Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 14 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 14

m ais selvática: o desej o.

Era o gênero de beij o que um cavalheiro nunca, em tem po algum , daria a um a senhora.

Linnet adorou-o.

14

Linnet estava enganada quanto ao fato de o pai dele ser um a distração. Ela era um a

distração. Piers olhou para a paciente que tinha acabado de chegar ao castelo, não vendo

sequer o seu abdôm en distendido; via, antes, o m odo com o os olhos de Linnet escureciam ,

de um a irritabilidade azul para... outra coisa.

Era apenas desej o sexual, claro. A m esm a coisa que levava um m ilhão de hom ens a

transform ar-se em perfeitos asnos. Ela era escandalosam ente bela e ele... bem , Deus sabe

porque o queria ela, m as o fato é que queria. Ou, pelo m enos, parecia querer.

Subitam ente, ouviu a voz de Sebastian.

— A senhora está m uito grande para cinco m eses, Mistress Otter. Tem gêm eos na fam ília?

— Deu- um as pancadinhas no estôm ago, de um lado e depois do outro.

— Pareces alguém a tentar escolher um m elão m aduro — ironizou Piers, em purrando o

prim o para o lado. — É óbvio que ela não está grávida de um só bebê, a não ser que tenha

andado com um urso.

Mrs. Otter resfolegou.

— Bem , parece im possível!

— Ele não quer dizer isso — desculpou Sebastian. — E o seu conceito de hum or ligeiro.

— O rabo aqui — disse Piers, apontando para um a pequena saliência. — Outro daquele

lado, em bora possa ser um a cabeça. Difícil de dizer. Algum a vez houve gêm eos na sua fam ília,

Mistress Otter? Sim , bem , então vai ter de arranj ar dois berços.

— A m inha m ãe, e a m inha tia, am bas perderam os gêm eos.

— A voz trem ia- . — Foi por isso que eu vim aqui, porque os bebês delas nasceram m ortos.

— Nasceram m ortos ou m orreram depois? — perguntou Piers.

— Morreram depois — disse ela. — Acho eu. Eram dem asiado pequenos. Lem bro-m e de

a m inha m ãe dizer que os seus bebês tinham m ãos do tam anho de um a avelã, um a avelã com

casca.

— Bem , os seus estão am bos vivos neste m om ento — disse Piers. — Vá para casa e vá

para a cam a. Durante os próxim os quatro m eses.

— O quê?

— Vá para a cam a — disse ele, espaçando as palavras. — Levante-se só para fazer xixi e

talvez nem para isso.

— Não posso fazer isso! O m eu m arido precisa de m im . E o m eu sogro vive conosco; é

velho e eu tenho de...

— Vá lá fora e diga a Mistress Havelock que precisa de um a cam a na ala oeste. Por uns

m eses, pelo m enos. Tem os de tentar conseguir que as m ãos dos seus bebês ultrapassem esse

perigoso estádio de avelã.

— Um a cam a? — disse ela, quase a gritar. — Quer que eu aqui fique?

— Oh, vai gostar m uito de aqui estar — anim ou-a Piers. — Todos os m eus pacientes

adoram . Tenho um a governanta que é um a santa nos seus cuidados carinhosos. De fato, deve

ser canonizada a qualquer m om ento.

— Eu não posso ficar m eses na cam a! O m eu m arido não podia passar sem m im e eu sou

a chefe do círculo de costura, e cabe-m e gerir os lucros de... — A sua voz extinguiu-se perante

a expressão no rosto de Piers.

— Vej o que a senhora é extrem am ente valiosa e provavelm ente um a aj uda para o país

inteiro. Mas tem m ais hipóteses de trazer ao m undo estas suas crianças a respirar se ficar

quatro m eses de cam a. Claro que os gêm eos dão m uito trabalho, por isso, se preferir m archar

alegrem ente para casa, todos com preendem os. Adm ito que â sua m ãe dorm ia m elhor só com

você do que com duas iguais.

Ela abanou a cabeça.

