Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 18
Ele pôs de lado qualquer aparência de controle, m ovendo-se para dentro dela com tanta
força que o som da cam a a bater na parede rivalizava com o do granizo a bater na j anela.
Calor explodiu no corpo e ela afundou-se num prazer tão esplendoroso que nunca poderia
ter im aginado que existisse um a coisa assim . Não via, nem ouvia, apenas sentia com o o corpo
se liquefazia, relaxando num a espécie delirante de calor espasm ódico que queim ava o
sangue.
Ouviu vagam ente um gem ido estrangulado, um a rouquidão anim al, e abriu os olhos
turvos, vendo a cabeça de Piers arquear-se para trás, enquanto ele pulsava um a últim a vez
para dentro dela.
A expressão do seu rosto, o abandono total, o prazer total, desencadearam nova cascata
de faíscas incandescentes através do corpo de Linnet, fazendo-a apertar no instante exato
em que ele gritou, literalm ente.
E sucum biu em cim a dela.
18
M ais tarde, nesse dia
— Lady Bernaise recolheu aos seus aposentos com um a dor de cabeça; o duque está a
j ogar xadrez com o m arquês — inform ou Prufrock, subindo as escadas de costas, à frente de
Piers. — Pus um novo doente num quarto, sozinho; os Patinhos estão com ele.
Piers ergueu um a sobrancelha.
— Os Patinhos? Ela contam inou-te.
Prufrock tinha um truque para parecer perfeitam ente inocente quando o desej ava.
— Onde está a enferm eira Matilda? — perguntou Piers.
— Na sala de dia, com Miss Thry nne — respondeu Prufrock.
— Com o o senhor solicitou, a j ovem senhora está a analisar as responsabilidades de
Mistress Havelock no que diz respeito aos pacientes. A últim a vez que as vi, não m e pareceu
que estivesse a correr m uito bem .
Piers hesitou por um m om ento e depois, m entalm ente, encolheu os om bros. Que
interessava isso? Assim que Linnet se fosse em bora, ele podia deixar a governanta voltar às
suas obstinadas m aneiras de agir. Os pacientes tinham a fam ília com eles ou não tinham .
Continuavam a m orrer, a não ser que ele e Sebastian descobrissem algum m odo de os m anter
vivos.
Entrou no pequeno quarto que usavam para isolar novos pacientes até ele determ inar a
sua doença. Se ele determ inasse a sua doença.
Os Patinhos — raios, ele estava a adotar o nom e que Linnet lhes tinha dado — estavam
aglom erados em volta da cam a; a discutir.
Ele bateu com a bengala na coluna da cam a e eles calaram -se.
— Bitts, quem é o paciente?
Bitts endireitou-se.
— Mister Juggs é dono de um pub de Londres e tem sessenta e oito anos.
— Sessenta e oito? — perguntou Piers, afastando Kibbles do cam inho para poder, ele
próprio, form ar um a opinião sobre o hom em . — O senhor teve um a boa carreira no pub,
deixe um as cervej as para nós. Porque não fecha as torneiras e parte em paz?
O paciente era atarracado e careca, à exceção de um extraordinário par de sobrancelhas,
tão indôm itas que pareciam prontas a saltarem - da cara.
— Tretas! — retorquiu ele com um esplêndido sotaque londrino. — O m eu pai viveu até
os noventa e dois e eu não tenho planos para ser m etido na cam a com um a pá antes do m eu
pai. Se o senhor é tão bom com o dizem , quer dizer.
— Bem , não sou — disse Piers. — Sintom as, Bitts?
— Não ouve.
— Disparate — disse Piers. — Ele acabou de m e obsequiar com tretas. Para a próxim a,
espero que não m e lixe. Passou algum tem po na m arinha, Juggs?
— Doze anos com o cabo no Décim o Quarto Regim ento de Dragões Ligeiros. Eu não ouço
sem pre. Ouço bem , e depois desaparece, vai-se.
— Velhice — concluiu Piers. — Despej a-o dessa cam a e dá-a a outra pessoa.
— E às vezes acontece-m e tam bém com a vista. Vai-se — acrescentou Juggs. — Mas volta.
— Não é velhice. Então, Bitts, que dizes?
— Os pulm ões estão lim pos. Utilizei o m étodo acústico que tem os andado a praticar. Tem
m em bros fortes e os seus reflexos são norm ais.
— Algum a coisa a acrescentar, vocês os dois? — perguntou Piers a Penders e Kibbles.
