Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 1 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 1

clássico conto de fadas é um a adição de tirar o fôlego à série de Eloisa Jam es de contos de

fadas reinventados.”

Library Journal

“A escrita de Eloisa Jam es é absolutam ente prim orosa”

T eresa Medeiros

“Ninguém m e leva à livraria m ais depressa do que Eloisa Jam es.”

J ulia Quinn

1

E ra uma vez, não há muito tempo. .

Meninas bonitas em contos de fadas são tão banais com o seixos na praia. Pastoras de pele

rosada convivem com princesas de olhar rom ântico e, de fato se contássem os os dois olhos

brilhantes de cada donzela, teríam os toda um a galáxia de estrelas cintilantes.

Esse brilho ainda torna m ais triste o fato de as m ulheres reais raram ente estarem à altura

das suas hom ólogas fictícias. Têm dentes am arelados ou pele m anchada. Têm a som bra de

um bigode ou um nariz tão grande que um rato poderia esquiar por ele.

Claro que tam bém há as bonitas. Mas m esm o essas são propensas a todas as doenças que

constituem herança do hom em , com o disse Ham let, há m uito tem po, num lam ento.

Em resum o, é rara a m ulher que ofusca verdadeiram ente o sol. Quanto m ais toda essa história de dentes de pérola, voz de cotovia e um rosto tão belo que os anj os carpiriam de

invej a.

Linnet Berry Thry nne tinha tudo o que foi m encionado, exceto talvez a pretensão de um a

m elodia de cotovia. Apesar disso, a sua voz era perfeitam ente agradável e tinham - dito que o seu

riso era com o o toque de sinos dourados, falando-se m uitas vezes nas cantigas de verdilhão{1}

(em bora não de cotovia).

Mesm o sem olhar para o espelho, sabia que o seu cabelo e seus olhos brilhavam , e os seus

dentes — bem , talvez não brilhassem , m as eram m uito brancos.

Era exatam ente o tipo de m ulher que conseguia levar um m oço de cavalariça a feitos

heroicos ou um príncipe a atos m enos intrépidos com o atravessar um denso silvado

m eram ente para dar um beij o. Nada disso alterava um único fato: Desde a véspera, não era

possível casar-se.

A calam idade tinha que ver com a natureza dos beij os e com aquilo a que se fazia crer que

os beij os levavam . Em bora talvez sej a m ais exato falar da natureza dos príncipes. O príncipe

em causa era Augustus Frederick, duque de Sussex.

Beij ara Linnet m ais do que um a vez; de fato, beij ara-a m uitíssim as vezes. E declarara

veem entem ente o seu am or por ela, j á para não falar num a noite em que atirara m orangos à

j anela do seu quarto (o que tinha causado um a porcaria horrível e enfurecido o j ardineiro).

A única coisa que não fizera fora oferecer- a sua m ão em casam ento.

— É um a pena eu não poder casar contigo — disse ele, apologeticam ente, quando o

escândalo rebentou na noite anterior.

— Nós, os duques reais, sabes... não podem os fazer tudo quanto desej aríam os. O m eu pai

está ligeiram ente perturbado com o assunto. Na realidade é um grande infortúnio. Deve ter

ouvido falar do m eu prim eiro casam ento; foi anulado porque Windsor decidiu que a Augusta

não era suficientem ente boa e ela é filha de um conde.

Linnet não era filha de um conde; o pai era visconde e, ainda por cim a, não se relacionava

com pessoas influentes. Não que ela soubesse do prim eiro casam ento do príncipe. Todas as

pessoas que a tinham visto nam oriscar com ele nos últim os m eses haviam -se esquecido,

incom preensivelm ente, de dizer que, ao que parecia, ele era propenso a cortej ar as

m ulheres com as quais não podia — ou não devia — casar.

O príncipe fizera um a reverência brusca, virara-se e abandonara abruptam ente o salão de

baile, retirando-se para o Castelo de Windsor — ou para onde quer que as ratazanas fugiam

quando o navio se afundava.

