Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 11
Bem , tenho de voltar a dizer- que a m inha perna está a doer com o um filho da m ãe?
— Há necessidade de ser tão...
— Malcriado? A senhora entrou na m inha enferm aria. Tirou da cam a um rapaz que só há
três dias saiu do aparelho de gesso. Deu ordem para o transportarem até lá abaixo, a água, e
depois aos estábulos, e agora ele está a gatinhar no chão. O rapaz nem consegue estar em pé
sozinho. Não podia andar se a senhora não...
— Olhem ! — gritou Gavan de trás dele. — Olhem para m im !
Eles viraram -se.
Tinha Rufus nos braços e estava em pé. O cão lam bia o queixo.
— Ele gosta de m im !
11
Linnet vestiu-se para o j antar num estado de espírito m uito som brio. Então a ala oeste
não estava com pletam ente cheia de pessoas m oribundas. Sentia-se um a idiota... e, ao m esm o
tem po, beligerante. Piers estava a tratar dos corpos dos seus pacientes, obviam ente. Mas
não interessava quão enfadonho era estar deitado naquelas cam as, dia após dia.
No entanto, isso não era da sua conta. Eles não eram feitos um para o outro e a ideia de
ele poder, algum a vez, apaixonar-se por ela, quanto m ais em duas sem anas, era ridícula. O
casam ento estava fora de questão.
Por isso, tinha escrito um a nota ao duque, solicitando- que partissem no dia seguinte.
Tinha de decidir o que fazer da sua vida e isso significava voltar para casa do pai, prim eiro
que tudo. Depois... talvez um a viagem . Talvez o Continente.
Sentia-se m uito sozinha. Mas, afinal, ela estivera sozinha desde a m orte da m ãe.
Aborrecida com você própria por se lam uriar com o um a criança egocêntrica, pegou no livro,
m as foi incapaz de se perder nas descrições de curas para a dor de dentes. Tinha a sensação
de que o duque não estaria na disposição de partir de im ediato.
Não fazia ideia do m otivo por que Piers e o pai não tinham falado durante anos, m as a
expressão no rosto do duque era inequívoca. Estava profundam ente feliz por estar na
presença do filho, m esm o com portando-se esse filho, a m aior parte do tem po, com o um
perfeito asno.
Estava sentada ao toucador, a ler em voz alta excertos dos escritos m édicos a Eliza, que
estava a puxar- o cabelo com agilidade para o com por num arranj o elaborado no cim o da
cabeça, quando subiu do pátio um a explosão de barulho.
— Que diabo é aquilo? — disse Linnet.
Eliza pousou um pente com j oias incrustadas e correu à j anela.
— E um a carruagem — disse ela. — Exatam ente com o um a abóbora, toda am arela e
brilhante.
Linnet chegou a tem po de ver um tornozelo elegante, num requintado sapato de salto alto,
em ergir da carruagem . Pertencia a um a senhora que usava um fato de viagem cor de am eixa
e um descontraído chapelinho do qual saíam , em caracol, não um a, não duas, m as três plum as
delicadas.
— Que encanto — suspirou Eliza. — Aquele chapéu tem de ter vindo de La Belle
Assem blée. Tem qualquer coisa de especial. Vê-se.
Linnet voltou para trás e sentou-se.
— Talvez tenha chegado um a rival para a m ão de Lorde Marchant.
— E m ais provável que estej a doente — disse Eliza, voltando a pegar no pente. — Os
criados dizem que vem gente de toda a Inglaterra para o consultar. De toda a Inglaterra e
talvez do estrangeiro, tam bém . Talvez da Escócia.
Linnet não queria pensar se Piers era ou não bom m édico, dado o m odo com o ele se ria
dela. Os olhos dele eram m aus, m esm o m aus. Sabia perfeitam ente que ela acreditara que
Gavan estava a m orrer e tinha-a deixado continuar fazendo figura de idiota.
— Espero que sej a outra candidata a futura duquesa — com entou ela. — Vou gostar de a
ver considerar a possibilidade de viver com aquele hom em a vida toda.
— Pronto — disse Eliza, enfiando o pente nos caracóis de Linnet. — Está pronta. Linnet levantou-se e dirigiu-se lentam ente para a porta, m as não apeteceu descer.
