Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 2
Mrs. Hutchins apertou os lábios e saiu da sala.
2
C usteio Owfestry Pendine, País de Gales
Residência ancestral dos duques de Windebank
Piers Yelverton, conde de Marchant e herdeiro do duque de Windebank, encontrava-se
num grande sofrim ento. Aprendera, havia m uito, que pensar no m al-estar — um a palavra
danada, idiota, para este tipo de agonia — era dar- um poder que ele não queria reconhecer.
Por isso, fingiu não reparar e apoiou-se com m ais força na bengala, aliviando a pressão da
perna direita.
O sofrim ento tornava-o irritável. Mas talvez não fosse o sofrim ento. Talvez fosse o fato de
ter de estar ali a gastar o seu tem po com um trem endo idiota.
— O m eu filho sofre de diarreia aguda e dor abdom inal — disse Lorde Sandy s, puxando-
o m ais para a cam a.
O filho de Sandy s estava deitado na cam a com um aspecto m acilento e am arelo, com o
linho m anchado de chá. Parecia andar na casa dos trinta, com um rosto com prido e um ar
insuportavelm ente devoto. Em bora isso pudesse dever-se ao livro de orações que segurava
nas m ãos.
— Estam os desesperados — disse Sandy s, parecendo na realidade absolutam ente desesperado. — Já fiz desfilar cinco m édicos de Londres pela cam a dele e trazê-lo aqui para
Gales é o nosso últim o recurso. Até agora j á foi sangrado, tratado com sanguessugas e
foi- adm inistrado extrato de urtigas. Não bebe nada além de leite de burra, nunca leite de
vaca. Ah, e dem os- várias doses de enxofre, m as sem qualquer resultado.
Aquilo era m oderadam ente interessante.
— Um desses loucos que consultou deve ter sido o Sy denham — deduziu Piers. — Anda
obcecado com antim ônio arauto de enxofre. Receita-o para dedos dos pés m agoados.
Juntam ente com ópio, claro.
Sandy s confirm ou com a cabeça.
— O doutor Sy denham tinha esperança de que o enxofre aliviasse os sintom as do m eu
filho, m as não aj udou.
— Nem podia. O hom em era suficientem ente louco para ser adm itido no Colégio Real de
Médicos e isso devia ter- dito qualquer coisa.
— Mas o senhor....
— Eu associei-m e a eles puram ente por gentileza.
Olhou com atenção para o filho de Sandy s. Parecia, realm ente, estar m esm o m al.
— Provavelm ente, não se sentiu m elhor por se ter arrastado até Gales para m e consultar.
O hom em olhou para ele a pestanej ar. Depois disse, lentam ente:
— Nós viem os de carruagem .
— Olhos inflam ados — disse Piers. — Sinais de um a hem orragia nasal recente.
— Que é que conclui disso? De que precisa ele? — perguntou Sandy s.
— Melhores lavagens. Ele tem sem pre esta cor?
— A pele dele é sem pre um pouco am arela — reconheceu Sandy s. — Não sai à fam ília do
m eu lado. — Era um eufem ism o, dado que o nariz de Sandy s tinha a cor de um a cerej a.
— O senhor com eu lam preia em excesso? — perguntou Piers ao paciente.
O hom em ergueu os olhos para ele com o se tivessem nascido cornos.
— Lam paj a? Que é lam paj a? Não com i nada disso. Piers endireitou-se.
— Ele não sabe a história de Inglaterra. Vai estar m elhor m orto.
— Perguntou se ele tinha com ido lam preia — disse Sandy s. — Ele odeia peixe. Não
suporta lam preia.
— Mais ainda, é surdo com o um a porta. O prim eiro rei Henrique com eu lam preia, um dos
m uitos reis loucos que tem os tido neste país, em bora não tão dem ente com o o atual. Além
disso, Henrique era suficientem ente obtuso para com er lam preia em dem asia e m orreu
disso.
— Eu não sou surdo! — disse o paciente. — Ouço tão bem com o qualquer, se as pessoas
pararem de falarem com igo com m urm úrios. As m inhas articulações doem -m e. Aí é que está
o problem a.
— O senhor m orrendo, esse é que é o problem a — com entou Piers.
Sandy s agarrou-o pelo braço e afastou-o dali.
— Não diga um a coisa dessas em frente do m eu filho. Ele tem só trinta e dois anos.
— Tem o corpo de um velho de oitenta anos. Ele passou m uito tem po com atrizes? Sandy s
resfolegou.
— Claro que não! A nossa fam ília j á vem de...
— Vadias da noite? Mulheres de m aus costum es? Prostitutas, perdidas ou chaputas?
Em bora chaputas traga o peixe de novo para esta conversa e o senhor j á m e disse que o
hom em não suporta peixe. Mas quanto a peixe da variedade fem inina?
— O m eu filho é m em bro da Igrej a! — vociferou Sandy s.
