Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 34 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 34

— Parvos, todos eles — resm ungou Piers.

— Você j untas-te ao bando, se a deixares ir.

— Nunca ousei im aginar ninguém com o ela. Ou um a vida com alguém com o ela.

— Isso não é m otivo para não ousar, agora que ela está à sua frente. Há qualquer coisa em

vocês os dois j untos...

— Ela é com o a m inha outra m etade — disse Piers selváticam ente, m antendo a cabeça

baixa. — O raio da m inha outra m etade, com o um a brincadeira qualquer que Platão inventou.

Com o algo que eu nunca, quis e depois ali estava ela.

O pai pôs a m ão no om bro.

— Vai dizer- isso.

Piers engoliu em seco. A ideia era horrível. Confessá-lo ao pai era um a coisa; dizê-lo a um a

m ulher que nem sequer olhava para ele era outra. Os pés dele estavam cercados de pétalas

de flor.

— Foi isso que disse à m ãe?

— Não. Ela não m e daria ouvidos.

Havia qualquer coisa de divertido na voz dele. Piers levantou um a m ão.

— Não quero saber.

O pai sorriu, encolheu os om bros.

— Faz o que tiveres fazendo.

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Dem orou até à tarde seguinte pensar num plano. O seu instinto dizia- que visitar Linnet

durante a noite iria apenas piorar as coisas. Não podia dizer porquê, exatam ente, m as

confiava no seu instinto enquanto m édico, por isso bem podia confiar nele quando se tratava

de Linnet.

Era hum ilhante, m as tinha de pedir aj uda. Era com o os trabalhos de Hércules, cortej ar

Linnet. E ele não tinha exatam ente estofo de herói. Recordar a m aneira com o rastej ara ao

longo daquele corredor, com pletam ente nu (em bora no escuro), fê-lo estrem ecer.

Mas engoliu o orgulhe e pediu aj uda e não interessava o fato de Hércules nunca ter

precisado de aj uda.

— Que queres dizer, queres que eu vá ao quarto da Linnet? — perguntou Sebastian, com

um ar horrorizado. — É claro que não vou.

— Eu vou estar contigo, seu cretino — esclareceu Piers.

— Vais pegar nela e levá-la para fora do castelo, e lá para baixo, para a piscina. Sebastian

ficou de boca aberta.

— É claro que não vou! — guinchou ele outra vez. — Estás doido?

— Algum a vez m e enganei num diagnóstico?

— Certam ente que sim !

Piers fez um m ovim ento com a m ão.

— Noventa por cento das vezes não m e engano, pois não?

— Que tem isso que ver com algum a coisa?

— Diagnostiquei-a e agora tenho de a curar. O prim o olhou para ele.

— Provavelm ente ela vai pôr-se aos berros.

— Não, não vai — afirm ou Piers. — Já disse ao Prufrock que tire toda a gente do cam inho.

E ela está dem asiado envergonhada com o seu aspecto para querer atrair atenções.

— Ainda está m uito assustador? — perguntou Sebastian.

Piers encolheu os om bros.

— A quem interessa isso?

— A ela, seu palerm a.

— Anda lá com igo buscá-la e poupa-m e o serm ão.

— E se ela nunca m ais m e falar? — gem eu Sebastian.

— A partir do m om ento em que ela casar com igo, ficam am bos a viver no castelo. Ela vai

ter de ceder e cum prim entar-te ao pequeno-alm oço.

Mas Sebastian continuou a protestar o cam inho todo pela escada acim a. A porta do quarto

de Linnet, agarrou o braço de Piers.

— Ela vai odiar-m e por isto. Não quero que ela m e odeie.

— Não sej as idiota — rosnou Piers. Ele j á estava a ter m uito trabalho a reprim ir as suas

próprias dúvidas sem ter de enfrentar as de Sebastian. Rodou a m açaneta.