— Tem a certeza? A sua m ãe obviam ente teve m ais sorte da segunda vez. Vá lá para cim a,

então — disse ele, quando ela ficou calada, fulm inando-o com os olhos. Ele virou-se para a

porta, afastando-a do seu pensam ento. — E tudo por hoj e? Não m e dei ao trabalho de m udar

de roupa para o j antar para poder voltar fazendo rondas.

— Não gosto do caso da febre que chegou hoj e de m anhã— disse Sebastian, seguindo-o.

— Petequial, m uito provavelm ente — diagnosticou Piers.

— Há por aí um surto disso. — Estava pensando na natação. No dia seguinte de m anhã.

— Não m e parece. Parece pior.

— Com o pode ser pior? Metade dos m eus doentes com febre petequial m orre e eu nem

sequer estou a sangrá-los. Além disso, você não sabes fazer diagnósticos, posso lem brá-lo?

Sebastian abanou a cabeça.

— Aquele hom em está realm ente doente. Eu disse à governanta que o pusesse num quarto

sozinho.

— Ótim o — disse Piers, parando por um segundo para aliviar a dor antes de descerem as

escadas.

— Com o está a perna? — perguntou Sebastian.

Piers fulm inou-o com o olhar.

— Com o está essa haste de pila que trazes aí nos teus calções?

— Não tem dores — respondeu Sebastian, alegrem ente. — Ao contrário da sua perna,

considerando o fato de estares a inclinar-te para o lado com o um bêbado num a festa de Natal.

—Tretas — disse Piers, descendo as escadas com um barulho seco. E depois: — Viste a

m inha m ãe?

— Anda a esvoaçar por aí, tentando encontrar o seu pai para poder atorm entá-lo

não falando. E está vestida com o se fosse ter com a rainha.

Piers parou por um m om ento, encostou-se à balaustrada.

— Estás a exagerar com a natação — aconselhou Sebastian. — Reduz. Dia sim , dia não.

Nem pensar nisso. Agora não, que tinha um a com panheira de brincadeiras na piscina.

— Vou pensar nisso — disse ele, recom eçando a descer.

— Então, achas que a m inha m ãe quer recebê-lo de volta? Sebastian refletiu sobre isso.

— Ela tem vestido um desses corpetes que faz sobressair o peito de tal m odo que não se

pode deixar de reparar nele.

— Es um pervertido, a reparar num a coisa dessas na sua tia.

— Não reparei de um m odo desej oso — protestou Sebastian.

— Mas o seu pai reparou.

— Ela está só a atorm entá-lo — com entou Piers. Mas a sua voz soou incerta, até a ele.

— Provavelm ente, quere-o m esm o. Seria um a boa coisa. Ela voltava a ser duquesa e ficava

a salvo aqui em Inglaterra e eu m andava a m inha m ãe para Londres tam bém .

— Porque é que... — Mas não valia a pena, realm ente, fazer a pergunta a Sebastian. Ele ia

a descer as escadas a pavonear-se, à frente de Piers, parecendo um frango ao am anhecer.

Obviam ente com preendia as m ulheres m elhor do que Piers. Ele próprio era praticam ente

um a m ulher, com aquele bordado no colete.

— No entanto, ela não vai receber o seu pai de volta se você não m elhorares as relações

com ele — atirou Sebastian, por cim a do om bro. — Neste m om ento, tem de estar zangada

por você, assim com o por ela.

— Tretas — voltou a dizer Piers.

Sebastian chegou ao fundo da escada e virou-se para a sala de estar. Piers ouviu a voz dele

a em ergir.

— Ah, m atante, está tão encantadora com o se não tivesse m ais de dezoito anos.

— Tretas! — disse Piers a Prufrock, que estava ali com ar de estar a divertir-se.

De fato, a m ãe tinha-se enfiado num vestido que tinha de ter sido feito para um a m ulher

com m etade do seu peito.

— Mãe — disse ele fazendo um a reverência e beij ando- depois as pontas dos dedos. Mas,

quando olhou em volta, não viu em parte nenhum a o alvo de toda aquela extravagância

fem inina. — Onde está o duque?

— Quem ? — disse a m ãe, desdenhosam ente.

— A m ãe sabe: nariz aquilino, m açãs do rosto, olhar sério? Nós costum ávam os viver bem

perto dele.

