Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 29 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 29

Não há m ais água. Não há m ais água. A frase batia- na cabeça ao ritm o da sua pulsação.

O calor horrível estava a vir agora, levando-a novam ente para aquele rem oinho febril

onde não conseguia ouvir nem ver nada. Mas, no entanto, a água....

A piscina cintilava em frente dela, de um azul requintado, fresco e refrescante. E lá estava

Piers, o seu rosto fino, sardônico, adorável, sorrindo- .

Nesse m om ento, antes de a febre a cham ar outra vez, concentrou-se em am á-lo,

concentrou-se na form a feroz com o ele vivia, em agonia, m as nunca parando. Na form a com o

sorria. Na inteligência dos seus olhos.

Ele nunca desiste, pensou ela. Pequenas m anchas, pretas, aglom eravam -se à frente dos

seus olhos, de m aneira que m al conseguia-ver as tábuas, envelhecidas pelas intem péries, na

parte inferior da sua enxerga.

Depois a febre apoderou-se dela e os olhos fecharam -se novam ente.

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N o dia seguinte.

A m eio da m anhã, não havia qualquer dúvida de que a epidem ia estava controlada. Apenas

três novos pacientes chegaram ao castelo e não estavam in extrem is.

Pela prim eira vez desde que a epidem ia com eçara, Sebastian e Piers pararam realm ente

para alm oçar, deixando-se cair em cadeirões na pequena sala de estar, onde Prufrock lhes

serviu galinha estufada e copos de vinho.

— Isto é civilizado — com entou Piers, com um suspiro. — Já levaste disto aos m eus pais,

Prufrock?

— Sim , m eu senhor — anuiu Prufrock. — Sua Graça saiu para o levar para dentro, assim

que eu m e afastei até um a distância segura, claro. — Aclarou a voz. — Parecia bastante

contente.

— Estaferm o sortudo — disse Piers. — Ela perdoou- . — E, de certa form a, ele tam bém

perdoara. A vida era o que era. Era altura de pôr de lado a sua raiva em relação ao pai e andar

sim plesm ente para a frente, com a perna defeituosa e tudo.

— Felizes para sem pre — com entou Sebastian, bebendo um grande trago de vinho.

— Cristo, sabe bem estar lim po outra vez. Não m e apetecia sair daquele banho.

Prufrock ofereceu a Piers um prato de tenros espargos novos.

— O doutor Bitts j á saiu da cam a. Ainda está bastante fraco, m as o criado conta que ele

está fazendo perguntas acerca dos pacientes.

— O Bitts — disse Piers, taciturno. — Não é m al m édico, especialm ente para um

cavalheiro. Melhor que o Penders. Esse tolo apareceu ontem com um a infusão de rosas para

lim par as línguas dos pacientes. Não vi m al nenhum nisso, m as tam bém nenhum benefício.

— Acho que os cavalheiros dão os m elhores m édicos — argum entou Sebastian. — Olha

para nós os dois. — Sorriu, o cansaço a ensom brar os olhos, m as triunfante, apesar de tudo.

— Fizem os um trabalho trem endo com o surto de escarlatina, Piers. E nem sequer

envolveu am putar m em bros aos doentes, que é o nosso forte. Ou o m eu, m elhor dizendo.

— Nós som os um a anom alia — afirm ou Piers, girando o vinho e tentando não pensar em

Linnet. O que era inútil, porque a única altura em que não pensava nela era quando estava

fazendo qualquer coisa, em penhadam ente, a um paciente. — A m aioria dos hom ens, com o o

Bitts, que se sente à vontade no salão de baile, não é...

Parou.

Bitts... dançando com Linnet, rindo-se para ela. Inclinando o pescoço em direção a ela.

Respirando para cim a dela. Todas as noites, quase todas as noites. Afastou-se da m esa com

tanta força que a cadeira caiu.

— Linnet!

Sebastian abriu a boca.

— Ela dançou com o Bitts. Sou um idiota m aldito, m aldito. Ela dançou com o Bitts na

véspera de ele adoecer e depois partiu na carruagem sozinha. — O sangue

tinha- desaparecido da cabeça; sentia-se tonto. — Onde está a m inha bengala, a m inha

bengala m iserável?

Tinha caído para o chão. Prufrock apressou-se a apanhá-la. Sebastian estava tam bém de

pé, de sem blante carregado.

— Os sintom as do Bitts apareceram no dia seguinte — disse Piers, com voz rouca. — No

dia seguinte, Seb! Ela pode estar em qualquer sítio, doente. Ela pode estar...

Virou-se e afastou Prufrock tão bruscam ente do seu cam inho que o m ordom o tom bou

para trás, contra o aparador.

— Vou atrás dela.

— Espera! — gritou Sebastian. — Tem os de ponderar bem isto.

— Não há nada para ponderar — retorquiu Piers. O pânico fluía através dele com o

m ercúrio, queim ando as veias.

