Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 23
Afinal, estavam só a brincar.
23
Um a bela m anhã, um as sem anas depois de Linnet ter conhecido Gavan, este foi levado
para baixo por Ney then e plantado ao sol à porta de entrada, à espera que alguém fosse
buscá-lo.
Linnet encontrou-o aí e sentou-se ao lado dele.
— E o seu pai que vem ? Ele encolheu os om bros.
— Provavelm ente é a m inha m ãe, na carroça. Foi assim que ela m e trouxe. O m eu pai está
nos cam pos, ou com as ovelhas.
— Então, é filho de um agricultor — concluiu Linnet. — Tam bém queres ser agricultor?
— O m eu pai não é agricultor; trata de um a grande propriedade de alguém que nunca lá
está. Eu vou ser m édico — declarou Gavan, com um a confiança descontraída. — Vou ser
m elhor que aqueles dois. — Virou a cabeça para o castelo.
— Eles fizeram um bom trabalho contigo — lem brou- ela, escondendo o sorriso.
— Que pensam os teus pais do seu plano?
— Eles ainda não sabem , pois não? Por causa do m odo com o a velha Havelock disse à
m inha m ãe que tinha de m e deixar aqui. Nós vivem os ali, em Ty dfil. — Fez um gesto,
vagam ente, na direção do oeste. — A m inha m ãe disse-m e que vinha visitar-m e e depois a
Havelock disse que ela não podia vir nunca.
— Então, Ty dfil é m uito perto? — perguntou Linnet, m as Gavan esforçou-se, subitam ente,
por se levantar. Linnet pôs-se em pé de um salto e aj udou-o a levantar-se.
— Ali vem a carroça! — gritou ele, extrem am ente excitado.
— E a m inha m ãe!
Quando a carroça parou em frente do castelo, um a m ulher saltou, correu e precipitou-se
para Gavan, abraçando-o.
— Cá estás você! — exclam ou ela. — Reluzente com o um a m oeda e bom com o o ouro! Ele
tinha os braços bem apertados à volta do pescoço dela.
— Eu nunca chorei — disse ele. Mas agora estava a chorar.
— Nem sequer quando eles m e agarraram e... — m as o que quer que estivesse a dizer
perdeu-se nos seus soluços.
Linnet deu um as pancadinhas no banco onde ela e Gavan tinham estado sentados e a m ãe
de Gavan aproxim ou-se, o filho colado a ela. Não era m uito m ais velha que Linnet, vendo bem ,
o cabelo preto a brilhar debaixo do chapéu.
Sentou-se, afagando o cabelo de Gavan.
— Não há nada de m al em chorar — disse- . — Absolutam ente nada.
Depois, ficaram ali sentados, ao sol, a cabeça dele enterrada no om bro da m ãe, enquanto
ela o em balava de um lado para o outro.
A porta abriu-se atrás deles e Linnet ouviu o som da bengala de Piers. Virou-se para trás
para lançar um olhar de advertência. Aquela não era altura para indelicadezas. Mas ele
estava cortês, ao contrário do que era habitual nele.
— Mistress Wing — disse ele —, o rapaz está a curar-se na perfeição. Tem de andar, no
m áxim o, um a hora por dia durante a próxim a sem afia e depois aum entar gradualm ente. Tem
um a bengala; tem de a usar.
Mrs. Wing acenou com a cabeça.
— Obrigada, m eu senhor. Não tem os palavras para agradecer. — Apertou Gavan um
pouco m ais. Havia um brilhe de lágrim as nos seus olhos, m as ela era obviam ente um a alm a
enérgica com pouco tem po para fraquezas.
Piers rodou os calcanhares para se ir em bora.
— Espere! — cham ou-o Mrs. Wing.
Ele parou e virou-se um pouco.
— Minha senhora?
— Quero dizer- um a coisa, m eu senhor — disse Mrs. Wing. Desenrolou o filho do pescoço
e deixou-o cair, m uito naturalm ente, nos braços abertos de Linnet. Gavan tinha parado de
chorar e estava apenas com soluços.
— Estas sem anas sem o Gavan, e sem saber nada dele, foram terríveis para m im e para o pai dele. Terríveis. E não havia necessidade nenhum a disso. Nós vivem os m esm o ali, naquele
m onte. Podíam os tê-lo visitado com toda a facilidade sem incom odar ninguém . Essa, essa sua
governanta, disse...
— Estam os a m udar os nossos procedim entos — inform ou-a Piers, cortando a palavra. —
Fale com Miss Thry nne. E essa com ar frívolo que está ao seu lado. — Depois atravessou a
porta pesadam ente.
— Bem , eu nunca vi um a coisa destas! — exclam ou Mrs. Wing, deixando-se cair,
rechonchuda, no banco. — Eu disse a Mister Wing que ia falar com ele e sabia que o doutor
não ia gostar. — Tirou o chapéu e com eçou a abanar a cara com ele.
— Mas a m aneira com o ele olhou para m im ! Com o se eu fosse algum roedor que ele
encontrasse na caixa dos cereais!
— Ele não é assim tão m au — protestou Linnet.
Gavan saltou- do colo de repente.
— Mãe, não m ostrei o m eu cão, o m eu cão Rufus! Mrs. Wing pestanej ou.
— Um cão?
— Aqui a m enina arranj ou-m e um cão nos estábulos — disse Gavan, tirando Rufus de
debaixo do banco onde estava deitado à som bra. — Não é o m ais m elhor cão que algum a vez
viu, m ãe?
Rufus sentou-se, língua de fora, a única orelha arrebitada.