Afinal, foi m uito fácil. Assim que o viu, Linnet enfiou-se debaixo do lençol. O que significava

que era obra de um m inuto enrolá-la naquele lençol.

Fez ruídos abafados e tentou debater-se, m as tinha os braços e as pernas presos.

— Tens a certeza de que ela ainda está a respirar? — perguntou Sebastian, enquanto

descia o cam inho com algum a dificuldade.

Piers apalpou a carga de Sebastian, o que provocou um a nova luta. De dentro da trouxa

vinham sons furiosos.

— Parece que está.

— E agora? — perguntou Sebastian, quando chegaram à piscina.

— Põe-na ali — pediu Piers. — Naquela rocha plana. Não podia ter feito isto sem você,

m as fica à vontade para desapareceres im ediatam ente. Não é preciso voltares; a m inha noiva

vai voltar pelo seu próprio pé.

As palavras que em anaram da trouxa assum iram um tom que sugeria sacrilégio. Sebastian

foi-se em bora, abanando os braços. Piers esperou até o prim o descrever a curva que

conduzia à casa do guarda e depois disse:

— Muito bem . Podes tirar o lençol. Ele foi-se em bora.

Instantaneam ente, o lençol explodiu em m ovim entos convulsivos. Piers continuou ali,

braços cruzados, até Linnet em ergir. Vestia apenas um a leve chem ise e ele ficou um

m om ento a adm irar a visão.

— Não te atrevas a olhar para m im dessa m aneira! — gritou. E depois percebeu onde se

encontrava.

Estava um lindo dia. O céu estava quente e azul com pequenos fios de nuvens, com o renda

esfarrapada acim a das aves m arinhas que voavam em círculos.

— Oh! — disse ela, baixinho. — Trouxeste-m e à piscina.

— Porque não tiras a chem ise antes de irm os nadar? — perguntou ele.

Ela pareceu não o ouvir, os olhos sonhadores a descerem para a água azul.

— A chem ise — repetiu ele, descalçando as botas. — Despe-a. Finalm ente, ela virou-se e

franziu a sobrancelha.

— Não dispo.

— Com o queiras — disse ele. Atirou a cam isa dele para o lado.

Os olhos dela afastaram -se rapidam ente do peito dele, com indiferença. Ele puxou os

calções para baixo.

— Não precisas de te preocupar a despir-te. Eu não vou nadar e não estou interessada em

nada m ais íntim o. — De fato, pareceu trem er ante a ideia.

Aquilo era irritante. Num a resposta m uda, Piers estendeu a m ão e deu- um em purrão

entre as om oplatas.

Ela em bateu na água com um grito e veio ao de cim a atabalhoadam ente.

— Tira-m e daqui neste instante — gritou ela, agarrando-se à borda da piscina. — Tenho

a pele a picar e está m uito frio!

— E m elhor com eçares a nadar — disse ele, tirando os calções interiores. Voltou a ter um a

ereção. Não era o que preferia no m undo, saltar para dentro de um a piscina com um a ereção,

m as pronto.

Viu Linnet olhar para aquela sua parte, depois m ergulhou da rocha por cim a dela, e nadou

para trás, para a borda à qual ela estava agarrada. Tinha os dentes a bater, claro.

— A água não está assim tão fria, hoj e — constatou ele. —Tem estado sol nos últim os três

dias. Devias com eçar a m exer-te. — Mas segurou-a contra o corpo, com o sem pre fizera. Não

a tinha agarrado contra você durante m uitos dias e era tão... tão... O coração apertou-se, com o

o com eço de um ataque cardíaco.

— Tem os de nadar — disse ele, em purrando-a. — Vai!

— Eu estive doente. — Mas faltava convicção à sua voz.

— Agora estás bem . Estás só a fingir que estás doente. — Sorriu ante a expressão furiosa

dela e depois esticou a m ão e beliscou o traseiro.

Ela estreitou os olhos.

