Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 2 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 2

Mrs. Hutchins apertou os lábios e saiu da sala.

2

C usteio Owfestry Pendine, País de Gales

Residência ancestral dos duques de Windebank

Piers Yelverton, conde de Marchant e herdeiro do duque de Windebank, encontrava-se

num grande sofrim ento. Aprendera, havia m uito, que pensar no m al-estar — um a palavra

danada, idiota, para este tipo de agonia — era dar- um poder que ele não queria reconhecer.

Por isso, fingiu não reparar e apoiou-se com m ais força na bengala, aliviando a pressão da

perna direita.

O sofrim ento tornava-o irritável. Mas talvez não fosse o sofrim ento. Talvez fosse o fato de

ter de estar ali a gastar o seu tem po com um trem endo idiota.

— O m eu filho sofre de diarreia aguda e dor abdom inal — disse Lorde Sandy s, puxando-

o m ais para a cam a.

O filho de Sandy s estava deitado na cam a com um aspecto m acilento e am arelo, com o

linho m anchado de chá. Parecia andar na casa dos trinta, com um rosto com prido e um ar

insuportavelm ente devoto. Em bora isso pudesse dever-se ao livro de orações que segurava

nas m ãos.

— Estam os desesperados — disse Sandy s, parecendo na realidade absolutam ente desesperado. — Já fiz desfilar cinco m édicos de Londres pela cam a dele e trazê-lo aqui para

Gales é o nosso últim o recurso. Até agora j á foi sangrado, tratado com sanguessugas e

foi- adm inistrado extrato de urtigas. Não bebe nada além de leite de burra, nunca leite de

vaca. Ah, e dem os- várias doses de enxofre, m as sem qualquer resultado.

Aquilo era m oderadam ente interessante.

— Um desses loucos que consultou deve ter sido o Sy denham — deduziu Piers. — Anda

obcecado com antim ônio arauto de enxofre. Receita-o para dedos dos pés m agoados.

Juntam ente com ópio, claro.

Sandy s confirm ou com a cabeça.

— O doutor Sy denham tinha esperança de que o enxofre aliviasse os sintom as do m eu

filho, m as não aj udou.

— Nem podia. O hom em era suficientem ente louco para ser adm itido no Colégio Real de

Médicos e isso devia ter- dito qualquer coisa.

— Mas o senhor....

— Eu associei-m e a eles puram ente por gentileza.

Olhou com atenção para o filho de Sandy s. Parecia, realm ente, estar m esm o m al.

— Provavelm ente, não se sentiu m elhor por se ter arrastado até Gales para m e consultar.

O hom em olhou para ele a pestanej ar. Depois disse, lentam ente:

— Nós viem os de carruagem .

— Olhos inflam ados — disse Piers. — Sinais de um a hem orragia nasal recente.

— Que é que conclui disso? De que precisa ele? — perguntou Sandy s.

— Melhores lavagens. Ele tem sem pre esta cor?

— A pele dele é sem pre um pouco am arela — reconheceu Sandy s. — Não sai à fam ília do

m eu lado. — Era um eufem ism o, dado que o nariz de Sandy s tinha a cor de um a cerej a.

— O senhor com eu lam preia em excesso? — perguntou Piers ao paciente.

O hom em ergueu os olhos para ele com o se tivessem nascido cornos.

— Lam paj a? Que é lam paj a? Não com i nada disso. Piers endireitou-se.

— Ele não sabe a história de Inglaterra. Vai estar m elhor m orto.

— Perguntou se ele tinha com ido lam preia — disse Sandy s. — Ele odeia peixe. Não

suporta lam preia.

— Mais ainda, é surdo com o um a porta. O prim eiro rei Henrique com eu lam preia, um dos

m uitos reis loucos que tem os tido neste país, em bora não tão dem ente com o o atual. Além

disso, Henrique era suficientem ente obtuso para com er lam preia em dem asia e m orreu

disso.

— Eu não sou surdo! — disse o paciente. — Ouço tão bem com o qualquer, se as pessoas

pararem de falarem com igo com m urm úrios. As m inhas articulações doem -m e. Aí é que está

o problem a.

— O senhor m orrendo, esse é que é o problem a — com entou Piers.

Sandy s agarrou-o pelo braço e afastou-o dali.

— Não diga um a coisa dessas em frente do m eu filho. Ele tem só trinta e dois anos.

— Tem o corpo de um velho de oitenta anos. Ele passou m uito tem po com atrizes? Sandy s

resfolegou.

— Claro que não! A nossa fam ília j á vem de...

— Vadias da noite? Mulheres de m aus costum es? Prostitutas, perdidas ou chaputas?

Em bora chaputas traga o peixe de novo para esta conversa e o senhor j á m e disse que o

hom em não suporta peixe. Mas quanto a peixe da variedade fem inina?

— O m eu filho é m em bro da Igrej a! — vociferou Sandy s.

