Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 32 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 32

do lençol, para não tocar em nenhum a ferida aberta. Mas tinha de a segurar, por isso

prendeu- o lençol à volta do pescoço e depois enrolou um braço em volta da cintura.

E, se os soluços escapassem nessa altura, se o lençol ficasse salgado e m olhado, não

haveria ninguém para ver, exceto a Lua.

32

Linnet ouviu a voz de Piers prim eiro com o um gotej ar longínquo, com o água corrente num

regato algures na distância. Ela própria estava longe, num local seguro, na piscina perto do

m ar. Não estava frio com o sem pre estivera, naquelas m anhãs, m as agradavelm ente quente,

às vezes até quente dem ais.

Todavia, ela queria despedir-se dele, queria m esm o despedir-se dele.

Ele era o seu ím ã, no fim de contas. O seu coração a pulsar. E, apesar de a ter afastado,

ficaria destroçado quando soubesse da sua m orte. Ela sabia-o.

Nos últim os dias, enquanto j azia naquele sítio, flutuando para dentro e para fora de

estados febris, tinha chegado à certeza, à plena consciência de que ele a am ava. Apesar de ter

dito coisas cruéis, am ava-a.

E ela tinha-o deixado repreendê-la e m andá-la para fora do quarto e para fora da sua vida.

Aconteceu exatam ente com o ela tinha pensado quando viu Piers pela prim eira vez. Se eles

iam casar, ela deveria tê-lo im pedido de a intim idar.

Se sobrevivesse, voltaria para ele e im pedi-lo de o fazer. Diria... qualquer coisa.

Deixou-se flutuar outra vez, m as, quando acordou, a voz dele estava m ais próxim a e

m enos m elódica. Piers, m elódico?

Era um a ideia divertida. Que podia ela estar pensando? Ele nunca era m elódico. Com o que

a propósito, ele lançou um a série de palavrões que a teriam feito, sorrir se ela não estivesse

tão estranham ente debilitada que não podia m exer um m úsculo.

Na realidade, não parecia ter energia para abrir os olhos. Mas, de qualquer m odo, ela j á

tinha deixado de os abrir ultim am ente. Estava esgotada dem ais para beber e tinha os olhos

pegaj osos de suj idade.

Por isso, afundou-se novam ente dentro de água, a cristalina água azul da piscina. Flutuava

à deriva, para baixo e para longe, o cabelo ondulando pela água, quando o ouvi u praguej ar

outra vez.

Sem dúvida, teria de falar acerca das suas blasfêm ias. Esta...

Depois lem brou-se de que estava a m orrer. Num galinheiro, e Piers não estava ali perto,

visto que a tinha expulsado do castelo.

A m orrer...

Ele iria sentir, horrivelm ente.

Depois, ouviu claram ente Piers dizer qualquer coisa sobre o seu rabo. Traseiro, pensou.

Mas ainda estava presa debaixo de água. Mas seria presa a palavra correta? Era agradável

estar ali. A piscina era assustadoram ente quente por vezes, m as agora estava fresca e a água

roçava- a cara com o a m ão de alguém que a am ava.

A m ão da m ãe dela. A m em ória repentina de um a febre veio à cabeça, um a febre que ela

havia tido em criança. A voz da m ãe, a voz da enferm eira... a m ãe a dizer, irritada Claro que

não vou a sítio nenhum hoj e à noite! A Linnet está doente....

Mas não era um a m ão a tocar- , era um braço. Um braço à volta da sua cintura, pesado e

m asculino.

Tinha de ser Piers. Ela nunca estivera na cam a com m ais ninguém .

Por um m om ento, a sua m ente rodopiou descontroladam ente entre a piscina, com os seus

lençóis de seda aquosos e a sua paz flutuante, e um a cam a com Piers. O braço dele à volta

dela, apertado. O cheiro dele, m asculino e um pouco transpirado.

Transpirado? Piers nunca estava transpirado.

Sem m ais nem m enos, o seu rosto quebrou a superfície, da piscina com o se ela tivesse sido

lançada para fora de água por dois braços que a atiravam , a atiravam ...

Para onde?

Ela abriu os olhos. Estava terrivelm ente escuro, por isso devia ser o galinheiro. Mas o

galinheiro... Cheirou outra vez, m as cuidadosam ente, sem se m exer. Tinha aprendido a não

m over um único m úsculo por causa das feridas da pele.

Não cheirava ao galinheiro.