Ela bebeu um gole de vinho.

— Acho que não quer um a bebida antes do j antar. E ouvi dizer que ele vai partir am anhã

de m adrugada. Vam os ter o castelo só para nós.

Ela sorriu alegrem ente, m as Piers viu um a som bra nos seus olhos. Raios partissem , Linnet

tinha razão. Sebastian, tam bém , provavelm ente.

— Onde está a m inha noiva? — perguntou ele, olhando à volta.

Os m édicos am ontoavam -se em volta do xerez. Sebastian estava a bater com os pés no

lum e, pondo em risco o polim ento brilhante que conservava nas botas.

— Não sei — disse a m ãe. — Talvez estej a a dar instruções às criadas para fazerem as

m alas.

— Ela não vai partir — disse ele, aceitando de Prufrock um copo de brande. — Está a

tentar provocar-m e acessos de violência ao brincar com a ideia de aceitar a m inha m ão. Não

que eu algum a vez oferecesse.

A m ãe olhou para ele com com paixão nos olhos.

— Ela nunca casará contigo, querido. A Linnet vai provocar um alvoroço na corte de

Napoleão, apenas por entrar pela porta. Todo este estardalhaço por causa da reputação

dela... ninguém quer saber disso.

— Está a dizer que ela é boa dem ais para m im ?

— Sobre ser boa não sei nada — disse a m ãe, abanando o leque. — Mas bela dem ais, de

certeza absoluta. Devias ter casado com ela, m al ela chegou aqui, antes de ela ter

possibilidade de te conhecer.

Prufrock desatou realm ente a trote através da sala e Piers voltou-se, sabendo

precisam ente quem ia entrar.

O vestido de noite de Linnet tinha um corte de estilo vagam ente clássico. Piers tinha

ouvido o boato de que as m atronas rom anas não usavam roupa interior por baixo das túnicas

e, aparentem ente, Linnet levou m uito a sério esse aspecto histórico do seu traj e.

A m usselina do seu vestido era tão transparente que ele conseguia ver- a saliência do

j oelho quando ela parou à entrada da porta, à espera que Prufrock a anunciasse. E quanto à

m usselina em volta do peito... bem , não havia m uita. Pedaços de renda aqui e ali e um colar

de pérolas que tinha a tarefa subtil de cham ar a atenção para a elevação dos seus seios.

Ele sentiu um sorriso aberto, m uito pouco habitual, nos seus lábios. A m ãe não sabia tudo.

Aquele vestido era destinado a ele.

Ele com eçou a atravessar a sala a coxear, m as Sebastian disparou à frente, passando por

ele com um Desculpa, estou com pressas sussurrado.

Por isso, Piers foi m ais devagar. Não valia a pena com petir com as cerim ônias continentais

de Sebastian; o prim o pegou num copo de cham panhe para poder oferecê-lo

cerim oniosam ente a Linnet. Vê-lo beij ar- a m ão era suficiente para o fazer ficar um pouco

nauseado, por isso deu m eia volta e regressou ao aparador para ir buscar o seu copo de

brande.

Ela havia de ir ter com ele. Não que isso interessasse, porque eles estavam am bos

sim plesm ente a brincar um com o outro. Não era o envolvim ento, m as a sem elhança com ele

próprio que o inebriava.

A sua m aneira, ela era um a versão fem inina dele: antipática. Dem asiado bela, dem asiado

inteligente, dem asiado m ordaz.

Não que ele fosse bonito.

Ela não foi ter com ele. Mas, irritantem ente, parecia achar deliciosa a tagarelice de

Sebastian. Cinco m inutos m ais tarde, o pai entrou na sala, com um ar abatido e cansado, e

com o um hom em que tivesse desistido.

E Piers apercebeu-se de que isso ainda era m ais desagradável do que tinham sido os

olhares desej osos de Sua Graça.

Finalm ente, Sebastian levou Linnet até ele.

— Pensei que talvez não tivesses reparado que a sua noiva entrou na sala.

— Boa noite, noiva.

— Belzebu — disse ela, inclinando a cabeça. Havia um sorriso secreto nos seus olhos.

