Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 24
m enina? Vê? Agora sou tal e qual o m édico, não sou?
Ficou ali, apoiado à bengala, ao sol, a sorrir com o cabelo nos olhos. Linnet não pôde evitar
rir.
—Já pareces um m édico, Gavan.
— É porque vou ser m édico — disse, com satisfação. — O m elhor que algum a vez existiu.
24
— Mais dois doentes adm itidos na ala leste com essa febre — disse Sebastian.
— Que febre? — perguntou Piers.
— Aquela que você achas que é petequial e eu não. Não consegui encontrar-te esta m anhã
quando quis que desses um a olhadela.
Piers puxara Linnet para um quarto vazio depois do pequeno-alm oço e, quando ela
adorm eceu, ficou deitado na cam a com ela durante um a hora, sem energia e satisfeito,
afagando lentam ente os om bros. Ouvira alguém cham ar por você, m as ignorara-o.
Estava pensando no pai, Linnet, o pai, Prufrock, a m ãe, Sebastian. O pai, outra vez. Linnet.
— Vou vê-los depois do j antar — prom eteu. Dirigiram -se à sala de estar. Kibbles e Penders
encontravam -se j unto ao aparador, pairando sobre o decantador de vinho. Linnet estava
sentada ao lado da m ãe dele, enquanto o pai se encontrava sentado em frente, de novo com
aquela expressão fam inta nos olhos.
— Onde está o Bitts?
Estava bastante pálido e confessou não se sentir bem . Mandei-o para cim a. Os olhos de
Piers cruzaram -se com os de Sebastian.
— Doente?
— Dor de cabeça, sem febre. — Encolheu os om bros. — Provavelm ente, não é infecção
hospitalar, m as é m elhor não o ter na ala oeste até term os a certeza. Quanto m ais perto da
sua fam ília.
A fam ília dele. Um trem or frio desceu- pela espinha. —Já vi essa expressão antes — disse
Sebastian, com voz trocista. — Sim , bebo um copo, Prufrock, obrigado.
— Que queres dizer com isso, j á teres visto essa expressão? — perguntou Piers.
— O rosto que lançou m il... olhares carrancudos — respondeu Sebastian, obviam ente a
divertir-se. — Quero dizer que estás pensando fazer qualquer coisa que te vai m agoar a longo
term o. Já o vi antes e vej o-o agora.
— Achas que desenvolveste de repente a capacidade de m e diagnosticares, logo a m im ?
Você nem sequer é capaz de te avir com um a sim ples febre.
— Sei que tens um a atração natural pela infelicidade — disse Sebastian, levando o copo
aos lábios. — De fato, paradoxalm ente, não te sentes verdadeiram ente feliz a não ser que estej as infeliz. A form a de o fazer é afastar para longe as pessoas que se estão nas tintas para
o seu couro repelente. Eu, em especial, só que é im possível desaloj ar-m e, por isso parece que
desististe de m im . Os teus pais. — Virou-se e levantou o copo na direção de Linnet.
— A sua absolutam ente bela noiva.
— A beleza não é tudo — disse Piers.
— A Linnet tam bém tem tudo o resto que um hom em pode desej ar — afirm ou
Sebastian. Pousou o copo no aparador. — Eu e você, nós tem os estado sem pre j untos.
— Dá-m e a m á notícia suavem ente, está bem ? Vais fugir com a m ulher do leite?
— Não. Não.
Piers seguiu o olhar.
— Vais fugir com a Linnet. — Todos os m úsculos do seu corpo ficaram rígidos. Ela era sua.
Sua, e dem ais ninguém . Sua.
— Se ela m e quisesse, fugiria com ela para qualquer sítio. Ou correria atrás dela. —
Sebastian virou-se para Piers. — Sem pre corri m ais depressa que você, Piers. E sou m elhor
cirurgião. E m elhor am ante, apesar de ser grosseiro realçar isso.