E então, à m edida que a sua visão voltava lentam ente, apercebeu-se de que o luar entrava

por um a j anela. Estava num a cam a. E o braço... havia um braço à sua volta.

Virou-se para o lado, estrem ecendo. Piers estava ali. Tinha vindo por ela. Por um

m om ento, Linnet ficou a regalar-se com a aparência dele: a sua cara m agra e feroz, escurecida

pela barba. Os seus olhos, agora fechados a dorm ir, m as tão poderosam ente inteligentes

quando estava acordado. Os seus lábios eram surpreendentem ente carnudos para um

hom em , o lábio inferior arredondado.

Piers, sussurrou ela, antes de se lem brar de que não conseguia falar, de que não era sequer

capaz de sussurrar desde há m uito tem po.

Ele não se m exeu. Os olhos dela com eçaram a fechar-se novam ente; a piscina acenou...

m as ele estava aqui, ao seu lado. Não queria ela despedir-se? Não tinha ela algum a coisa

para dizer, algum a coisa im portante?

Sim . Ela tinha de ficar acordada, para não cair para a piscina até ele acordar, até ela poder

dizer- a coisa im portante.

Esqueceu-se do que era, regalando-se com as m açãs do rosto dele, as longas pestanas, o

cabelo caído sobre a testa, o ar severo que ele m ostrava m esm o a dorm ir. Ele nunca tinha

dorm ido com ela antes, apesar de ela o ter secretam ente desej ado.

E ali estava ele, despido sobre o lençol. A dorm ir com ela, na m esm a cam a, à noite. O luar

desvaneceu-se, substituído pelos prim eiros raios de luz da m anhã.

— Piers — sussurrou ela. Os seus lábios m exeram -se, m as não saiu qualquer som . Apesar

disso, ele deve tê-la ouvido dessa vez porque os seus olhos abriram -se. Por um m om ento, ele

apenas sorriu, ensonado e possessivo.

— Linnet — disse ele e toda a alm a dela rej ubilou.

Então, os olhos dele abriram -se de repente.

— Estás acordada! — Pôs a m ão na testa. — Com o te sentes?

— Dói — disse ela, sabendo que nenhum som saía dos seus lábios. — Deve doer com o o

diabo — disse Piers. Foi tudo o que disse, m as, para Piers, isso era com paixão. —

Precisas beber, Linnet. Isso é a coisa m ais im portante. Não estás livre de perigo.

Era com o se estivesse a falar para você próprio. Então, ela bebeu algum a água, apesar de

a m aior parte ter escorrido pelo pescoço.

Mesm o assim , sentia-se... diferente.

— Lavada — disse ela. Ele leu- os lábios.

— Lem bras-te de eu te lavar, Linnet? Lem bras-te?

Ela quase abanou a cabeça e depois lem brou-se de não o fazer.

— Não — pronunciou suavem ente. Os olhos dela estavam a fechar-se. A m ão enorm e dele

estava na sua testa, tocando- suavem ente e ela conseguia ouvi-lo falar.

— A febre voltou — disse ele. — Mas isso era de esperar, Linnet. Vou pôr-te um pano

m olhado na testa.

Isso fê-la encolher-se.

— Eu sei que essas feridas doem . — A voz dele era triste.

— Mas eu tenho de te baixar a tem peratura.

De repente, ela lem brou-se da coisa im portante que tinha para dizer e abriu os olhos.

— Am o-te — pronunciou m uito baixinho, os olhos encontrando os dele.

— Então vive por m im — respondeu ele, inclinando-se sobre ela, a sua voz forte com o o

grito de um falcão. — Vive.

Ela adorm eceu com um sorrisinho no rosto. A piscina estava agora m ais longe, esbatida e

a afastar-se. Ela deu por você a sonhar com o galinheiro e acordou com um soluço.

Piers continuava ali, agora vestido, com um lenço de pescoço branco com o a neve. Estava

à porta do quarto, a falar com alguém no corredor.

— Mais água, por favor. Fervida, claro.

Ela adorm eceu outra vez. O tem po parecia esticar, alongar-se e depois desaparecer

subitam ente. Ela adorm ecia e acordava, e percebia que era de noite. Voltava a dorm ir, a acordar, e a perceber que ainda era de noite, m as Piers tinha um lenço de pescoço diferente.

Finalm ente, três dias depois, tentou dizer qualquer coisa, e saiu um grasnido.

— Pareces um galo de capoeira constipado — gracej ou Piers, aproxim ando-se dela. O seu

rosto estava exausto, os olhos pisados.