— Perdeu a visão três vezes — disse Kibbles. — A ver a entrada do rei da Noruega em
Londres, durante a festa dos sessenta anos da m ulher e num a revista m ilitar. Essas ocasiões
parecem sintom áticas.
— Nã, nã — disse Piers. — O senhor casou com um a m ulher m uito m ais nova.
— Só oito anos — afirm ou Juggs, à defesa.
— Qual é o seu diagnóstico? — perguntou Piers a Kibbles.
— Com base nas três ocasiões em causa, excitação extrem a que provoca batim ento
cardíaco acelerado.
— Desde quando o batim ento cardíaco acelerado causa perda de visão? — interpôs
Penders. — Acho que ele teve paragem cardíaca.
— Um ataque de coração não provoca perda de visão — obj etou Bitts.
— Provoca, se ele teve um a perda tem porária do afluxo de sangue à cabeça — retorquiu
Penders. — Sentiu-se tonto durante esses episódios, Mister Juggs?
Ele negou com a cabeça.
— Mas com um calor terrível.
A porta abriu-se atrás de Piers. Soube que era Linnet antes de ela entrar porque sentiu o
seu cheiro, um leve arom a a flores, com um traço de lim ão. Com eçou a perguntar a você
próprio se os nervos olfativos se intensificam com a excitação sexual.
Os encantadores tons de voz da enferm eira Matilda fizeram -no voltar subitam ente ao
presente.
— Doutor, estou profundam ente ofendida com o que se passou hoj e, aparentem ente com
a sua autorização, se não com o seu encoraj am ento. Profundam ente ofendida. E, apesar de
lam entar interrom pê-lo, isto não pode esperar.
— O paciente teve febre, provavelm ente, durante os episódios em que perdeu a visão. Que
nos diz isso? — perguntou Piers aos Patinhos.
Depois, virou-se, relutantem ente.
A verdade é que Linnet era aterradoram ente bela. Lábios perfeitos, faces perfeitas, um
perfeito...
Um perfeito sorriso secreto nos seus olhos perfeitos. Era irritante.
Ele reprim iu um sorriso com o resposta.
— Que diabo anda a tram ar? — perguntou- .
O sorriso desvaneceu-se.
— Estou a interrogar, a governanta da ala oeste, esta ala, sobre os seus procedim entos relativam ente aos cuidados com os pacientes, incluindo dieta e visitas de fam iliares.
— Muito bem — disse ele. Dirigiu-se à enferm eira Matilda.
— E isso que ela está fazendo. O seu papel é responder, na m edida em que é a governanta
em questão.
O peito da enferm eira Matilda inchou de um m odo im pressionante, tal qual o de um sapo
num a resistente folha de nenúfar, a preparar-se para coaxar.
— Sinto-m e trem endam ente insultada com o tom destas inquirições im pertinentes. Se
tem preocupações quanto ao m odo com o eu faço a gestão da ala e trato dos doentes, devia
consultar-m e diretam ente.
Piers voltou-se para os Patinhos.
— Perda de visão tem porária, o m esm o de ouvido, febre possível. Que m ais perguntas
fizeram ?
Os Patinhos m antiveram -se calados.
— Creio que nenhum a — disse ele. — O senhor, aí na cam a. Não teve tonturas.
Alguém disse se ficou com a cara verm elha?
Juggs abanou a cabeça.
— Sentiu os j oelhos fracos? Calor e depois frio?
— Só calor. Bem , e vom itei algum as dessas vezes.
— Não pensou em m encionar isso? Mais algum a coisa que não estej a a dizer-nos?
— A m inha m ulher disse que eu estava bêbado. Mas não estava. — Juggs franziu a testa
de tal m aneira que as sobrancelhas se uniram no m eio, um a expressão interessante, m as
pouco provável de ser tida em conta por dândis, na opinião de Piers.
— Sou dono do Tornozelo da Sereia há vinte anos e sei quando um hom em está com os
copos. Eu não estava.
— Os bêbados são, em geral, os últim os a perceber — disse- Piers. — De fato, a m aioria
só adm ite a bebedeira na m anhã seguinte. O senhor, m elhor que ninguém , devia saber isso.
— Virou-se para a enferm eira Matilda. — Mas então, o que a torna tão excitada, em m enos
de cinco palavras? Suponho que as perguntas de Miss Thry nne não agradam .
O peito dela inchou outra vez.
