Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 28 de 36

Páginas do PDF

Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 28

Não podia ter sido dito. Ninguém tinha m encionado o nom e de Linnet desde que ela partira.

Era com o se ela nunca tivesse existido.

Parecia que até Sebastian a tinha esquecido.

Só ele pensava nela, m ais ou m enos de cinco em cinco m inutos. Estava inclinado sobre um

paciente e, em vez de pele escam ada, via a delicada m ão dela. Num a m anhã, enferm eira

Matilda cham ou-o, e ele virou-se subitam ente, pensando que era ela. Confundir a voz da

enferm eira Matilda com a de Linnet era quase um sinal de loucura im inente.

Que seria? De que devia ele lem brar-se? O que quer que fosse, estava fora do seu alcance

e era aflitivam ente inapreensível. Qualquer coisa sobre dançar... o que era um a loucura. Ele

nunca tinha dançado na vida.

Por fim , virou-se e voltou a adorm ecer.

28

Era um sofrim ento atroz estar deitada de costas, por isso Linnet rolou para o lado, m as

era igualm ente m au. Voltou a rolar para trás e deu por você em aranhada em cobertores.

Tinham - posto cobertores em cim a, tantos cobertores.

— Água — m urm urou, ao ouvir um a voz.

Espreitou e viu um a figura robusta a flutuar bastante acim a dela. A figura inclinou-se e pegou- no pulso. Ela observou o braço levantado com um a espécie de terror fascinado. A sua

pele... o que estava a acontecer- à pele era alarm ante. Repugnante.

— Claro que podíam os levá-la para o castelo — veio um a voz de algures... algures perto

dos pés dela. — Mas tenho de adm itir que Mister Sórdido achou que a despesa e o tem po não

se j ustificavam . No fim de contas, não fazem os ideia de quem ela é. Eu estou a tratar dela às

m inhas custas, doutor. Às m inhas custas.

— O castelo — tentou ela m urm urar. Mas eles pareciam não a ouvir. A garganta

doía- m uito e a língua j á não cabia na boca. — Água — tentou novam ente.

O hom em que tinha pegado no pulso voltou a pousá-lo e endireitou-se.

— Ela não sobreviveria à viagem , Mistress Sórdido — disse ele. — Receio que esta doença

sej a forte dem ais. Tem os olhos abertos, m as vê-se bem que não está com pôs m entis. Já está

a olhar para o outro m undo, não m e adm iraria.

— Ela parece um pouco m enos quente, no entanto.

— Percebi que a febre vai e vem . Talvez escreva um tratado sobre isso quando isto tudo

acabar. Estou pensando nisso.

— Ah, sim , devia, doutor. Seria um a enorm e aj uda para outras pessoas, tenho a certeza.

— Tratado sobre Doenças Febris — disse ele. — Talvez com um subtítulo do gênero

Incluindo as Febres Interm itentes, Rem itentes e Continuadas e os Proflúvios{8}. Vou inform ar

que tem os tido um sucesso m odesto com a aplicação de sanguessugas nas áreas envenenadas,

assim com o com o uso de ruibarbo com o laxante.

Mrs. Sórdido deu um gritinho que parecia indicar concordância.

— Já tivem os notícias do duque? — perguntou o m édico.

— Era um duque o dono da carruagem , não era?

— Isso é o que nós pensam os por causa do brasão da carruagem . Vai dem orar algum

tem po até o nosso hom em chegar a Londres e voltar com notícias. E um a grande pena o que

aconteceu ao cocheiro.

— Foi enterrado?

— Nunca acordou, depois daquela prim eira noite. Só delirava, pensando que estava em

Londres. Enterram o-lo im ediatam ente. Mister Sórdido achou que não valia a pena esperar.

— Esta m ulher não pode ser um a senhora — calculou o m édico, pensativam ente. — Viaj a

sem criada, sem bagagem de qualquer gênero, e olhe só para essa chem ise que ela tem

vestida. Suponho que é criada em casa do duque, ou qualquer tipo de serviçal. A senhora é

m uito gentil em estar a tom ar conta dela desta m aneira, Mistress Sórdido. Muitos

estalaj adeiros não se dariam a esse trabalho.

— Ela não estorva ninguém . Este velho galinheiro não estava a ser utilizado para nada —

explicou Mrs. Sórdido, m odestam ente.

— Mandei a criada da copa vir trazer água de m anhã e à tarde, tal com o o senhor disse.

— Não é o m esm o que queixar-se do cheiro das galinhas— disse o m édico. — E um a

doença fétida.

— Terrivelm ente inchada, não está? — perguntou Mistress Sórdido. — E que é aquilo a

escorrer da orelha, doutor?

O rosto do m édico apareceu indistintam ente m ais perto de Linnet.

— Líquido fétido — disse, endireitando-se. — Não há nada que se possa fazer aqui,

Mistress Sórdido. Pode ter a certeza de que j á cum priu o seu dever cristão para com estes

pobres viaj antes.

— Venha apanhar ar fresco, doutor — sugeriu Mrs. Sórdido, enquanto os seus passos

ecoavam no soalhe de m adeira ao dirigir-se para a porta. Levantava em rem oinho pequenos

rolos de cotão que flutuavam à frente dos olhos de Linnet com o pó m ágico.

O m édico endireitou-se e virou-se para sair tam bém .

— Não tenho qualquer dúvida de que o duque a recom pensará pelos seus cuidados.

— Sim , m as Mister Sórdido não está nada contente de a ter aqui. Nem de eu vir à capoeira

com você, tenho de dizer, doutor. Mas eu disse- que pedi ao senhor que viesse visitá-la m ais

um a vez, porque não quero a m orte dela na m inha consciência.

— Agiu de form a correta, agiu, sim senhora — concordou o m édico acaloradam ente.

— Uf cheira m uito m al aqui dentro, não cheira?

— Não — disse Linnet, esforçando-se tanto que quase se sentou. — Não, por favor! Viu

indistintam ente Mrs. Sórdido parar à porta.

— Que está a acontecer- agora, doutor?

— Um a apoplexia, presum o — disse ele, olhando de relance por cim a do om bro. — Venha

com igo, m inha senhora. Já tentam os tudo o que era hum anam ente possível e agora devem os

apenas entregar a sua alm a a Deus. De fato, talvez queira avisar o padre.

— Oh, eu não podia tirar o padre da igrej a só para... — A voz dela desvaneceu-se.

Trem endo, Linnet levou a m ão à cara. Trem ia- à frente dos olhos.

Há quanto tem po estava ali? Pareciam sem anas... m eses.

Devagar, devagar, levou a m ão ao copo que estava ao lado da sua enxerga e conseguiu

levá-lo aos lábios. A água fluiu para a boca, fresca e agradável. Mas, pouco depois, apercebeu-

se de que se tinha esquecido de engolir e agora tinha o pescoço m olhado.

Tentou novam ente e a água bateu- contra o nariz. Um a lágrim a correu- pela cara abaixo.

Ela sentia o calor à espreita, a regressar. Água, pensou. Desta vez conseguiu engolir. Mas,

quando tentou voltar a pôr o copo no chão, ao lado da enxerga, ele rodou de lado e o resto da

água entornou-se no chão suj o.