Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 7 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 7

parentes com a feliz, em bora errada, im pressão de que o príncipe Augustus estava a seduzi-

la vigorosam ente.

Podia acontecer não voltar nunca m ais a Londres, percebeu ela, olhando pela j anela. A

cidade passava em frente da carruagem num a longa e m onótona fila de casas cinzentas, ainda

m ais lúgubres devido a um a espessa cam ada de pó de carvão.

Isso significaria que podia não voltar a ver o pai, um a vez que ele nunca saía da cidade. Ou

a tia Zenobia, que só saía para ir às festas m ais barulhentas.

Naquele m om ento, essa ideia não a perturbava nada.

7

Num a caravana constituída por três carruagens e oito lacaios, Linnet e o duque de

Windebank chegaram finalm ente a Gales duas sem anas m ais tarde. Um a vez que o duque só

tinha um assunto de conversa a todas as refeições, o filho, nessa altura ela j á sabia o suficiente

sobre o seu futuro m arido para o apresentar ela própria ao Colégio Real de Médicos. Quer

dizer, se ele não se tivesse ainda associado às suas fileiras.

Depois dos prim eiros dias de conversa incessante sobre Piers, Linnet expulsara o duque

da sua carruagem , com a desculpa de que o seu estado, aliado aos balanços da carruagem , a

nauseava.

Descobrira, então, que estar deitada ao com prido nas alm ofadas ducais era

extraordinariam ente confortável. E, com o tinha um estôm ago de ferro, passara a viagem a

ler, feliz, deitada de costas e m astigando m açãs.

Tudo o que vira de Gales da j anela da carruagem era verde: um verde-escuro e vivo que

parecia ensopado em água e vento. Nunca sentira o cheiro do m ar, m as soube im ediatam ente

o que era, bem fundo nos seus ossos. Era selvagem e odoroso e livre e fazia-a sonhar com

longas viagens m arítim as a ilhas de que nunca tinha ouvido falar.

Quando não contem plava o m ar, pensava no m édico com quem estava prestes a casar.

Segundo o pai, tinha sido inj ustam ente rotulado de m onstro por causa da sua im paciência

com a form a antiga de exercer m edicina.

— Os m édicos — dissera- Windebank — são velhos loucos. Por exem plo, as febres. Piers

descobriu que, com binando sangram ento com aum ento da tem peratura interna, os m édicos

estavam na realidade a m atar os pacientes. Mem bros do Colégio Real de Médicos

com bateram -no com unhas e dentes até que ele finalm ente confrontou o seu registo m édico

com o de um m édico em inente, Ketelaer. Ketelaer perdeu todos os seus doentes, exceto três,

e aproxim adam ente do m esm o núm ero, Piers perdeu apenas um .

Portanto, ela ia casar com um gênio. Parecia, realm ente, que ele tinha tendência a perder

a calm a quando se zangava, m as ela estava confiante de que iria conseguir lidar com ele.

Na m anhã da sua chegada ao castelo, ela enrolou tecido de linho em volta da cintura para

ficar com um perfil um pouco m ais grosso e olhou-se ao espelho. Tirando a cintura, parecia

exatam ente um a princesa de qualquer um de um a centena de contos de fadas: olhos azul-

claros, cabelo louro-arruivado, pele linda. Mais o sorriso de fam ília.

Deixaria passar duas sem anas para ter a certeza de que o seu noivo (talvez m arido, nessa

altura) estaria desesperadam ente apaixonado por ela e depois tencionava confessar que não

estava à espera de bebê.

O castelo estava assente sobre os penhascos e, quando as carruagens com eçaram a subir

a estrada, o Sol estava a erguer-se, quente é am arelo, à sua esquerda.

— Desfrute deste sol — disse o duque. Linnet tinha- perm itido voltar à sua carruagem

para a últim a etapa da viagem .

— Lam ento dizer- que Gales tem m á reputação devido ao seu clim a úm ido. Desej o m uito

que consiga convencer o m eu filho a m udar-se para Londres, m inha querida. Sei que ele

podifazendo tanto bem por lá. Não que eu estej a a sugerir que ele exerça regularm ente, claro.

Será um par do reino. Mas podia dar aconselham ento nos casos m ais interessantes.

Havia qualquer coisa nas descrições que o duque fazia do filho que era um pouco...

estranha. Com o se não o conhecesse m uito bem , apesar de não poder ser esse o caso. Linnet

inclinou-se para a frente, com expectativa, quando se aproxim avam do castelo. Era

m onum ental, construído de pedra cinzenta-clara e tinha quatro ou cinco torreões que ela

conseguia ver.

— É m uito velho? — perguntou ela.

— Antigo — disse o duque, olhando tam bém para fora. — Está na fam ília há várias

gerações. Um dos m eus antepassados ganhou-o num j ogo de piquet. O Piers teve de fazer

enorm es reparações, porque havia m uito que ninguém vivia nele.

As carruagens pararam num a área fechada, à entrada de um a grande porta em arco.

— Ah, aqui estás você, Prufrock — disse o duque, saltando da carruagem .