— Isso explica tudo — disse Piers. — Toda a gente m ente, m as os eclesiásticos são artistas

nisso. Ele tem sífilis. Os eclesiásticos estão crivados disso e quanto m ais devotos são tanto

m ais sintom as têm . Devia ter percebido no m om ento em que vi o livro de orações.

— O m eu filho, não — disse Sandy s com o se acreditasse realm ente nisso. — E um hom em

de Deus. Sem pre o foi.

— Com o eu estava a dizer...

— A sério.

— Hum m . Bem , se não é um a boneca...

— Ninguém — disse Sandy s, abanando a cabeça. — Ele nunca... ele não está interessado.

E com o um santo, aquele rapaz. Quando tinha dezesseis anos, levei-o à Rosa de Vênus, em

Whitefriars, m as ele não m ostrou o m ais leve interesse por qualquer das raparigas. Lim itou-

se a com eçar a rezar e eu pedi que o acom panhassem , o que elas não quiseram . E um

candidato à santidade.

— A santidade dele vai ser assunto para um a autoridade superior. Não há nada que eu

possa fazer.

Sandy s agarrou- o braço.

— Tem de fazer!

— Não posso.

— Mas os outros m édicos, todos eles, deram - m edicam entos, disseram ...

— Foram uns idiotas que não disseram a verdade.

Sandy s engoliu em seco.

— Ele esteve sem pre bem até aos vinte anos. Um belo rapaz, saudável, e depois...

— Leve o seu filho para casa e deixe-o m orrer em paz. Porque ele vai m orrer, quer eu dê

ou não um a solução de enxofre.

— Porquê? — sussurrou Sandy s.

— Tem sífilis. Está surdo, tem diarreia, icterícia, tem inflam ação nos olhos e nas

articulações e hem orragias nasais. Provavelm ente, tem dores de cabeça.

— Ele nunca esteve com um a m ulher. Nunca. Juro. Não tem feridas nas partes pudendas,

se não teria falado nisso.

— Não teria de ser com um a m ulher — disse Piers, puxando o casaco da m ão de Sandy s e

Sacudindo a m anga para a endireitar.

— Com o pode ter sífilis sem ...

— Pode ter sido um hom em .

Sandy s ficou com um ar tão chocado que Piers se com padeceu.

— Ou podia ter sido o senhor, o que é bem m ais provável. As senhoras róseas que visitou

em j ovem infectaram o rapaz m esm o antes de ele nascer.

— Fui tratado com m ercúrio — obj etou Sandy s.

— Em vão. Ainda tem a doença. Agora, se m e dá licença, tenho coisas im portantes fazendo.

Com o tratar um paciente que talvez viva m ais um ano.

Piers saiu, encontrando o seu m ordom o, Prufrock, no hall.

— Gostava de saber com o é que consegues fazer algum a coisa — disse- . — Deve ser difícil

gerir um a casa quando tens de orientar todos os assuntos nos corredores, de m odo a ouvires

todas as preciosas palavras que m e saem dos lábios.

— Não acho que isso sej a problem a — disse Prufrock, aparecendo ao lado dele. — Por

outro lado, tenho m uita prática. Não acha que foi um pouco duro com Lorde Sandy s?

— Duro? Fui duro? Certam ente que não. Disse- exatam ente qual era o problem a do filho e o que fazer a seguir, em resum o, ir para casa e esperar por coros de anj os, porque não há

m ilagres deste lado de aqui.

— Ê o filho dele que está a m orrer. E, se percebi bem , foi ele que passou a doença ao pobre

rapaz. É um choque, quer dizer.

— O m eu pai não teria se im portado nada — assegurou- Piers. — Se tivesse outro

herdeiro, claro. Mas o Sandy s tem um grande lote de filhos. Um herdeiro e m ais uns

suplentes.

— Com o sabe?

— A igrej a, palerm a. Ele m eteu este rapaz na igrej a e parece tam bém tê-lo treinado desde

m uito novo para estar à altura disso. O herdeiro deve andar por aí em bordéis tal com o o

velho pai. O Sandy s nunca teria perm itido a um suplente aproxim ar-se de um a Bíblia se ele

fosse, de fato, o herdeiro. Este é fácil de substituir, o que é um a coisa ótim a, dadas as

circunstâncias.

— O duque, seu pai, ficaria extrem am ente perturbado só com a ideia de ter passado um a

doença desta natureza — disse Prufrock.

— Talvez — adm itiu Piers, fingindo pensar no assunto.

— E talvez não. Estou espantado por o m eu pai não ter casado com um a fresca criatura de

vinte anos. Ou de dezesseis. O tem po passa e, a este ritm o, nunca terá outro herdeiro.

— Sua Graça era m uito dedicado à senhora duquesa e ficou m agoado com os terríveis

acontecim entos do passado — disse Prufrock com um a palpável falta de respeito pela

verdade.

Piers não se deu ao trabalho de responder. Doía- a perna com o se alguém tivesse

espetado um ferro em brasa na coxa.

— Preciso de um a bebida, por isso, porque não corres à m inha frente com o um bom

m ordom o e não vais ter com igo à porta da biblioteca com um brande forte?

