Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 29
Não há m ais água. Não há m ais água. A frase batia- na cabeça ao ritm o da sua pulsação.
O calor horrível estava a vir agora, levando-a novam ente para aquele rem oinho febril
onde não conseguia ouvir nem ver nada. Mas, no entanto, a água....
A piscina cintilava em frente dela, de um azul requintado, fresco e refrescante. E lá estava
Piers, o seu rosto fino, sardônico, adorável, sorrindo- .
Nesse m om ento, antes de a febre a cham ar outra vez, concentrou-se em am á-lo,
concentrou-se na form a feroz com o ele vivia, em agonia, m as nunca parando. Na form a com o
sorria. Na inteligência dos seus olhos.
Ele nunca desiste, pensou ela. Pequenas m anchas, pretas, aglom eravam -se à frente dos
seus olhos, de m aneira que m al conseguia-ver as tábuas, envelhecidas pelas intem péries, na
parte inferior da sua enxerga.
Depois a febre apoderou-se dela e os olhos fecharam -se novam ente.
29
N o dia seguinte.
A m eio da m anhã, não havia qualquer dúvida de que a epidem ia estava controlada. Apenas
três novos pacientes chegaram ao castelo e não estavam in extrem is.
Pela prim eira vez desde que a epidem ia com eçara, Sebastian e Piers pararam realm ente
para alm oçar, deixando-se cair em cadeirões na pequena sala de estar, onde Prufrock lhes
serviu galinha estufada e copos de vinho.
— Isto é civilizado — com entou Piers, com um suspiro. — Já levaste disto aos m eus pais,
Prufrock?
— Sim , m eu senhor — anuiu Prufrock. — Sua Graça saiu para o levar para dentro, assim
que eu m e afastei até um a distância segura, claro. — Aclarou a voz. — Parecia bastante
contente.
— Estaferm o sortudo — disse Piers. — Ela perdoou- . — E, de certa form a, ele tam bém
perdoara. A vida era o que era. Era altura de pôr de lado a sua raiva em relação ao pai e andar
sim plesm ente para a frente, com a perna defeituosa e tudo.
— Felizes para sem pre — com entou Sebastian, bebendo um grande trago de vinho.
— Cristo, sabe bem estar lim po outra vez. Não m e apetecia sair daquele banho.
Prufrock ofereceu a Piers um prato de tenros espargos novos.
— O doutor Bitts j á saiu da cam a. Ainda está bastante fraco, m as o criado conta que ele
está fazendo perguntas acerca dos pacientes.
— O Bitts — disse Piers, taciturno. — Não é m al m édico, especialm ente para um
cavalheiro. Melhor que o Penders. Esse tolo apareceu ontem com um a infusão de rosas para
lim par as línguas dos pacientes. Não vi m al nenhum nisso, m as tam bém nenhum benefício.
— Acho que os cavalheiros dão os m elhores m édicos — argum entou Sebastian. — Olha
para nós os dois. — Sorriu, o cansaço a ensom brar os olhos, m as triunfante, apesar de tudo.
— Fizem os um trabalho trem endo com o surto de escarlatina, Piers. E nem sequer
envolveu am putar m em bros aos doentes, que é o nosso forte. Ou o m eu, m elhor dizendo.
— Nós som os um a anom alia — afirm ou Piers, girando o vinho e tentando não pensar em
Linnet. O que era inútil, porque a única altura em que não pensava nela era quando estava
fazendo qualquer coisa, em penhadam ente, a um paciente. — A m aioria dos hom ens, com o o
Bitts, que se sente à vontade no salão de baile, não é...
Parou.
Bitts... dançando com Linnet, rindo-se para ela. Inclinando o pescoço em direção a ela.
Respirando para cim a dela. Todas as noites, quase todas as noites. Afastou-se da m esa com
tanta força que a cadeira caiu.
— Linnet!
Sebastian abriu a boca.
— Ela dançou com o Bitts. Sou um idiota m aldito, m aldito. Ela dançou com o Bitts na
véspera de ele adoecer e depois partiu na carruagem sozinha. — O sangue
tinha- desaparecido da cabeça; sentia-se tonto. — Onde está a m inha bengala, a m inha
bengala m iserável?
Tinha caído para o chão. Prufrock apressou-se a apanhá-la. Sebastian estava tam bém de
pé, de sem blante carregado.
— Os sintom as do Bitts apareceram no dia seguinte — disse Piers, com voz rouca. — No
dia seguinte, Seb! Ela pode estar em qualquer sítio, doente. Ela pode estar...
Virou-se e afastou Prufrock tão bruscam ente do seu cam inho que o m ordom o tom bou
para trás, contra o aparador.
— Vou atrás dela.
— Espera! — gritou Sebastian. — Tem os de ponderar bem isto.
— Não há nada para ponderar — retorquiu Piers. O pânico fluía através dele com o
m ercúrio, queim ando as veias.