O m ordom o parecia bastante j ovem para o seu cargo, provavelm ente na casa dos trinta, e

era tão m agro que se assem elhava a um a cegonha, com a pele cor de chá com leite.

— Vossa Graça — disse ele, fazendo um a reverência.

Os seus olhos dirigiram -se para Linnet, que tinha acabado de descer da carruagem com a

aj uda de um dos lacaios. Ele não tinha aquele dom próprio dos m ordom os que consistia em

m anter o rosto im penetrável; os seus olhos abriram -se m uito e um a sobrancelha ergueu-se

de um m odo inesperadam ente encantador.

— Este é o Prufrock — disse o duque. — Miss Thry nne, a noiva do m eu filho. Com certeza

que ele te inform ou da nossa chegada im inente.

Prufrock conduziu-os através das enorm es portas até um a im ponente sala, aberta, com

um a enorm e escadaria que subia de cada lado. A porta tinha um a espessura igual à largura

da m ão de Linnet e fora claram ente construída para resistir a cercos.

— Onde podem os encontrar o m eu filho? — perguntou o duque. Havia qualquer coisa na

sua voz, um a espécie de alegria m al reprim ida, que despertou a curiosidade de Linnet.

Ela tirou o chapéu e a capa e entregou-os a um lacaio.

— Lorde Marchant encontra-se na ala oeste e foi inform ado, evidentem ente, da vossa

chegada — disse Prufrock. — Mandei lá um lacaio assim que avistam os as vossas carruagens.

Penso que ele virá ter convosco a qualquer m om ento. Se Miss Thry nne quiser refrescar-se,

posso escoltá-la, e à sua criada, ao seu quarto. Talvez Vossa Graça tam bém ?

— Disparate — disse o duque. — Saím os da estalagem há coisa de um a ou duas horas

atrás. Os pacientes estão aloj ados no terceiro andar, não estão, Prufrock?

— Sim , m as...

O duque com eçou a andar a passos largos. Depois hesitou, virou-se e agarrou Linnet por

um pulso.

— Vou levá-la com igo — disse ele, com o que para você próprio. Mesm o antes de ela abrir

a boca para responder, j á estavam a m eio do lanço de escadas à esquerda.

— Vossa Graça — ofegou ela, segurando as saias.

— Venha, venha — disse ele por cim a do om bro. Agora, que estavam finalm ente no

castelo, parecia possuído por um a com pulsão feroz. Rebocou-a ao longo de um corredor.

Linnet concentrou-se em acom panhar o passo dele, em bora sentisse o coração a bater

cada vez m ais depressa. A qualquer m om ento ia conhecer o m odelo de hom em com quem ia

casar. Tinha form ado na sua m ente um a im agem dele: alto e esbelto, com um coxear

que dava um a ligeira inclinação para o lado, um rosto m arcado pela dor, m as im buído da

notável beleza que o pai ainda possuía.

Contornaram um a esquina. Então, ela ouviu vozes. O duque cam inhou ainda m ais

depressa, puxando-a atrás de você. Estava um a porta aberta no fim do corredor e o duque

enfiou-se por ela.

Encontravam -se num quarto com seis cam as, a m aior parte das quais estava ocupada. Um

grupo de j ovens encontrava-se aglom erado j unto a um a cam a, do lado esquerdo. Por fim , o

duque soltou- o braço e deu um passo em frente.

— Piers — disse ele, a voz subitam ente áspera.

Nenhum dos hom ens olhou em volta perante a interrupção.

Muitos deles eram m ais novos, provavelm ente estudantes, e estavam todos atentam ente

concentrados no paciente.

— Um a sessão de ensino — disse o duque, baixinho.

Os olhos de Linnet passaram rapidam ente pelos hom ens, localizando de im ediato o noivo.

De fato, ele estava a falar.

— Febre m iliar. Apresenta-se com erupção cutânea, estado febril. — A sua voz tinha o

toque de autoridade absoluta. — A erupção apareceu no terceiro dia, o que é um a evidência

conclusiva.

Marchant tinha um queixo m ais com prido do que ela im aginara, m as o resto era perfeito:

cabelo louro e m acio, loucam ente inteligente, esbelto, com um ar arrogante.

Foi isso que valeu a alcunha de Monstro — aquele ar arrogante, com o se fosse m ais

inteligente do que qualquer outra pessoa no quarto. No entanto, ela via nele um a bondade

que desm entia o rótulo.

O seu traj e era requintado. Francam ente, ela nunca im aginara ver um fraque com aquela

m agnificência em Gales ou, na verdade, em qualquer sítio fora de Londres. O pai teria o

invej ado, o que dizia m uito.

Um j ovem à direita da cam a falou, com bastante hesitação.

— O Huxham diz que a erupção pode aparecer no sétim o, nono ou décim o prim eiro dia.

— Na m inha experiência, a erupção ocorre no terceiro dia— respondeu o seu noivo. A sua

voz era m esm o daquele gênero que acalm ava um paciente agitado, pensou Linnet,

perguntando-se porque teria ele sotaque francês, antes de se lem brar que havia passado a

m aior parte da vida em França, com a m ãe.

