Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 25
é tão em baraçosa com o o m eu pai.
— Não m e im porto de fazer de idiota para você — respondeu ela. — Eu am o-o.
Não houve resposta atrás dela, e ela pensou que nunca haveria. Por isso, trepou para o
parapeito da j anela.
— Entre nessa carruagem — ordenou Piers, lá de trás, indicando com a cabeça um a
carruagem grande, que estava m esm o ao lado, os cavalos a arquej ar e a bater com os cascos.
— E do duque, pelo brasão.
— Adeus — disse ela. — Que Deus o abençoe.
E foi-se em bora antes de ele dizer qualquer coisa, porque não seria o que ela desej ava
ouvir, e, de qualquer m odo, estava cega das lágrim as.
25
Robert saltou da j anela depois de ter aj udado Marguerite a sair, m as ela recusava m exer-
se. Estava de pé, paralisada, ouvindo a voz de Piers a em ergir da sala de estar.
— Tem os de ir — disse o duque suavem ente, agarrando a m ão de Marguerite para a
afastar dali, precisam ente quando o filho dizia, categoricam ente Não quero casar com você!
— Ele é um tolo — sussurrou Marguerite. — Grande tolo. A Linnet é a m ulher para ele.
Nunca haverá outra; com o ela, não.
Mas Robert levou-a dali, descendo o cam inho até à casa do guarda, ouvindo em silêncio
enquanto ela dizia o que ele j á sabia: que Piers parecia estar determ inado a causar m ais
infelicidade a você próprio. Que o filho era incapaz de aceitar a m ulher que obviam ente
am ava e que o am ava a ele.
Ela só parou de falar quando entraram na sala de estar da casa do guarda. O interior da
pequena casa não parecia um a habitação de criados, m as antes a casa de cam po de um
cavalheiro, em bora em m iniatura. As paredes estavam cobertas de quadros e a sala
resplandecia de cor, acentuada por um a coberta escarlate atirada por cim a de um sofá, em
frente da lareira.
— Que estranho — disse Marguerite, olhando em volta.
— Vista de fora, parece bastante prim itiva, m as, na realidade, é encantadora. Olha para
aquele sofazinho: estava, com toda a certeza, na sala de estar pequena ainda na sem ana
passada?
Robert tinha as suas próprias teorias acerca da razão pela qual a casa lem brava um
pequeno ninho aconchegante, m as achava que a m ãe de Piers não iria apreciar a perspicácia.
— Podes sair agora, Robert — disse Marguerite, abrindo a porta para o quarto de dorm ir
e enfiando a cabeça lá dentro.
— Vou ficar absolutam ente confortável aqui. Os criados vão cuidar de m im , e, se o Piers
adoecer, podes contar com igo para tratar dele.
— Eu sem pre soube que podia — disse ele, aproxim ando-se por trás dela.
Ela olhou por cim a do om bro dele, sorrindo. Ele não tinha voltado a beij á-la desde a
prim eira vez, não querendo arriscar a hipótese de ela poder repudiá-lo para sem pre. Mas
tinham conversado m uito sobre os últim os anos, sobre o m odo com o ele havia lentam ente
em ergido de um a névoa de ópio e se tinha apercebido de que a fam ília estava perdida para
ele. Durante os anos solitários que se seguiram , a sua única felicidade era ter a certeza
absoluta de que Marguerite estava a tratar o m elhor possível do filho deles.
— Eu sei — disse ela agora, adm itindo-o.
— Se você adoeceres, Marguerite, com o vai ser? — Envolveu os braços à volta dela, por
trás, e depositou- um beij o na face. — Com o vai ser?
Para seu enorm e prazer, ela não se afastou, m as deixou-se ficar no aconchego dos seus
braços.
— Oh, eu não adoeço — afirm ou ela, com um a total confiança, que secundava a de Piers.
— Eu nunca estou doente.
— A m inha m em ória não é isso que m e diz.
— Nunca!
— Quando estavas à espera do nosso filho. Não te lem bras de quão doente ele te pôs? Ela
riu-se e até se inclinou m ais para o aconchego dos seus braços, recordando.
— Com o eu fiquei a detestar aquela m iserável bacia verde que tínham os no nosso quarto
de dorm ir! Deitei-a fora depois de ele nascer.
— Então j á te vi doente — reafirm ou Robert, agarrando-a com m ais força ainda e ousando
beij ar- a orelha. — Tratei de você nessa altura, lem bras-te? Quando estavas doente a m eio
da noite. E lá estarei para tom ar conta de você novam ente se o pior estiver para vir. Se o Piers
adoecer, estarem os am bos a seu lado.
