Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 31
— Há tachos com água no fogão. Os Sordido j á se foram em bora. Ouvi um chicote quando
estava de costas. — Hesitou.
— Que é?
— Eles roubaram a carruagem do duque, tenho quase a certeza. E os cavalos. Não os partir,
m as aquilo não era o barulhe de um a carroça a arrancar. E disseram qualquer coisa sobre
um a criada de copa, m as não se vê ninguém por aqui. A m enina deve ter visto o cam inho que
as coisas estavam a tom ar e fugiu.
Piers encolheu os om bros.
— Eles tam bém ficaram com a roupa da Linnet, por isso terás de trazer algo para vestir.
Volta ao castelo e descansa, Buller. Espero-te logo de m anhãzinha.
O cocheiro acenou com a cabeça, m as depois esperou, os olhos assustados.
— Ela vai sobreviver — declarou Piers, dizendo-o com veem ência, um a afirm ação, não
um a opinião.
Fechou a porta do quarto, atirou com o casaco e com eçou a luta da sua vida. Pela vida dela.
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— Tem os de te lim par, querida — disse ele a Linnet. Ela não se m oveu. — Você estás em
com a, por isso espero que não saibas quão im unda estás. — Esperava-o, com devoção.
— Vou lavar-te da form a com o a enferm eira Matilda lavava o Gavan um a vez por sem ana
e, se te apetecer contorcer-te ou gritar com o ele fazia, por favor não hesites.
Silêncio.
— Antes de ter água fervida não poderei lavar as partes da sua pele que estão em carne
viva, pois podem infectar. — Infelizm ente, essa era a m aior parte do seu corpo.
Deus, ela em agrecera tanto. Com o podia aquilo ter acontecido tão depressa, num a
sem ana? Passou de um a m ulher curvilínea, deliciosa, quase para um esqueleto, o cabelo
com o palha, a pele...
Estava coberta por um a cam ada de fuligem da cabeça aos pés, as feridas e a carne viva em
estratos de excrem entos de galinha. Piers com eçou pelos pés, porque não estavam a
descarnar, e lavou cada dedo cuidadosam ente.
— O que quer que sej a toda esta suj idade — disse- ele, lavando pela segunda vez os dedos
dos pés, e apercebendo-se de que a água para a qual estava a esprem er o trapo j á estava a
ficar acastanhada —, vou escrever um artigo sobre isto depois de você recuperares. As
propriedades m ilagrosas do estrum e de galinha. Não pode ser pior que pasta de farinha de
m alte ferm entada, apesar de o cheiro ser certam ente m ais penetrante.
Ele continuou a falar, a falar, e no entanto nem à ponta de um dedo de Linnet estrem ecia
em resposta. Avisou-a quando foi lá abaixo buscar m ais água e saudou-a quando voltou para
o quarto.
— Um avanço desengonçado — disse- ele. — Prim eiro, tive de içar o balde a cada degrau
e depois içar-m e a m im próprio. Agora estam os a com eçar a parte difícil, querida. Vai doer.
Estás coberta de porcaria e eu tenho de te lim par a pele. Com sabão, o que vai fazer as bolhas
rebentadas doerem ainda m ais.
Misericordiosam ente, ela não parecia sentir, em bora a dor tivesse sido um torm ento para
um paciente consciente, que em geral gritava a um sim ples toque. Ele inspecionava
constantem ente os olhos, para ver se as pálpebras estrem eciam em sinal de desconforto. E
escutava o peito vezes sem conta, encontrando o ruído profundo que o tranquilizava, porque
ela estava a respirar.
A certa altura, entornou sim plesm ente a água, agora tépida, sobre ela, desesperado por
vê-la lim pa, m as com m edo de esfregar a pele que estava aberta e em carne viva devido à
erupção da escarlatina. Não resultou. A suj idade estava colada ao corpo, cedendo apenas a
água e sabão.
Caiu a escuridão. Ele acendeu o único candeeiro que conseguiu encontrar, sem fechar as
j anelas. Ela tinha estado fechada naquele galinheiro dias a fio; o ar fresco só podia aj udar.
— Estás m ais fresca agora — disse- . — A febre baixou, m as se foi daquela água toda ou
se é, sim plesm ente, a evolução da doença, não sei. Descobrim os que a febre vai e vem .
Ele tinha progredido lentam ente para a parte de cim a do corpo, passando seios, braços e
pescoço.
— Cheguei à sua cara, Linnet. Isto vai ser tortura. O Gavan gritaria aqui-dele-rei.