— Não te atrevas a tocar-m e. Jam ais.

— Toco-te sem pre que quiser — disse ele. — Você é m inha. Podes querer com eçar a nadar,

se não gelas. — Sem m ais palavras, virou-se e com eçou a nadar lentam ente ao longo da

piscina. Levou um segundo, m as ela com eçou a nadar atrás dele.

Aquando dos seus piores dias, durante os quais a dor na perna era tudo aquilo em que

conseguia pensar, ir ali à piscina libertava-o. Lim pava- a cabeça, evitava que pensasse no

láudano e no brande. Evitava que pensasse em suicídio.

Por isso, nadava m esm o à frente de Linnet, para o caso de ela precisar de aj uda, com

esperança de que a água tivesse nela o m esm o efeito tranquilizante. Na outra extrem idade,

ela agarrou-se a um a rocha e arfou um m om ento. Tentou puxá-la contra você, m as ela disse:

— Estou bem -, afastou-se e recom eçou a nadar.

Desta vez, ele nadou atrás dela. Ela estava a ir m uito bem , sem a sua aj uda, e, além disso,

proporcionava- um a bela visão das suas pernas a baterem para cim a e para baixo.

Quando chegou à rocha plana, estava sem fôlego, arquej ando e ofegante; ele içou-a para a

borda e saiu da água depois dela.

— É só isso que nadas? — perguntou ela, correndo que nem um a lebre para as toalhas.

— Tenho de ter a certeza de que não vais fugir.

Ela m anteve-se de costas viradas para ele.

— Para onde ia? Não tenho roupa.

— E verdade, esqueci-m e — disse ele. — És dem asiado covarde para ser vista de

verm elho. — Depois voltou a m ergulhar e com eçou a nadar, olhando de vez em quando para se certificar de que ela lá estava. Linnet tinha-se deitado na rocha, tão enrolada no lençol e

nas toalhas que ele não conseguia ver m ais do que a ponta do seu nariz escarlate.

Duas piscinas depois, parecia que a paz e o sol tinham desgastado a sua resistência. Havia

desenrolado as toalhas e o lençol e tinha até despido a chem ise. Estava deitada na rocha com o

um a sereia, absorvendo o sol.

Mais cinco piscinas, e Piers concluiu que, provavelm ente, j á chegava para a pele dela. Içou-

se para fora da piscina e dirigiu-se a ela, abanando a cabeça, de m odo que algum as gotas de

água fria voaram para cim a dela e fizeram -na gritar de incôm odo. Mesm o assim , ele voltou a

ter a ereção. Um único olhar para ela, estendida na rocha e corpo esquecia-se de que estava

frio e bastante cansado.

— Pega num a toalha — disse ela, zangada. Mas o seu olhar não foi tão dissuasor com o

antes. — Com o podes? — explodiu.

— Com o posso o quê? Achas que podias secar-m e as pernas? Sabes bem que eu não posso

fazê-lo, com esta bengala.

Tentou parecer patético, m as os olhos dela estreitaram -se.

— O sol seca-te.

Fez um a carícia lenta a você próprio, os olhos fixos nela.

— Você aqueces-m e m ais depressa do que o sol.

— Com o podes desej ar-m e quando eu tenho este aspecto?

— Engoliu com força, m as Piers j á tinha concluído que a últim a- coisa de que ela precisava

era piedade. Além disso, qualquer inclinação nesse sentido desvaneceu-se quando ela

acrescentou:

— E esse é um dos elogios m ais m al form ulado que algum a vez ouvi.

— Ao contrário de você, eu apaixonei-m e por m ais do que beleza. A sua língua afiada, por

exem plo. Adoro-a.

— Eu não te am o pela sua aparência — disse ela, zangada. — Se fosse isso que m e

interessasse, teria escolhido o Sebastian.

— Bem , se fosse isso que m e interessasse, teria escolhido a enferm eira Matilda.