— Nunca m e incom odei a am ar ninguém — acrescentou Piers. Linnet estava a rir.
Diam antes brilhavam nas orelhas, cintilavam no pescoço. Parecia um a princesa de contos de
fadas, alguém criado por um a varinha m ágica.
— E verdade. Nunca te incom odaste. E não estás a incom odar-te agora, pois não? Apesar
de o seu pai a em brulhar com o um presente e te depositar no colo.
Piers encolheu-se e Sebastian deixou escapar um a gargalhada.
— Então, é por isso. Não podes aceitar a Linnet porque foi o seu pai que a escolheu. E estás
ocupado dem ais a odiar o seu pai pelos seus pecados passados para adm itires que ele
encontrou a m ulher certa para você.
Piers estendeu a m ão e agarrou Sebastian pelo lenço de pescoço cor de rosa pálido e
contorceu-o puxando-o para você.
— A m inha perna dói com o o raio que a parta — disse ele, de dentes cerrados.
O prim o não se m exeu, lim itando-se a olhá-lo nos olhos.
— Você e a sua perna podem fazer com panhia um ao outro de noite. Não há espaço para
um a m ulher, dado o terrível ferim ento que sofreste.
Piers largou o lenço de pescoço do prim o. Sebastian tinha razão, em bora estivesse a ser
sarcástico.
Tinha de parar de fazer am or com Linnet. Im ediatam ente. Não havia lugar para ela na sua
vida. Principalm ente quando sabia perfeitam ente que haveria dias, m esm o sem anas, em que
a única coisa que ele poderia sentir ou considerar seria a agonia da sua perna.
Esses eram os dias em que perdia as estribeiras por dá aqui aquela palha, em que berrava a Prufrock e a todos os outros, se eles m exessem . Em que a dor na perna se espalhava para a
cabeça e ele acabava num quarto obscurecido, a trem er.
— Tens razão — disse ele. — Claro que tens razão.
Sebastian, ainda zangado, olhou para ele atentam ente.
— Nem parece seu adm iti-lo. Por isso, se reconheceres quão estúpido estás a ser ao
rej eitar a Linnet, porque não vais até lá cortej á-la?
— Pensava que a querias.
Sebastian resm ungou.
— E quero.
— Bem , então, vai atirar-te a ela — aconselhou Piers, cansado. Talvez essa noite fosse
noite de beber dois copos de brande em vez de um .
— Não vale a pena.
— Só porque o m eu pai a transportou de Inglaterra até aqui para m im ? Disparate. Ela
precisa de m arido e você dás um todo bonito. — Algo se contorceu no seu estôm ago, de um
m odo atroz, ante a ideia de Linnet com um m arido. Outro hom em . Sebastian? Inconcebível.
— No entanto, não podes viver aqui.
O prim o recostou-se ao braço do sofá, erguendo o copo de brande contra a luz.
— Porque não? Sinto-m e bem aqui. O castelo é suficientem ente grande, Deus sabe. E, quer
gostes, quer não, precisas da m inha com petência cirúrgica.
Piers lançou um olhar.
— Eu não vou ficar com ela — ripostou ele, deixando-o bem claro para que até o prim o de
espírito rom ântico fosse capaz de perceber. — Não vou ficar com ela. Não vou tê-la m au —
acrescentou em silêncio. — E, antes de com eçares a choram ingar por causa do m eu pai —
continuou não é isso. Com preendo, a Linnet fez-m e com preender, que estou m eram ente
fazendo figura de idiota nesse com bate. O Prufrock é o rei dos m ordom os e a Linnet é...
— A rainha das m ulheres — adiantou Sebastian, rapidam ente.
— Mas tenho um a lesão dem asiado grande para um a pessoa com o ela. Para qualquer
pessoa. Sou um grande m onstro, Sebastian. Sabes isso tão bem com o eu.
O prim o encolheu os om bros.
— Eu gosto bastante de você, m esm o quando tens um ataque de fúria.
