Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 16 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 16

Levantou subitam ente a cabeça.

— Raios partam !

16

Linnet sentou-se e seguiu o olhar fixo de Piers na direção do horizonte. Vinda na direção

deles, via-se um a m assa escura, com o se o céu noturno tivesse surgido do nada, descido ao

m ar e estivesse...

Piers levantou-a com um esticão, estendendo a outra m ão para a bengala. Depois, deixou

cair a m ão dela.

— Corra! Corra o m ais depressa que puder para o castelo!

Ela olhou para trás, por cim a do om bro. A nuvem negra e turbulenta estava a aproxim ar-

se, tão perto que ela conseguia vê-la deslocar-se. Mas o que era m isterioso era que o céu, do

outro lado, continuava azul e o sol continuava a brilhar.

Ele tinha com eçado a subir o cam inho.

— Linnet! — rugiu ele, sem olhar para trás. — Corra, sua idiota louca!

Ela correu atrás dele. Ele estava a cam inhar m uito depressa, num a espécie de corrida de

três pernas, olhando atentam ente para o chão, para ver onde devia colocar a bengala nas

rochas. Quando ela o apanhou, virou-se outra vez para trás.

A nuvem não era preta. Era um a espécie de verde azulado escuro e avolum ava-se com o se

estivesse viva. O pavor substituiu o fascínio. Voltou a correr atrás de Piers.

— O que é? — perguntou ela. — O que é aquilo?

— O tem po — disse ele, laconicam ente. — O raio do tem po galês, é o que é. Faz o favor de

com eçar a correr?

— Não vou sem você — disse ela. Um vento que soprava à frente da nuvem atingiu-os e

as palavras foram - arrancadas da boca.

Um olhar por cim a do om bro e Linnet percebeu que não conseguiriam chegar ao castelo.

O que quer que estivesse naquela nuvem estava a devorar a parte azul do oceano, correndo

para a costa com o um anim al feroz. E, no entanto, estranham ente, o sol continuava a brilhar

no céu, m esm o por cim a deles.

Piers cam inhava nessa altura ainda m ais depressa, sendo óbvio o esforço da sua perna

esquerda quando ele se lançava para a frente.

— A casa do guarda — gritou ele, m al se percebendo as palavras com o uivo do vento.

Estavam quase na curva do cam inho e m esm o a seguir ficava o pequeno edifício.

O vento em purrava-os de trás, de repente, Linnet sentiu a chuva gelada, com o picadas de

agulha, a bater- nos om bros e nas costas. Piers, incrivelm ente, aum entou a velocidade de tal

form a que passou à frente. Depois, chegou à porta, abriu-a com um sacão e estendeu- o braço

quando ela chegou, a arfar, agarrou- a m ão e puxou-a com tanta força que os pés dela

deixaram de tocar o chão, Fechando a porta com estrondo.

Um segundo, no qual eles olharam um para o outro na penum bra escura da casa.

Depois, com o se tivesse rebentado um tiroteio, a porta de m adeira abanou com golpes tão

fortes que se viu o caixilhe abanar.

— Oh, m eu Deus — sussurrou Linnet. — Que é aquilo?

— Granizo — disse Piers, virando-se e dirigindo-se, a coxear, para a sala. — E por isso que

deixam os sem pre os postigos fechados nesta casa. — Parou e inclinou a cabeça. — Do

tam anho de bolas de tênis, pelo som .

— Nunca ouvi falar em nada com o isto — exclam ou Linnet. Olhou, paralisada de m edo,

para a porta. Estava a abanar com o se centenas de punhos estivessem a bater do lado de fora,

com o se um a m ultidão furiosa estivesse a tentar entrar.

— Mas, seguram ente, j á ouviu falar do tem po de Gales? Isto vai passar dentro de duas ou

três horas, calculo. A sua criada faz algum a ideia de que veio nadar?

Linnet assentiu com a cabeça.

— O Prufrock vai dizer- que não se preocupe; isto acontece com tanta frequência que eu

dei- instruções para não m andar um a expedição de socorro. Os m eus pacientes terão de se

arranj ar com os ternos cuidados do Sebastian.