Ela resfolegou.

— Agora, tem m elhor aspecto do que você. Obviam ente, ela sentou-se, olhos a cham ej ar.

— És um porco estúpido a dizer-m e um a coisa dessas!

— A pele crem e dela — disse, sonhador. — Com o pétalas de orquídea.

Um a lufada de ar escapou dos lábios de um a form a que nunca poderia ser descrita com o

senhoril.

— Isso foi outro resfolego? — perguntou ele. — Meus Deus, que hábito enfadonho. Espero

que a querida Matilda não adquira esse hábito antes de eu pedir a m ão. Ah, espera, eu acho

que j á tenho noiva.

Ela puxou o lençol para cim a de você e deitou-se outra vez, olhos fechados.

— Es ridículo.

Ele tam bém se deitou, ao lado dela. Durante um bocado, lim itaram -se a estar ali deitados,

em silêncio. Com o se fossem as duas únicas pessoas no m undo e não houvesse m ais nenhum a

criatura, além de um m açarico que cantava, desafinado, num a rocha ali perto.

Quando Piers finalm ente se sentou, os olhos de Linnet estavam abertos e tão cheios de

dor que a garganta se apertou. Ela não afastou o olhar, não disse nada.

Antes de ela poder intuir o que ele tinha em m ente, Piers apossou-se do lençol e atirou-o

para o lado.

Esperava que ela berrasse e tentasse tapar-se, m as ela ficou quieta, virou a cara, em bora

não antes de ele ver lágrim as.

— Estou a olhar para você toda — disse, à laia de conversa, fazendo isso m esm o.

— Olha à vontade — disse ela, abruptam ente. — Vais olhar, diga eu o que disser.

— Ainda estás encarnada, m as agora estás apelar tam bém . Deus, estás num a confusão.

Ela levantou-se abruptam ente com o um a boneca articulada de m adeira, olhou para baixo

e gritou tão alto que o m açarico fugiu.

— A água do m ar é cicatrizante — disse ele, pegando no lençol e esfregando a pele m uito,

m uito suavem ente. — Olha para isto. Não estás m uito encarnada em baixo. E não tens

cicatrizes, pelo m enos no abdôm en.

Ela observou-o, um a expressão atônita no rosto.

— Está a sair?

— Claro que está a sair — confirm ou ele. — Isto são crostas que estiveram a tapar as

bolhas da escarlatina, protegendo-as enquanto saravam . Espero — esfregou um pouco m ais

— que todo o seu corpo estej a pronto para m udar de pele, à exceção talvez das costas. O sal

aj udou, e o sol.

— Eu pensava que nunca ia sair — disse ela, tão baixinho que ele m al a ouviu por sobre o

ruído das ondas que rebentavam nas rochas atrás deles.

— Se m e tivesses perguntado, podia ter-te dito. Mas, com o não falavas com igo, não sabia

que estavas com m edo de um a coisa tão disparatada.

Ela tinha o lábio inferior m ais rebelde que ele algum a vez vira.

— Mas, o que é pior — insistiu ele, sem olhar para ela —, é que perdeste a confiança em

m im . Disseste que m e am avas o suficiente para fazer de idiota. Mas, quando chegou à altura,

não tiveste coragem para a m ais leve parcela de hum ilhação. Não querias ver-m e em privado

com m edo que fizesse troça de você e não querias ver-m e em público porque sentias-te

hum ilhada por seres vista pelo Prufrock.

Desta vez, era ele que estava deitado e lançou um braço sobre os olhos.

— Eu am o-te — disse Linnet, parecendo- que Piers estava a roubar- a capacidade de

pensam ento racional por estar tão m agoado. — Mas não posso ser duquesa com este aspecto.

Não quero que ninguém case com igo por com paixão. E não posso casar contigo se for um

horrível...

— Monstro? — interpôs ele. — E essa a palavra que procuras?