O cabelo dela, espesso e fétido, tinha voltado a cair- para a cara, pelo que ele o afastou
novam ente. Estava em aranhado com suor, água e esterco.
— Tenho de o cortar — disse. — Fala agora ou nunca.
Ela perm anecia im óvel e Piers deu por você a engolir um grito, um soluço, um a resposta
involuntária que não se havia perm itido desde os prim eiros dias da sua lesão, quando
aprendeu que chorar de dor a piorava.
Quem teria pensado que havia pior dor no m undo?
Voltou a descer as escadas para a cozinha e regressou, içando outro balde de água e um a
faca.
— Este cabelo tem de sair — disse- . — Vai crescer outra vez. Mas, neste m om ento, está
provavelm ente a albergar Deus sabe que tipo de parasitas.
Não era fácil cortar cabelo com um a faca pouco ou nada afiada. Cortou-o o m ais rente
possível ao couro cabeludo e atacou o que sobrou com água e sabão, tocando- na cara o m ais
ao de leve que conseguia. Quando acabou, escorria água pela cam a abaixo, riachos fluindo
pelo chão em todas as direções.
— Acho que tem os de duplicar o salário da enferm eira Matilda — disse- ele. — Isto é m ais
difícil do que aquilo que eu faço aos pacientes.
Virou-a cuidadosam ente, segurando- o pescoço com o se ela fosse um bebê de um dia. As
costas estavam m ais lim pas, m as a erupção estava m ais violenta, as bolhas arrebentarem ao
toque.
— Não há nada que eu possa fazer em relação à dor — disse- ele, a voz exausta. —
Maldição, Linnet, preciso de outro balde de água. Volto j á.
Ao entrar de novo pela porta com água fresca, encontrou-a tão quieta, tão sem elhante a
um cadáver, que o seu coração vacilou. Cam baleou até à cam a, agarrou- o pulso... a pulsação
ainda lá estava.
Quando acabou de lavar o corpo todo, os riachos de água no chão tinham -se j untado
num a poça cheia de espum a de sabão.
— Está a escorrer através das tábuas do soalhe para o quarto de baixo — disse-Piers. —
Provavelm ente, a prim eira vez que este chão esteve tão lim po. Agora, que vou fazer?
Ela estava lavada, m as ele não conseguia secá-la num a cam a encharcada. Virou-a outra
vez, colocando- cuidadosam ente os braços ao longo do corpo.
— Meia-noite em ponto — disse- . — Vou ter de levar o candeeiro, m inha querida. Não
com você ver nadinha sem ele. Vou procurar outro candeeiro, m as tenho um a terrível
suspeita de que os Sordido levaram tudo o que podia ser transportado. Não existe um a única
vela na cozinha.
Pegou no candeeiro e na bengala e foi a coxear de quarto em quarto. Não havia m ais
candeeiros e, de fato, apenas um dos quartos tinha ainda lençóis.
— Raios partam ! — exclam ou em voz alta. Voltou para perto de Linnet. — Você pesas
m enos do que aqueles colchões.
Nem um a pálpebra estrem eceu.
Olhou para você próprio. Tinha a roupa im unda e coberta de excrem entos de galinha. Não
podia tocar- assim .
— Vou despir a roupa — com entou, em tom de conversa. — Sei que sem pre gostaste de
m e observar. Pensavas que eu não reparava que estavas a espreitar-m e?
Ela não respondeu, m as, na sua cabeça, ele ouviu o riso dela.
— Há algum a roupa de cam a lavada no quarto do lado, que Mistress Sordido
inexplicavelm ente deixou escapar — explicou.
— Tenho de te levar para lá e, infelizm ente, você dás m enos j eito do que um balde de água.
Depois de se despir, encostou a bengala à cam a, respirou fundo e enfiou um braço por
baixo do pescoço e o outro por baixo dos j oelhos de Linnet. Por um m om ento, lim itou-se a
segurá-la, enquanto ganhava forças, com a face dela apertada contra o peito, quando aquele
soluço se esforçou novam ente por escapar.
— Não — disse ele alto, endireitando-se. Virou-se, apoiando-se na sua perna forte e
atirou-se para a frente com a perna m á. — Não vou cair — tranquilizou Linnet. O braço dela
soltou-se e balançava à frente deles. Um passo, um cam baleio, um passo, um cam baleio. Mais
um passo é atravessou a porta para o corredor.