— Vou andando ao seu lado para o caso de o senhor cair— disse Prufrock.

— Acho que tens visões de am parar a m inha queda — disse Piers, lançando um olhar de

través ao seu m ordom o m agricela.

— Na realidade, não tenho. Mas podia cham ar um lacaio que fosse capaz de o arrastar pelo

corredor. E de m árm ore, portanto, podia sofrer um traum atism o craniano e isso poderia

torná-lo um pouco m ais gentil para com os seus pacientes, j á para não dizer para com o seu

pessoal. Esta m anhã voltou a levar a Betsy às lágrim as. Parece que pensa que as criadas

crescem nas árvores.

Graças a Deus, estavam a aproxim ar-se da biblioteca. Piers parou por um m om ento, a ideia

da am putação a perpassar- a m ente e não pela prim eira vez. Podia arranj ar um a daquelas

liteiras egípcias em que a Cleópatra se fazia transportar. Andar seria m uito m ais difícil, m as,

pelo m enos, ficaria livre do seu sofrim ento infernal.

— O seu pai escreveu — disse- Prufrock. — Tom ei a liberdade de pôr a carta em cim a da

sua secretária.

— Tom aste a liberdade de a abrir ao vapor, m ais provavelm ente — disse Piers. — Que diz

ele?

— Exprim e algum interesse pelo futuro m atrim onial do filho — disse Prufrock

alegrem ente. — Parece que a últim a m issiva que o senhor m andou, aquela que listava todas

as suas exigências para um a esposa, não o dissuadiu. Muito surpreendente, devo dizer.

— Aquela em que cham ava idiota? — perguntou Piers.

— Tam bém leste essa, doninha pestilenta?

— Hoj e está m uito poético — observou Prufrock. — Toda aquela aliteração ao serviço de

perdidas e prostitutas e agora para o seu hum ilde m ordom o. Sinto-m e honrado, garanto- .

— Sobre o que escreve o duque agora? — perguntou Piers. Já via a porta da biblioteca.

Quase sentia o brande descer- pela garganta. — Eu disse- que não aceitaria um a esposa a

não ser que fosse tão bela com o o Sol e a Lua. O que é um a citação da literatura, caso não

saibas. E acrescentei m ais um a porção de outras condições, algum as garantidas para o pôr a

espum ar, num acesso de desespero.

— Ele anda à procura de m ulher — disse Prufrock.

— Para ele, espero. Apesar de ter esperado m uito tem po — com entou Piers, sem m ostrar

qualquer interesse nas notícias.

— Os hom ens da idade dele não têm os tom ates que tiveram em tem pos, se m e perdoas a

rude verdade, Prufrock. Deus sabe que você tens m ais sensibilidades delicadas do que eu.

— Tinha, antes de com eçar a trabalhar para você — disse Prufrock, abrindo a porta da

biblioteca com um floreado.

Piers tinha em m ente um a coisa. Era dourada, sabia a fogo e podia fazer desaparecer dor

na perna.

— Então anda à procura de m ulher — repetiu, sem dar atenção às palavras, m as dirigindo-

se de im ediato ao decantador de brande. Serviu-se de um a dose considerável. — Foi um dia

horrível. Não que isso m e interesse, ou a você, j á agora, m as não há nada que eu possa fazer

por aquela j ovem que apareceu à porta das traseiras esta m anhã.

— A que tem a barriga toda inchada?

— Não é o inchaço habitual e, se eu a operar, m ato-a. Se não a operar, a doença m ata-a.

Portanto, tom ei a m ais fácil de duas decisões. — Bebeu o brande de um trago.

— Mandou-a em bora?

— Ela não tinha para onde ir. Confiei-a à enferm eira Matilda, com instruções para a pôr a

dorm ir na ala oeste com ópio suficiente para m anter o espírito longe do que vai acontecer

a seguir. Graças a Deus, este castelo é suficientem ente grande para albergar m etade das

pessoas m oribundas de Inglaterra.

— O seu pai — disse Prufrock — e a questão do casam ento.

Estava a tentar distraí-lo. Piers serviu-se de outro copo, m ais pequeno desta vez. Não tinha

qualquer desej o de enfiar a cabeça num a garrafa de brande e nunca m ais sair, nem que fosse

porque tinha aprendido com os pacientes que o excesso im plicava que o brande deixaria de

adorm ecer a dor.

— Ah, o casam ento — disse ele, obediente. — E m ais que tem po. A m inha m ãe anda

desaparecida há vinte anos. Bem , desaparecida não é a palavra certa, pois não? De qualquer

m odo, a querida m ãe está no Continente na boa vida, por isso, Sua Graça bem podia voltar a

casar. Não foi fácil conseguir aquele divórcio, com o sabes. Provavelm ente, custou- tanto

com o um a pequena propriedade. Ele devia aproveitar enquanto é tem po, ou, em resum o,

enquanto ainda é capaz de ter um a ereção dia sim dia não.

— O seu pai não vai casar — disse Prufrock. Algo no tom da sua voz fez Piers levantar os