— Não — disse ela.

Ele soergueu-se de novo e os seus olhos penetraram os dela.

— Só m e am avas quando eras bela. Para poderes controlar-m e, da m esm a m aneira que

pensas que consegues controlar outros hom ens com o seu sorriso.

— Não! — exclam ou ela. — Não era assim .

— Então, com o era? — perguntou ele. — Num m inuto, estavas a pedir-m e que casasse

contigo, dizendo-m e que esperavas por m im e no seguinte nem sequer olhavas para m im . —

Raiva e dor vibravam na sua voz.

Ela olhou para baixo e exam inou cuidadosam ente o corpo. Ainda, estava verm elho, ainda

estava a pelar, m as, por qualquer razão, sentada ao sol ao lado de Piers, não parecia

m onstruoso.

— Pensei que ias ficar horrorizado — confessou ela, engasgando-se um pouco. — Não

queria que casasses com igo por com paixão. Não podia fazer isso, dar-te um a m ulher feia.

— A com paixão não é um a em oção pela qual eu sej a conhecido. E, m ais, eu não tenho

qualquer hesitação em dar-te um m onstro com o m arido.

— Isso não é verdade — disse ela devagar. — Disseste que m e querias, m as que nunca

casarias com igo. Disseste que eu era bela e a arder em desej o, m as que irias procurar outras

m ulheres, por isso, eu devia esquecer-te.

Palavras feias estavam suspensas no ar entre eles.

— Tens razão — concordou Piers. — Foi abj eto dizer isso.

— Desapareceu da voz toda a indignação; era tão desolada que ela nem conseguia pensar

o que dizer a seguir. — Afastei-te por ter m edo de m e tornar um drogado, um dia. Estava, e

ainda estou, com m edo de perder o controle e fazer-te a vida infeliz.

Subitam ente, o coração de Linnet explodiu de m edo que ele a deixasse, apesar de, ainda

um a m era hora antes, não querer m ais nada além de nunca m ais o ver.

— Despedaçaste-m e o coração quando m e puseste fora — disse ela, abraçando os j oelhos.

— Isso é que m e fez infeliz. Mas, quando adoeci, no galinheiro, com preendi que m e am avas.

Houve um a pausa. O m açarico cantava de novo, um pouco m ais distante.

— Eu disse que m e am avas — repetiu.

— Am o — disse-o, quase irritado.

— Decidi que, se sobrevivesse, nunca te deixaria intim idares-m e outra vez, do m odo com o fizeste quando recusaste casar com igo. — Estendeu o braço para tocar, apenas para tocar,

passando- os dedos pela anca. — Mas depois fiquei tão feia. Não vej o com o podia ser

duquesa.

— Calculo que todas as duquesas são belas — disse ele.

— E um requisito do estatuto.

— No m ínim o, não deviam assustar as pessoas na rua.

— E, por essa razão, pensaste que, j á que tinhas estofo de circo, havias de m e deixar para

outra. E que se seguiria? Jantares no quarto durante cinquenta anos?

— Pensei que ia esconder-m e — disse ela, a voz a trem er um pouco. — Esconder-m e, só,

é tudo.

Silêncio. Depois:

— Você não devias querer esconder-te de m im , Linnet.

— Desculpa — sussurrou ela.

— Despedaçaste-m e o coração por quase teres m orrido e depois despedaçaste-o outra

vez quando m e puseste fora do seu quarto.

Ela não suportava a dor na voz dele, o fato de o ter m agoado, por isso em purrou-o para

baixo, voltando a deitá-lo na rocha. O corpo dele era quente e grande sob a sua perna.

Fam iliar e querido.

— Vais beij ar-m e e tornar tudo m ais fácil? — perguntou ele, sardônico e m eigo ao m esm o

tem po.

— Cala-te — exigiu Linnet. Roçou os lábios nos dele. A língua escapuliu-se e saboreou os

lábios.