— A sua experiência não vale nada — grunhiu um estudante desavergonhado do outro

lado da cam a. Ela não conseguia vê-lo porque estava encoberto pelos outros hom ens. — E a

do Huxham tam bém não. O hom em falava às cegas. Sétim o, décim o prim eiro; tam bém podia

dizer que a erupção aparece com a lua nova. Para ele é tudo m agia.

— Esta erupção foi acom panhada de opressão e ansiedade — respondeu o noivo dela,

revelando a voz um a censura discreta.

— O Lobb m enciona explicitam ente esses sintom as associados a erupções m iliares.

— Não terias ansiedade se te visses coberto de um a erupção noj enta, cheia de crostas? —

perguntou a voz desagradável.

Ao lado dela, o duque chegou-se para o lado para ver o hom em que falou e depois sorriu.

O coração de Linnet caiu- aos pés quando com preendeu o significado por trás desse sorriso.

— Olhe, você aí na cam a, não acha que está ansioso, se não m esm o opressivo? Essa

erupção significa que alguém pode com eçar a gravar a sua lápide, então porque não estar

deprim ido?

— Chim — veio da cam a.

— Bem , isto é engraçado — disse o hom em . — Alguém pergunte de que cor é o céu.

Porque não perguntam ?

Ninguém disse nada.

— Assul — disse o paciente.

Houve um a explosão de riso.

— Você é um burro — declarou o m édico louro. Linnet concordou. Com o podia aquele

palerm fazendo troça de um m oribundo?

Precisam ente nessa altura o grupo de j ovens m édicos separou-se e ela conseguiu ver

quem estava fazendo toda aquela indelicadeza.

— O burro neste quarto é a pessoa que fez o diagnóstico de um doente sem fazer um a

única pergunta. Ora, este hom em tem a língua grossa, o que o faz ter aquele ciciar côm ico.

Pode estar seca, pode estar inchada. De qualquer m aneira, não é bom sinal. Se estiver seca,

pode significar febre m iliar. Se estiver inchada, que indica isso?

A sua prim eira im pressão do hom em m alcriado foi que era grande — enorm e, de fato. O

m édico louro era alto e esbelto, m as este hom em era ainda m ais alto e m uito m aior. Os seus

om bros tinham o dobro da largura dos outros hom ens. Todo ele era m úsculo, com um a

espécie de força predadora que parecia deslocada j unto a um leito de enferm o. Na realidade,

tinha o aspecto de quem devia estar a conduzir hordas de viquingues... a com bater, ou o que

quer que esses hom ens fizessem para viver.

Tinha estado a cham ar a atenção para qualquer coisa no tórax do paciente, m as ergueu os

olhos e os seus olhares cruzaram -se. Instantaneam ente, o seu rosto ficou glacial.

O que era belo no pai era desagradável nele; os seus olhos azuis eram cortantes, com o o

inverno am argo. Não parecia civilizado. Ninguém poria aquele rosto num a m oeda, rom ana

ou não. Parecia duro dem ais... m onstruoso dem ais, percebeu ela de súbito.

O coração de Linnet deu um salto, m as os olhos dele passaram - pelo rosto e depois

desceram - pelo corpo, com o se, tam bém ela, fosse um paciente cuj o diagnóstico estava

fazendo. De um m odo m uito desatento, sem desviar os olhos dela, disse:

— E febre petequial, im becil. Devia ter sido posto na ala leste, não na oeste, em bora

provavelm ente j á não estej a contagioso. Devias lim itar-te a serrar pernas; é um burro

quando se trata de diagnósticos. E depois:

— Olhem quem aqui está! O m eu pai conseguiu realm ente encontrar um a m ulher m ais

bela do que o Sol e a Lua.

Havia certo tom de desdém na sua voz que fez Linnet ficar tensa.

— Piers — disse o duque.

Os olhos im placáveis do filho m overam -se de Linnet para o duque, que estava ao lado dela.

— E acom panhada pelo velho e querido pai, nada m enos. Bem , isto vai ser um grupo

anim ado. Adivinhem , am igos?

Os outros m édicos estavam a olhar verdadeiram ente de boca aberta. Ao contrário do

conde, tiveram todos um a reação absolutam ente norm al a Linnet; ela viu-o, com um olhar

rápido.

— Eu vou casar — disse ele. — Com um a m ulher que, ao que parece, tem um desej o

extraordinário de ser duquesa. Não tenho sorte? — Avançou, contornando os pés da cam a.

Linnet obrigou-se a não recuar. Teve consciência, com um sobressalto, de que ou fazia

frente nessa altura ou então passaria o resto da vida a ser tiranizada.

Porque ele era um tirano, sem qualquer dúvida. Aproxim ou-se, até estar dem asiado perto

dela, servindo-se do fato de ser m uito m aior do que ela para a intim idar.

— O m eu pai inform ou-a de que estou a planear viver um a vida norm al, não foi? — disse

Marchant, a voz arrastada de desagrado.