— Isso explica tudo — disse Piers. — Toda a gente m ente, m as os eclesiásticos são artistas
nisso. Ele tem sífilis. Os eclesiásticos estão crivados disso e quanto m ais devotos são tanto
m ais sintom as têm . Devia ter percebido no m om ento em que vi o livro de orações.
— O m eu filho, não — disse Sandy s com o se acreditasse realm ente nisso. — E um hom em
de Deus. Sem pre o foi.
— Com o eu estava a dizer...
— A sério.
— Hum m . Bem , se não é um a boneca...
— Ninguém — disse Sandy s, abanando a cabeça. — Ele nunca... ele não está interessado.
E com o um santo, aquele rapaz. Quando tinha dezesseis anos, levei-o à Rosa de Vênus, em
Whitefriars, m as ele não m ostrou o m ais leve interesse por qualquer das raparigas. Lim itou-
se a com eçar a rezar e eu pedi que o acom panhassem , o que elas não quiseram . E um
candidato à santidade.
— A santidade dele vai ser assunto para um a autoridade superior. Não há nada que eu
possa fazer.
Sandy s agarrou- o braço.
— Tem de fazer!
— Não posso.
— Mas os outros m édicos, todos eles, deram - m edicam entos, disseram ...
— Foram uns idiotas que não disseram a verdade.
Sandy s engoliu em seco.
— Ele esteve sem pre bem até aos vinte anos. Um belo rapaz, saudável, e depois...
— Leve o seu filho para casa e deixe-o m orrer em paz. Porque ele vai m orrer, quer eu dê
ou não um a solução de enxofre.
— Porquê? — sussurrou Sandy s.
— Tem sífilis. Está surdo, tem diarreia, icterícia, tem inflam ação nos olhos e nas
articulações e hem orragias nasais. Provavelm ente, tem dores de cabeça.
— Ele nunca esteve com um a m ulher. Nunca. Juro. Não tem feridas nas partes pudendas,
se não teria falado nisso.
— Não teria de ser com um a m ulher — disse Piers, puxando o casaco da m ão de Sandy s e
Sacudindo a m anga para a endireitar.
— Com o pode ter sífilis sem ...
— Pode ter sido um hom em .
Sandy s ficou com um ar tão chocado que Piers se com padeceu.
— Ou podia ter sido o senhor, o que é bem m ais provável. As senhoras róseas que visitou
em j ovem infectaram o rapaz m esm o antes de ele nascer.
— Fui tratado com m ercúrio — obj etou Sandy s.
— Em vão. Ainda tem a doença. Agora, se m e dá licença, tenho coisas im portantes fazendo.
Com o tratar um paciente que talvez viva m ais um ano.
Piers saiu, encontrando o seu m ordom o, Prufrock, no hall.
— Gostava de saber com o é que consegues fazer algum a coisa — disse- . — Deve ser difícil
gerir um a casa quando tens de orientar todos os assuntos nos corredores, de m odo a ouvires
todas as preciosas palavras que m e saem dos lábios.
— Não acho que isso sej a problem a — disse Prufrock, aparecendo ao lado dele. — Por
outro lado, tenho m uita prática. Não acha que foi um pouco duro com Lorde Sandy s?
— Duro? Fui duro? Certam ente que não. Disse- exatam ente qual era o problem a do filho e o que fazer a seguir, em resum o, ir para casa e esperar por coros de anj os, porque não há
m ilagres deste lado de aqui.
— Ê o filho dele que está a m orrer. E, se percebi bem , foi ele que passou a doença ao pobre
rapaz. É um choque, quer dizer.
— O m eu pai não teria se im portado nada — assegurou- Piers. — Se tivesse outro
herdeiro, claro. Mas o Sandy s tem um grande lote de filhos. Um herdeiro e m ais uns
suplentes.
— Com o sabe?
— A igrej a, palerm a. Ele m eteu este rapaz na igrej a e parece tam bém tê-lo treinado desde
m uito novo para estar à altura disso. O herdeiro deve andar por aí em bordéis tal com o o
velho pai. O Sandy s nunca teria perm itido a um suplente aproxim ar-se de um a Bíblia se ele
fosse, de fato, o herdeiro. Este é fácil de substituir, o que é um a coisa ótim a, dadas as
circunstâncias.
— O duque, seu pai, ficaria extrem am ente perturbado só com a ideia de ter passado um a
doença desta natureza — disse Prufrock.
— Talvez — adm itiu Piers, fingindo pensar no assunto.
— E talvez não. Estou espantado por o m eu pai não ter casado com um a fresca criatura de
vinte anos. Ou de dezesseis. O tem po passa e, a este ritm o, nunca terá outro herdeiro.
— Sua Graça era m uito dedicado à senhora duquesa e ficou m agoado com os terríveis
acontecim entos do passado — disse Prufrock com um a palpável falta de respeito pela
verdade.
Piers não se deu ao trabalho de responder. Doía- a perna com o se alguém tivesse
espetado um ferro em brasa na coxa.
— Preciso de um a bebida, por isso, porque não corres à m inha frente com o um bom
m ordom o e não vais ter com igo à porta da biblioteca com um brande forte?