— Cansado — disse Linnet, voltando a um sussurro m udo.

Ele interpretou-a m al.

— O cansaço é um efeito colateral de um a raspadela na m orte — explicou ele, um sorriso

triunfal a espalhar no rosto. — Raios, Linnet, vou escrever um artigo sobre você. Sou o único

m édico de Gales que podia ter-te salvo da m orte.

— Seu pavão — disse ela com os lábios. Sentia o corpo com um cansaço sem lim ite, m as,

m isericordiosam ente, a dor tipo form igueiro estava a desvanecer. Recordando, levantou o

braço e arfou. Estava verm elho-escuro e com escam as.

Piers sentou-se na borda da cam a.

— Não é um a doença bonita, Linnet.

Ela tentou interpretar isso.

— Esta não é a m elhor altura da sua vida. Tive de te cortar o cabelo todo. Ela pestanej ou

horrorizada, a boca abrindo-se.

— Estás coberta de crostas, da cabeça aos pés. Bem , de fato, por algum a razão os teus pés

estão bem . Mas até tens crostas por trás das orelhas.

Linnet voltou a levantar o braço e olhou fixam ente para ele, incrédula.

— Podias ter cegado — argum entou Piers, com a sua franqueza usual. — Ou m orrido.

Devias ter m orrido, tudo fazia crer. É um m ilagre não teres apanhado um a infecção, deitada

no chão daquele galinheiro.

Linnet estrem eceu só de pensar na palavra galinha e deixou cair o braço. Mas tinha de

perguntar:

— Cicatrizes? — perguntou, im pelindo a palavra com força suficiente para que fosse fácil

de com preender.

Mentiras piedosas não existiam no repertório de Piers.

— Muito provável — disse ele, olhando analiticam ente para ela, com o m édico que era. —

Um as vezes sim , outras vezes não. Não vais parecer-te tanto com um a lagosta cozida daqui a

um a ou duas sem anas.

Linnet fechou os olhos e tentou perceber o que ele estava a dizer. Ela parecia um a lagosta

cozida, talvez para sem pre. Já não era um a beldade. De form a algum a. Mais um m onstro,

pensou. Um anim al coberto de escam as.

Ouviu Piers levantar-se, pensando provavelm ente que ela tinha adorm ecido. O corpo dela

estava rígido, o braço debaixo do lençol a tocar cuidadosam ente na perna e depois na cintura.

Onde quer que ela tocasse, a pele parecia irregular, escam osa e dura sob as pontas dos dedos.

Piers estava ali outra vez.

— Caldo — disse ele. Não valia a pena recusar; ela tinha aprendido isso durante os últim os

três dias. Piers não aceitava um não. Por isso, abriu os olhos e tom ou o caldo, colher atrás de

colher. Os dedos da m ão esquerda trem iam ao seu lado, m as ela não se m exia.

Depois, a tigela ficou vazia e Piers levou-a dali. Por um m om ento, ela ficou paralisada,

incapaz de se m over, e depois conseguiu. Pôs a m ão diretam ente sobre o peito.

A pele sob os seus dedos não dava azo a enganos. Tinha os seios no m esm o estado do

braço, do abdôm en, da perna.

Perm aneceu ali deitada, m ão no peito, e sentiu um a lágrim a quente a descer pela face, e

depois outra.

Piers ainda estava à porta, tendo entregado a tigela vazia a alguém .

— Vou só aqui ao lado dorm ir um bocadinho — disse ele.

Ela sabia que ele ia voltar, inclinar-se sobre ela, despedir-se. Nos últim os três dias, nunca

tinha saído do quarto sem dizer aonde ia e por quanto tem po ia estar ausente.

— Criada — disse ela baixinho, assim que ele chegou suficientem ente próxim o. — Você,

volta para o castelo. Fico bem com a m inha criada.

Por um a fração de segundo, os olhos dele m udaram , ficando desolados. Mas depois disse

prontam ente:

— Claro. Ela pode estar aqui antes da hora de j antar.

Eliza, à sua m aneira, não era m elhor que Piers a esconder a verdade. Recuou ao entrar

pela porta, m ão no coração.

— Deus Todo-Poderoso! — arfou.

Linnet esperou.

— O seu cabelo, o seu pobre cabelo — lam entou Eliza baixinho, m as os seus olhos

voltaram , com um a espécie de horror fascinado, ao rosto e ao pescoço de Linnet. — Isso não...

a senhora não tem isso no corpo todo, pois não?

Escorreu outra lágrim a pela face de Linnet. Acenou com a cabeça.