— Ele não falou nisso — conseguiu ela dizer, grata por ouvir a sua voz inabalada. O

despeito nos olhos dele estava tão m al disfarçado que as costas dela ficaram rígidas. — Por

vezes, os planos alteram -se — acrescentou. — Só se pode ter esperança.

— Os m eus planos raram ente m udam . Não queria que a senhora tivesse vindo até Gales

apenas porque pensava que eu estava a preparar o m eu enterro.

— O duque contou-m e tudo o que é essencial a seu respeito e a sua reputação

providenciou o resto — disse ela.

Os olhos dele voltaram a percorrer o corpo lentam ente.

— Interessante. Há algum as coisas que parece que ele se esqueceu de m e contar. Linnet

virou-se para o duque. Seguram ente, ele m encionara o bebê na carta, quer dizer, o bebê que

ela supostam ente ia ter? Os olhos de Marchant tinham , decididam ente, parado na sua cintura

espessa.

Mas o duque estava a olhar para o filho com o um hom em guloso em frente de um pudim

francês. Passava-se ali m uito m ais do que ela im aginara.

— E o senhor deve ser o m eu pai — continuou Marchant. A sua voz não era nada

acolhedora.

— Sou — disse o duque, a voz a vacilar. — Sou ele.

Fez-se um silêncio doloroso. Era óbvio que Marchant não ia dizer m ais nada e o duque

parecia não ter coragem .

— Agora que sabem os todos quem é cada um dos outros — disse Linnet alegrem ente

siddo—, talvez devêssem os ir para baixo e deixar este pobre paciente sozinho.

O hom em que estava na cam a tinha-se erguido sobre os cotovelos e estava a olhar,

fascinado.

— Por m inha causa, não — disse ele, a língua inchada a fazê-lo pronunciar m al a frase...

Marchant desviou os olhos do paciente para ela.

— Bela e alegre. Caram ba, hoj e é m esm o o m eu dia de sorte, não é? Um a deliciosa reunião

de fam ília deste gênero revela o que de m elhor existe em todos, não acham ?

Linnet virou-se e dirigiu-se à porta, onde parou e se voltou para trás. Tal com o pensava,

os hom ens estavam a segui-la com os olhos, incluindo— reparou com um a palpitação de

prazer — o seu próprio noivo, para não falar no doente. — Doutor?

— Creio que esta é a m inha deixa — disse Marchant. Ela percebeu pela prim eira vez que

ele se apoiava num a bengala que segurava na m ão direita.

Viu-o dirigir-se a ela. Estranham ente, o seu corpo enorm e deu ao ligeiro coxear para o

lado o efeito contrário do que ela esperara.

Cam baleava ao andar, deslocando-se com o um leão ferido, m as feroz, ainda m ais perigoso

devido ao seu ferim ento.

— Não m e diga que Sua Graça se esqueceu de a inform ar que o seu futuro m arido é

aleij ado — disse ele, ao chegar à porta. Tinha passado pelo pai sem parecer reparar no m odo

com o a m ão do duque avançou para ele e depois tom bou.

Linnet decidiu guardar o sorriso de fam ília para um a ocasião m elhor.

— Ele falou nisso — disse ela. — Talvez eu não deva aceitar o seu braço, posso fazê-lo

cair? — Ignorou o fato de ele não ter oferecido o braço.

Ele estreitou os olhos. Am bos sabiam que ele tinha a constituição de um a casa de tij olo e

a m ão dela sobre o seu braço não o abalaria.

— Está a j ogar um j ogo perigoso — disse ele.

— Então, os três m édicos m ais novos são seus alunos? — perguntou ela. Cam inharam ao

longo do corredor. Atrás, ela ouvia o duque a apresentar-se aos restantes m édicos.

— Sabe contar até três — disse ele, com um ar de aprovação. — Isso é um bom presságio

para a sua descendência.

— E eu pensava que nós não íam os ter descendência — disse Linnet.

— É verdade que a responsabilidade do assunto recai nos nossos om bros — disse ele,

avançando com um a espécie de andar gingado que o fazia cam inhar m esm o à frente dela.

— Em bora deva dizer que a carta do m eu pai parecia im plicar que a senhora era m ais

precipitada a esse respeito do que aparenta ser.

A pior coisa que ela podifazendo era saltitar para o apanhar. Obviam ente, ele estava

dem asiado habituado a j ovens m édicos a seguirem -no de perto.

Ele virou a cabeça.

— Não ouviu o que eu disse?

— Infelizm ente para m im — disse ela docem ente não sei o que significa a palavra

precipitada, por isso não percebi o cum prim ento que estava a dirigir-m e.

— Estava a falar desse pedaço de sangue real que supostam ente traz no seu ventre —

rosnou ele.

Linnet olhou por cim a do om bro. Ainda não havia sinal do duque ou dos estudantes de

m edicina.

— Que é que tem ?

Ele voltou a parar.

— Não há bebê nenhum nessa barriga, Miss Thry nne. O fato de ter atado um a alm ofada à

volta da cintura pode ser suficiente para confundir o m eu pai, m as não a m im .