— Vou andando ao seu lado para o caso de o senhor cair— disse Prufrock.
— Acho que tens visões de am parar a m inha queda — disse Piers, lançando um olhar de
través ao seu m ordom o m agricela.
— Na realidade, não tenho. Mas podia cham ar um lacaio que fosse capaz de o arrastar pelo
corredor. E de m árm ore, portanto, podia sofrer um traum atism o craniano e isso poderia
torná-lo um pouco m ais gentil para com os seus pacientes, j á para não dizer para com o seu
pessoal. Esta m anhã voltou a levar a Betsy às lágrim as. Parece que pensa que as criadas
crescem nas árvores.
Graças a Deus, estavam a aproxim ar-se da biblioteca. Piers parou por um m om ento, a ideia
da am putação a perpassar- a m ente e não pela prim eira vez. Podia arranj ar um a daquelas
liteiras egípcias em que a Cleópatra se fazia transportar. Andar seria m uito m ais difícil, m as,
pelo m enos, ficaria livre do seu sofrim ento infernal.
— O seu pai escreveu — disse- Prufrock. — Tom ei a liberdade de pôr a carta em cim a da
sua secretária.
— Tom aste a liberdade de a abrir ao vapor, m ais provavelm ente — disse Piers. — Que diz
ele?
— Exprim e algum interesse pelo futuro m atrim onial do filho — disse Prufrock
alegrem ente. — Parece que a últim a m issiva que o senhor m andou, aquela que listava todas
as suas exigências para um a esposa, não o dissuadiu. Muito surpreendente, devo dizer.
— Aquela em que cham ava idiota? — perguntou Piers.
— Tam bém leste essa, doninha pestilenta?
— Hoj e está m uito poético — observou Prufrock. — Toda aquela aliteração ao serviço de
perdidas e prostitutas e agora para o seu hum ilde m ordom o. Sinto-m e honrado, garanto- .
— Sobre o que escreve o duque agora? — perguntou Piers. Já via a porta da biblioteca.
Quase sentia o brande descer- pela garganta. — Eu disse- que não aceitaria um a esposa a
não ser que fosse tão bela com o o Sol e a Lua. O que é um a citação da literatura, caso não
saibas. E acrescentei m ais um a porção de outras condições, algum as garantidas para o pôr a
espum ar, num acesso de desespero.
— Ele anda à procura de m ulher — disse Prufrock.
— Para ele, espero. Apesar de ter esperado m uito tem po — com entou Piers, sem m ostrar
qualquer interesse nas notícias.
— Os hom ens da idade dele não têm os tom ates que tiveram em tem pos, se m e perdoas a
rude verdade, Prufrock. Deus sabe que você tens m ais sensibilidades delicadas do que eu.
— Tinha, antes de com eçar a trabalhar para você — disse Prufrock, abrindo a porta da
biblioteca com um floreado.
Piers tinha em m ente um a coisa. Era dourada, sabia a fogo e podia fazer desaparecer dor
na perna.
— Então anda à procura de m ulher — repetiu, sem dar atenção às palavras, m as dirigindo-
se de im ediato ao decantador de brande. Serviu-se de um a dose considerável. — Foi um dia
horrível. Não que isso m e interesse, ou a você, j á agora, m as não há nada que eu possa fazer
por aquela j ovem que apareceu à porta das traseiras esta m anhã.
— A que tem a barriga toda inchada?
— Não é o inchaço habitual e, se eu a operar, m ato-a. Se não a operar, a doença m ata-a.
Portanto, tom ei a m ais fácil de duas decisões. — Bebeu o brande de um trago.
— Mandou-a em bora?
— Ela não tinha para onde ir. Confiei-a à enferm eira Matilda, com instruções para a pôr a
dorm ir na ala oeste com ópio suficiente para m anter o espírito longe do que vai acontecer
a seguir. Graças a Deus, este castelo é suficientem ente grande para albergar m etade das
pessoas m oribundas de Inglaterra.
— O seu pai — disse Prufrock — e a questão do casam ento.
Estava a tentar distraí-lo. Piers serviu-se de outro copo, m ais pequeno desta vez. Não tinha
qualquer desej o de enfiar a cabeça num a garrafa de brande e nunca m ais sair, nem que fosse
porque tinha aprendido com os pacientes que o excesso im plicava que o brande deixaria de
adorm ecer a dor.
— Ah, o casam ento — disse ele, obediente. — E m ais que tem po. A m inha m ãe anda
desaparecida há vinte anos. Bem , desaparecida não é a palavra certa, pois não? De qualquer
m odo, a querida m ãe está no Continente na boa vida, por isso, Sua Graça bem podia voltar a
casar. Não foi fácil conseguir aquele divórcio, com o sabes. Provavelm ente, custou- tanto
com o um a pequena propriedade. Ele devia aproveitar enquanto é tem po, ou, em resum o,
enquanto ainda é capaz de ter um a ereção dia sim dia não.
— O seu pai não vai casar — disse Prufrock. Algo no tom da sua voz fez Piers levantar os