— Os seus Patinhos hão de aj udá-lo — disse Linnet, tentando que a sua voz se ouvisse

sobre novos batim entos, pois o vento estava a atirar m ais granizo contra a casa. Ela tom ou

consciência de que estava a trem er, de m edo e de frio. — Acha que há por aqui algum a roupa

ou um cobertor? — perguntou ela, com os dentes a bater.

Piers virou-se e lançou um olhar m alicioso, de um a form a apreciativa.

— Esqueceu-se das toalhas?

— Estou gelada — disse Linnet, enrolando os braços em volta do corpo. — Cobertores?

Apontou, com a bengala, para a porta à esquerda da lareira.

— Faça um a fogueira — im plorou ela. — Por favor.

— Às suas ordens — respondeu ele. Pôs a bengala de lado e tirou um a pedra de sílex da

prateleira da lareira. Felizm ente, esta j á tinha pedaços de gravetos e alguns toros.

Linnet em purrou a porta e encontrou um pequeno quarto de dorm ir. Não tinha nada para

além de um a cam a grande e de um a j anela que dava para terra, pelo que os postigos não

estavam a ser fustigados por granizo.

Encontrou um arm ário ao lado da porta e abriu-o. As prateleiras estavam vazias, m as

havia um m onte de roupa enrolado a um canto. Tirou-o para fora, os dedos a trem erem de

frio, e viu que era um a cam isa de hom em . Não era um a cam isa do gênero das que Piers usava,

feitas de linho delicado. Era de um tecido felpudo de lã fiada em casa.

Cheirou-a cuidadosam ente e descobriu, aliviada, que estava lim pa, se bem que

am arrotada. A sua chem ise m olhada e gelada foi despida num segundo. Mas ela ainda estava

úm ida, por isso enfiou a cabeça fora da porta.

— Piers, posso usar...

Só para ver aquilo que, inexplicavelm ente, não tinha notado. Piers Yelverton, conde de

Marchant, estava com pletam ente nu.

Encontrava-se agachado em frente da lareira, batendo a pedra de sílex contra um a pirite.

— A sua toalha? — perguntou ela.

— O vento levou-a.

— Tam bém levou os calções?

— Devo ter-m e esquecido de os deixar vestidos. Estou habituado a nadar nu. — Levantou

os olhos para ela, quentes com o conhaque francês. Precisam ente com o se ela tivesse bebido

esse conhaque, o calor deslizou- pela garganta, para os seios, para o estôm ago, m ais para

baixo. Não conseguiu evitar olhar. O corpo dele era todo m úsculo rij o, as pernas, as costas,

os om bros...

— Quer que m e levante para não perder nada? — A voz dele era divertida, m as havia nela

um traço de algo selvagem , profundo e m ásculo e perigoso.

Todo o corpo de Linnet reagiu. O brilhe suave, a alegria proveniente do brande,

transform aram -se num a espécie de calor desesperado a afluir- às pernas.

— Não! — ofegou ela. — Se não tiver um a toalha, não faz m al. — Viu-o com eçar a m over-

se e o instinto puro em purrou-a para dentro do quarto, porta fechada.

Sentia a m adeira da porta áspera contra as costas e o rabo. Estou nua, pensou. Estou nua

e estou num a casa com um hom em nu, e preciso de...

Em dois segundos, Linnet tinha a cam isa por cim a da cabeça. Caía- até os j oelhos, o que

era suficientem ente escandaloso. O tecido, grosso escondia- a figura bastante bem , em bora

os seios fizessem esticar um pouco os botões. Parecia ter sido feita para um hom em com um

tórax delgado, o que resolvia o dilem a sê ela devia ou não deixar Piers ficar com a única peça

de roupa que tinham . O tórax dele não era, decididam ente, delgado.

Voltou-se para a cam a. Estava coberta com um a m anta áspera; puxou-a para trás e viu um

lençol grosseiro. Cobriria aquela enorm e superfície de hom em nu na sala da frente e isso era

tudo o que interessava.

Tirou o lençol da cam a, abriu a porta e enfiou-o através dela sem olhar.