— Recom eçou a andar.

Linnet olhou para os seus om bros e com preendeu que tinha de refrear aquele hábito dele,

caso contrário passaria a vida a correr atrás dele.

— E o coxear que o faz andar assim ? — perguntou, levantando a voz.

— O que acha? — disse ele, detendo-se do novo. — Pensa que eu ando a cam balear com o

um m arinheiro bêbado por puro prazer?

— Não falo no cam balear — disse ela. — Falo no m odo com o anda a correr pelo corredor

fora com o um a criada de cozinha com m edo do cozinheiro.

Ele ficou paralisado por um m om ento e depois, m uito para surpresa dela, deu um a

enorm e gargalhada. Soou enferruj ada, com o que por falta de uso.

— Aborreço-m e com os corredores — disse ele.

— Eu aborreço-m e com as costas das pessoas.

Os olhos dele eram extraordinariam ente brilhantes à luz fraca do corredor. Não tinha a

beleza do pai, m as Linnet com eçou a ver que tinha a sua própria beleza. Era de um gênero

m ais brutal, m ais forte, um tipo de beleza que irradiava dos olhos.

— Raios partam ! A senhora não é o que eu esperava.

— Posso não ser tão fam osa com o o senhor — disse ela, apanhando-o. Ele não ofereceu,

m as ela colocou as pontas dos dedos no seu braço direito, pensando que isso pelo m enos o

m anteria ao seu lado.

— Com esse rosto, im agino que a sociedade elegante sabe tudo a seu respeito.

— E que sabe o senhor da sociedade elegante?

— Nada — disse ele, com eçando a andar. Não m encionou a m ão dela no seu braço, m as

abrandou o passo para se m anter ao lado dela.

— Neste m om ento, sou m ais fam osa por coisas m ás do que por boas — disse ela, pegando

o boi pelos cornos.

— Por causa desse bebê que na realidade não tem — disse ele. — Estranho, isso. Pensava

que as classes altas ficavam m ais chocadas com bebês do que com a falta deles. Com eçou a

usar a alm ofada com o algum a espécie de brincadeira?

— Pula esta m anhã apenas para você — disse ela.

— Com o percebeu que o m eu pai seria incapaz de resistir, nas circunstâncias? Foi um

estratagem a extraordinariam ente perspicaz, dada a obsessão dele com o apelido da fam ília.

Pela prim eira vez existiu um gérm en de adm iração na sua voz.

— Obrigada — disse ela.

— Não que vá resultar.

Linnet estava precisam ente pensando a m esm a coisa, apesar de não ver razão para dizer.

— Ah, m as eu acho que nós som os perfeitam ente talhados um para o outro — disse ela,

apenas para o provocar.

— Um m édico com pletam ente doido, eu, e um a beleza perversam ente calculista, a

senhora, coxeando j untos num a vida de felicidade? Custa-m e a acreditar. Tem andado a ler

dem asiados contos de fadas.

— Quem disse que sei ler? Mal sei contar, lem bra-se?

Ele olhou-a e ela decidiu, m ais um a vez, reter o sorriso de fam ília.

— Com eço pensando que posso ter-m e enganado em relação às suas capacidades.

Provavelm ente é capaz de contar até dez e para trás.

— Isso reconforta-m e o coração — arrulhou ela. — Um a vez que vem do grande doutor e

isso tudo.

O canto da boca dele ergueu-se.

— Então, quando acha que inform aria o seu m arido do bebê real que não existe?

— Eu podia ter perdido o bebê.

— Sou m édico, lem bra-se?

— Pensei que era cirurgião.

— Eu faço tudo — disse ele, com eçando a acelerar outra vez. Ela apertou- m ais o braço

com os dedos, sentindo os m úsculos a fletirem -se quando o braço recebia o peso do corpo

dele, apoiando-se à bengala.

Ele olhou de lado, abrandou, m as não disse nada.

— Então, é cirurgião — disse ela, e perguntou um a vez m ais:

— Aqueles hom ens são todos seus alunos?

— Eu não tenho alunos — disse ele, num tom de repulsa. — Deixo isso para os palerm as

de Londres. O que viu são idiotas desesperados que vieram para aqui para m e tornarem a

vida num inferno. Talvez tenha reparado naquele idiota a babar-se, à frente, o louro. Esse é

o pior de todos.

— Parece velho para estudante — disse Linnet.

— Sebastian. Meu prim o. Na realidade, não é m au cirurgião. Diz que está a escrever um

livro sobre o assunto, m as na verdade está só preocupado com a sua situação e está aqui

escondido.

— Escondido de quê?

— Parece estar convencido de que Napoleão está a endoidecer. Não m e adm iraria nada. A

propósito, ele é o m arquês Latour de l’Affitte, por isso é m ilagre ele ter sobrevivido os últim os

dez anos com a sua linda cabeça intacta.

Chegaram às escadas que desciam para o andar principal.

— Se quiser continuar agarrada a m im , terá de passar para o m eu lado esquerdo — disse

Marchant. — Em bora, claro, haj a sem pre a possibilidade de descer as escadas sozinha.