— Fui desprom ovido — disse ele, indolentem ente, voltando a encostar-se ao aparador. —

Claro que j á m e cham aram Lúcifer no passado. O Belzebu não era um dem ônio m enor?

— Na realidade, acho que está a confundir os seus dem ônios. Belzebu é outro nom e do

próprio dem ônio.

— Oh, ótim o — disse Piers. — Eu sou ferozm ente com petitivo. Acho que j á disse isso.

— Basta desta conversa encantadora — interrom peu Sebastian. — Se eu quiser ver cães

a rosnar uns aos outros, posso ir às lutas de cães.

— Ora, ora — disse Piers. — Não podes cham ar à Linnet um cão a rosnar. Assim que ela

decidir atirar-m e à cara a proposta do m eu pai, ficas livre para a agarrar. Mas não se a tiveres

insultado.

Sebastian aproveitou a oportunidade, claro, para fazer outra reverência e beij ar a m ão de

Linnet e afirm ar solenem ente que ela era o m em bro do belo sexo m ais encantador, afável e

perfeito que ele algum a vez, etc., etc. Piers observava-o, surpreendendo-se pelo fato de

Sebastian parecer não com preender quanto Linnet odiava esse gênero de atenção

baj uladora.

Oh, ela estava a sorrir- e a estender a m ão. Mas os seus olhos estavam com pletam ente

im passíveis, m esm o quando lançou aquele pródigo sorriso que ela parecia utilizar com o

m unições.

Produziu, seguram ente, efeito em Sebastian. Piers conhecera-o toda a vida e nunca vira

aquela expressão no rosto.

— Basta — disse ele a Linnet. — Se isto fosse um a luta de cães, a senhora seria um m astim

e ele um m ero spaniel. Guarde a sua artilharia para adversários m ais fortes.

Sebastian franziu a sobrancelha.

— De que estás a falar, Piers? Estás a ser m enos coerente do que habitualm ente. Linnet

enfiou o braço no de Sebastian e riu-se.

— Ele está com ciúm es — disse ela, apesar de os seus olhos m ostrarem perfeitam ente que

sabia que ele não estava. — O senhor tem um a figura tão elegante. E difícil acreditar que

cresceram os dois j untos.

— Eu sou um espelho da m oda — declarou Piers.

Sebastian e Linnet olharam para o fato dele por um m om ento. Vestia o m esm o tipo de

coisas que usava sem pre: um casaco de corte sim ples com botões sim ples, calções sim ples,

um lenço do pescoço atado em cinco segundos. As abas do casaco de Sebastian, pelo

contrário, eram m aiores, em circunferência, do que o vestido de Linnet. Já para não

m encionar o fato de o dito casaco ser de um a cor m ostarda berrante.

— Estás enganado — disse Sebastian.

— Um espelho da m oda — repetiu Piers, pacientem ente; — Sem m im , dificilm ente

brilharias com a glória com que brilhas agora, não é?

— Um a m etáfora particularm ente forçada — observou Linnet. — Mas percebo o que quer

dizer. Um rafeiro faz sem pre um galgo parecer m ais m aj estoso.

— Ou um cão de água m ais absurdo — retorquiu Piers.

— Insulta-m e com o quiseres — disse Sebastian. Estava a olhar para Linnet com um a

expressão absolutam ente obtusa no rosto.

Aparentem ente, ela tinha visto aquela expressão tantas vezes em rostos de hom ens que

m al a notou; não m anifestou qualquer sinal de triunfo.

— Os dois não podiam ser m ais diferentes na m aneira de vestir — disse ela.

— Devia ter-nos visto em rapazes — afirm ou Piers. — Eu m al podia andar, claro, por isso

o Sebastian corria duas vezes m ais depressa. E depois, quando crescem os, ele com eçou a

vestir-se de um a form a duas vezes m ais elegante para com pensar os m eus m odos

desleixados.

— Mas estavam os dois interessados na m edicina — disse Linnet. — Com o diabo

conseguiram seguir os vossos interesses? Não conheço um único cavalheiro em Londres que

tenha com petências desse gênero.

— Nem de qualquer outro gênero? — perguntou ele, sobrancelha erguida.