— Você cresceste com igo. Não tinhas alternativa a não ser dares-te bem com igo. Não
posso fingir a m im próprio que não sou o com pleto estupor que sou. Talvez, se eu fosse
diferente, se o m eu m au hum or não fosse tão violento, se...
— Se não fosses tão autocom placente, deixando-o explodir— disse Sebastian,
ironicam ente.
— Você não com preendes. — Com o que para o recordar, o m úsculo teve um espasm o,
enviando um a onda de agonia pela perna.
— Nenhum hom em no seu j uízo perfeito, com um órgão funcional — disse Sebastian —,
com preenderia. Se eu tivesse qualquer hipótese com a Linnet, queria lá saber quanto
sofrim ento tinha. Agarrava-a e punha um anel no dedo e confiaria em que havíam os de
arranj ar solução para isso, m ais tarde.
— E por isso que não é bom nos diagnósticos — referiu Piers, tentando descontrair o
m úsculo esticando a perna.
— Porquê?
— Não consegues associar sintom as e observação. Um estupor cheio de dores com um a
língua perversa...
Levantou a m ão quando Sebastian abriu a boca.
— É um a boa descrição de m im , e você sabe-lo bem . De qualquer m aneira, um a pessoa
com o eu com um a m ulher com o a Linnet significa um a única coisa.
— O quê?
— Infelicidade — disse ele, categoricam ente, voltando a pôr a bota no chão.
— Não necessariam ente...
— Infelicidade para ela.
Piers deixou o brande, dourado e ardente, descer- pela garganta.
Ao seu lado, Sebastian estava em silêncio. Depois:
— Não consegues controlar isso?
— Eu sou quem sou. — Engoliu em seco. — Não quero vê-la m urchar enquanto eu estou
louco de dores. Ou com eçar a ter m edo, com o a m inha m ãe fez com o m eu pai, se eu tiver de
tom ar láudano para as aliviar.
— Nunca tom as.
— Posso vir a tom ar. Está lá sem pre, essa possibilidade, essa tentação, bem no fundo da
m inha m ente. Tal pai, tal filho, talvez. Não quero suj eitar a Linnet a isso.
— Raios, você estás apaixonado por ela — afirm ou Sebastian, fitando-o.
No outro lado da sala, Linnet estava a rir e a dar um as pancadinhas com o leque no om bro
de Penders. O hom em estava praticam ente a rastej ar aos pés dela.
— Quem não estaria? — questionou Piers, adm itindo a verdade em voz alta. — Quem não
estaria?
Prufrock entrou na sala, dirigindo-se rapidam ente a eles os dois.
— O auxiliar da ala leste acha que o paciente adm itido ontem com a febre piorou.
— Vou j á — disse Piers, pousando o copo com um tinido.— De qualquer m odo, não tenho
nada que fazer aqui.
— Não... — disse Sebastian, m as Piers perdeu o fim da frase com a pancada da bengala, a
porta a fechar-se atrás de você.
Olhou para as escadas à sua frente com algum a exaustão. Atrás dele, estava um m undo de
m ulheres perfum adas e brande dourado. Mas, no cim o daquelas escadas, estava o seu m undo
real, o dos pacientes m oribundos com os seus rostos tensos e olhos aterrorizados.
Com eçou a subir.
O auxiliar foi ao seu encontro, no cim o das escadas.
— O paciente ficou com um a erupção há três dias, uns dias depois de ter tido os prim eiros
sintom as.
— E eles eram ? — O auxiliar abriu a porta para a ala leste e segurou-a, para que Piers
pudesse cam inhar ao lado dele.
— Com eçou com o pescoço e os om bros rígidos, m as, um a vez que ele é m oleiro, pensou
que se tinha esforçado dem ais a transportar sacos de farinha. Os arrepios apareceram nessa
noite, alternados com febre. Ficou, com o ele próprio descreveu, verm elha com o um a lagosta
cozida, daí a uns dias.