Linnet dirigiu-se para o seu lado esquerdo, apenas para o irritar. Desta vez, enrolou os

dedos por baixo do braço. Gostava bastante de sentir todo aquele m úsculo debaixo da m ão.

Parecia que estava a dom ar um anim al feroz.

— Suponho que pensa que vou apaixonar-m e por você — disse ele.

— Muito provavelm ente.

— Quanto tem po se dá? — Ele parecia genuinam ente curioso.

— Duas sem anas no m áxim o. — E então dirigiu- o sorriso; covinhas, sedução, sensualidade e isso tudo.

Ele nem sequer pestanej ou.

— Isso foi o m elhor que tem ?

Contra sua vontade, Linnet deixou escapar um a risadinha, e depois outra.

— Geralm ente, é m ais que suficiente.

— Acho que, neste m om ento, eu devia dizer algum a coisa encoraj adora. — Elevou a voz

para um a desculpa hum ilhada.

— Não sou eu, é a senhora. — Depois: — Ups! Disse de trás para a frente. — Não é a

senhora, sou eu.

— Calculo que a sua lesão confere im unidade — disse ela, tendo j á percebido isso. Tinha-

se enganado ao considerar a incapacidade dele um a vantagem . Tornava-o indiferente aos

seus encantos, o que significava que o casam ento deles nunca resultaria.

O duque teria sim plesm ente de se resignar à falta de herdeiro.

Os gélidos olhos azuis de Marchant trem eluziram para ela e depois desviaram -se.

— Qualquer coisa desse gênero.

— Eu não queria falar nisso, se é um assunto delicado — disse ela, decidindo irritá-lo o

m ais que podia. — Estou certa que será difícil sentir que é... com o é que se diz? Um gatinho.

Um a borla de pó de arroz.

— Gatinho? — Para desilusão dela, ele não pareceu irritado, apenas sarcasticam ente

divertido. — Eu acho-m e m ais com o um ...

— Sim ?

— Tenho de pensar nisso. Para encontrar a expressão perfeita, com preende?

— Não se preocupe — aconselhou-o ela. — Tenho a certeza de que com você resolver o

nosso pequeno problem a quando estiverm os casados. Provavelm ente, Gales está cheio de

rapazes bem constituídos, prontos fazendoem um favor ao seu senhor.

— Nós não tem os nenhum problem a — disse ele bruscam ente.

Linnet reprim iu um sorriso.

— Ah, tem os, sim — disse ela. — O seu pai prom eteu-m e a sua m ão em casam ento e o

anúncio j á foi enviado para o Morning Post.

— E eu tenho ar de quem se rala com isso?

— O seu pai rala-se!

— O pai que eu encontrei cinco m inutos atrás, pela prim eira vez em vinte e seis anos?

— Sim , bem — disse ela. — Cá estou eu. A sua noiva. Provavelm ente a única que será

oferecida, além do m ais.

Deve ter havido algum a coisa no tom de voz dela que a denunciou, porque ele deu outra

daquelas gargalhadas enferruj adas.

— Eu não vou casar com você e im agino que está de acordo, m as diabos m e levem se eu

não poria essa hipótese se as coisas fossem diferentes.

— Ora, ora — arrulhou ela, apertando m ais a m ão em volta do braço dele e dirigindo- m ais

um sorriso.

— Oh, desista — disse ele. — Não vai casar com igo tal com o eu não vou casar com você.

Com o se cham a, a propósito?

— Miss Thry nne — disse ela. — O m eu pai é Cornelius Thry nne, visconde Sundon.

— Eu sou conde — disse ele. — Mas suponho que sabe isso, um a vez que a senhora se

atirou ao pobre do m eu pai, enfeitiçando-o com histórias de descendência principesca. Com o

descobriu a fraqueza dele por sangue real?

— A m inha tia sabia que ele se gaba de ter Henrique VIII com o seu antepassado — disse

ela, olhando a sua figura esbelta. — No entanto, eu não vej o parecenças nenhum as; ele era

de certeza m ais baixo e m ais gordo do que o senhor.

O m ordom o estava à espera, à entrada, quando eles chegaram ao fundo da escada.

— Este é o Prufrock — disse o conde. — Ele sabe tudo o que acontece neste castelo e m uito

m ais longe. Mas, realm ente, Prufrock, devias ter-m e avisado que o m eu pai planeava invadir

a fortaleza. Eu teria ido em bora.

— Foi o que eu pensei, precisam ente, m eu senhor — disse o m ordom o. Fez um a

reverência a Linnet. — A sua criada está no seu quarto, Miss Thry nne, se quiser ir ter com

ela.

Do cim o da escada chegou um clam or de vozes enquanto os m édicos desciam a escada,

com o duque à frente.

— Raios partam ! — exclam ou Marchant. Virou-se para a arcada. — Você... abre a porta —

rosnou a um lacaio, que im ediatam ente passou à ação.

Linnet seguia-o com o olhar, algo divertida, quando ele, de repente, se virou.