— Esta j ovem senhora não tem qualquer ideia de enferm agem . Insinuou que eu era cruel...
— Desum ana foi a palavra que eu usei — interpôs Linnet.
Tinha aquele sorriso outra vez e todos os Patinhos se derreteram de im ediato. Até Juggs
estava a pendurar-se no lado da cam a, para m elhor a ver.
— Porque eu digo aos pacientes que, enquanto aqui estão, não terão visitas — disse a
enferm eira Matilda com firm eza.
— Sabe tão bem com o eu, Lorde Marchant, que m uitos dos nossos pacientes nunca
chegam a sair de aqui. Não posso lidar com choros e coisas assim . Os fam iliares podem
perfeitam ente despedir-se quando deixam aqui o paciente. Não há necessidade de prolongar
o sofrim ento.
— Então, é no interesse deles. — Linnet franziu a sobrancelha, m as Piers ignorou-a. —
Fez esta preleção a Mistress Juggs?
A enferm eira Matilda assentiu com a cabeça.
— Fiz, de fato. — Lançou a Linnet um olhar de profundo desagrado. — Infelizm ente, esta
senhora revogou as m inhas ordens e m andou a m ulher lá para baixo, para as cozinhas, onde
ela está só a dar m ais trabalho e a m açar, sem dúvida nenhum a.
— O que significa que podem os pedir- que venha aqui acim a e explique exatam ente com o
estava Mister Juggs nas ocasiões pertinentes — com entou Linnet. — Mistress Havelock,
porque não vai buscá-la?
Curiosam ente, ainda que Linnet pesasse, no m ínim o, uns vinte quilos m enos que a
governanta, devia haver qualquer coisa nela porque a enferm eira Matilda saiu do quarto.
— Jesiis, eu não queria estar de m al com a sua governanta— observou Juggs. Lançou a
Linnet um olhar de adoração.
— É m uito am ável o que a senhora fez. A m inha senhora iria sentir-se m uito m al, indo-se
em bora e deixando-m e aqui. Havia de se preocupar im enso.
— É o sorriso, não é? — perguntou Piers a Linnet.
— O m eu sorriso não teve efeito de qualquer espécie em Mistress Havelock — disse ela.
— Há quanto tem po está casado, Mister Juggs?
— Vai fazer vinte e quatro anos — referiu Juggs. — A prim eira vez que isto m e sucedeu
foi no vigésim o aniversário do nosso casam ento.
— Não tinha m encionado isso — fez notar Bitts, escrevinhando. — Então, são, quatro
ocasiões.
— Talvez tenha havido m ais algum as — adm itiu Juggs. — Em prim eiro lugar, dem orei
algum tem po a arranj ar coragem para ir ao m édico. Foi na verdade a m inha senhora que se
preocupou.
A porta voltou a abrir e um a enferm eira Matilda furibunda entrou de rom pante, seguida
de um a m ulher redonda, de olhar ansioso, com um chapéu coberto de cerej as que pareciam
ter sido feitas de um a lã cheia de nós.
— Qual era o aspecto do seu m arido durante estes ataques? — perguntou Piers, sem se
incom odar com cum prim entos.
Ela piscou os olhos.
— O m esm o de sem pre, acho eu.
— Cara verm elha?
— Não m ais do que o costum e, quando se em bebeda.
— Eu nunca m e em bebedo — gritou Juggs da cam a.
— Estavas bêbado, sim . — Acenou com a cabeça com tanto vigor que um ram o inteiro de
cerej as se ergueu ligeiram ente no ar e depois voltou a cair. — Com o ficas quando é um a
ocasião especial, e não o negues, Mister Juggs.
— Aquela vez, em York, não tinha bebido m ais de m eio litro — disse, triunfalm ente, o
paciente.
— Estavas a articular m al as palavras — ripostou a m ulher, aproxim ando-se para fazer
um a festa no pé. — Não há nada de m al em beber m eio litro ou um litro, m as é preciso m ais
do que isso para enovelar a língua. Esta últim a vez, em York, foi a gota que fez transbordar o
copo — explicou ela a Piers, m as, de algum m odo, a dirigir-se ao m esm o tem po a Linnet. —
Ele tinha-m e prom etido ir ao m édico se isso voltasse a acontecer.
— Raios partam — disse Juggs, com frustração. — Não bebi nem m etade do que podia ter
bebido!
— De que gênero de ocasião se tratou? — perguntou Linnet.