— Bem , esteve quase a m orrer — disse Eliza, aproxim ando-se, m as olhando com o se

estivesse pensando duas vezes em relação a tocar em Linnet. — Podia bem ter m orrido. Pelo

que todos dizem , a princípio, sua senhoria pensou que m orreria.

Linnet desej ava ter m orrido em vez de enfrentar a vida com aquela pele. E Eliza adivinhou

o que ela estava pensando.

— Isso vai m elhorar — disse ela, em tom tagarela. — Tenho a certeza disso. Nós vam os...

nós vam os dar- banho com sais m inerais todos os dias. Duas vezes por dia. Nunca vi ninguém

com o seu aspecto, o que significa que tem de m elhorar. Claro...— Parou.

— Que foi? — coaxou Linnet.

— Oh, a sua pobre garganta — gritou Eliza. — A sua voz desapareceu pura e sim plesm ente.

— Que foi? — repetiu Linnet.

— Sua senhoria disse que a senhora foi quase a única a ficar assim tão doente e a

sobreviver — referiu Eliza. — Talvez sej a por isso que eu nunca tinha visto um a pele assim .

Linnet fechou os olhos, sentindo um total desespero. Tinha sobrevivido, m as havia ficado

com aquele rosto. Aquela pele.

— Doeria se tocasse? — perguntou Eliza.

Ela voltou a abanar a cabeça, fatigada.

Os dedos de Eliza eram suaves e frios.

— E com o crostas — disse a criada. — Por todo o lado. Bem , isto é um a situação

transitória.

— Casa — resm ungou Linnet, captando a atenção.

— Quer ir para casa? Isto vai despedaçar o coração do seu pai, vai, sim .

Nesse m om ento, Linnet não queria nem saber o que o pai pensava. Só queria estar de

volta, ao seu quarto, longe de qualquer pessoa que...

Longe de Piers.

Longe do hom em que tinha am ado o seu corpo e pensado que o seu cabelo era com o ouro

brilhante.

— Vou perguntar — prom eteu Eliza. — Mas sua senhoria, não tenho a certeza se a deixará

ir. Ele tratou de você com pletam ente sozinho, sabe. Manteve-a viva quando m ais ninguém conseguia, dando- colheradas de água a toda a hora, cobrindo-a com panos m olhados e

depois aquecendo-a novam ente.

Linnet sentiu um a angústia. Piers tinha- sem pre aquecido o corpo com o dele quando

nadavam j untos. Ela não tinha qualquer dúvida de que ele havia feito tudo o que era possível

para fazendo viver. Piers não suportava perder, sobretudo para a Morte.

— Pelo que ouvi dizer — continuou Eliza —, a senhora era um a visão e peras quando a

encontraram naquele galinheiro.

Linnet lem brava-se de retalhes e aquilo que recordava não era agradável. O cheiro... o

cheiro era a principal m em ória. Estrem eceu.

— Tem os de a levar prim eiro até ao castelo — dizia Eliza. — A senhora devia ver o duque

e a duquesa agora. Com o um casal de pom binhos apaixonados, é com o estão. O duque queria

obter um a licença especial, m as Lady Bernaise fê-lo publicar os banhos de casam ento m esm o

na igrej inha da aldeia. Esta é a segunda sem ana, por isso vão voltar a dar o nó na próxim a

sem ana. Algum a vez ouviu um a coisa tão rom ântica?

Linnet abanou a cabeça.

— Não tenho a certeza se a senhora vai querer ir à cerim ônia, no entanto — disse Eliza.

Passou os dedos novam ente sobre a m ão de Linnet.

— Nunca — conseguiu afirm ar Linnet, querendo dizer que nunca, nunca m ais, iria sair de

casa. Naquele estado, não. Nunca... m ais.

— Bem , em relação ao nunca — disse Eliza —, vai m elhorar. Há unguentos que podem os

aplicar, e banhos de sal, e daqui a um a sem ana, talvez um m ês, a senhora vai estar boa com o

o ouro. Há todos aqueles crem es que anunciam nos j ornais — acrescentou.

— Para tratar dá pele verm elha. Eu sei, que j á os vi. Vam os com prar alguns quando

chegarm os a Londres. O seu pai vai com prá-los todos. O conde enviou- um a m ensagem , a

propósito, para o caso de ele estar preocupado por não ter notícias suas há tanto tem po.

Linnet fechou os olhos e tentou im aginar o pai preocupado com o seu longo silêncio.

