ney then.
Piers olhou para baixo, para você próprio. Tinha enrolado a toalha em volta da cintura.
— Disseste que estava um paciente à espera, não foi?
— Sim , m as...
— Não há nada de que eu m ais goste do que receber lordes vestidos de veludo quando
estou enrolado num a toalha — disse ele. — De qualquer m odo, eles vão m entir-m e, m as isso
m antém -nos alerta.
— Mentir? — perguntou Ney then, parecendo chocado.