Deixara Linnet sozinha, apenas com a sua rígida dam a de com panhia e um salão de baile

cheio de gente da alta sociedade, um a circunstância que a levou rapidam ente a com preender

que m uitas donzelas e m atronas de Londres estavam fervorosam ente — se não alegrem ente

— convencidas de que ela era um a leviana do prim eiro grau.

Nos m om entos seguintes à partida do príncipe, nem um a alm a a olhou nos olhos; Linnet

deparou-se com um m ar de costas voltadas. O som de risadinhas aristocráticas espalhou-se

à sua volta com o o silvo do grasnar de gansos selvagens a prepararem -se para voar para o

Norte. No entanto, claro, era ela que tinha de voar — para norte, para sul, não interessava,

desde que fugisse da cena da sua desonra.

A inj ustiça era que ela não era nenhum a leviana. Bem , não o era m ais do que qualquer

m enina deslum brada com um príncipe.

Tinha gostado de apanhar na sua arm adilha o m aior prêm io de todos, o príncipe louro e

atraente. Mas nunca tivera verdadeira esperança de que ele casasse com ela. E não teria

decerto dado a sua virgindade a um príncipe sem ter um anel no dedo e a aprovação do rei.

No entanto, considerara Augustus um am igo, o que ainda tornou m ais doloroso o fato de

ele não ter ido visitá-la na m anhã seguinte à sua hum ilhação.

Augustus não foi o único. De fato, Linnet ficou olhando pela j anela da frente da sua

residência, para m elhor se convencer de que ninguém ia visitá-la. Ninguém . Nem um a alm a.

Desde que fora apresentada à sociedade, uns m eses atrás, a sua porta principal tinha sido

o portão do Tosão de Ouro, ou Sej a, do seu ser delicioso e com um dote. Jovens cavalheiros

pavoneavam -se e subiam , a passo rápido ou sem pressa, aquele cam inho, deixando cartões e

flores e presentes de toda a espécie. Até o príncipe se hum ilhara fazendo quatro visitas

m atutinas, um cum prim ento inaudito.

Mas agora... aquele cam inho não passava de um a fila de pedras a brilharem ao sol.

— Eu não posso acreditar que isto surgiu do nada! — disse então o pai, de trás dela.

— Eu fui beij ada por um príncipe — disse Linnet friam ente.

— O que podia não ter significado nada se não tivéssem os sido vistos pela baronesa

Buggin.

— Beij ada, pff! Os beij os não são nada. O que eu quero saber é porque andam a dizer com

toda a segurança que você estás ciente. Um bebê dele! — O visconde Sundon aproxim ou-se,

j untou-se a ela e olhou tam bém para a rua vazia.

— Duas razões. Nenhum a delas envolve um bebê, deve ficar contente por saber.

— Então?

— Com i um cam arão estragado na m anhã m usical de Lady Brim m er, na quinta-feira

passada.

— E depois? perguntou o pai.

— Fez-m e m al — respondeu Linnet. — Nem sequer consegui chegar à sala privada das

senhoras. Vom itei em um a laranj eira que estava num vaso. — Só com a lem brança,

estrem eceu um pouco.

— Descontrolo seu — com entou o visconde. Detestava processos corporais. — Deduzo

que isso foi considerado sinal de parto?

— De parto, não, pai, da condição que o antecede.

— Claro. Mas lem bras-te de quando Mistress Underfoot cuspiu na sala do trono, por pouco

não acertando em sua m aj estade o rei da Noruega? Isso não foi nenhum cam arão, nem um

bebê. Todas as pessoas sabiam que ela tinha bebido até cair. Podíam os fazer circular que

você é alcoólica.

— E isso resolveria o m eu problem a? Duvido que m uitos cavalheiros queiram casar com

um a bêbada. De qualquer m aneira, não foi só o cam arão. Foi o m eu vestido.

— Que tinha o seu vestido?

— Ontem à noite vesti um vestido de baile novo e, aparentem ente, o m odelo deu às

pessoas razões para pensarem que eu estava grávida.

O pai fê-la girar e olhou para a sua cintura.

— A m im não m e pareces diferente. Um pouco fresca nos om bros. Tens de m ostrar tanto

o peito?

