Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 27 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 27

Ela deixou cair ao chão o lenço do duque. Chorar tinha-a deixado com um a terrível dor de

cabeça, que a cegava. De fato, parecia inconcebível o dia não haver term inado ainda. Ela estar

num a carruagem e não num a cam a. Era im possível im aginar que tinha de percorrer todo o

cam inho de regresso a Londres, dia após dia, naquela carruagem .

Pouco depois, recostou-se no assento alm ofadado, olhando fixam ente para o teto oscilante

da carruagem . Era difícil ficar confortável. Devia ter distendido o pescoço e os om bros, a

nadar.

Finalm ente, fechou os olhos e deixou que o suave em balar da carruagem , a levasse para

longe das cruéis palavras de Piers, apesar de estas ecoarem nos seus sonhos.

27

S eis dias mais tarde

— Está a m orrer — declarou Piers, com a angústia da decepção que tinha sem pre em

m om entos com o este. Olhou para o paciente, um hom em robusto na casa dos sessenta.

— Cada vez que dou água, escorre, pura e sim plesm ente, para fora da boca — disse o

auxiliar.

— Põe-no o m ais confortável possível — ordenou Piers, dirigindo-se ao corredor. — Pode ser que os olhos verm elhes sej am sinal de m ortalidade im inente.

— Ele parece um furão — disse Sebastian. Estava encostado na parede do vestíbulo.

— Vai para a cam a — aconselhou Piers. — Estiveste a pé a noite inteira. Não vais servir

para nada se continuares assim . Além disso, não apareceram quaisquer pacientes novos há

pelo m enos duas horas.

Com o que em resposta, houve um a pancada na porta da frente. O riso de Sebastian teve

um som oco.

— Com o vai o Bitts?

— Pulso rápido, m as a febre cedeu. Disse ao criado dele que com eçasse com caldo de

galinha durante o dia de hoj e. Ele está livre de perigo.

Sebastian afastou-se da parede.

— Acho que isto está a abrandar.

— Faria sentido — concordou Piers. — Nós divulgam os norm as sobre com o isolar os

doentes. Graças a Deus, a doença estava lim itada ao percurso do m oleiro.

— Vou para a cam a — disse o prim o, fazendo depois um a pausa! — Sabias que o seu pai

ainda aqui está?

Piers levantou a cabeça com um sacão.

— O quê?

— A viver na casa do guarda com a sua m ãe. Ontem saí para apanhar ar fresco. Eles

estavam sentados nos j ardins. Eu disse adeus, de longe, claro.

— Estavam ? — Piers estava tão cansado que parecia que tinham m etido o cérebro em

vinagre. — Juntos, na casa do guarda? — Só de pensar na casa do guarda ficava com tal dor

no coração que parecia que iria despedaçá-lo.

— Suspeito que em breve vai haver um a nova duquesa — com entou Sebastian,

anim adam ente. — Ele tinha o braço à volta dela. Muito aconchegados.

— Espera! Isso quer dizer que ele m andou a Linnet para casa sem com panhia — deduziu

Piers, com um a onda de fúria a percorrer as veias. — Ele m andou-a toda a viagem de regresso

a Londres sem com panhia.

Sebastian franziu a sobrancelha.

— Para além de um a corte de lacaios, criadas e criados. Três carruagens no total. Por am or

de Deus, Piers, você puseste-a fora. Puseste-a fora do seu pensam ento. Ela está perfeitam ente

segura. Lem bra-te, a sua m ãe fez a viagem toda desde a Andaluzia até aqui.

Linnet corria um perigo cinquenta vezes m aior do que a m ãe dele. Mas Piers engoliu as

palavras antes de as pronunciar.

Kibbles apareceu, a m eio das escadas.

— Um dos novos pacientes está m al. O m édico da aldeia tratou-o com sanguessugas.

— Controla-te — aconselhou Sebastian, a voz a grunhir de fadiga. — A Linnet foi-se

em bora. Põe-na para trás das costas.

— Vai para a cam a — vociferou Piers em resposta, fazendo- sinal com a m ão para se

afastar. Depois virou-se para Kibbles. — Pensava que tínham os espalhado as notícias sobre

o tratam ento correto.