— E a senhora — disse- ele. — Venha com igo. Ela riu-se.

— O senhor — disse ela, em tom de chacota —, fuj a e esconda-se agora, porque não o faz?

Acho que vem aí o grande lobo m au.

Por um m om ento, o rosto de Marchant ensom brou-se e os seus olhos estreitaram -se de

um a m aneira quase assustadora. Mas depois estendeu a m ão.

— Por favor.

Era m elhor ela ir.

— Está bem — disse ela. Mas não aceitou a m ão dele. Saíram para a luz do Sol pela enorm e

porta.

— Ainda há sol — disse Marchant, franzindo os olhos. — Toda a m anhã, o que é

praticam ente um recorde. Em Gales chove a m aior parte do tem po.

— Leva-m e na direção do m ar? — Chegava até ela um cheiro de frescura salgada e

vigorosa e ouvia levem ente o som das ondas. Não tinha o chapéu, o que significava que podia ficar com sardas, m as naquele m om ento não se ralava. Mrs. Hutchins dizia que as sardas

eram m uito pouco atraentes, m as Mrs. Hutchins estava m uito longe, em Londres.

— Por aqui — disse o conde. — Se quiser pode dar-m e o braço. — Ele nunca esperaria

que ela fosse buscar o chapéu, portanto, ela teria de ir sem ele.

— Muito cortês da sua parte. Vai estar pronto para o Alm ack’s a qualquer m om ento —

disse ela, voltando a enrolar os dedos à volta do braço dele.

— Alm ack’s? Que é isso?

— Um lugar onde toda a m elhor sociedade vai dançar nas noites de quarta-feira —

inform ou ela.

— Parece aterrador.

— Pode ser enfadonho — disse ela, refletindo.

Ele olhou-a de lado.

— Não gosta de dançar?

— É agradável — disse ela, sem grande entusiasm o.

— Mas então que fazem as senhoras se não dançarem ? A m inha m ãe vive para isso. Está

furiosa com igo por causa da falta da dança na sua vida, atualm ente.

— Porquê?

— A culpa é do Seb. Ele m andou a m ãe dele e a m inha para a Andaluzia para ter a certeza

de que nada lhes acontece em Paris se o Napoleão tiver ânsias de invadir a Inglaterra. E, claro, não aconteceu nada, por isso as senhoras estão desej ando ardentem ente voltar ao salão de

baile.

Linnet não disse nada. Adoraria viaj ar, ver sítios com o a Andaluzia, ou a Grécia, ou ainda

outros m ais distantes. De fato, trocaria da m elhor vontade a dança, para sem pre, pela

possibilidade de ver o Pártenon.

— Então, com o se cham a?

— Já disse — respondeu ela, franzindo a sobrancelha. — Miss...

— O seu nom e próprio.

— Linnet — disse ela. — Mas não é nada apropriado o senhor usá-lo, agora que m e

inform ou de que não é m eu noivo.

— Mas ainda não inform ei o Morning Post — retorquiu ele.

— Portanto, suponho que ainda estam os tecnicam ente noivos. A propósito, o m eu nom e

é Piers. Não m e cham e Marchant; odeio o nom e.

O cam inho descreveu um a curva e passou ao lado de um a casa m inúscula.

— Que é isto? — perguntou Linnet.

— A casa do guarda. Parece que, a dada altura do passado m enos glorioso do castelo,

estava aqui posicionado um hom em para m elhor gerir operações de contrabando — disse

Piers.

Linnet abriu a boca para fazer m ais perguntas, m as deram a curva e de repente, ali abaixo deles, estava o m ar. Brilhava com o um a enorm e safir, a à luz do Sol.

— É tão belo! — exclam ou Linnet baixinho, deixando cair o braço. — Não fazia ideia.

— Nunca tinha visto o m ar?

Ela negou com a cabeça.

— O m eu pai prefere estar em Londres o ano todo. Aquilo é um a piscina?

— É. Está escavada na rocha. Esvazia e depois volta a encher com a m aré.

— Cria peixes lá dentro?

— Não, nado lá dentro, claro. Se eu conseguir tolerar a presença do m eu pai o tem po

suficiente, a senhora pode experim entar. — Com eçou a descer o cam inho. — Não que tenha

coragem .

Ela sem icerrou os olhos, olhando para as costas dele.

Um instante depois, ele virou-se. Ela tinha cruzado os braços e estava à espera.

— É m esm o um a chata — disse ele, im paciente.

Ela continuava à espera.

Ele apoiou-se à bengala com força e deixou escapar um gem ido rouco.

— A m inha perna. A dor é excruciante.

Mas voltou atrás para ir ter com ela. O vento que vinha do m ar vergastava o cabelo escuro,

soltando-o do rabicho e fazendo redem oinhar em volta da cabeça. Linnet riu-se, porque havia

qualquer coisa nele que a fazia sentir-se...

Fraca.

Ridícula. Enrolou os dedos em volta do seu braço.

— As senhoras não nadam — inform ou-o.