A voz de Piers chegou perfeitam ente clara através da porta, apesar do barulhe do vento.

— Que é isto?

— Enrole-se nele — gritou ela.

— Não é preciso.

— Sim , é preciso. — A porta m oveu-se sob a m ão dela.

— E não entre aqui sem esse lençol à volta do corpo!

A porta abriu-se, em purrando-a para trás.

— Encontrei um a toalha de m esa. — Ele tinha, de fato, um a toalha azul em volta da cintura.

— O lençol era m elhor — disse Linnet, os olhos instintivam ente a deslizarem sobre o peito

largo de Piers. Olhou m ais para baixo e arfou. — Isto é indecente!

A toalha estava atada de um a m aneira elegante sobre a anca direita de Piers, m as m esm o

assim m al cobria o... aquilo...

— Não pode usar isso!

— Bem , não posso usar o lençol, a não ser que queira sentar-se em cim a daquela m anta

— disse ele, um sorriso estranho a brincar- nos lábios. — Parece que pode abrigar tantas

pulgas com o o Rufus, o que realm ente diz m uito.

Linnet olhou para a cam a com horror.

— Não m e sento ali.

— Não há m ais sítio nenhum para se sentar — disse Piers.

— Há um a incom preensível falta de m obília na casa. Calculo que os vizinhos a pediram

em prestada. Muito poupados, estes galeses. Suponho que pensaram que a casa não precisava

de m esa ou de cadeiras, um a vez que ninguém aqui vive. Tem os sorte por a cam a ainda aqui

estar.

Com o era de esperar, Linnet espreitou por cim a do om bro dele e apercebeu-se de que a

sala estava vazia, à exceção de um pesado aparador. Ela voltou a olhar para a cam a.

— O m eu entendim ento é que as pulgas não conseguem viver m ais de um as sem anas sem

um a refeição de sangue de qualquer tipo — disse Piers, atirando o lençol para cim a da cam a.

— Pode voltar a pôr o raio dessa coisa no sítio? A m inha perna não gostou nada daquela

viagem que fizem os m onte acim a e ou sento-m e ou caio. Neste m om ento, a m inha bengala é

a única coisa que m e m antém na posição vertical.

Linnet correu para a cam a e com eçou a tentar enfiar o lençol de todos os lados da cam a.

— É m ais difícil do que parece — disse ela, fazendo, em vão, conversa fiada para não olhar

novam ente para Piers.

— Terei de dar m ais uns cêntim os por cam a às criadas? — Parecia aborrecido.

Linnet desistiu dos pés da cam a. Devia ter posto lençol a m ais em cim a, porque ele não se

m antinha preso.

— Sente-se — disse ela, indicando a cam a com a m ão. Ele sentou-se, com um gem ido.

— Melhor? — perguntou Linnet. Um instante depois, pendurou-se na extrem idade da

cam a, deixando- m uito espaço. Não conseguia perm anecer de pé durante a tem pestade,

apesar de aquilo não ser decente.

Piers estava a cravar os dedos na perna direita, dando- um a m assagem violenta.

— Qualquer coisa é m elhor do que estar em cim a da perna depois daquela corrida — disse

ele, sem levantar os olhos.

— Tem essa lesão há m uito tem po? — perguntou Linnet.

— Quase a m inha vida toda.

— Porque não sara?

Ele abanou a cabeça.

— Só saberei quando m e autopsiar. — Ela pestanej ou.

— Piada estúpida. Acho que o m úsculo enfraqueceu, lá dentro. Já encontrei pacientes que

parecem ter experim entado fraqueza m uscular a seguir a um a lesão traum ática. Em alguns

casos, a dor desaparece. Noutros... não.

— Não há hipótese? — Observou os dedos dele por um instante. — Nem sequer tem um a

cicatriz, que eu vej a.

Ele virou a perna ligeiram ente para fora e ela arfou, vendo um a horrível cicatriz denteada,

estendendo-se desde a parte de cim a da coxa até abaixo do j oelhe, do lado de dentro.

— Com o sobreviveu?

