Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 4 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 4

verdade, durante os anos anteriores, m as Linnet não foi capaz de o dizer.

— Eu não vou a nenhum bordel — afirm ou.

— Nesse caso — disse Zenobia alegrem ente —, sugiro que te sentes e escrevas um a

notinha a esse príncipe travesso. Fazes bem em preferires Augustus ao bordel, realm ente.

Um a pessoa odeia com eçar o casam ento com um a m entiria que envolva bebês. O casam ento

leva-nos a um as m entirias inofensivas pela própria natureza da vida: todas essas tentações.

Encom endam -se sem pre dem asiados vestidos, gasta-se em , excesso. Já para não falar nos

hom ens. — Beij ou as pontas dos dedos.

— Mas eu queria...

— Estou tão contente por não estar casada neste m om ento — disse Zenobia. — Não que

estej a feliz por o querido Philip ter m orrido, claro. Ah, bem ...

Zenobia desapareceu.

E o que Linnet queria do casam ento j á não era um a questão passível de discussão.

4

— Deves estar a brincar — disse Piers a Prufrock. — Eu enviei ao m eu pai um a lista de

requisitos para um a m ulher que enchia um a página.

— Deu um a leitura fascinante — disse Prufrock. — Eu apreciei especialm ente aquela

parte em que adm itia a sua incapacidade na cam a. E a m ancha de lágrim a m esm o ali na

página...

— Não foi um a lágrim a — explicou Piers, irritado. — Foi brande, palerm a.

— Ah, bem — disse Prufrock. — Porque odeio pensar que se pôs a chorar em cim a da

carta. Quando podia estar a gem er na sua cam a solitária.

— Porque havia eu de não gem er? — questionou Piers, perguntando-se se havia de beber

outro copo. — Hás de m ostrar-m e o hom em com um a lesão com o a m inha que não tenha o

coração despedaçado por causa do futuro atroz que tem pela frente.

— Atroz e atro — corrigiu Purfrock. — Não perca o seu toque alterativo agora,

precisam ente no m om ento do clím ax.

O desespero por nunca ter tido um a boa m ulher ao seu lado, a am argura por saber que

nunca terá um a m ãozinha peganhenta a enrolar o polegar, o... Ou chegar aquilo que

interessa realm ente, anos sem dar um a queca — disse Prufrock.

— Isso é um a tentativa para m e sentir m elhor?

— Não é tão bom com o se diz — com entou ele, com inequívoca falta de convicção.

— Onde frequentaste a escola? — inquiriu Piers. — Você é culto dem ais para m ordom o.

A m aioria dos m ordom os que conheço diz coisas com o Com o desej ar, m eu senhor, e ficam

por aí. A nossa conversa devia ser assim : Prufrock, traz-m e um a m enina. E depois você devias

dizer Com o desej ar.

— Qual seria a vantagem ? — perguntou Prufrock. — Nestas circunstâncias?

— Boa observação — m urm urou Piers. — Bem , acho que vou nadar. A m aré está cheia.

Saiu do castelo pela porta oeste, ainda a cogitar no m ordom o. Com o pensava desde que o

contratara há um ano atrás, o hom em devia estar ao serviço do pai, isto é, devia ser um

espião. Era evidente.

Mas onde raio é que o velho conseguira encontrar um m ordom o assim , um m ordom o

com o Prufrock, com sentido de hum or e um a língua m ais afiada do que o próprio Piers? Em

sum a, provavelm ente, o único m ordom o no m undo que Piers conservaria no castelo m esm o

sabendo que era um m aldito espião?

A única possibilidade era o pai saber ou perceber realm ente algum a coisa sobre ele e, um a

vez que isso era im possível, pôs de parte a ideia.

A piscina estava escavada na rocha à beira-m ar e ficava cheia na m aré alta, m as protegida

do pior das ondas. Era um cenário m agnífico, um lago na rocha a brilhar, azul-safira,

enquanto a luz com eçava a desvanecer-se. O m ar tinha acalm ado com o acontecia m uitas

vezes ao crepúsculo e ele ficou parado por uns m om entos a olhar para lá da piscina para o

m odo com o o m ar se encrespava continuam ente, seguindo um tértue rasto dourado de luz.

Depois, abanou-se e despiu a roupa. Se ele aprendera algum a coisa sobre a sua perna nos

anos anteriores era que, se não fizesse exercício todos os dias, doía- com o o diabo. Na

véspera não tinha nadado e nesse dia estava a sofrer as consequências. Não que em

geral doesse, m as sem nadar ficava com um a dor que não conseguia suportar sem pensar

em opiláceos. Não eram bons, nem esses m om entos, nem os opiláceos.

Mergulhou de cim a de um a rocha, m uito fundo, sentindo o cabelo a soltar-se — raio,

esquecera-se de tirar a fita outra vez — e o corpo a deleitar-se enquanto a perna se m ovia

livrem ente sem transportar o peso do corpo. Sem pensar, com eçou a im pulsionar-se para a

frente, avançando através da água com um a velocidade que não conseguia em terra;

Braçada após braçada, continuava, dez piscinas, vinte... às cinquenta estava cansado, m as

obrigou-se fazendo outras dez, e depois içou-se para cim a das rochas com um m ovim ento

suave, a água a escorrer dos om bros e dos braços. Antes da lesão, nunca prestara m uita

atenção ao corpo. Agora sentia-se satisfeito com a força dos om bros e do tórax. Em bora o

m édico que havia nele soubesse que aquilo não passava de vaidade sem qualquer valor.