— Sabem dançar — respondeu ela.

— Talvez fosse por isso: eu não sabia dançar, portanto, dediquei-m e a cortar pessoas.

— E ele não sabia cortar pessoas assim tão bem , portanto, eu tinha de o fazer por ele

— interrom peu Sebastian.

Linnet riu-se. O seu riso... era m uito m ais atraente do que aquele seu sorriso ensaiado. Era

sim ultaneam ente rouco e doce, com o brande quente com m el.

— Ele não está a brincar — disse Piers, bebendo outro gole para se fortalecer contra

aquele riso.

— Eu pensava que o senhor é que era o m édico fam oso— disse ela.

— Eu sou bom a descobrir o m al das pessoas. O problem a é que faço isso m elhor depois

de elas j á estarem m ortas. O Sebastian, por outro lado, é bom no gênero de cirurgia lim pa, do

tipo em que o paciente está vivo e assim preferiria ficar.

Linnet dirigiu a Sebastian outro sorriso e Piers im aginou ver o pobre hom em a cair, com

os j oelhos a ceder.

— E m uito reconfortante pensar que estaria aqui se eu viesse a precisar de um a cirurgia

— arrulhou ela.

— Sim , se quiser que cortem um a perna, ele é o hom em indicado para o fazer — disse

Piers.

— Seria um crim e — disse Sebastian, a voz tão suave com o a de um a pom ba.

Raios partissem . Piers estava a com eçar a sentir-se um pouco culpado. Sebastian não fazia

ideia da sedutora que tinha suspensa do seu braço e de cada um a das suas palavras. Iria

acabar com o coração verdadeiram ente despedaçado se aquilo continuasse.

— Pare com isso — exigiu ele a Linnet. Ela ofereceu- o tal sorriso.

— E não volte a sorrir-m e dessa m aneira — ordenou. — Faz-m e querer vom itar e, com o

os seus sapatos parecem ser cosidos com pérolas, um gasto de dinheiro absurdo, o ácido

gástrico não seria bom para eles.

Sebastian franziu a sobrancelha.

— Isto é o seu conceito de conversa decente, prim o? Se assim for, é pior do que eu pensava.

Miss Thry nne é um a flor delicada, que devia ser tratada com o m aior respeito.

Em vez disso, estás a falar em cortar as pernas e em vom itar nos pés.

Piers olhou para Linnet com ar reprovador. Ela suspirou e deu um as pancadinhas no braço

de Sebastian.

— Lam ento — disse ela. — Sua senhoria notou, com razão, que eu sou tão hábil no flerte

com o ele é no oposto.

— Muito bem — disse Piers, com apreço genuíno. — Raios m e partam se a senhora não é

um dos conversadores m ais m aldosos que eu conheço. Especialm ente, dadas as m unições

extra que traz com você.

— Refere-se ao sorriso? — perguntou ela. — Acho-o m uito útil. Devia experim entá-lo um

dia.

Sebastian estava agora com o sem blante carregado. Provavelm ente, com eçava a

aperceber-se de que Linnet não era m eram ente um a flor delicada.

— Não estás à altura do valor dela — disse- Piers. — Ela sabe m uito. Não adm ira que

Londres inteira pense que ela tinha um príncipe sob controle.

— E de fam ília — disse Linnet. Por um instante, ela pareceu quase envergonhada. —

Gostava que m e falasse m ais sobre a sua prática cirúrgica — disse ela à Sebastian. — Disse

que não pode evitar as infecções. Que tipo de coisas tentou?

Piers pensava m uitas vezes que o prim o era um bocado estúpido, m as nunca o subestim ou

no que respeitava à cirurgia. Sebastian era o m elhor cirurgião que algum a vez vira, a sua

concentração inexorável, os seus dedos rápidos e im possivelm ente hábeis.

— Se não tivéssem os problem as com as infecções — afirm ou Sebastian —, acho que seria

possível intervir com m étodos que agora nem conseguim os im aginar. Por exem plo, lá em

cim a, na ala oeste, tem os um a m ulher com um inchaço no estôm ago. E quase de certeza

qualquer tipo de cancro a causar um tum or, um a espécie de excrescência. É provavelm ente

do tam anho de um a m açã ou até m aior.