— Isto dá um novo significado à necessidade de candeeiros de parede — disse- . Um passo,
um cam baleio, um passo, um cam baleio. — Raios, vou ter de m e sentar. — A sua voz era um
resfolegar exausto. Mas, se ele se sentasse no chão, nunca conseguiria levantar-se, sem a
bengala e com ela nos braços. Por isso, encostou-se à parede do corredor, com a cabeça para
trás, respirou fundo várias vezes, e tentou ignorar a dor que explodia desde a perna até à
anca.
— Mais uns passos... talvez três, apenas três, e depois a porta estará ali m esm o. Aí, viro-
m e para entrar. Mais três, e ponho-te num a cam a seca.
Um a dor lancinante atravessou-o com o que em resposta.
Afastou-se da parede com um im pulso e deu um passo. Outro cam baleio, um passo.
— Aquela natação está a revelar-se útil — disse- ele, em itindo as palavras entre
grunhidos de dor. — Es um a pena nos m eus braços.
Não propriam ente verdade, m as bastante bom . Finalm ente, chegou à porta, o quarto
ilum inado apenas pelo luar que entrava a j orros pela j anela. Atravessou o quarto a coxear,
conseguiu pô-la na cam a e puxou o lençol para cim a.
— Se m e der licença, m inha senhora — disse ele, as palavras a saírem em pequenas
explosões. E sem m ais dem oras, caiu redondo no chão.
Algum tem po depois, levantou a cabeça.
— Tenho de ir buscar aquela m inha bengala — disse- . Andar estava fora de questão. Por
isso rastej ou, com pletam ente nu, para fora do quarto, ao longo do corredor, para o chão
m olhado do outro quarto. Encontrou a bengala e ergueu-se.
As blasfêm ias não aj udavam . A dor na perna era excruciante, tanto assim que até a cam a
encharcada parecia convidativa.
— Tenho de voltar para ela — disse em voz alta. A Lua viaj ava pelo céu. — Água. Linnet
tem de beber água.
Tinha guardado um balde precioso, por isso atirou com a sacola por cim a do om bro, enfiou a pega de m etal do candeeiro no antebraço e apanhou o balde. Eram coisas dem ais para levar;
percebeu-o im ediatam ente.
Mas tinha de ser feito, m esm o que um hom em desse por você a grunhir de cada vez que a
sua perna fraca se m ovia para a frente. Mesm o que gritasse.
Ela estava deitada sob o lençol, tão quieta com o a m orte.
— Aquele corredor — disse ele, à porta, arfando. — Nunca o esquecerei, Linnet. E o
inferno, o verdadeiro inferno. Receio não conseguir fazer m ais viagens até lá abaixo. Estou
arrum ado por esta noite.
Com o ela não deu qualquer sinal de discordar dele, lá conseguiu, de algum a form a, levar
o candeeiro até à m esa, a sacola até à cam a. Apenas m etade da preciosa água perm anecia no
balde.
— Cam balear não é recom endado para transportadores de água — com entou ele,
puxando- o queixo ligeiram ente para baixo e deixando escorrer algum as gotas para a boca.
— Isto chega por agora. A seguir, unguento — disse ele, abrindo a sacola. — Francam ente,
duvido que qualquer coisa destas resulte. Mas m al não fazem , tanto quanto sei. Costas
prim eiro. — Rolou-a ao contrário e cuidadosam ente aplicou pom ada sobre toda a erupção
cutânea. — Pobre traseiro — disse ele, espalhando cuidadosam ente o crem e com
pancadinhas.
— Ou preferes rabo? Não m e lem bro. Agora a parte da frente.
Algum tem po depois, voltou a rem exer dentro do saco, às apalpadelas, e tirou um frasco.
— Água de rosas do Pender. Vou lim par-te a garganta e a língua — disse- . A sua voz estava
áspera, agora. Era um a tarefa com plicada, nada facilitada pelo fato de a paciente estar em
com a.
— Mas, se não estivesses em com a, eu estaria a m agoar-te— disse- . — Não suportaria
isso, Linnet. Especialm ente depois da form a com o j á te m agoei.
Ela estava agora lavada e bem cheirosa. Mas parecia um pintainho frágil. O pouco cabelo
que restava encontrava-se todo espetado e, por qualquer razão, isso fazia a cabeça parecer
grande e o pescoço dem asiado débil e esguio para suportar tam anho peso. As pálpebras
cerradas eram azuis.
O seu instinto de m édico disse- o que ele não conseguia pôr em palavras. A paciente
estava à beira da m orte.
Ele baixou a luz do candeeiro, olhou para ela outra vez e finalm ente apagou-o. O luar era
suficiente... o luar e o fio da sua pulsação.
Com m uito cuidado, m uito cuidado, Piers içou-se para cim a da cam a, deitando-se por cim a