— E agora?
— Não com eu nada desde que foi adm itido, ontem , e vom itou depois de beber um pouco
de caldo. Está febril, queixa-se de não poder respirar. O m otivo pelo qual pedi a Mister
Prufrock que fosse buscá-lo é que a pele dele está a rebentar em bolhas horríveis. E os lábios,
parece que estão a escurecer.
— Raios partam — disse Piers, com pesar.
De fato, quando exam inou o paciente, o interior da sua garganta estava coberto de
pequenas m anchas castanhas e tinha inchaços atrás das orelhas.
— Porra! Quem o viu? Quem esteve no quarto?
— Bem , foi o doutor Bitts que o adm itiu ontem — disse o auxiliar. — Eu estive no quarto,
claro. — Parecia um pouco nervoso, m as firm e. — Sua senhoria veio aqui depois do doutor e
disse que o hom em devia ficar num quarto sozinho; o doutor tinha-m e dado instruções para
o pôr com os pacientes com febre petequial.
— Não é petequial — em endou Piers, fechando a porta quando saíram . — E escarlatina
anginosa. Escarlatina norm al. Ou, m ais provavelm ente, escarlatina m aligna. Isto significa um
grande problem a, a não ser que ele sej a o único. Onde estão os outros dois pacientes
adm itidos hoj e de m anhã?
— Lá ao fundo, no vestíbulo — inform ou o auxiliar. — Estão j untos num quarto, porque
são sapateiros que têm um a loj a em conj unto e adoeceram ao m esm o tem po.
— De onde vieram ?
— De Little Millow.
— A um as duas m ilhas daqui.
— O prim eiro paciente é de Aferbeeg.
— Só a um a m ilha. Os sapateiros disseram se m ais alguém que eles conhecem está doente?
— Perguntei aos três. O m oleiro esteve a entregar cereais nos dois dias antes de, finalm ente, cair para o lado. Pensou que tinha só tosse e que havia de passar.
— A entregar cereais... provavelm ente num am plo círculo em torno de Aferbeeg.
— Entraram no quarto dos sapateiros. Am bos tinham a erupção, a descam ação, úlceras
na garganta. O m oleiro passara por lá cinco dias antes para m andar arranj ar as botas.
— De m al a pior. Há um a possibilidade real de epidem ia— afirm ou Piers, abatido. — A
prim eira coisa que tem os fazendo é proteger todas as pessoas que estão neste castelo e que
não estej am j á às portas da m orte. — Tocou a cam painha para cham ar Prufrock, e depois foi
até ao cim o das escadas, levantando a m ão para fazer parar o m ordom o a m eio cam inho.
— Lem bras-te dos planos que fizem os o ano passado para o caso de epidem ia? Prufrock
assentiu com a cabeça.
— É altura de os pôr em ação. Tira do castelo toda a gente que não sej a essencial aos
cuidados dos pacientes. Todos os pacientes que não estej am a m orrer vão para casa... a não
ser que tenham a garganta inflam ada, rigidez ou sinais de febre. Manda lacaios pedir
em prestadas todas as carruagens que existam num raio de algum as m ilhas para os levarem .
Todos os outros vão para casa, tira daqui o duque e a m inha m ãe, Miss Thry nne vai com eles,
claro.
Os olhos de Prufrock abriram -se m uito e ele correu pelas escadas abaixo sem dizer
palavra.
Piers sentiu um a pontada algures na zona do coração pelo fato de não voltar a ver Linnet.
Mas depois voltou para a ala leste. A escarlatina era um a assassina e parecia que o m oleiro
tivera tem po e oportunidade para infectar um as quantas pessoas. Mas Piers era fam oso por
não perder doentes com infecções, m esm o os que tinham escarlatina, e tencionava com bater
a doença com todos os instrum entos que tivesse à m ão. Defendera, perante a Sociedade Real,
que a anginosa não tinha de se transform ar na sua prim a m ais m ortífera, a m aligna, e era
altura de o provar.