— Vou atrás dela. Traz o m eu casaco, seu idiota — disse bruscam ente a um lacaio. —

Prufrock, um a carruagem . A m ais rápida que tiverm os. O cabriolé de dois cavalos.

— Você não sabes onde ela está — protestou Sebastian. — Que cam inho tom ou para

Londres. Não podes levar um cabriolé na viagem toda até Londres.

— Vou perguntar o percurso ao m eu pai. E, se ela m orrer por ele ter perm itido que

viaj asse sozinha, volto aqui e m ato-o.

— Piers!

Ignorou o grito de Sebastian, descendo os degraus do castelo a correr, prestando m uita atenção à sua bengala para ter a certeza de que não dava um passo em falso.

O duque saiu da casa do guarda e ficou lívido quando ouviu a explicação de Piers.

— A estrada para Swansea — disse ele. — Eu disse aos criados que esperassem por ela

em Llanddowll.

— Llanddowll ou Llanddowrr? — perguntou Piers.

O duque em palideceu ainda m ais.

— Acho que disse Llanddowll. Não tenho a certeza.

— Llanddowrr faz m ais sentido; é na estrada que vai para norte, para Carm arthen. —

Piers rodopiou no calcanhar e lançou-se de novo na subida para o castelo. Era o seu pesadelo,

outra vez. Tentar descer o cam inho; subir o cam inho, era tudo o m esm o, e dem asiado

devagar por causa da sua m aldita perna, incapaz de a salvar.

A carruagem estava pronta e à espera em frente do castelo, com quatro cavalos frescos.

— Isso não é um cabriolé — rosnou Piers a Prufrock, que estava à porta da carruagem

Sebastian desceu os degraus do castelo a correr.

—Você não sabes onde é que ela está. Se apanhou escarlatina com o Bitts, e há um a boa

hipótese de não ter apanhado, visto que a sua m ãe parece estar perfeitam ente bem , m as,

m esm o que ela tenha contraído a doença, teria tido os prim eiros sintom as durante o

prim eiro dia de viagem . Dois dias no m áxim o. Mas não vais encontrá-la tão perto, Piers.

— Porque não? — rosnou ele.

— Porque ela não está doente. Se estivesse, os criados do duque tê-la-iam trazido de volta

im ediatam ente. Teriam m andado alguém aqui a cavalo, se ela estivesse, doente dem ais para

ser transportada. Já passaram seis dias. Mesm o que ela só tivesse adoecido ao segundo dia,

alguém j á nos teria trazido notícias por esta altura. Não estão todos doentes. Nenhum deles

dançou com o Bitts.

Piers parou, um pé no degrau da carruagem .

— Sete dias desde que ela partiu, não seis. Podiam ter j á andado m uito quando ela

com eçou a ter os sintom as. Alguns pacientes estão... Ah! Estou a ver. Um cabriolé não, pois

eu posso ter de ir m esm o até Londres. Com preendo.

Sebastian pôs um a das m ãos no om bro.

— Ela não está doente, Piers. Eles continuaram até Londres, e ela está lá, sã e salva, à sua

espera.

— Não podes ter a certeza. — Piers içou-se para a carruagem .

— Nunca saberás se ela está m orta ou viva, a não ser que a m antenhas sem pre perto de

você — disse Sebastian com perfeita, em bora irritante, precisão.

Piers atirou-se para um assento. O prim o passou- um a sacola através da porta da

carruagem .

— Leva isto. Pelo sim pelo não... todos os bálsam os que os auxiliares têm estado a utilizar,

apesar de eu não fazer ideia se funcionam . Um pouco de farinha de m alte a ferm entar, até um

frasco da água de rosas acidulada do Penders. Queres lacaios?

— Não podes dispensá-los — disse Piers. — O Ney then ainda está de cam a. Chega-m e bem

o Buller. Colocou a sacola no assento ao lado dele.

— Estou convencido de que ela está bem , e não vais precisar disso, m as vai lá buscá-la. —

Sebastian sorriu. — Ficam os bem aqui.

— Não vou por essa razão — rosnou Piers. — Ela pode estar doente, seu idiota.

— Você vais por ela, por m uito que j ures que não vais — afirm ou o prim o. — Eu sabia que

havias de ir. Não consegues apanhá-la no cam inho; ela com eçou com m uito avanço. Vais ter

de rastej ar em Londres...

— Eu não... — afirm ou Piers.

Sebastian estendeu o braço para dentro da carruagem , e bateu- no om bro, o tipo de soco

am igável que trocavam quando eram m iúdos.

— Eu tam bém gosto dela. Todos a querem os na fam ília. E... ela é sua. Há qualquer coisa

especial nela. Ela é sua.

— E m inha — disse Piers, saboreando as palavras na língua. Elas assentavam bem no seu

coração. — E m inha. — Não era bem um a pergunta.