— A m ulher dele diz que ouviram falar em isolar os doentes, m as nada sobre tratam ento.

— Em que aldeia foi?

— Llanddowll.

— Já aceitam os três pacientes daí. Manda lá o Ney then a cavalo. Ele parece ter j eito para

este tipo de coisas e é de lá. Diz- que m eta algum j uízo na cabeça do m édico. E, se isso não

resultar, que bata na cabeça e o traga para aqui. Pom o-lo lá em baixo na m asm orra.

Kibbles abanou a cabeça.

— O Ney then está de cam a. Um caso pouco grave, penso eu. Está na ala oeste. Suspeito

que o Prufrock terá dificuldade em dispensar alguém .

— Então terão de se entender sozinhos — concluiu Piers, cansado. — Leva-m e ao doente.

— Mister Connah está m uito quente e tem o pulso fraco — explicou Kibbles,

aproxim ando-se da cam a do paciente um m om ento m ais tarde.

— Garganta?

— Úlceras escuras. E — Kibbles virou o braço do doente ao contrário — a descam ação é

tão violenta que caíram as unhas.

Piers olhou para o paciente. Tinha os olhos fechados e a respiração m atraqueava- no

peito.

— Há quantos dias está doente? — perguntou à m ulher.

— Este é o sexto dia — disse ela. Estava em pé ao lado da cam a, a torcer as m ãos. —

Apareceu de repente, pelo que o pusem os num quarto sozinho, tal com o disse o padre, e eu

m andei as crianças em bora.

— Provavelm ente, salvou as vidas delas — disse Piers.

— E o m eu m arido? O m eu Barris, que será dele?

Ele apercebera-se de que era m elhor ser direto.

— Não acredito que sobreviva. Há um a hipótese, claro. O seu m arido parece um hom em

forte e vam os lutar por ele. Am anhã saberem os.

A m ão dela cerrou-se sobre a coluna da cam a.

— Se eu o tivesse trazido aqui assim que ele apanhou a febre, teria sobrevivido?

Diga-m e.

— Não — disse Piers categoricam ente, olhando-a nos olhos.

— O curso da doença é o curso da doença. Não podem os dizer quem vai viver e quem vai

m orrer.

— Não foi por causa, daquelas sanguessugas? Eu não queria as sanguessugas, m as o

m édico insistiu. Ele tinha feito o cam inho todo desde a aldeia m ais próxim a e por isso parecia

que estávam os a desperdiçar o seu tem po se não deixássem os. Pô-las diretam ente na

garganta, na parte que doía, para retirar o sangue envenenado, disse ele.

— Não havia nada que pudesse ter feito que fizesse a diferença. Só Deus sabe quando é a

altura de um hom em m orrer.

— Deus — repetiu ela com um pequeno suspiro. — Está bem . O Barris ia à igrej a todos os

dom ingos, pois ia, e tam bém dava sem pre qualquer coisa aos m ais pobres. Se ele m orrer...

Piers esperou que ela se recom pusesse.

— Se ele m orrer, teve um a vida boa. Am ava os filhos. Disse a m im , assim que soubem os

que estava doente. Passam os doze anos j untos.

— Muita felicidade nesses doze anos? — perguntou Piers.

— Dificuldades tam bém , m as sim , sim — disse ela, com lágrim as a caírem -para as m ãos.

— Ele é um hom em bom , o Barris é um hom em bom .

— Então tem m uito de que se orgulhar — afirm ou Piers.

— E os seus filhos tam bém .

No corredor, disse, cansado:

— Diz ao auxiliar que continue a dar- água, o m áxim o possível. Recruta a aj uda da m ulher

dele. Precisam os de o arrefecer; tenta panos m olhados. Penso que a espum a de m alte não faz

nada a não ser em pestar os quartos, portanto, para com isso.

— Porque disse aquilo? — perguntou Kibbles. — Acerca de ela poder ter feito as coisas

de form a diferente? Não perdem os um único paciente que tenha chegado aqui

suficientem ente cedo. Devíam os dizer isso às pessoas, para elas saberem que a escarlatina

pode ser vencida. — Apesar de todo o cansaço, havia orgulhe na sua voz.