Um a hora depois, com eçou a ouvir carruagens a subir o cam inho para o castelo e depois
a rolar, afastando-se outra vez, à m edida que cada paciente que podia ser deslocado era
m andado em bora. Entretanto, ele e Sebastian com eçaram fazendo um cuidadoso inventário
da ala leste, descobrindo, para sua consternação, que a doença j á se tinha espalhado entre os
seus próprios doentes, com plicando gravem ente a situação.
— E a tosse — disse Piers. — Mas acho que tam bém pode espalhar-se pelo toque. Quero
baldes de água m isturada com álcool e sabão líquido à porta de todos os quartos — disse ao
auxiliar. — Lavem as m ãos constantem ente.
Alguns dos seus pacientes, j á de você enfraquecidos, podiam m orrer, m as não tão
depressa com o os pacientes das cidades vizinhas, se loucos tentassem sangrá-los ou
dar em éticos.
— Chá fraco e caldo — recom endou ao auxiliar. — Vam os tratar a febre arrefecendo os
pacientes o m ais possível. Abram as j anelas todas e estej am sem pre a deitar fluidos pela
garganta abaixo. Quero que enviem um aviso a todas as igrej as num raio de cinco m ilhas de
Aferbeeg, todas as pessoas que evidenciem sinais de febre ou garganta inflam ada têm de ficar
im ediatam ente de quarentena.
— Devíam os ter a certeza de que o Penders e o Kibbles não falham quaisquer casos
incipientes na ala oeste — disse Piers, um tem po depois, — Até agora, tem os aqui seis, m as
tenho esperanças de que não se tenha espalhado para essa ala.
Infelizm ente, estava enganado.
— Com o aconteceu isto? — perguntou, um as horas m ais tarde, cheio de frustração.
Tinham cinco casos na ala oeste, todos em estádios iniciais de escarlatina anginosa.
Sebastian abanou a cabeça.
— Nós som os os únicos a andar de um lado para o outro. Com o te sentes?
— E o Bitts! — exclam ou Piers. — Deus Todo-Poderoso, é o Bitts. E preciso saber se
alguém foi ver com o ele está.
Dois m inutos depois, estavam no segundo andar, num dos quartos de hóspedes. Bitts
estava a arder.
— Estou a ferver — arfou. O criado estava perto dele.
— O que é im portante é m antê-lo fresco e dar- água — disse Piers. — Bitts.
O j ovem m édico abriu os olhos.
— Você safas-te. Tens pontos brancos nas am ídalas e não castanhos. Continua a beber.
Deus sabe que te fiz preleções sobre a necessidade de os pacientes tom arem líquidos,
portanto, faz bom uso de todos os m eus berros.
Um sorriso espectral tocou os lábios de Bitts.
— Ele consegue — disse Sebastian, cam inhando a passos largos à frente de Piers. —
Porque não vais dorm ir um bocado e depois acordas-m e daqui a um as horas?
Prufrock estava à espera deles, a m eio das escadas.
— Sua Graça e Lady Bernaise recusam -se a partir — inform ou ele.
— Estás a torcer as m ãos, Prufrock — constatou Piers. — Eu falo com eles.
— Eu não posso obrigá-los a entrar num a carruagem . E Miss Thry nne está com eles. Piers
suspirou.
— Eu trato disto — disse a Sebastian. — Lem bras-te daquela conferência que ouvim os,
que recom endava a aplicação da espum a do m alte a ferm entar nas gargantas dos pacientes
com escarlatina?
Sebastian abanou a cabeça.
— Porm enores desses deixam -m e a cam inho da saída do vestíbulo.
— Põe a enferm eira Matilda fazendo isso — ordenou Piers.
— Tam bém podem os tentar. — Enquanto resum ia os detalhes do tratam ento, ouviu-se
um a pancada na porta de entrada e am bos pararam . Um lacaio abriu a porta, após o que
entraram quatro... cinco... não, oito pacientes, dois pelo próprio pé, os outros arrastados ou
transportados.