— E m esm o que a sua pele não fique exatam ente com o era antigam ente — continuou Eliza

—, não interessa, por que a senhora vai ser condessa e duquesa um dia.

Linnet abriu os olhos de repente.

— Qualquer pessoa percebe que o hom em a am a loucam ente — disse a criada, sorrindo.

— Além disso, ele disse ao pai e ao m arquês que ia casar com você. Eles vieram aqui, no

segundo dia, para verem com o a senhora estava. Ele não os deixou entrar para a verem , m as

afirm ou que a senhora iria viver o suficiente para casar com ele. Três lacaios ouviram , por

isso sei que foi verdade.

— Não — afirm ou Linnet. Ela nunca casaria com Piers. De fato, ela nunca casaria com

nenhum hom em , em particular com o conde de Marchant.

Eliza não a ouviu.

— Vou só lá fora ver o que posso fazer por você. Tem de haver algo que possam os pôr

nessa pele.

Linnet conseguia ouvi-la, através da porta.

— Não m e interessa se ele está a dorm ir; tem de haver algo que possam os pôr na pele

dela. — Mais m urm úrios. — Está bem , então. — Estava de volta ao quarto, brandindo um

frasco. — Vou espalhar esta coisa em todo o seu corpo. — Eliza cheirou o frasco.

— Cheira a cervej a. Bem , cervej a e agulhas de pinheiro. Que interessa, desde que resulte?

Linnet deixou-a espalhar a substância oleosa e m alcheirosa em toda a parte, à frente e

atrás.

— Deus Todo-Poderoso, aqui está pior — exclam ou Eliza, esfregando suavem ente a

substância nas costas de Linnet. — Em bora nunca tivesse pensado que fosse possível.

Na alm ofada pingaram m ais lágrim as.

Quando Piers entrou no quarto — sem bater à porta, com o se fosse o dono do quarto —,

Linnet j á tinha decidido. Não podia ainda voltar para casa, para Londres, obviam ente. Tinha

de ganhar forças. Bebeu m ais caldo do que queria, porque, quanto m ais depressa a sua força

voltasse, m ais depressa poderia ir-se em bora. Ele inclinou-se sobre ela, quase com o se fosse

beij á-la.

— Vai-te em bora — disse ela, virando a cara para o lado. As palavras saíram com o

grasnidos m as foram perfeitam ente inteligíveis.

Ele endireitou-se e franziu a sobrancelha.

— Cheiras com o um a destilaria. Que é isso que tens em cim a de você?

— Eu pus este bálsam o — explicou Eliza, avançando, apressada, com o frasco agora vazio.

— Eu disse ao Ney then que enviasse isso para as m ãos gretadas da criada da copa — disse

Piers. — No entanto, m al não pode ter feito.

— Eu tinha de fazer algum a coisa — protestou Eliza, à defesa.

— A pobre coitada não pode ficar assim . Não poderia ser vista na rua sem causar um

m otim .

Ela nunca m ais se olharia ao espelhe.

— Vai-te em bora — grasnou a Piers.

— É evidente que você serias um daqueles pacientes rabugentos— disse ele.

Assim , Linnet olhou para Eliza. E Eliza, abençoado fosse o seu coração, avançou para

enfrentar o m onstro.

— A m inha senhora desej a que o senhor saia do quarto, Lorde Marchant. Com o ela não

consegue fazer-se entender, falarei eu por ela.

— Muito bem — concordou Piers, bruscam ente. Cam inhou para a porta, virou-se. — Volto

m ais tarde com o seu j antar. Acho que é altura de tentar algo m ais nutritivo do que caldo.

Linnet lançou a Eliza um olhar desesperado. A criada avançou outra vez, com o se estivesse

a guardar a cam a.

— Se m e trouxer o j antar, m eu lorde, eu certificar-m e-ei de que a m inha senhora com a

tudo até ao fim . Ela não está em condições para ter visitas neste m om ento.

— Eu não sou visita! — berrou Piers.

Eliza cruzou os braços.

— Oh, por am or de Deus — disse ele de repente e saiu porta fora. Linnet conseguia ouvir

as pancadas fortes da bengala pelos degraus abaixo e depois esbatendo-se na distância.

Eliza voltou.

— Não vou conseguir m antê-lo à distância durante m uito tem po — disse ela, olhando,

atenta, para Linnet. — Ele é m édico. Viu a fase pior. Esteve aqui com você, com pletam ente

sozinho, desde a prim eira noite.