— Provavelm ente, não devia ter sobrevivido — disse ele com indiferença. — Um a razão

era o enorm e risco de infecção. Mas eu sou um estupor rij o. — Olhou para cim a, finalm ente,

e sorriu- .

Linnet não conseguiu devolver- o sorriso. Estava abalada dem ais com a terrível dor que

a enorm e cicatriz im plicava. Sem pensar, estendeu a m ão e passou os dedos pela pele

encrespada.

— A cicatriz, em você, dói- , ou apenas os m úsculos no interior da perna?

— Penso que é a prim eira m ulher que m e tocou aí — com entou ele, lentam ente. O seu

rosto era indecifrável. — Um pensam ento estranho.

Claro que nenhum a m ulher tinha tocado, dada a sua im potência. Os dedos dela eram

pálidos, crem es, contra a pele m ais escura dele. No entanto, ela apercebeu-se, de súbito, de

que tinha a m ão na parte de dentro da coxa de um hom em .

Com um puxão, afastou a m ão.

— Eu gostei — disse Piers. A voz veio de bem fundo do seu peito.

Linnet sentiu-se tão em baraçada que as suas faces ficaram , provavelm ente, verm elhas

com o um tom ate. Arriscou olhar para o rosto dele. Nesta altura j á conhecia aquela expressão.

Desej o. Respirou fundo.

— Eu só queria... — Foi incapaz de continuar.

Ele parecia estar com dificuldade em controlar o riso, o desgraçado.

— Não vej o o que é que tem tanta graça — disparou- ela. — Estou a tentar ser solidária

em relação à sua difícil situação.

Piers recostou-se contra as costas da cam a e cruzou os braços atrás da cabeça. O que fez

qualquer coisa à toalha de m esa, ela não conseguiu evitar reparar. Parecia que ele não cabia

m uito bem nela.

— Nunca perm iti a nenhum a m ulher afagar essa parte da m inha perna — acentuou ele.

Linnet acenou com a cabeça.

— Claro. Com preendo perfeitam ente. — Tinha as m ãos apertadas no colo, m as as pontas

dos dedos ainda form igavam do toque na pele dele.

— Mas eu gostei m uito. Talvez devesse arranj ar um a travesti. O que acha? Podíam os aloj á-

la na ala oeste com o Gavan e os pacientes que estão a m orrer, m as não são contagiosos.

O vento uivava em volta da casinha, fazendo parecer que eles eram as duas únicas pessoas

em todo o m undo.

— Porquê? — perguntou ela, com curiosidade genuína. — Só para a senhora esfregar a

cicatriz de vez em quando?

— Ela não seria um a senhora — obj etou Piers. — Aí é que está. — Havia riso nos seus

olhos. Riso e... m ais qualquer coisa.

Sim plesm ente desej o, disse Linnet de você para você. Desej o com um . Puxou as pernas

para cim a e dobrou-as para o lado. Os olhos dele seguiram os m ovim entos.

— O que é que um a travesti podia fazer por você que não pudesse ser feito por um a

senhora?

— As senhoras vêm com dem asiadas condições — disse ele, m ovendo-se de m odo a que

a sua perna esticada roçasse nos pés dela. Parecia um choque elétrico.

— Condições com o no casam ento? — conseguiu ela perguntou, orgulhando-se de não

m ostrar qualquer reação ao seu toque.

— Sim — concordou ele. — Com o viver com a m esm a m ulher durante anos dem ais. Não

m e diga que não pensou nessa desvantagem .

Ela tinha pensado. Ninguém podia nam orar com um príncipe durante dois m eses e não

pensar com o seria ver a cara dele à m esa do pequeno-alm oço para o resto dos seus dias. E,

se o príncipe fosse Augustus, era difícil evitar o aperto no coração que acom panhava essa

visão particular.

— Pensou! — disse ele a rir. — A Linnet é um a solitária, tal e qual com o eu.

Linnet abanou a cabeça.

— Não sou nada. Quero m esm o casar. Tam bém quero apaixonar-m e, em bora entenda que

as duas coisas não são necessariam ente com patíveis.

Ele resfolegou.