Principalm ente depois de Piers se possa rido dela e de a ter feito sentir-se um a grande
im becil.
— Talvez...
— Não — disse Eliza, com firm eza. — Ele pode ser o diabo em pessoa, com o dizem que é.
Não vai ficar escondida no quarto. Vá lá para fora e faça-o apaixonar-se por você.
Linnet resm ungou.
— Estam os todos a contar com você — disse Eliza, em purrando-a para fora da porta.
Linnet desceu as escadas devagar, contando, taciturna, todos os degraus. Pensava que tinha
sido hum ilhada quando um salão de baile inteiro virara as costas. Quem pensaria que a
hum ilhação seria ainda m aior quando o estúpido de um m édico se rira na sua cara?
Ouviu-se um a onda de vozes excitadas a vir da sala de estar e Prufrock estava do lado de
fora da porta aberta, sem sequer ter a pretensão de parecer um m ordom o.
— Que se passa? — perguntou ela, chegando ao fundo das escadas.
— Chegou a duquesa para visitar o filho — inform ou Prufrock.
— Isto é, a ex-duquesa.
— Quer dizer a m ãe de Lorde Marchant? Ela não vive no estrangeiro? — Linnet sentiu
um a ponta de interesse.
— Ao que parece, esteve na Andaluzia uns m eses, m as cansou-se e decidiu viaj ar para
Gales e fazer um a surpresa ao filho.
— E descobre que o duque está aqui — disse Linnet. — Fascinante!
— O duque ainda não chegou aqui abaixo. Portanto, essa alegria ainda está
presum ivelm ente para acontecer — disse Prufrock, que abriu a porta de par em par, passou
para o lado de dentro e anunciou:
— Miss Thry nne.
Toda a gente que estava na sala interrom peu a conversa e virou-se para a porta. Num a
im itação óbvia de Zenobia, Linnet parou por um breve instante sob o caixilho da porta antes
de entrar na sala.
Houve um pequeno m ovim ento em direção a ela: o m arquês Latour de L’Affitte, os três
m édicos, m as Piers não.
Ela estendeu a m ão para o prim o de Piers, Sebastian, que se inclinou sobre os seus dedos
com o o nobre francês que era. Mas os olhos dela desviaram -se para o lado. Lá estava ele.
Piers encontrava-se encostado ao piano, os olhos baixos, com o se ignorasse tudo o que estava
a passar-se na sala.
Claro que levantou os olhos. Estava quase tão sonolento com o um leão em boscado à
espera de um a gazela para a perseguir. Havia troça naqueles olhos... e qualquer outra coisa.
Essa qualquer outra coisa retesou a coluna vertebral de Linnet. Ela voltou a olhar para o
m arquês e lançou um sorriso derretido.
— Fale-m e do seu dia. Lorde Marchant contou- que eu o enfureci por levar um dos seus
pacientes lá para fora, para o ar livre?
Sebastian era verdadeiram ente adorável à m aneira francesa. Os seus olhos enrugavam -se
com riso pronto.
— Eu enfureço o Piers com tanta regularidade que m al consigo aperceber-m e do estado.
Mas, com o ele tem m uito m ás m aneiras para ser ele próprio a desem penhar essa tarefa,
tenho de a apresentar à sua m ãe, m inha tia. Ela chegou apenas há um a hora.
Um m om ento m ais tarde, Linnet estava fazendo um a reverência perante a senhora petite
e absolutam ente elegante.
— Lady Bernaise — disse Sebastian. — Posso apresentar- Miss Thry nne? Ela
em preendeu a viagem até Gales para conhecer o seu filho, com o ouviu dizer.
A m ãe de Piers não m ostrava quaisquer sinais de fadiga da viagem ; de fato, era bela, com
um a pele brilhante que desm entia a sua idade.
— Enchantée — disse ela, com um sorrisinho preguiçoso, que lem brava a Linnet o seu
filho. Aquilo dizia tudo... e nada, ao m esm o tem po. — Por aquilo que o querido Sebastian
disse, entendo que é a m ulher destinada ao m eu filho.
— Não destinada — disse Linnet. — Possível.