— Estou a ver que estás a querer seduzir-m e à m oda antiga, agora que perdeste a sua

beleza.

Mas ela sabia quando ele estava zangado e a tentar m agoar e quando não estava. Daquela

vez, não estava. O seu coração rej ubilou e ela ronronou lá no fundo da garganta.

— Qualquer coisa parecida. — Mordiscou o lábio inferior, do m odo com o ele ensinara.

Piers abriu os lábios à sua súplica e um a paixão crua apoderou-se de am bos por um

m om ento. Mas, depois, ele afastou-se.

— Não posso.

Linnet inclinou-se, seguindo-o. Havia algo na sua voz que fez crescer a excitação não

dim inuí-la.

— Porquê? — Saiu com o um m urm úrio rouco, talvez porque ela estava a beij ar a curva do

seu m axilar.

— Es feia dem ais. Nunca faço am or com m ulheres feias. Nunca poderia am ar um a m ulher

feia.

Por um a fração de segundo, o coração de Linnet vacilou, m as depois com preendeu o que

ele estava a dizer.

— E eu, m eu senhor, só posso am ar um hom em que sej a capaz de m e levar ao colo pela

entrada da porta. Que consiga prom eter-m e que nunca, nunca, tocará em láudano e que

nunca levantará a voz. Podes fazer isso?

Os olhos dele cruzaram -se com os dela: profundos, brilhantes, inteligentes... cheios de

am or.

— Na estalagem , levei-te ao colo pelo corredor e pela entrada — disse ele e a sua voz era

tão rouca com o a dela.

— Isso conta?

— Eu posso voltar a ser bonita um dia — adiantou. — Ou não.

Ele virou-se para a olhar de frente e os seus olhos encontraram -se de um m odo que tinha

tudo que ver com am or, do tipo suficientem ente forte para arrancar alguém da sepultura, do

tipo de nunca esm orecer e nunca falhar.

Do tipo que nada tem que ver com a beleza, hum or ou pernas lesionadas.

— Não posso prom eter-te que não vou perder o controle — disse ele. — Em bora tenha a

sensação de que m e m udaste para m elhor. Posso j á não ser o tal m onstro.

— Não posso prom eter-te que não m orro e não te deixo sozinho. Acho que m e esqueci de

te agradecer teres-m e salvo a vida.

— Eu am o-te — disse ele, a voz a quebrar. — Quando pensei que ias m orrer, quis m orrer.

E assim que saíste por aquela m aldita j anela, quis-te de volta.

Ela passou- a m ão suavem ente pela face.

— Estou de volta.

— Teria ido buscar-te, m esm o não fazendo ideia de que estavas doente. Só que ainda não

podia deixar os m eus pacientes. Bem , na realidade, considerei deixar os m eus pacientes m ais

do que algum as vezes, principalm ente a m eio da noite.

— Isso não teria sido correto — disse ela, com firm eza.

— Teria estragado o nosso casam ento.

— Vai haver casam ento? — Os olhos dele procuraram os dela. — Não seria fácil tom ar os

votos m atrim oniais no seu quarto, m as havíam os de conseguir.

Ela respirou fundo.

— Im portavas-te de casar com um a lagosta a pelar-se? Os olhos dele m ostraram que não

se im portava nada.

— Você não é um a lagosta — protestou ele, roçando os lábios pelos dela. — Onde se vê a

pele nova, pareces m ais um a baga verm elha, um m orango. Um m orango m aduro, delicioso.

— Baga é o m eu segundo nom e — gracej ou Linnet, um a risadinha a escapar- .

— Meu m orango. — Mas chegava- de conversa, por isso, rolou sobre o corpo dela, grande

e forte e, sim , dom inador. — Se não te im portas que eu faça am or contigo enquanto estás a m udar a pele, im portas-te de fazer am or com um hom em cuj o m au hum or leva, por vezes, a

m elhor sobre ele?