— A Linnet é um a rom ântica, ainda que pareça considerar a hipótese de adultério sem

pestanej ar.

— Leio dem asiados rom ances para não ser.

— Os rom ances não têm nada que ver com a vida real.

— São m elhores do que a vida real — afirm ou Linnet. — Dá um enorm e prazer ver as

pessoas m ás receberem a paga que m erecem .

— Porque não vem sentar-se ao m eu lado? Essa coluna da cam a parece ser m uito

desconfortável, enquanto a cabeceira dá um as costas de cadeira decentes.

Era desconfortável, realm ente. Mas... ela olhou-o.

— A tem pestade não está a abrandar — observou ele. — Estam os aqui presos pelo m enos

m ais um as horas. Além disso, há algum as falhas interessantes no seu conhecim ento da vida

real que podem os discutir. Sem pre quis conversar com um a m ulher adúltera. Na altura em

que elas m e chegam , j á estão geralm ente crivadas de sífilis e não lhes apetece tagarelar sobre

os seus passados adúlteros.

— Eu não sou adúltera, dado que nem sequer sou casada. Em bora possa tam bém fazer

notar que, na vida real, eu ficaria com prom etida por causa desta tem pestade e nós teríam os

de casar — disse Linnet, precipitando-se para a cabeceira da cam a e sentando-se ao lado

dele.

— Não perca a esperança — disse ele, afavelm ente. — Ainda tem ao seu alcance um

ducado. Mas não o m eu, um a vez que não há ninguém em Gales que se rale com o que estam os

aqui fazendo. O m eu pai deve estar lá no castelo a rezar para que haj a um m ilagre. O seu está

em Londres, pensando que a Linnet é condessa, j á a cam inho de ser duquesa.

— Que gênero de m ilagre é que o seu pai quer? — perguntou Linnet.

— Oh, que o passado nunca tivesse acontecido. Que a m inha m ãe perdoasse. Que a m inha

lesão desaparecesse.

Ela acenou com a cabeça.

— Ele está desesperadam ente triste.

— Sem netos — disse Piers. — Muito decepcionante.

Linnet deu- um a cotovelada.

— Não sej a tão cansativo. Sabe tão bem com o eu que o seu pai não é m onstro nenhum . É

estúpido da sua parte continuar a fingir que é.

— Não vai dizer infantil?

— O Piers não se im porta de ser infantil — observou ela.

— Mas suponho que não gosta que digam que não está a usar o cérebro. E dem asiado

observador para não ver o sofrim ento dele.

— Bem , se põe as coisas nesses term os...

— Sim , ponho as coisas nesses term os. Ele está a sofrer porque o am a, a você, e am a a sua

m ãe.

— Agora está só a perder o seu tem po — retorquiu Piers, com bastante bonom ia. — Eu

dou um beij o a esse estupor, serve?

Linnet virou-se para sorrir.

— Não! — disse ele, estrem ecendo e tapando a cara com o braço. — Não tente envenenar

o m eu arbítrio com esse seu esgar. Aristóteles acreditava no livre-arbítrio e eu tam bém !

Linnet desatou a rir e puxou- o braço para baixo.

— Pronto. — Deixou o sorriso espalhar-se por todo o seu rosto. — Agora está às m inhas

ordens?

— Oh, valha-m e Deus — disse ele, troçando —, desta vez não resultou. Talvez a Linnet

estej a a perder o j eito. — Com um m ovim ento rápido, rodou sobre ela.

Linnet ficou de boa aberta. De repente, estava deitada de costas, as m ãos presas nas dele,

acim a da cabeça.

— Faça-m e outro sorriso; vam os ver se a m agia é lenta a atuar ou se eu sou im penetrável

— pediu ele. As suas palavras eram trocistas, m as havia nelas um a carícia, áspera, insolente.

Ela sorriu- . Mas não foi o sorriso de fam ília. Veio de um lugar com pletam ente diferente:

um lugar fam into, feroz, onde m ora o desej o.

Ele não disse nada.

Ela sentia cada pedacinho do seu corpo m usculado sobre o seu.

— Às m inhas ordens?

