Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 22
Mas, m esm o assim , a esperança ergueu-se num a grande vaga de algum local secreto do seu
coração.
22
Linnet tinha m uita esperança de que um m édico irascível de bengala entrasse pelo
quarto a qualquer altura da noite, m as não. No entanto, estava lá de m anhã, a pingar
chocolate quente no seu rosto.
— Que está fazendo? — perguntou Linnet. Lam beu o chocolate.
— A dar- o aspecto de um a pessoa com varíola — disse Piers. — Mais um pingo na face
esquerda. Sim , agora está um verdadeiro horror. Sabia que a rainha Isabel ficou com m uitas
cicatrizes por causa da varíola?
— Uf! — sibilou Linnet, pegando num lenço e esfregando vigorosam ente a cara. — Que
desagradável da sua parte!
— Porquê? — questionou Piers, encostando-se à coluna, aos pés da cam a. — Seria assim
tão horrível ficar com a pele cheia de cicatrizes depois da varíola?
— Claro que era — declarou Linnet, zangada. — A m inha cara j á está lim pa?
— Florescente. Porque seria tão horrível?
— Porque — respondeu ela, perplexa. — Porque sim , sim plesm ente.
— Mas há m uitas m ulheres que não são tão bonitas com o a Linnet e têm vidas perfeitam ente felizes — fez ele notar.
— Mesm o as que têm cicatrizes.
— Sim , m as...
— A rainha Isabel, segundo dizem , divertia-se com isso — acrescentou ele.
— Ela nunca casou, pois não? — Linnet tirou o chocolate quente a Piers e bebeu um gole.
— Não há nenhum a regra que diga que as m ulheres com m á pele não podem casar.
— Sim , m as há toda a espécie de regras não escritas sobre aquilo que torna um a m ulher
desej ável. Um a pele bonita é prim ordial.
— E a Linnet possui todos os critérios, não? — Estreitou os olhos, parecendo estar a
exam iná-la m inuciosam ente à procura de defeitos.
Ela não respondeu. Qualquer coisa que dissesse deixaria suj eita a troça.
— Gostava de saber se contrair varíola é pior para um a m ulher feia ou para um a bonita.
— disse Piers.
— Para um a bonita — disse Linnet, sem hesitação. — Tem m ais a perder.
— Esta m anhã não posso ir nadar — inform ou ele, m udando de assunto. — O Sebastian
tem de operar o tal paciente que apareceu ontem à noite e eu tenho de estar lá fazendo- um a
preleção.
Linnet sentiu a boca a descair.
— Oh, claro!
— Pensei que talvez pudéssem os ir à tarde.
— Seria agradável — disse ela, com ar reservado. Ele não estava a olhar para ela, m as sim
concentrado a espetar com a bengala a pilha de rom ances em cim a da m esa de cabeceira do
lado oposto.
— Qual é o prazer de os deitar abaixo? — perguntou ela.
— Não estou a deitá-los abaixo. Estou a ver que percentagem do livro de cim a tem de ficar
desalinhada da pilha para caírem todos.
Caíram .
— À volta de quarenta por cento. Eu disse a Prufrock que quero a casa do guarda
rem odelada — confidenciou ele, levantando-se da cam a.
Ela olhou-o, a pestanej ar. Ele avançou e depois baixou a cabeça para a beij ar.
— Mm m m — soou ele —, perfum e de Linnet com um traço de chocolate.
Linnet estava sentada, a olhar para a porta fechada, o chocolate a arrefecer na m ão. Ele
disse a Prufrock que... e porquê?
Mas ela sabia porquê. As suas faces ardentes sabiam porquê. O trem orzinho
que atravessava as coxas sabia porquê.
Mais um a vez, prom eteu a você própria. Isso não era dem asiado obsceno. Ela não seria
dem asiado obscena.
Mas quando chegassem realm ente à casa dos guardas? Obscenizavam .
Não havia outro m odo de descrever o seu com portam ento. Nem no dia seguinte, nem no
dia depois desse.
Seguram ente nem no dia em que Piers a apanhou no corredor a ler Cam illa a um grupo de
pacientes, a puxou para um a pequena alcova e com um a m ão rápida entre as pernas dela a
reduziu a...
Bem , a obscenidade.
E só a brincar, dizia a você própria todas as noites antes de dorm ir. Em bora a frase
com eçasse a soar um pouco ansiosa.
Estam os só a brincar. A dar tem po ao duque para... para voltar a fam iliarizar-se com a
m ulher. Ou vice-versa. A ninguém podia passar despercebido o fato de o casal anteriorm ente
casado estar a passar cada vez m ais tem po a conversar um com o outro de um a m aneira
razoavelm ente civilizada.