— Bem , parece um bom caçador de ratos — retorquiu a m ãe, olhando para Rufus. Depois,
virou-se para Linnet. — A senhora arranj ou aquele cão para o m eu filho?
— Sim , ela levou-m e aos estábulos antes sequer de eu poder andar e encontrám o-lo lá —
explicou Gavan, sentando-se na relva e depois deitando-se para que Rufus pudesse lam ber a
cara. — Guardou-o no quarto dela de noite para ele não fugir. E tam bém m e levou ao m ar.
O lábio de Mrs. Wing trem eu e ela estendeu o braço e fez um a festa bastante às cegas no
j oelhe de Linnet.
— Não tenho palavras para dizer o que isso significa para m im — disse, a voz a vacilar.
— Tenho passado noite após noite acordada, pensando no Gavan, sozinho neste castelo, e
que talvez algum a coisa pudesse correr m al e que nós nunca m ais o víam os. — Parou e puxou
de um lenço.
— Não estive aqui durante toda a convalescença do Gavan — disse Linnet —, m as acho
que ele esteve bastante feliz. Tem um a alm a alegre.
— Tem , não tem ? — Mrs. Wing lim pou os olhos. — Tudo o que posso dizer- é que fiz
quatro m antas enquanto ele esteve fora. Quatro. Juntei os rem endos, cosi e fiz os
acabam entos.
Linnet não tinha ideia do que significava fazer um a m anta, m as podia im aginar que
envolvia im enso trabalho.
— Claro, tive aj uda — contou Mrs. Wing. — Todas nós, as m ulheres lá de Ty dfil — fez um
m ovim ento com a cabeça — fazem os m antas j untas: E, quando acontece algum a coisa, com o
aconteceu com o Gavan, j untam o-nos com m ais frequência. É um a distração.
Linnet teve um a ideia repentina.
— Fazer m antas não precisa de nada com o um tear, pois não?
Mrs. Wing abanou a cabeça.
— Trata-se só de j untar quadrados, nessa fase. Sentam o-nos num círculo e cosem os
j untas. E fartam o-nos de conversar. Mais tarde, ponho-a num bastidor e faço os acabam entos.
— Gostava de saber se poderá vir algum a vez aqui ao castelo — disse Linnet. — Porque,
sabe, há um quarto cheio de m ulheres, na ala oeste, que estão terrivelm ente aborrecidas. Há
um a m ulher que está à espera de dois bebês, por exem plo, e por isso não pode levantar-se
durante uns m eses! E Mistress Trusty, aconteceu- qualquer coisa horrível no pé, em bora
estej a a com eçar agora a coxear por lá.
— E a governanta perm itirá um a coisa dessas?
— Podem os tratar disso — respondeu Linnet, com firm eza.
— Um círculo de m antas, aqui no castelo. Poderia vir, Mistress Wing, um a vez por sem ana?
Poderia dispensar esse tem po?
— Claro. O m édico pode ser irritadiço, no seu m odo de ser, m as salvou a vida ao m eu
Gavan. — Acenou com a cabeça.
— Tam bém aj uda, sabe, as pessoas que estão a sofrer. Distrai-as. No trabalho de parto,
não. Nunca vi um a m ulher em trabalho de parto que conseguisse fazer um a costura direita.
— Mistress Wing, estou a ver que vai ser m aravilhosa fazendo isto — alegrou-se Linnet,
com um sorriso feliz.
— Gosto de ver as coisas feitas — disse Mrs. Wing. — Vej o o que é preciso fazer e faço-o.
Felizm ente, o m eu m arido nunca se incom oda com nada. Se am bos fôssem os aos aram es de
cada vez que víssem os algum a coisa m al, não conseguíam os fazer nada! — desatou a rir.
— Vou falar com Mistress Havelock, a governanta da ala oeste — disse Linnet. — Talvez
possa vir visitar-nos daqui a um a ou duas sem anas, quando o Gavan se aguentar m elhor de
pé?
Mrs. Wing assentiu com a cabeça.
— Venho, com certeza. — Olhou para Gavan. — Penso que ele não devia andar a rebolar
por aí, não vá m agoar a perna?
— Ele não parece ter dores — disse Linnet. — E um m enino am oroso.
— E a senhora é um a senhora am orosa — elogiou Mrs. Wing, virando-se para ela e
pegando- na m ão. — Não faz ideia de com o isto m e consolou. A senhora estar aqui, e dar- o
Rufus, e arranj ar as coisas de m odo a que eu possa retribuir ao m édico com trabalho nas
m antas.
— Linnet — disse ela, im pulsivam ente, apertando por sua vez a m ão de Mrs. Wing.
— Cham o-m e Linnet.
Mrs. Wing deu um a risadinha.
— Diana — respondeu ela. — E um nom e estranho, tem algo a ver com um a deusa que
provavelm ente não era nem m elhor nem pior do que devia ser. Espero que a senhora vá
tam bém aprender fazendo m antas, não vai?
Linnet sorriu vagam ente.
— Lam ento estar só de visita, e é provável que não estej a aqui daqui a duas sem anas, por
isso não vou conseguir fazer o trabalho das m antas.
— Bem , é um a pena — lam entou Diana. — Um a grande pena. Bem , se com binar com
Mistress Havelock e avisar o m édico, acho que com você.
— Não o deixe assustá-la — avisou Linnet. — Cão que ladra não m orde.
— Ninguém vai im pedir-m e de aj udar essas m ulheres — afirm ou Diana. Voltou a rir.
— Gavan, rapaz sem em enda, levanta-te.
— Preciso da bengala — disse Gavan. Conseguiu levantar-se com a aj uda dela. — Vê,