— Não com pletam ente — corrigiu ele, baixando os olhos para ela. — Mas, raios... a Linnet

é boa.

Linnet abriu a boca e passou a língua delicadam ente pelo lábio inferior.

— Gosto de o beij ar.

Sentia a respiração dele, funda, trêm ula.

— E preferia gostar de beij ar a sua perna — acrescentou ela, tentando perceber, em

algum a parte da sua m ente, se tinha enlouquecido.

— A Linnet... — disse ele.

— Sim ?

— Faz qualquer coisa para ganhar, não é?

Ela sorriu.

— Sou m uito com petitiva. Pensava que era o único?

— Já não — m urm urou ele e depois, finalm ente, finalm ente, baixou a cabeça para a dela.

Nos seus lábios perm anecia um vestígio de sal. E o seu beij o foi puram ente Piers: violento

e exigente, sem traço de civilidade. Linnet sentiu-se de novo a m enina escrava, deitada aos

pés do dono. Não, não aos seus pés, um a vez que todo o seu corpo vibrava com o peso dele.

Deitada sob o dono, subm etendo-se ao seu...

— Raios partam — protestou Piers, levantando a boca e fulm inando-a com os olhos.

— Porque m e sinto com o se estivesse fazendo am or com um a boneca de trapos? Ontem

parecia que sabia beij ar.

Ela soltou as m ãos e enrolou os braços em volta do pescoço.

— Nós não estam os fazendo am or.

— Exato. Vam os voltar ao m eu com entário inicial, sem a parte do am or. Porque estou eu

a incom odar-m e a beij ar um coxo...

Ela abafou um gem ido.

— Cale-se, Piers.

Os seus olhos cruzaram -se por um instante, um instante único, elétrico. Depois, os olhos

dele escureceram e a boca apoderou-se da dela outra vez.

Ela pôs de parte a ideia da m enina escrava e concentrou-se apenas em com o ele sabia:

quente e viril. Na sensação do corpo rij o deitado em cim a dela. No m odo com o ele estava a

devorá-la, no m odo com o ela o beij ava.

Beij á-lo fazia o seu corpo fundir-se sob o dele e as m ãos descerem - pelas costas,

decalcando os m úsculos, percebendo o m odo com o as costas se arqueavam na cintura,

estacando na toalha.

Ele estava a em purrar a perna para a frente, entre as pernas dela, e a cam isa... que

aconteceu à cam isa dela? Deve ter...

Piers libertou-se da boca dela e arrastou os lábios num a carícia ardente pela aresta do seu

queixo.

Linnet olhava, cega, para o teto, os seus sentidos inundados pelo toque e pelo cheiro de

Piers. Ele estava a em purrar- a cam isa ainda m ais para cim a, o que significava que ela podia

senti-lo m ais, m ais pele quente contra a sua.

A cabeça dele baixou-se m ais e arrancou-se um gem ido do peito.

— Raios, a Linnet tem os seios m ais doces que eu algum a vez...

Ela não ouviu o que ele disse porque ele tinha o seu seio na m ão e a boca no seu m am ilo.

Era delicioso, inebriante e... ele chupou. Ela arfou. Ou gritou, talvez. Ou aquilo foi dem asiado

rouco para ser um grito. Não devia fazer barulhos com o aquele, devia...

— Pare — disse ele, levantando a cabeça, erguendo-se sobre ela e olhando-a nos olhos.

— Não pare — suplicou ela.

— Com eçou pensando outra vez. Ficou toda tensa.

— Não. — Passou- os dedos sobre o peito, tal com o im aginara, sobre os m úsculos largos

e os m am ilos brônzeos.

— O Piers é lindo.

— E a Linnet não tem o j uízo todo se pensa isso — m urm urou ele, categoricam ente. Os

dedos dela roçaram - num dos m am ilos e da garganta dele soltou-se um som rouco. Ela fê-lo

outra vez, com m ais firm eza. O pescoço dele inclinou-se para trás, o que deu espaço para

deslizar para baixo e pôr a boca onde tinham estado os seus dedos.

Sentia-o trem er, por isso tentou algum as variantes... lam ber, até um a dentadinha.