— Se não quiser parecer um a m atrona gorda — disse Linnet com certa aspereza —, então,

sim , preciso m esm o de m ostrar o peito desta m aneira.

— Bem , esse é que é o problem a — disse Lorde Sundon.

— Pareces m ercadoria da feira de São Bartolom eu. Raios, eu disse especificam ente à sua

dam a de com panhia que tinhas de parecer m ais puritana do que qualquer outra pessoa na

sala. Tenho de ser eu fazendo tudo? Ninguém é capaz de seguir instruções sim ples?

— O m eu vestido de baile não era m uito decotado — protestou Linnet, m as o pai não

estava a dar- atenção.

— Eu tenho tentado, Deus sabe com o tenho tentado! Adiei a sua apresentação à sociedade,

com a esperança de que a m aturidade te desse com postura aos olhos do indubitável

escrutínio da alta sociedade, dada a reputação da sua m ãe. Mas para que serve a com postura

se o seu decote indica que é um a devassa?

Linnet respirou fundo.

— O caso nada tem que ver com decotes. O vestido que eu usei ontem à noite tem ...

— Caso! — disse o pai, o tom de voz a subir. — Eu eduquei-te com os princípios m ais

rígidos...

— Não é caso no sentido de rom ance — interrom peu Linnet.

— Eu queria dizer que o desastre foi causado pelo m eu vestido. Tem dois saiotes, sabe, e...

— Quero vê-lo — declarou Lorde Sum on, sendo a sua vez de interrom per. — Vai vesti-lo.

— Não posso vestir um vestido de baile a esta hora da m anhã!

— Já. E traz essa sua dam a de com panhia pra baixo tam bém . Quero ouvir o que Mistress

Hutchins tem a dizer em sua defesa. Contratei-a especificam ente para im pedir este tipo de

coisas. Ela assum iu um ar puritano tão austero que eu confiei nela!

Linnet vestiu o seu vestido de baile.

Fora desenhado para ficar j usto sobre os seios. Mesm o abaixo, as saias abriam -se para

trás revelando um a encantadora renda belga. Depois, essa saia abria-se, m ostrando um a

terceira cam ada, feita de seda branca. As linhas pareciam requintadas no caderno da loj a de

Madam e Desm artins. E, quando Linnet o vestira na noite anterior, achara o efeito adorável.

Mas agora, enquanto a criada arranj ava todas aquelas saias sob o olhar atento de Mrs.

Hutchins, os olhos de Linnet dirigiram -se para a parte onde devia estar a cintura, m as não

estava.

— Palavra de honra! — disse ela, num sussurro. — Realm ente pareço m esm o grávida. —

Virou-se para o lado. — Vej a só com o isto enfuna. E este pregueado todo, m esm o aqui em

cim a, sob os m eus seios. Eu podia esconder dois bebês debaixo de todo este tecido.

A criada, Eliza, não se atreveu a dar opinião, m as a dam a de com panhia não m ostrou tal

reserva.

— Na m inha opinião, não são tanto as saias, m as sim o peito — afirm ou Mrs. Hutchins. A

sua voz era levem ente acusatória, com o se Linnet fosse responsável pela linha entre os seus

seios.

A dam a de com panhia tinha cara de gárgula, na ideia de Linnet. Fazia lem brar um a igrej a

m edieval com o seu em pedernido fervor religioso. Por isso é que o visconde a tinha

contratado, claro.

Linnet virou as costas ao espelho. O vestido tinha realm ente um decote fundo, o que, com

franqueza, ela considerara um a coisa boa, tendo em conta que m uitos j ovens cavalheiros

pareciam incapazes de arrastar os olhos acim a do queixo dela. Isso os m antinha ocupados e

perm itia a Linnet sonhar que estava noutro lugar que não um salão de baile.

— A m enina é excessivam ente dotada — continuou Mrs. Hutchins. — Dem asiado cheia

em cim a. Juntando isso à m aneira com o o vestido enfuna, parece que está à espera de um

feliz acontecim ento.

— Não teria sido feliz — com entou Linnet.