— Não — arfou ela, porque a m ão dele... bem , havia partes dela que pareciam estar

exatam ente tão m acias com o dantes.

Teve de esfregar os seios com o lençol até eles ficarem com um lindo tom róseo de

m orango, m as am bos gostaram . E ficaram am bos felizes quando descobriram que a

escarlatina, por algum a razão m isteriosa, não tinha tocado o interior das suas coxas.

Havia outras coisas pelas quais estavam felizes tam bém .

Depois, deitaram -se na rocha enquanto Piers se concentrava em polir a sua am ada para

ficar com um tom rosado uniform e.

— A m inha cara tem cicatrizes? — perguntou Linnet, ansiosam ente, um tem po depois. —

Diz-m e a verdade.

— Absolutam ente nenhum a. Não é nenhum a rainha Isabel. De fato, em bora odeie dizer-

te isto, um bocadinho de pó de arroz e os Patinhos vão babar-se outra vez por você. — Ao

que parecia, concluíra que os seus seios precisavam ainda dem ais atenção.

Linnet com eçou, a m edo, a apalpar o rosto, Os dedos a deslizarem sobre as m açãs do rosto,

o queixo, os lábios. Tudo m acio, novam ente.

— Não sei se serei capaz de esquecer isto algum a vez — disse ela, com um arrepio.

— O galinheiro, a erupção cutânea e eu estar tão quente e cheia de sede.

Piers segurou- o rosto entre as m ãos.

— Nunca m e perdoarei por não ter estado lá contigo.

— Queres dizer, do m esm o m odo que o seu pai não se perdoa a você próprio?

— Nós conversam os — disse ele, rispidam ente. — Eu tentei pensar no que você havias de

querer que eu dissesse.

Ela ficou alegre.

— Então, disseste- que ele era um dedicado...

— Não.

— Nem sequer sabes o que eu ia dizer!

— Nada nesse gênero.

— Então, que disseste? — perguntou ela, um tanto desiludida.

— Que o am ava. Não com tantas palavras, m as ele percebeu.

— Quando eu estava m uito doente, sonhei que a m inha m ãe estava com igo na piscina.

— Na água?

— Debaixo de água. Eu estava a flutuar para longe, porque ali não havia sofrim ento e

estava fresco e húm ido. Mas ela em purrava-m e para trás.

Piers agarrou Linnet contra o peito.

— Ainda bem .

— Tam bém perdoei — disse ela, baixinho. — Ela am ava-m e.

— Bem — disse ele —, você é adorável. E não porque é bela, tam bém . E nem sequer

porque estás de um rosa deleitável que eu nunca vi num a m ulher.

Lágrim as espalharam -se nos olhos de Linnet.

— Eu pensava que ninguém ...

— Shhh — disse ele, roçando os lábios nos dela. — Eu pensava que nunca m e interessaria

por outra pessoa.

— Estávam os am bos enganados — resum iu Linnet, a m ão a deslizar em torno da cabeça

dele a fim de puxar os seus lábios para os dela.

— Doce m orango — sussurrou Piers, algum tem po depois.

— Sim ? — Ela em ergiu do beij o atordoada, os lábios inchados, o coração a bater.

— Não posso Voltar fazendo am or em cim a desta rocha. Detesto parecer convencional,

m as os m eus j oelhos estão esfolados. Vam os para casa? Tenho lá um a cam a

m aravilhosam ente m acia. Está no quarto principal, que ainda não viste, m as que podes

tam bém reivindicar com o seu.

— Casa — repetiu ela, dom inando-se.

— A nossa casa.

Assim , puseram -se de pé, e fizeram um a túnica grega com o lençol e dirigiram -se a casa

de m ãos dadas.

Quando chegaram , Linnet sorriu a toda a gente, desde Prufrock até ao duque. Ninguém reparou, na realidade, que ela tinha a pele rósea, cor de m orango.