Qualquer coisa que o fizesse pulsar contra ela. Metade da sua m ente estava nele e a outra

m etade estava no m odo com o se sentia de cada vez que ele investia contra ela.

— Basta — disse ele, rolando de cim a dela, ficando de costas e levando-a com você.

— A sua perna! — arfou ela. — Desculpe, eu...

Ele enfiou- um j oelhe entre as pernas.

As palavras m orreram - na boca. Todas as sensações do seu corpo se concentraram no

doce local entre as pernas.

— Oh! — gem eu ela. — Por favor...

Indistintam ente, ouviu-o dar um a risadinha, m as os lábios dele estavam outra vez no seu

m am ilo, deleitando-se, lam bendo, saboreando. Indo para o outro m am ilo, chupando, até ela

estar a vibrar contra a sua perna, gritando.

Arqueou-se contra os om bros dele, olhos fechados.

— Quer vir-se? — perguntou ele, a voz áspera e baixa. O polegar voltou a roçar-o m am ilo

e ela gem eu.

— Podia fazê-la vir-se só assim — disse ele.

Linnet percebeu a voz, o tom distante, de m édico, e com preendeu o que ele estava fazendo.

Inclinou-se e m ordeu o lábio.

— Está a ser idiota, outra vez.

— Porquê? — Ele brincava com os seus seios, fazendo-a estrem ecer.

— Observação — arfou ela. — Faz isso quando está desconfortável. Oh!

— Não estou desconfortável. Nem a Linnet. — Um a m ão deslizou pela barriga dela até

entre as pernas. Ele em purrou-a suavem ente para trás. — Em bora eu ache que posso fazê-la

ficar bastante m ais confortável.

Linnet abriu a boca, m as não saiu nada. Trem ia toda.

— Mais confortável de costas — disse ele, virando-a ao contrário com tanta facilidade

com o se fosse um a panqueca. — Mais confortável se a beij ar aqui... — Pôs a boca no peito...—

enquanto toco aqui. — Os seus dedos afundaram -se m ais entre as pernas dela, afagando,

acariciando.

Linnet não sabia se ele estava a observá-la. Mal reparou quando a boca dele deixou o seu

seio e se arrastou pela barriga. O que ele estava fazendo com a m ão fazia-a contorcer-se, as

ancas a arquearem -se contra os seus dedos, gem idos roucos a voarem dos seus lábios.

Mas, depois, ele abriu- m ais as pernas.

Ela levantou a cabeça, atordoada, e viu a cabeça escura dele entre as suas pernas.

— Que está fazendo? — gritou ela, tentando afastar-se. — E. . o que... pare com isso! Tarde

dem ais. Os lábios dele viraram -se para a doce curva da parte de dentro da sua coxa. Um a

língua passou delicadam ente, cada vez m ais perto.

— Cheira tão bem — disse ele, sonhador. — Essência de Linnet com um toque do oceano.

E sabe...

Ela arfou.

— Sabe com o o m el m ais doce. — Voltou ao que estava fazendo. Dobrou os j oelhos para

cim a e a língua reclam ou-a, tom ou-a, atirou-a para o fogo. A cabeça dela virou-se de um lado

para o outro e ela esticou-se contra ele, gritando e voltando a gritar, repetidas vezes, a cada

doce m ovim ento.

Um dedo enfiou-se dentro dela e ela quebrou, gritando tão alto que só ouvia o som do seu

próprio prazer e não o vento.

Depois voltou a ouvir o vento, m as tam bém o sussurro da voz de Piers, enquanto a beij ava,

m uito suavem ente.

— Oh, que delicadeza — disse ele, cantarolando. — Em perfeitas condições de

funcionam ento.

— Está a diagnosticar-m e! — exclam ou ela, conseguindo tirar a cabeça da alm ofada para

poder olhar para ele.

Ele fitou-a, o dem ônio nos olhos.

— Estou a diagnosticar a m ais rósea... — beij ou-a outra vez, e ela voltou a estrem ecer... —

a m ais doce... — outro beij o... — a m ais deliciosa parte de Linnet.