— Vou atrás dela. Traz o m eu casaco, seu idiota — disse bruscam ente a um lacaio. —
Prufrock, um a carruagem . A m ais rápida que tiverm os. O cabriolé de dois cavalos.
— Você não sabes onde ela está — protestou Sebastian. — Que cam inho tom ou para
Londres. Não podes levar um cabriolé na viagem toda até Londres.
— Vou perguntar o percurso ao m eu pai. E, se ela m orrer por ele ter perm itido que
viaj asse sozinha, volto aqui e m ato-o.
— Piers!
Ignorou o grito de Sebastian, descendo os degraus do castelo a correr, prestando m uita atenção à sua bengala para ter a certeza de que não dava um passo em falso.
O duque saiu da casa do guarda e ficou lívido quando ouviu a explicação de Piers.
— A estrada para Swansea — disse ele. — Eu disse aos criados que esperassem por ela
em Llanddowll.
— Llanddowll ou Llanddowrr? — perguntou Piers.
O duque em palideceu ainda m ais.
— Acho que disse Llanddowll. Não tenho a certeza.
— Llanddowrr faz m ais sentido; é na estrada que vai para norte, para Carm arthen. —
Piers rodopiou no calcanhar e lançou-se de novo na subida para o castelo. Era o seu pesadelo,
outra vez. Tentar descer o cam inho; subir o cam inho, era tudo o m esm o, e dem asiado
devagar por causa da sua m aldita perna, incapaz de a salvar.
A carruagem estava pronta e à espera em frente do castelo, com quatro cavalos frescos.
— Isso não é um cabriolé — rosnou Piers a Prufrock, que estava à porta da carruagem
Sebastian desceu os degraus do castelo a correr.
—Você não sabes onde é que ela está. Se apanhou escarlatina com o Bitts, e há um a boa
hipótese de não ter apanhado, visto que a sua m ãe parece estar perfeitam ente bem , m as,
m esm o que ela tenha contraído a doença, teria tido os prim eiros sintom as durante o
prim eiro dia de viagem . Dois dias no m áxim o. Mas não vais encontrá-la tão perto, Piers.
— Porque não? — rosnou ele.
— Porque ela não está doente. Se estivesse, os criados do duque tê-la-iam trazido de volta
im ediatam ente. Teriam m andado alguém aqui a cavalo, se ela estivesse, doente dem ais para
ser transportada. Já passaram seis dias. Mesm o que ela só tivesse adoecido ao segundo dia,
alguém j á nos teria trazido notícias por esta altura. Não estão todos doentes. Nenhum deles
dançou com o Bitts.
Piers parou, um pé no degrau da carruagem .
— Sete dias desde que ela partiu, não seis. Podiam ter j á andado m uito quando ela
com eçou a ter os sintom as. Alguns pacientes estão... Ah! Estou a ver. Um cabriolé não, pois
eu posso ter de ir m esm o até Londres. Com preendo.
Sebastian pôs um a das m ãos no om bro.
— Ela não está doente, Piers. Eles continuaram até Londres, e ela está lá, sã e salva, à sua
espera.
— Não podes ter a certeza. — Piers içou-se para a carruagem .
— Nunca saberás se ela está m orta ou viva, a não ser que a m antenhas sem pre perto de
você — disse Sebastian com perfeita, em bora irritante, precisão.
Piers atirou-se para um assento. O prim o passou- um a sacola através da porta da
carruagem .
— Leva isto. Pelo sim pelo não... todos os bálsam os que os auxiliares têm estado a utilizar,
apesar de eu não fazer ideia se funcionam . Um pouco de farinha de m alte a ferm entar, até um
frasco da água de rosas acidulada do Penders. Queres lacaios?
— Não podes dispensá-los — disse Piers. — O Ney then ainda está de cam a. Chega-m e bem
o Buller. Colocou a sacola no assento ao lado dele.
— Estou convencido de que ela está bem , e não vais precisar disso, m as vai lá buscá-la. —
Sebastian sorriu. — Ficam os bem aqui.
— Não vou por essa razão — rosnou Piers. — Ela pode estar doente, seu idiota.
— Você vais por ela, por m uito que j ures que não vais — afirm ou o prim o. — Eu sabia que
havias de ir. Não consegues apanhá-la no cam inho; ela com eçou com m uito avanço. Vais ter
de rastej ar em Londres...
— Eu não... — afirm ou Piers.
Sebastian estendeu o braço para dentro da carruagem , e bateu- no om bro, o tipo de soco
am igável que trocavam quando eram m iúdos.
— Eu tam bém gosto dela. Todos a querem os na fam ília. E... ela é sua. Há qualquer coisa
especial nela. Ela é sua.
— E m inha — disse Piers, saboreando as palavras na língua. Elas assentavam bem no seu
coração. — E m inha. — Não era bem um a pergunta.