— Nas suas circunstâncias, não. — Mrs. Hutchins aclarou a voz. Ela tinha o m odo m ais

irritante de aclarar a voz que Linnet algum a vez ouvira. Significava, aprendera Linnet nos

últim os m eses, que se preparava para dizer algo desagradável.

— Porque diabo é que não vim os? — exclam ou Linnet, cheia de frustração,

interrom pendo-a antes de ela poder lançar a sua crítica. — É tão inj usto perder a m inha

reputação e, talvez até, a m inha hipótese de casam ento só porque o m eu vestido tem

dem asiadas pregas e saias.

— As suas m aneiras é que são repreensíveis — disse Mrs. Hutchins. — Devia ter

aprendido com o exem plo da sua m ãe que, se fizer espalhafato, as pessoas irão tom á-la por

um a m ulher de m á nota. Tentei dar- orientações sobre decoro o m elhor que pude ao longo

dos últim os m eses, m as não m e ligou nenhum a. Agora colhe o que sem eou.

— As m inhas m aneiras nada têm que ver com este vestido e com o efeito que tem na m inha

figura — declarou Linnet.

Raram ente se dava ao trabalho de se exam inar de perto ao espelho. Se tivesse olhado com

cuidado, se tivesse virado de lado...

— E o decote — disse Mrs. Hutchins obstinadam ente.

— A m enina parece um a vaca leiteira, se m e perdoa a com paração.

Linnet não se deu ao trabalho de perdoar, por isso ignorou-a. As pessoas deviam avisar

do perigo. Um a senhora devia olhar-se sem pre de lado ao vestir-se, se não podia vir a

descobrir que Londres inteira acreditava que ela estava à espera de um bebê.

— Eu sei que não está grávida — continuou Mrs. Hutchins, parecendo relutante em

adm iti-lo. — Mas nunca acreditaria nisso, olhando para você agora. — Voltou a aclarar a voz.

— Se aceita um conselho, eu taparia esse seu peito um pouco m ais. Não é decente. Eu bem

tentei dizer- várias vezes nos últim os dois m eses e vinte e três dias que vivi nesta casa.

Linnet contou até cinco e disse friam ente:

— E o único peito que tenho, Mistress Hutchins e os vestidos são todos assim . Não há nada

de especial com o m eu decote.

— Fará parecer um a fragata ligeira — observou ela.

— Com o?

— Um a fragata ligeira. Um a m ulher ligeira!

— A fragata não é um barco?

— Exatam ente, do tipo que atraca a m uitos portos.

— Creio que é o prim eiro gracej o que algum a vez m e disse — afirm ou Linnet. — E pensar

que eu estava preocupada por a senhora poder não ter senso de hum or.

Depois disto, os cantos da boca de Mrs. Hutchins descaíram e ela recusou-se a dizer

qualquer outra coisa. E recusou-se a acom panhar Linnet à sala de estar.

— Não tenho nada que ver com o que aconteceu — disse.

— E a vontade dos céus e pode dizer ao seu pai que fui eu que o disse. Fiz os possíveis

por inculcar alguns princípios, m as foi tarde dem ais.

— Isso é bastante inj usto — disse Linnet. — Mesm o um a fragata ligeira devia ter a

oportunidade de atracar a um porto antes de ser afundada.

Mrs. Hutchins resfolegou.

— Atreve-se a gracej ar. Não tem nenhum a ideia de decoro, nenhum a! Acho que todos

sabem os onde reside a culpa disso.

— Na verdade, acho que tenho m ais com preensão do que é decoro e o seu oposto do que

a m aioria. Afinal, Mistress Hutchins, fui eu, e não a senhora, que cresci perto da m inha m ãe.

— E está aí a raiz do seu problem a — disse ela, com um sorriso m órbido. — Não é com o

se sua senhoria fosse a filha de um a fabricante de chapéus que fugiu com um latoeiro.

Ninguém se interessa por essa gente. A sua m ãe dançava com o um ladrão no nevoeiro

enquanto todos a observavam . Não era um a prostituta privada; perm itiu que o m undo visse

a sua iniquidade!

— Um ladrão no nevoeiro — repetiu Linnet. — Isso é da Bíblia, Mistress Hutchins? Mas