— Ela terá de viver com você própria — respondeu Piers, virando-se para se ir em bora.

— E terá de viver com a m em ória dele. Isso é suficiente para um a m ulher.

— E porque disse aquilo sobre Deus? — perguntou Kibbles, correndo atrás dele. — Nunca

o ouvi dizer nada assim .

— Observa, seu idiota — sugeriu Piers rudem ente. — Estou sem pre a dizer-te isso. Ela

trazia um crucifixo ao peito.

— Os outros dois pacientes novos não estão assim tão m al. Acho que tam bém devia ir para

a cam a.

— Acabei de m andar o m arquês para a cam a.

— Eu e o Penders dorm im os um as boas cinco horas — argum entou Kibbles. — E agora

sabem os aquilo com que estam os a lidar. Nós aqui nós arranj am os. Vá dorm ir.

— Você é o m elhor do grupo — adm itiu Piers, olhando para ele. — Você ouves.

— Sendo assim , confie em m im . Vá dorm ir.

— Vou só espreitar o Ney then — disse Piers. — Mais algum a baixa no pessoal dom éstico?

— Desde as duas criadas há uns dias, não — disse Kibbles.

— Acho que a lavagem das m ãos está a resultar.

— Ney then estava a dorm ir, pelo que Piers não entrou no quarto. Conseguia ver da porta

que o caso do lacaio não era grave; tinha a cara e os braços uniform em ente verm elhes, o que

sugeria um a recuperação relativam ente rápida.

Depois, dirigiu-se para a cam a, vacilando um pouco de puro cansaço enquanto cam inhava

ao longo do corredor, apoiando-se na bengala com o se de um a terceira perna se tratasse.

O seu criado tinha ali estado em qualquer altura do dia; os lençóis estavam dobrados e

havia um j antar frio à espera. Parou apenas, para descalçar as botas antes de cair entre os

lençóis.

O sonho estava à espera dele, tal com o estivera todas as noites desde que ela partira.

Linnet ria-se ao despir a chem ise, tal com o fizera naquela últim a m anhã que passaram j untos.

Estava em cim a da rocha a olhar para a piscina, os olhos a brilhar, a sua bonita figura

curvilínea ilum inada pela luz do Sol, fazendo-a parecer absolutam ente angélica.

Ele acenou- quando descia o carreiro, tencionando despir a roupa e j untar-se a ela...

E depois viu, lá em baixo, na piscina, o brilhe de dentes. Havia perigo na água.

Algo tinha entrado para a sua piscina e estava à espera dela, esfom eado e destrutivo.

Tentou gritar, m as ela não o ouviu, e depois com eçou a correr pelo carreiro abaixo em

direção a ela, só que não era capaz de correr. A dor queim ava a perna, m as continuou a correr,

atirando violentam ente a bengala para a frente e im pe- lindo-se com força acim a do chão,

tentando desesperadam ente alcançá-la.

Linnet acenou- em resposta e depois saltou para dentro de água com aquela alegria feroz

que ela tinha, com a coragem que a im peliu para a água gelada logo no prim eiro dia, m esm o

antes de saber sequer boiar.

Acordou a trem er, o coração a bater m uito depressa, a cara transpirada. Durante cinco

m inutos, não conseguiu sequer pensar, e ficou sim plesm ente ali a olhar para o teto, dizendo

a você próprio, vezes sem fim , que Linnet estava a cam inho de Londres. Estava em segurança.

Estava perfeitam ente segura. Os criados do seu pai eram inestim áveis, fidedignos, em todos

os aspetos. Devia saber que o duque era exím io a contratar pessoal. Confiaria a sua vida a

Prufrock.

O sonho é apenas resultado da epidem ia, disse a você próprio. A im aginação a enlouquecer

devido à situação no castelo. Devido à escarlatina. Devido à sua estupidez.

E, no entanto, m esm o quando o seu coração acalm ou, algum a coisa o inquietava...

qualquer coisa que não conseguia recordar exatam ente, qualquer coisa sobre Linnet.