— Eu fico com estes — disse Sebastian. — Você tratas dos teus pais e depois vais dorm ir.
Vam os ter de nos revezar.
Piers assentiu com a cabeça.
— Tenta pôr a anginosa na ala leste e a m aligna na oeste.
— Desceu as escadas pesadam ente e fez um desvio em volta dos pacientes, dirigindo-se à
sala de estar.
A m ãe, o pai e Linnet form avam um encantador grupo fam iliar. Piers teve um a sensação
de exaustão profunda ao olhar para eles. Estavam a falar do escultor Miguel Ângelo, a m esa
à sua frente atravancada com bolos e chávenas de chá. Pareciam estar noutro m undo, de
porcelana e artistas italianos, de perfum e francês e vozes de fidalgas.
A m ãe levantou-se de um salto m al o viu.
— Eu não saio daqui, Piers. Sem você, não saio.
— Está louca? — perguntou ele, sem sair da porta. — Estam os no m eio de um a grave
epidem ia de escarlatina, m ãe. Se ficar aqui, é m uito provável que a apanhe.
Ela m eneou a cabeça com um fino desdém francês.
— Eu não m e ralo com a escarlatina. Quem vai tratar de você se adoeceres? Vou ser eu.
— Está a condenar a sua criada a m orrer por sua causa? As pessoas m ais novas estão m ais
suj eitas a desenvolver um a form a severa da febre.
— Mandam os im ediatam ente em bora os nossos criados pessoais — interveio o pai.
— Estão à nossa espera num a estalagem a algum a distância daqui.
— Não podem ficar aqui — afirm ou Piers, obstinadam ente. — Não posso preocupar-m e
convosco.
— Não m e vou em bora sem você — declarou a m ãe, abruptam ente. Ele sabia de onde
vinha o pendor feroz do seu caráter, e esse pendor estava a fitá-lo, dos olhos dela.
— A casa do guarda — disse Linnet.
Virou-se para ela, m al com preendendo o que estava ela a dizer.
— De que está a falar?
— Lady Bernaise podia ir para a casa do guarda e os criados podiam deixar-com ida à
porta. E m esm o ali, no cam inho que vai dar ao m ar — sugeriu ela a m ãe de Piers.
— Aí ficava a salvo, m as suficientem ente perto para que, se o Piers adoecesse realm ente,
pudesse tratar dele.
— Maldito sej a se perm itir um a coisa dessas — declarou Piers.
Mas a m ãe j á estava a levantar-se.
— Vou ficar na casa do guarda.
— Não se aproxim e de m im — disse Piers, desistindo. Tinha outras batalhas para travar
e essas eram m uito m ais im portantes.
— E não saia pela porta da frente. O corredor está cheio de pacientes, todos eles a tossir,
sem dúvida. Terá de sair por um a j anela.
Virou-se para Linnet. Estava tão deliciosa, e tão distante dele, com o a própria rainha das
fadas. Estupidam ente, tolam ente, tentou m em orizá-la: o narizinho doce, o queixo obstinado,
as pestanas encurvadas, a pele im aculada. O que apenas o fazia pensar nos efeitos da
escarlatina.
— Tem de se ir em bora — exigiu ele. — Já, depressa.
— Eu vou. — Tinha as m ãos apertadas à sua frente. — Oh, Piers... — Deu um passo em
direção a ele.
— Não. — Disse-o furiosam ente. — E preciso que se vá em bora. Não posso pensar em
você nem preocupar-m e com você.
Ela assentiu com a cabeça.
— Para sem pre — continuou ele. — Volte para Londres, ou vá para França, ou para onde
quer que apeteça.
— Não! — arfou ela.