— Disparate — disse ela, libertando-se e virando-se. — Que estás a dizer, Robert? Até a
m aneira com o ela disse o nom e dele, com a sua pronúncia encantadora, fez o seu coração dar
um baque.
— Estou a dizer que não vou deixar-te — disse ele, com firm eza. Ela franziu as
sobrancelhas.
— Isso é um a tolice.
— Não.
— Um a tolice — insistiu ela.
Por uns m om entos, Robert lim itou-se a ficar ali, em pé, a olhar para ela, e depois afirm ou
com toda a verdade:
— Nunca voltarei a deixar-te.
— Mas que raio queres dizer com isso?
— Se m e puseres fora desta casa, dorm irei no carreiro lá fora. Se regressares ao
Continente sem m im , seguir-te-ei. Construirei um a cabana de salgueiro em frente ao seu
portão; dorm irei debaixo da sua j anela; estarei à sua espera à porta da sua casa.
Ela levou a m ão à boca, o riso a escapar por trás dos dedos.
— Perdeste a cabeça, Robert!
Ele abanou a cabeça.
— Pelo contrário: encontrei-a. Estou apaixonado por você. Sem pre estive apaixonado por
você, sem pre. Mesm o quando não conseguia pensar com o devia ser, havia um a coisa que eu
sabia, m esm o num sonho de ópio: que te am ava.
— Foi um a tragédia não teres conseguido lem brar-te das pessoas que am avas no dia em
que o Piers entrou inesperadam ente no seu escritório. — Mas a voz dela não era áspera.
— Eu hei de sem pre, até ao dia da m inha m orte, im plorar ao Piers que m e perdoe.
Mas, Marguerite... Neste m om ento, não quero falar do Piers. Ele é agora um hom em adulto,
um hom em fantástico, o que é tudo m érito seu. Mas você não é apenas a m ãe do Piers. Você
é a m inha esposa, a única m ulher com quem algum a vez quis casar, e a esposa do m eu
coração, apesar de m e ter com portado com o um idiota depois de teres levado o Piers para
França. Tiveste toda a razão em partir.
— Você foste um idiota — observou ela. No entanto, os seus olhos encoraj avam -no.
— Nunca ninguém irá am ar-te com o eu — disse ele, segurando- as m ãos e levando-as aos
lábios. — Nunca ninguém te am ou com o eu. Você é o m eu coração e a m inha vida, Marguerite.
Um pequeno sorriso brincou ao canto da boca dela, um sorriso sedutor, extrem am ente
fem inino.
— Aceita-m e de volta.
As suas palavras pareciam ter ficado suspensas no ar, ecoar na pequena casa.
— Eu sei que o que fizeste é im perdoável — disse, finalm ente, Marguerite. — Todos os
m eus am igos o dizem .
— Eles têm razão. Não m e perdoes. Mas... m as, aceita-m e de volta. — Os seus dedos
apertaram os dela.
— E se eu disser não?
— Então, eu sairei desta casa.
— E?
— Não te deixarei correr o risco de contrair escarlatina. Estarei lá fora, caso precises de
m im . Irei buscar a com ida aos criados para que eles não possam infetar-te.
— Podes, você próprio, apanhar a doença — disse ela suavem ente.
— Morreria por você em um abrir e fechar de olhos.
Do coração explodira esperança, que j orrava através das veias: um a torrente de alegria
e m edo e desej o.
Marguerite aproxim ou-se um passo, libertou as m ãos e enrolou os braços à volta do
pescoço. Acom odou-se ali da m esm a form a doce com que sem pre o fizera.
— Podes ficar.
Ele puxou-a para você, encostou a face ao cabelo dela, fechou os olhos.
— Mon am our.
— Mas não tenho a certeza se vou voltar a casar contigo — observou ela.
— Não m e interessa. Podem os viver em pecado para o resto das nossas vidas. Ele ouviu
um gorgolej o de riso.
— Eu sou francesa. Nós som os m uito sensatas.
— Sensatas e deleitáveis — sussurrou ele, m ovendo lentam ente as m ãos para baixo, ao
longo das suas costas estreitas.
— E se esse ópio te causou danos, perm anentes?
Ele afastou-se, olhou para ela.
— Eu não...
O sorriso dela foi endiabrado e os seus olhos deslizaram para a cam a.
— Um a m ulher francesa nunca, j am ais, considera coisas im portantes com o um dado
adquirido.
Com um ím peto de alegria, Robert envolveu a sua ex- -m ulher — não, a sua m ulher — nos braços e atravessou a entrada até ao quarto, colocando-a gentilm ente em cim a da