— Nadam , sim . Tenho m andado alguns pacientes para a costa. Em geral, aconselho-o a

m ulheres cuj os problem as provêm do seu am or a bolos. Mando-as tam bém quando têm

queixas fem ininas. Tanto quanto sei, elas vão de carruagem até ao m ar e depois as criadas

despej am -nas para dentro de água.

Ela digeriu aquilo.

— Eu pensava que as roupas nos faziam afundar.

Os olhos dele eram perversos, cheios de riso.

— Nuas, sua tonta. A criada tira a roupa da patroa e ela desliza, com o um peixe, para

dentro de água.

— Oh!

— Eu tam bém nado nu — disse ele m as sem barraca com rodas.

— E a sua privacidade?

Iam a descer o cam inho rochoso que levava à piscina. Ele percorria-o com facilidade,

parecendo saber exatam ente onde colocar a bengala.

— Não posso dizer que m e estou nas tintas, m as o Prufrock passava a vida a m andar-m e

pacientes para aqui, por isso decidi finalm ente guardar para m im o m eu cabo da bom ba. Vê

aquele sinal? — Ele indicou com a cabeça um pedaço de m adeira enfiado no chão, com um a barra transversal. — Se eu puser a barra vertical, assim — puxou-a para cim a —, ninguém

da casa se atreve a continuar.

Ela assentiu com a cabeça.

Ele voltou a pô-la na horizontal.

— Se decidir ir nadar, certifique-se que põe a barra para cim a.

Linnet abriu a boca para dizer Oh, não posso, e depois voltou a fechá-la. Porque não podia?

Ela j á não era nenhum a debutante para ter de se vigiar a todo o m om ento para garantir que

não seria rotulada de indecente.

Era um a m ulher arruinada. Quanto m ais não fosse, as m ulheres arruinadas eram

autorizadas a nadar.

Esse pensam ento fê-la sorrir.

— O que é assim tão engraçado? — perguntou Piers, irritado.

— A ideia do senhor a saracotear-se dentro de água — disse ela. Acrescentando, lorde

Marchant, apenas para o aborrecer um pouco m ais.

— Eu não m e saracoteio — retorquiu ele. — Mostro- , se quiser. — Tinham chegado à

beira da piscina, por isso ele deixou cair o braço dela. — Em geral, m ergulho daqui. —

Apontou para um a rocha plana que se erguia acim a da bacia de água.

Linnet inclinou-se para baixo. A água estava deliciosam ente fresca, correndo-pelos dedos

com o se estivesse viva.

— Podia entrar j á — disse Piers, observando-a. — Parece um pouco transpirada e com

calor. Tem a cara verm elha. Provavelm ente, é de todo esse chum aço que tem em volta da

cintura.

— E m uito indelicado da sua parte m encionar a cor da m inha cara — disse Linnet,

sentindo-se um pouco picada. — E eu não vou, obviam ente, nadar à sua frente!

— Porque não? Eu sou a borla de pó de arroz, lem bra-se? Para o caso de estar a perguntar

a você m esm a se a visão do seu corpo indubitavelm ente deleitoso m e faria apaixonar por

você, a resposta é não. Enquanto m édico, vej o corpos de m ulheres o tem po todo e eles nunca

m e despertam qualquer interesse. Ela em pertigou-se.

— Lam ento — disse ela.

— Porquê? Porque não sou sensível aos seus indiscutíveis encantos? Vej o que isso seria

um grande choque.

— Naturalm ente. Mas tam bém porque os hom ens... — Ela arrastou a frase, sem saber

com o form ular a ideia.

— Porque os hom ens são criaturas lascivas e eu não sou? A m aioria das m ulheres tam bém

o é.

— Eu não sou — disse ela, alegrem ente.

Ele ergueu um a sobrancelha.

— O príncipe deve ter ficado m uito desiludido.

— Provavelm ente — disse ela. — Em bora eu nunca tivesse sabido ao certo porque

nam oriscava ele com igo. Am bos sabíam os que não tínham os futuro j untos.

— Provavelm ente gostava de se rir — disse o conde. Foi a prim eira coisa sim pática

que disse.

— Eu devia voltar para o castelo — disse Linnet. — Vão nascer-m e sardas.

Ele encolheu os om bros.

— As m anchas de pigm entação podem ser encantadoras. Em bora, um a vez, eu tenha

tratado um a paciente que tinha com prado água para sardas na farm ácia. Arrancou- um bom

pedaço de pele da face direita.

Linnet estrem eceu e com eçou a subir o cam inho.

— Não vai esperar por m im ? — rosnou ele atrás dela. — Estava a com eçar pensando que

a senhora não era capaz de andar sem apoio de um dos lados. Pelo m enos tínham os isso em

com um : a base para um a linda am izade.

Ele estendeu o braço e ela tom ou-o.

— Nem sei porque é que eu sugeri nadar — disse ele. — Um a senhora nunca poria um pé

no m ar, aqui. E frio.

— Eu punha — disse Linnet. Não interessava que estivesse frio. Estava desej ando atirar-

se para dentro daquele m ar de safira. — Então o pessoal obedece- em relação àquele sinal?