Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 33
Podes inform ar o duque, por favor?
— Vou dizer- — disse Eliza constrangidam ente. — Mas e...
— Estou grata pelo cuidado do conde para com igo — disse ela, firm em ente. — Mas decidi
não casar com ele. O que não é m ais do que ele m e disse a m im antes de eu ter adoecido. Não
caso com ninguém que tenha pena de m im , Eliza. Nunca.
Eliza suspirou e saiu do quarto.
33
— Ela quer ir-se em bora — disse o duque a Piers.
— Tretas — respondeu Piers, zangado. — Ela não pode ir-se em bora.
— A criada diz que ela está bastante forte e que ontem esteve sentada o dia todo.
— Ainda tem a pele com crostas, o que pode bem conduzir a infecções. Tem de estar sob
vigilância m édica.
— Essas infecções são com uns?
Piers odiava o fato de os olhos do pai serem tão com preensivos. Já era suficientem ente
m au que ele e a m ãe olhassem um para o outro com o adolescentes excitados. Virou-se,
passando a m ão pelo cabelo de tal m aneira que a fita caiu.
— Não — adm itiu. — Não.
—Talvez se a deixares ir, ela volte para você — sugeriu o duque. — Quando estiver bem .
— Não volta. — Piers desatou a andar através do j ardim em frente do Castelo, a bengala a
furar selváticam ente a relva.
O pai m antinha-se ao seu lado.
— Ela am a-te. Porque não havia de voltar para você? Eu voltei para você.
— Oh, m eu Deus, isso é um a deixa para um reencontro afetuoso? — perguntou Piers,
parando à beira de um canteiro.
— Só se você quiseres.
Ele ficou parado, um sim tácito.
O duque respirou fundo.
— Sei que detestas ouvir isto, m as lam ento m uito ter-te ferido, ter arruinado a sua vida,
Piers. Cortaria a m inha própria perna, se pudesse. Eu. .
— Matar-se não serviria de nada — ironizou Piers. Os olhos de Piers, estranham ente, eram
tal e qual os seus. Na sua im aginação, via-os sem pre com as pupilas contraídas e o brilhe
selvagem da intoxicação do ópio.
Mas essas eram m em órias de infância. O que estava à sua frente era um hom em a sofrer,
m as um hom em forte. Um hom em que am ava.
— Eu perdoo- — declarou Piers categoricam ente. Não era bom neste tipo de coisas, por
isso pensou por um m om ento se haveria m ais algum a coisa que Linnet achasse que ele
deveria dizer. Era pena que ela estivesse fechada num quarto fazendo de Bela Adorm ecida.
Os olhos do pai bruxuleavam de lágrim as.
— Nunca m e perdoarei. Nunca.
Nessa altura, lem brou-se do que Linnet faria. Abriu os braços e o pai aproxim ou-se dele,
com o fazia quando Piers era pequeno e o pai era grande.
Toda esta em oção estava a fazê-lo sentir-se ainda m ais irascível, por isso recuou e disse
abruptam ente:
— A propósito, a m inha vida não está arruinada.
— Sofres dores insuportáveis — disse o pai, deixando cair os braços. Piers arrancou o
botão de um a m argarida pendente com a bengala.
— Isso não m e arruinou. Sou um m édico dos diabos. Nem sequer seria m édico se o pai
não tivesse adquirido o gosto pelo ópio. — Franziu a sobrancelha ao pai. — Preferia m orrer
a não ser m édico.
Um sorriso surgiu ao canto da boca do duque. Mas...
—Você não tens fam ília nem am igos.
—Tretas. Tenho o Sebastian. O pai m andou-m e o Prufrock. E tenho a Linnet, se conseguir
ficar com ela.
— E m elhor ficares com ela — aconselhou o pai. — Se a sua vida não está arruinada, quero
dizer.
— Ela quer ir-se em bora. — Piers decapitou outra flor.
— Não fala com igo. Escrevi- um a carta e a criada disse que ela a rasgou sem a ler.
— Quando eu concluí que não suportava não te ver durante m ais tem po, m eti-m e num a
carruagem para Gales sabendo que ias ficar furioso. A Linnet foi só um a desculpa.
— Cada vez que eu vou ao quarto dela, ela vira-se e esconde-se. — Mais duas flores
perderam a cabeça.
O pai encolheu ligeiram ente os om bros e tam bém isso veio à m em ória de Piers. Aquele
ligeiro encolher de om bros de aceitação divertida. Sem pre pensara que as únicas m em órias
que tinha do pai eram da intoxicação. Mas, aparentem ente, não era assim .
— Acho que podia ir ao quarto dela de noite.
— Podias. Pelo m enos, desse m odo, estaria escuro. Não teria de se preocupar por estares
a olhar para ela.
— Isso é absurdo. Fui eu que a salvei daquele galinheiro. Sei perfeitam ente com o ela está!
— A sua m ãe, porém , pensa que a pele é a raiz do problem a.
— Porquê? — Piers voltou a passar a m ão pelo cabelo.
— A Linnet está m ortificada pela perda da beleza.
— Ela não perdeu a beleza! A pele dela não é o que era, m as o resto está tão bem com o
sem pre esteve.
— Para Linnet, perdeu a beleza, e, para um a m ulher tão prim orosa com o ela, deve ser um
choque trem endo.
— Sem dúvida. — Taciturno, cortou m ais três flores. — Ela é suficientem ente vaidosa para
m e deixar por essa razão, portanto, deve ser im portante. Sabe, ela suplicou-m e naquele dia,
na sala de estar, depois de o pai e a m ãe terem saído pela j anela. Pediu-m e que casasse com
ela. Disse que não se im portava de fazer de idiota para m im .
O pai assentiu com a cabeça.
— Mas, segundo parece, todo esse am or dependia de ser suficientem ente bela para m e
controlar — concluiu Piers, voltando a enfiar a bengala no chão. — Ou qualquer coisa.
— Ou acreditar que era suficientem ente boa para você — sugeriu o pai. — Não vi
quaisquer sinais de a Linnet ter esperanças de te controlar.
Piers deu um a gargalhada.
— Suficientem ente boa para m im ? Para um aleij ado com um hum or feroz e um a língua
perversa?
— Você é o hom em que ela quer. Tenho a im pressão nítida de que você é o único hom em
que ela algum a vez quis, em bora tenha sido cortej ada por príncipes, assim com o por todos
os hom ens elegíveis da alta sociedade. Provavelm ente, m uito poucas línguas perversas no
grupo.