— Tenho a certeza de que é um tum or — interrom peu Piers.

— Só saberei ao certo o seu tam anho daqui a uns m eses, claro.

Linnet pestanej ou, m as, o que abonou a seu favor, não recuou nem guinchou, com o a

m aioria das senhoras fazia quando se confrontava com as exigências da prática m édica e com

o fascínio dele pela dissecação.

— Se tivéssem os algum a coisa que pudesse controlar a infecção, eu podia abrir-o

estôm ago e tirar o tum or — explicou Sebastian. — Ela podia regressar a casa e viver a sua

vida.

Piers tinha de adm itir que o prim o era m uito atraente quando falava de cirurgia. Um

caracol de cabelo caíra- sobre a testa e tinha os olhos brilhantes.

Talvez devesse conduzir a conversa para outro lado. Linnet estava obviam ente fascinada.

— O álcool não resulta? — perguntou ela. — Li que os soldados no cam po de batalha

despej am brande sobre as feridas e que isso lim ita o risco de infecção.

— Não é suficiente — disse Piers. — Quando nós éram os m ais novos e m enos m órbidos,

tentávam os tudo o que podíam os. Mas os nossos pacientes m orriam com um a frequência

angustiante.

— Quase todos — disse Sebastian. O seu rosto assum iu aquele tipo de angústia doce que

as m ulheres achavam tão atraente. Piers não seria capaz de fazer um a expressão daquelas

ainda que a sua vida dependesse disso. Claro que Sebastian estava a ser sincero. Ele ficava

genuinam ente perturbado quando os seus pacientes m orriam .

— Por isso, param os — concluiu Piers. — O Sebastian não conseguia contar os corpos.

— Os m em bros são um a coisa — disse Sebastian. — Mas o interior do corpo é um risco

dem asiado grande.

— Aquela pobre m ulher — disse Linnet.

Piers tinha-se esquecido de quem estavam a falar.

— Ah, sim . Bem , pelo m enos veio aqui. Dem os- tanto ópio que nem sente dores.

— Está acordada?

— Quase nunca. O que, para ela, é de longe a m elhor situação. O cancro de estôm ago, se é

isso que ela tem , parece ser particularm ente doloroso.

— E a fam ília dela?

Ele encolheu os om bros.

— Não sei nada. Talvez não tenha ninguém .

— Nenhum dos pacientes tem fam ília? Ninguém parece ter visitas.

— Esse é o dom ínio da enferm eira Matilda. Eu, de fato, não sei. Os olhos de Linnet

estreitaram -se.

— Mistress Havelock parece ter opiniões m uito decididas. É possível que tenha dito aos

pacientes que não lhes é perm itido ter visitas.

— Ah, ela não faria isso — duvidou Sebastian. — E bastante brusca, m as tem bom coração.

Isso era m esm o de Sebastian. Ele via sem pre o m elhor que existia nas pessoas.

— Na realidade, ela não tem m uito bom coração, se se entende por isso capacidade de

com paixão hum ana — adm itiu Piers. — E um a das razões pela qual eu a conservo neste

trabalho, dada a sua absoluta falta de charm e. Ela consegue calar um a criança aos gritos sem

pestanej ar.

— Um a criança aos gritos? — estrem eceu Linnet.

Então ela tinha um ponto fraco.

— O Gavan gritou com o os diabos quando tivem os de endireitar a perna partida

— recordou Piers. — Mas olhem para ele agora. Parou de gritar e j á anda outra vez. O

rapaz em breve irá para casa.

— Sim , m as quanto tem po esteve aqui sem ser perm itido ver a m ãe?

Sebastian franziu a sobrancelha.

— Vou investigar isso, Miss Thry nne. — Lançou um olhar desesperadam ente confuso. —

Que espírito bondoso tem . Eu e o Piers andam os a entrar e a sair daquele quarto há m eses

sem sequer pensar nessa questão.

— Bem , os senhores têm os doentes, j á para não falar em todos aqueles Patinhos, para se

ocuparem — disse ela, fazendo um gesto para o outro lado da sala. — Eu posso perguntar a

Mistress Havelock sobre a questão das visitas.