— Está tudo acabado entre nós — concluiu Piers, experim entando um a estranha sensação
de distância. Lá em cim a, os seus pacientes estavam a m orrer e, m esm o assim , o seu coração
estava a contorcer-se; m esm o assim , o brilhe das lágrim as nos olhos dela era letal. — A
Linnet soube sem pre que seria assim — acrescentou ele, m ais suavem ente. — Nós não tem os
futuro.
O m axilar de Linnet cerrou-se e subitam ente ela pareceu extraordinariam ente parecida
com a m ãe.
Piers olhou para o pai.
— Abra um a j anela, se faz favor. Leve a m inha m ãe para a casa do guarda, no cam inho que
conduz ao m ar. A Linnet estará pronta para partir com você dentro de dois m inutos.
Ele e Linnet ficaram ali com o duas estátuas de m árm ore, enquanto o duque em purrava
um a j anela para fora do caixilhe.
— Fica bem , Piers, m eu am or — disse a m ãe, quando o duque estendeu a m ão perto da
j anela. — Tem cuidado.
— Eu nunca apanho nada, m ãe — sossegou ele, com toda a verdade. — Sem pre pensara
que era a com pensação da natureza pela sua lesão.
Finalm ente, partiram .
— Não sabe se vai ser infetado — disse Linnet. Nos seus olhos brilhavam lágrim as. Ele
encolheu os om bros.
— Se for, trato de m im com o deve ser. Perco m uito poucos pacientes com esta doença,
desde que m e cheguem a tem po. Eu próprio não tenho planos para m orrer.
— Eu não quero deixá-lo.
— Eu não quero casar com você.
Pronto, a verdade estava revelada, claram ente dita.
— Vai ter de esperar lá fora pelo m eu pai — disse ele. — Mantenha-se longe de qualquer
pessoa que vej a lá fora, incluindo o Prufrock. Está a ouvir? Espere ao lado da casa. Eu acho
que isto se espalha com a tosse.
Linnet respirou fundo. Piers estava apoiado à bengala com força, a exaustão em cada linha
do seu corpo.
— Eu não quero deixá-lo.
— Não tem opção — resum iu ele. — Deus Todo-Poderoso, Linnet, de quantas m aneiras é
que posso dizer isto? Não quero casar com você.
— Eu não decidi se quero casar com você — disse ela, tentando um pequeno gracej o
apesar do pesadelo. — Acho que podia.
— A possibilidade não se põe. Nunca se pôs, na verdade.
Linnet olhou para ele, para a som bra da sua barba, para as som bras sob os seus olhos, e
percebeu que o am ava. Que nunca am aria outro hom em . O espírito feroz de Piers tinha-a
tentado, m as foi o seu coração apaixonado que a conquistou.
— Vá — disse ele, im paciente. — Não quero casar com você. Está suficientem ente claro?
— Não. — Viu a dor nos olhos dele e com preendeu-a perfeitam ente. — Nós devem os estar
j untos — assegurou ela, sentindo estar a dizer a verdade. — Nunca am ará m ais ninguém
além de m im .
— A Linnet está cega pelas suas próprias pretensões de beleza — respondeu Piers,
evitando o que ela acabara de dizer.
— Pode fazer o favor de sair agora, antes que eu diga algum a coisa de que m e arrependa?
Mas o coração de Linnet cavalgava num a onda de paixão e am or.
— Am o-o! — voltou ela a dizer. — E o Piers am a-m e.
— Quero lá saber! — vociferou Piers.
Por um m om ento, ela não o ouviu. Depois, não o com preendeu.
— Que quer dizer?
— Precisam ente o que disse. Não m e interessa o que sente por m im , ou pensa que sente.
— Porque está a ser tão cruel?
— Não estou. Nesta situação, não é indicada am abilidade arbitrária. Mas honestidade.
Ela correu para ele e agarrou- as lapelas. Ele recuou violentam ente.
— Eu posso estar infetado. Afaste-se!
— Não está doente. Nunca adoece. Eu acredito em você.