Depois, houve um a sem ana em que Linnet teve a prova absoluta de que não tinha sido
gerado nenhum bebê no prim eiro encontro deles. Mesm o assim , Piers dizia que ainda não
estava preparado para enviar a anulação do seu noivado para o Morning Post.
— Nunca se sabe — disse ele e depois explicou exatam ente com o os preservativos podiam
falhar a sua m issão.
— Nesse caso, talvez devêssem os parar agora — sugeriu Linnet, sabendo perfeitam ente
que nenhum dos dois queria fazer isso.
— Nós estam os só a brincar — afirm ou, Piers.
E a obscenizar, com o Linnet notou.
— Acho que obscenizar não pode ser usado com o verbo, dessa m aneira — respondeu
Piers. Ele nunca fora ao quarto dela para fazer am or com ela, nunca dorm ira com ela. Mas,
naquela noite, tinha ido lá acim a por volta da m eia-noite, tirara-a da cam a e levara-a para o
andar de baixo, para a biblioteca, para m ostrar um texto m uito im portante, especialm ente
escrito (disse ele) para m arcar o fim da sua m enstruação.
Afinal, estava escrito em pedacinhos de papel que ele espalhara em cim a do sofá em frente
da lareira. E, em cada pedacinho, estava um a sugestão.
— Nem com o adj etivo — continuou ele, pensativo. Estava sentado no sofá com pletam ente
nu, a luz do lum e a brilhar no peito, as pernas m usculadas esticadas à sua frente. — Eu não
podia dizer, por exem plo, que a m inha m ãe está a agir de um m odo obsceno, pavoneando-se
por aí com o ela faz, vestida com um lenço de assoar a m aior parte das vezes.
— Mas tam bém não podia dizer que ela é um a obscena — respondeu Linnet — porque
não é. Por isso, a palavra é m ais útil em graus, com o advérbio ou adj etivo.
— A Linnet não é um a obscena, porque um a m ulher dessas anda de hom em para hom em
— explicou ele, cedendo tacitam ente à opinião gram atical dela, m as, tipicam ente,
contrariando-a com um argum ento diferente.
— Na realidade, qualquer m ulher que vá para a cam a de um hom em sem o benefício do
casam ento m erece o rótulo — disse Linnet. — Não precisa de visitar m ais do que essa cam a.
Eu tornei-m e tudo aquilo que a m aior parte de Londres acredita que eu sou.
— Isso incom oda-a?
Ela estava aninhada na extrem idade do sofá, oposta à de Piers, sentada em cim a da
chem ise m ais do que tendo-a vestida.
— Olhe só para m im .
Ele olhou, e ela gostou do brilhe dos seus olhos.
— Não é isso que eu quero dizer — esclareceu ela. — Aqui estou eu, na biblioteca de um
cavalheiro, sem inua. Com eço pensando que sou realm ente filha da m inha m ãe. Em bora tenha
esperança de não vir a adquirir um a reputação sem elhante à dela.
Lá por dentro, não tinha m edo de perder a sua reputação... tinha m edo de perder o
coração. Mas não havia razão para partilhar esse m edo secreto.
Tinham descoberto que am bos gostavam de se sentar à beira da piscina, ou na casa do
guarda, ou na biblioteca, e de dissecar coisas. Palavras. Corpos, em bora só através das
descrições de Piers. Pessoas, pelo m enos m etaforicam ente. Pacientes, em relação ao seu
com portam ento.
Com o Linnet visitava regularm ente os quartos dos pacientes não infeciosos, tinha
histórias engraçadas sobre Mrs. Havelock, conhecida por vezes com o enferm eira Matilda, e
as suas discussões com os poucos que, bastante surpreendentem ente, ousavam revoltar-se.
Um a noite, Linnet conduzira Piers a um riso incontrolável, ao im itar, as palhaçadas de um
tal Mr. Cuddy, que se tinha aproveitado das visitas da m ulher para fazer levar- , às
escondidas, um a garrafa de gim , após o que ficou rapidam ente em briagado, para enorm e
repulsa da enferm eira Matilda.
— Não sei se é bom para m im ouvir este tipo de coisas — disse Piers.
— Os pacientes — disse ele, fazendo um gesto com a m ão.
— Não se deve saber dem asiado sobre eles. São apenas doenças, afinal de contas. E só o
que eu posso tratar.
Linnet estava sentada no chão, entre as suas pernas esticadas, enrolada num cobertor.
— O Piers é um palerm a incurável — atirou- .
Ele inclinou-se para a frente, agarrando- o cabelo entre as m ãos.
— Devíam os vender isto.
— Não há m ercado.
— Brilha à luz do fogo com o guinéus, se os guinéus fossem m ais verm elhes.
Ela encostou-se a ele e deixou-o brincar, puxando- para cim a todos os caracóis e voltando
a deixá-los esvoaçar para baixo.