— Meu senhor — disse um j ovem lacaio, avançando e estendendo- um a grande toalha.

Piers levantou os olhos para ele.

— Você é novo. Com o te cham as?

— Ney then, m eu senhor.

— Soa a um a doença terrível. Não, m ais com o um problem a intestinal. Lam ento, Lorde

Sandy s, o seu filho contraiu ney then e não terá nem um m ês de vida. Não, não, não há nada

que eu possa fazer. Sandy s teria preferido ouvir isso a ouvir sífilis.

Ney then pareceu perplexo.

— A m inha m ãe disse sem pre que m e deram o nom e de um santo, não de um a doença.

— Qual deles?

— Bem , cortaram a cabeça, sabe? E depois ele pegou nela e levou-a pela estrada fora

durante m uito tem po. Todo o cam inho de regresso a casa, acho eu.

— Com plicado — com entou Piers. — Para não dizer im provável, em bora um a pessoa

tenha de pensar nas galinhas e nas suas capacidades post-m ortem . Ela pensava que você

herdarias o m esm o dom ?

Ney then pestanej ou.

— Não, m eu senhor.

— Talvez tivesse esperança. Cabe às m ães prever esse gênero de possibilidade, afinal de

contas. Estou tentado a cortar-te a cabeça apenas para ver se ela tinha razão. Às vezes, as superstições m ais im prováveis acabam por ter, de fato, fundam ento.

O lacaio recuou.

— Meu Deus, você é m uito j ovem , não é? Ora, porque te m andou o Prufrock aqui? Não que

eu não aprecie a toalha.

— Mister Prufrock m andou-m e dizer- , m eu senhor, que está um paciente à espera.

— Há sem pre um ou dois pacientes aqui à volta — disse Piers, secando o cabelo. — Tenho

de tom ar banho prim eiro. Estou coberto de sal.

— O sinal não está levantado, por isso Mister Prufrock disse-m e que o inform asse.

— Não, banho antes do paciente. A m inha vida j á é dem asiado caótica sem o m eu

m ordom o a dizer-m e o que fazer.

— Este fez a viagem toda desde Londres — explicou Ney then. — E ele é um grande senhor.

— Grande, é grande, ele? Provavelm ente gordo dem ais para o seu coração. Apanha a

m inha bengala do chão e dá-m e, se fazes favor.

Ney then obedeceu.

— Ele não é gordo — disse ele. — Eu vi-o entrar. O que quero dizer é que tem um ar

im portante. Está todo vestido de veludo e é m agro com o um espeto. E tem um a cabeleira.

— Outro m oribundo — concluiu Piers, com eçando a subir o cam inho. — Precisam ente

aquilo de que precisam os por aqui. Muito em breve terem os de ter o nosso próprio cem itério

lá atrás.

Parecia que Ney then não tinha nada a dizer em relação a isso.

— Claro que você não vais estar lá — assegurou- Piers um a vez que consegues levar a sua

cabeça de volta a casa para seres enterrado no cem itério da sua aldeia. Mas estou a com eçar

a sentir-m e um a versão negra do Flautista de Ham elin. Vêm a Gales procurar-m e e m orrem .

No dia seguinte, acontece m ais do m esm o.

— O senhor cura alguns deles, não é? — perguntou Ney then.

— Alguns — disse Piers. — A m aior parte. Por um a razão. Eu sou especialista de anatom ia

patológica, o que significa que sou realm ente m elhor com corpos m ortos. Eles não se

contorcem e não apanham infecções. Quanto aos vivos, tudo o que posso fazer é observá-los.

Às vezes, não sei nada senão depois de eles m orrerem e, nessa altura, é tarde dem ais. Às

vezes, abro os cadáveres e continuo a não fazer a m ais pequena ideia daquilo que lhes

aconteceu.

Ney then estrem eceu.

— Fazes m uito bem em ser lacaio e não m édico — disse- Piers, com eçando a subir o

cam inho rochoso de volta ao castelo.

— Nós, os cirurgiões, estam os sem pre a cortar pessoas, m ortas ou vivas. E a única m aneira

de saberm os o que está lá dentro, sabes.

— Isso é noj ento.

— Não te preocupes — disse- Piers. — Se conseguires fazer andar o seu corpo decapitado

até casa, eu não posso abri-lo e descobrir o que te aconteceu, pois não?

Ney then continuou calado.

— Nunca penses em ir em bora — disse Piers, transpondo a últim a rocha. — O Prufrock

vai querer a m inha cabeça se m ais pessoal se for em bora por causa dos m eus com entários

im pensados.

O silêncio de Ney then parecia indicar que não se iria em bora ainda.

Piers chegou a casa.

— Suponho que vou ver esse paciente antes de tom ar banho.

— Assim , m eu senhor? — perguntou Ney then.

Piers olhou para baixo, para você próprio. Tinha enrolado a toalha em volta da cintura.

— Disseste que estava um paciente à espera, não foi?

— Sim , m as...

— Não há nada de que eu m ais goste do que receber lordes vestidos de veludo quando

estou enrolado num a toalha — disse ele. — De qualquer m odo, eles vão m entir-m e, m as isso

m antém -nos alerta.

— Mentir? — perguntou Ney then, parecendo chocado.