Um a lágrim a escorreu pela cara de Linnet. Eliza sentou-se e colocou- a m ão no braço, sem

sequer pestanej ar com a sensação.

— Vá lá, vá lá — disse ela. — Se alguém m ereceu algum a vez um a boa choradeira, esse

alguém é a senhora.

Continuou assim por um a sem ana. Piers forçava a sua entrada no quarto e Eliza conseguia

voltar a em purrá-lo de lá para fora. Às vezes, a criada pensava que até estavam a divertir-se

os dois. Eliza com eçou a gritar com o conde com prazer. E Piers nunca hesitara em devolver

gritos. Faziam um bom par.

Mas um a ou duas vezes, Linnet apanhou Piers a olhar para ela e percebeu que estava

m agoá-lo. Conseguiu perceber.

— Mas não interessa, não pode interessar — sussurrou para você própria a m eio da noite,

pensando nisso. — Não posso... não posso ser duquesa. Nunca. E inconcebível.

Finalm ente, Piers declarou-a pronta para viaj ar, pelo m enos de volta ao castelo. Eliza

queria vestir- um vestido, m as Linnet disse que não. Já conseguia falar, em bora em voz baixa.

— O lençol — disse, com voz rouca. — E m aior.

Eliza percebeu im ediatam ente o que ela estava a dizer.

— O seu cabelo está todo a encaracolar — com entou ela.

— É ótim o. Parece aquele corte de cabelo curto que as senhoras fazem . É ala m ode, o que

significa que as senhoras francesas o fizeram prim eiro, provavelm ente.

O cabelo não im portava; sabia que havia de voltar a crescer. Só pensar em sair daquele

quarto e ter pessoas a olharem para o seu rosto dava a Linnet vontade de vom itar. Ou

desm aiar.

Mas acabou por sair do quarto, enrolada com o um a m úm ia, e levada por Mr. Buller, o

cocheiro de Piers.

Não foi assim tão terrível deixar a estalagem ... m as, quando chegaram ao castelo, Prufrock

estava lá e os lacaios. O duque desceu as escadas para os cum prim entar e Linnet rezou,

pedindo um a m orte rápida, depois de ver a gentileza nos olhos dele.

Mas, com o parecia que a m orte não era oferecida, fechou os olhos e fingiu, tão

fervorosam ente quanto podia, que nada daquilo estava a acontecer. Que estava em Londres,

a dançar com o príncipe Augustus. O príncipe sorria- com aquela expressão perdida de

am ores que norm alm ente tinha perto dela.

— Claro que ela está bem — disse a voz rouca de Piers, interrom pendo o seu devaneio. —

Parece um a lagosta e é duas vezes m ais colérica.

A dança... O príncipe Augustus fê-la girar num círculo, e ela vislum brou um a série de

rostos olhando para eles com m uita ternura, francam ente invej osos. As saias rodopiavam

num turbilhão ...

— Não, está apenas com um ataque de dores de cabeça — ladrou Piers. E depois,

bruscam ente. — Alguém m ostre a Buller o cam inho para o quarto dela.

Com os olhos fechados, Linnet ouvia Eliza a subir as escadas à frente deles e o som da

respiração pesada de Buller.

— Peço desculpa se sou m uito pesada — disse ela. A sua voz j á não estava áspera.

— De m aneira algum a, m inha senhora — respondeu Buller. A sua voz era gentil. Toda a

gentileza era m ortificante, pior que o m om ento em que o salão de baile inteiro deu o golpe

sem rodeios. Honestam ente, ela preferia a irritabilidade de Piers.

Um m om ento depois, estava na cam a.

— Sua senhoria m encionou que a senhora devia levantar-se hoj e — inform ou Eliza.

— Talvez Lady Bernaise a acom panhe no chá.

— Não — disse Linnet, com firm eza. Quando caiu a noite, fechou os olhos, m as não

conseguiu dorm ir. Em vez disso, perm aneceu deitada na cam a, ouvindo os sons do castelo,

estalidos distantes, soalhes a ranger, o som da porta da frente a abrir e a fechar.

Durante os dias seguintes, com eu tudo o que Eliza levava e, obedientem ente, andou em

círculos à volta da cam a para ganhar forças, m as recusou-se a sair do quarto. Piers tinha

deixado de tentar visitá-la; ela com eçara a rolar para o lado, com um a alm ofada por cim a da

cabeça, no m om ento em que ele entrava e, por m uito que ele arengasse, não o escutava.

— Estou suficientem ente forte para regressar a Londres — disse ela à Eliza, um a noite. —