— A senhora levava esse seu chapéu absolutam ente cativante, Mistress Juggs?
Mrs. Juggs ficou radiante.
— Levava, sim , levava. Bem , foi a parada m ilitar, não é? E lá estava Mister Juggs no seu
uniform e, apesar de ficar um pouco apertado hoj e em dia. Mas ele gosta sem pre de o vestir
em ocasiões especiais. Eu fiz este chapéu de propósito para esse dia, em bora j á fosse verão e
estivesse calor dem ais para o usar.
— Calculo que aqui o Juggs estivesse a suar por causa do colarinho — deduziu Piers.
— Oh, não, ele nunca sua, Mister Juggs não sua — disse a m ulher cheia de orgulhe.
— Quase nunca tenho de lavar o uniform e por causa do suor, o que é um a bênção. Os
colegas dele da parada estavam todos a lim par o suor.
— E depois fiquei cego e não vi nada até à m anhã seguinte— disse Juggs, pesaroso.
— O nosso padre sugeriu que era a paga pelos pecados dele — acrescentou Mistress Juggs.
— Foi quando eu disse que ia ao m édico. Porque não peco m ais do que o estritam ente
norm al.
— Bem , Bitts? Kibbles? Penders? Acho que é absolutam ente óbvio o que sucedeu a Juggs,
não acham ? — Piers acenou com a m ão para os seus rostos inexpressivos. — Conferenciem
entre vocês, seus idiotas tagarelas.
Voltou-se para a enferm eira Matilda. Linnet estava a exam inar os frutos da agulha de
crochê de Mrs. Juggs.
— Perdeu a batalha — disse- . — Mistress Juggs solucionou o problem a da cegueira do
m arido. Sou um idiota por não ter insistido em falar com os fam iliares em casos com o este.
Mrs. Juggs ficou de boca aberta.
— Solucionei? E a bebida, não é?
— Não — respondeu- ele.
A enferm eira Matilda silvava com o um a chaleira a ferver.
— Qual dos sintom as foi o m ais im portante? — perguntou Linnet, curiosa.
— São todos im portantes. — Cham ou a atenção dos Patinhos.
— O Juggs engordou recentem ente, o uniform e está desconfortavelm ente apertado, tem
ocorrências destas apenas em ocasiões de festa durante as quais ele sente calor e bebe
cervej a, provavelm ente para se refrescar, em bora acabe por vom itar. Acrescentem a isso o
fato de o uniform e da brigada ligeira ser de lã grossa, com galões triplos no om bro, j á para
não falar no porm enor verdadeiram ente crucial de Juggs não conseguir transpirar.
— Insolação! — exclam ou Kibbles, enquanto Penders e Bitts ainda estavam pensando
nisso.
— Correto. A boa notícia, Juggs, é que pode saltar desta cam a e voltar ao Tornozelo da
Sereia. A m á notícia é que a incapacidade de suar, o uniform e de lã e um dia quente são um a
com binação perigosa. Um a dessas vezes pode m orrer e tem m uita sorte de não estar j á
debaixo de terra.
— Mas, que aconteceu? — perguntou Mrs. Juggs, confusa. — Não estava assim tanto calor.
— Ele precisa de beber m ais água — explicou Kibbles.
— E nada de cervej a se estiver a sentir m uito calor — ordenou Piers. — Nem sequer m eio
litro.
— Era isso, era só isso? Só por não beber água suficiente?
— Mrs. Juggs continuava confusa, m as Juggs balouçou os pés para fora da cam a.
— Eu sabia que não estava doente, nada m esm o. — Levantou-se. — Eu não m e aproxim o
de água quando vam os na parada porque não há sítio onde urinar sem sair das fileiras.
— O que contribui para o problem a — disse Bitts, escrevinhando com o louco.
Piers m andou sair Juggs e a m ulher, com os Patinhos.
— Mistress Havelock, a senhora pode decidir se quer seguir os planos de Miss Thry nne
para o m eu hospital ou se quer procurar outro em prego.
Ela olhou para ele, a boca fechada e tão apertada que parecia o trabalho de sutura de
Sebastian.
— Grave isso — disse ele. — Está despedida. — Agarrou no braço de Linnet e conduziu-a
para fora do quarto, m as ela parou no corredor, retendo-o até a enferm eira aparecer no
corredor.
— Sua senhoria estava a brincar — disse ela à enferm eira Matilda, lançando o sorriso