— Então, porque não acredita em m im quando eu digo: Linnet, eu não quero casar com
você. Não quero casar com você! — Estava a gritar.
— Quer, sim — disse ela e estendeu a m ão, agarrando- o rosto e puxando-o para o seu. Os
seus lábios procuraram os dele, fam intos, acolhedores, m esm o extrem osos.
— Eu não caso por sexo — disse ele, em purrando-a.
Ela não conseguia com preendê-lo e estendeu a m ão para agarrar a m anga quando ele
virou costas.
— Por am or de Deus, não tem dignidade? Eu cobri-a, e estivem os bem j untos, m as a Linnet
não foi a prim eira e não será a últim a.
Linnet sentiu a garganta a apertar-se.
— Porque está a falar com igo desta m aneira?
— Porque, diabos a levem , não m e ouve de outra m aneira— disse com óbvia frustração.
— Sabe que tipo de hom em sou, Linnet. Divertim o-nos a nam oriscar, a excitar-nos, a abanar
os lençóis, sej a o que for que cham e. Mas eu nunca fiz de conta que ia acabar em casam ento.
— Pois não — sussurrou Linnet, o frio a invadi-la. — Foi m uito claro quanto a isso.
— Acho que devia tê-la rej eitado — disse ele. — Mas a Linnet estava lá, estava a arder em
desej o.
Linnet engoliu em seco.
— Porque eu estava... a arder em desej o? — Parecia que ela era com o a m ãe, pelo m enos
aos olhos de Piers. — Foi por isso?
— Tam bém é diabolicam ente bela — adm itiu ele, afastando o cabelo para trás. — Mas,
sim , a Linnet estava a arder em desej o. Talvez deva tentar m aior discrição se voltar a
encontrar-se nessa situação.
O coração dela caiu- aos pés.
— Olhe, tem de se ir em bora. Eu preciso de dorm ir. Eu e o Sebastian tem os um castelo
cheio de doentes e o Bitts j á está de cam a, o que significa que os outros dois tam bém poderão
vir a estar.
— Eu podia... — disse ela, e as palavras m orreram - na garganta.
— Vá — disse ele, exausto. — Não pode aj udar. Não precisam os de você aqui.
— E o Piers não m e quer — afirm ou ela, sentindo necessidade de o dizer em voz alta.
— Se m e pergunta se eu a quero no aspecto sexual, então a resposta é sim . Menciono a sua
beleza e entusiasm o geral. Todos os hom ens querem isso na cam a. Mas se a quero no aspecto
m atrim onial, de um m odo até-que-a-m orte-nos-separe? Não. E nunca quererei.
Os seus olhos eram ligeiram ente am áveis. Aquela am abilidade, sentiu Linnet, era bastante
horrível.
— Não quer adm itir que m e am a, porque isso significaria ter de assum ir a
responsabilidade por ser infeliz, ou, neste caso, não ser infeliz — disse ela, levantando o
queixo e olhando para ele.
— O quê?
— Precisam ente o que eu disse — retorquiu Linnet. — Se casasse com igo, se adm itisse os
seus sentim entos, significaria que a infelicidade não é um dado adquirido, m as um a escolha.
— Tretas!
— Bem , eu am o-o — reafirm ou ela. — Não tenho m edo de o dizer em voz alta. E tam bém
o quero.
— Eu não...
— Eu sei que não — interrom peu ela, afastando-se dele em direção à j anela. — Espero
que corra tudo bem no castelo.
— Vai correr — disse ele. Agora, que ela tinha as costas viradas para ele, parecia que a voz
de Piers continha sofrim ento. Mas, quando se virou, ele tinha o m axilar cerrado, o rosto
obstinado.
Ela parou, m ais um a vez, porque era um a m ulher teim osa.
— Espero por você em Londres — disse. — Durante um tem po. Para o caso de m udar de
opinião.
— Mas ninguém tem dignidade aqui à volta? — questionou ele, quase gritando. — A Linnet