— Os Patinhos? — inquiriu Sebastian.

Mas Piers j á estava a rir-se por entre dentes.

— Aqueles rapazes palerm as — disse ele, indicando com a cabeça Penders, Kibbles e Bitts.

Andavam a pairar à volta de Lady Bernaise, provavelm ente absorvidos com a exuberante

exibição do peito da m ãe dele.

— Ah, estou a ver — disse Sebastian. — Suponho que seguem Piers com o se ele fosse a

m ãe pata. Um a m ãe pata doce e am orosa.

— Exagera a im aginação — concordou Linnet.

— Gosto m ais desse sorriso — disse- Piers.

O sorriso desapareceu.

— Era um sorrisinho m au, sarcástico — continuou ele. — Mostrava a verdadeira pessoa

que é.

Os olhos dela estreitaram -se e, por um instante, ele pensou que ia apanhar com um copo

de cham panhe na cara. Mas Prufrock tocou o gongo para o j antar e ela virou-sim plesm ente

as costas e saiu vagarosam ente com Sebastian, fazendo questão de se agarrar ao braço.

Depois da refeição, a m ãe de Piers levantou-se e, com um largo sorriso cintilante que

abrangeu todos os que estavam à m esa, incluindo o seu ex-m arido, disse:

— Porque não vam os todos para a sala de estar? O Prufrock teve a gentileza de

providenciar um pequeno entretenim ento.

Um olhar ao seu rosto e ele percebeu que a sua m ãe tinha em m ente qualquer plano

diabólico.

— Dançar! — disse ele, m om entos m ais tarde, vendo o chão desim pedido e Prufrock ao

piano, acom panhado por um lacaio m agricela com um violino. — Que am ável da sua parte,

m ãe. Era exatam ente aquilo que eu desej ava.

A m ãe dirigiu-se pom posam ente até ele num a nuvem de j asm im .

— Querido, o m undo não gira em torno de você e desculpa se algum a vez te dei a

im pressão de que girava. Agora, senta-te aqui e descansa a perna. O Sebastian vai dançar

com igo, claro.

— Claro — repetiu Piers, sentando-se, porque, quando a m ãe de alguém decide encenar

um a com édia, porque não desfrutá-la?

O pai sentou-se num a cadeira de costas direitas, na outra ponta do sofá, e observou. Nem

sequer fingiu não o fazer, lim itou-se a ficar sentado, os olhos fixos na ex-m ulher enquanto

ela girava na pista, num a valsa, rindo-se para o sobrinho.

— Continua tão leve sobre os pés com o sem pre foi — disse Piers, daí a um bocado. —

Preferia conversar a ver a dança. Por um lado, estava a irritá-lo ver Bitts a sorrir a Linnet.

Gostava de pensar em Bitts com o m édico, por m uito incom petente que fosse, e não com o um

j ovem galã.

— A sua m ãe? — O pai acenou com a cabeça. — Havias de a ter visto quando tinha

dezessete anos. Era esguia com o um salgueiro, com um brilho nos olhos que fazia todos os

hom ens num a sala apaixonarem -se por ela.

— Vai pedir- para dançar?

O pai olhou para ele, um a pequena curva nos lábios que Piers percebeu, com um choque,

que sentira no próprio rosto, vezes sem conta.

— Oh, sim , vou pedir- . Ela é que preparou o entretenim ento e seria pouco cavalheiresco

não perm itir que m e rej eite. Naquela altura, nós não dançam os a valsa, claro.

— Naquela altura? — repetiu Piers com um ar bastante idiota.

— Eu quebrei todas as regras da sociedade — disse o pai. — Não esperei para ser

apresentado, para solicitar que dançasse. Puxei-a sim plesm ente para a pista.

— Bem , então vá — disse Piers. — Puxe-a para a pista.

— Ela não quer ser puxada. Ela quer a oportunidade de m e rej eitar.

Sim , Piers reconheceu decididam ente aquele sorriso sardônico. Era o seu.

— E a m inha transgressão significa que ela m erece esse prazer — acrescentou o duque.