— Tenho estado longe de Inglaterra há tantos anos — continuou Lady Bernaise, agitando
a m ão. — Tem de m e perdoar os erros. Desej a casar com o m eu filho?
— Se não, ficarei m uito feliz por oferecer a m inha m ão — disse Sebastian. Estava a rir-se,
claro, m as havia um fio de seriedade na sua voz.
Linnet dirigiu- um sorriso sob as pestanas. Ele era tudo o que Piers não era: gentil, bem -
falante, atencioso. E vestia-se m aravilhosam ente.
— Receio que eu e o seu filho não tenham os sido feitos um para o outro — disse ela a Lady
Bernaise.
A senhora abriu o leque com um estalido e olhou para Linnet por cim a dele.
— E com o chegou a essa conclusão?
— Ela esteve com ele m ais do que cinco m inutos — interpôs Sebastian.
— Lorde Marchant disse-m e o m esm o — disse Linnet.
— E eu concordo. Tem o enfurecer o pobre hom em , o que não seria um a boa base para o
casam ento.
— Desde quando sou um pobre hom em ? — perguntou Piers, atrás do seu om bro.
— Um hom em que se veste com o você só pode esperar que o considerem pobre, m on cher
—respondeu a m ãe. — Onde encontraste esse casaco, num m onte de lixo?
— Não, num caixote do lixo — precisou ele. — Olhe, m ãe, lem brei-m e de dizer que o m eu
querido e desprezado pai tam bém está aqui em casa?
Os olhos de Lady Bernaise estreitaram -se por um a fração de segundo.
— Deves ter-te esquecido, com a sua excitação por m e veres depois de todos estes m eses.
— Provavelm ente foi isso — concordou ele. — Isso e a m inha pobre m em ória. Valha-m e
Deus, ele deve descer a qualquer m om ento.
Lady Bernaise aclarou a voz.
— Não, ele j á não consom e ópio — disse Piers, aj udando.
Sebastian dirigiu a Linnet um sorriso pesaroso.
— Nós j á estam os a tratá-la com o m em bro da fam ília, Miss Thry nne.
Linnet estava a tentar perceber o que estava exatam ente a ser dito. Poderia o duque ter
tom ado ópio com o algum a espécie de m edicação? Ele parecia m uito saudável para um
hom em da sua idade, com os seus cinquenta e poucos anos, pensava ela.
— Ele é um viciado — esclareceu Piers, adivinhando, aparentem ente, os seus
pensam entos tão depressa com o adivinhara os da m ãe. — O ópio é um analgésico e, com o
tal, cria dependência, o que significa que não podia deixar de o tom ar. Sem dúvida, com eçou
a tom á-lo por causa de um dedo do pé m agoado ou qualquer coisa assim . Costum ava andar
às voltas pela casa, dando-nos, à m ãe e a m im , entretenim ento sem fim .
Lady Bernaise fechou o leque e deu ao filho um a pancada ríspida na m ão.
— Não podes ser desrespeitoso em relação ao seu pai na m inha presença.
— Depois, quando a m ãe fugiu finalm ente para França, levando-m e com ela, graças a Deus,
ele divorciou-se dela — acrescentou Piers. — Disse ao m undo inteiro que ela era infiel e que
tinha fugido com um j ardineiro. O que, a propósito, não era verdade. O nosso j ardineiro tinha
pelo m enos oitenta anos e não podia ter sobrevivido à excitação.
— Estás a lavar a nossa lingerie suj a em público — criticou Lady Berrnaise, lançando um a
carranca feroz.
— A Linnet não é o público — disse Piers. — E a m inha noiva, pelo m enos até um de nós
decidir m andar um a notícia de cancelam ento para o Morning Post.
— O m eu pai encarregar-se-á dessa tarefa assim que eu chegar a Londres — retorquiu
Linnet. — Nós partim os am anhã.
— Tem de partir? A m enina é ravissante — disse Lady Bernaise a Linnet. —
Extrem am ente encantadora. Podia dar-se bem em França. Em bora eu ache que deve ficar
ainda m elhor quando puder usar cores que não o branco. Talvez deva casar com o Piers por
essa razão.
— Enquanto seu m arido, ficaria m uito feliz por ir com você às m odistes — adiantou-se
Sebastian. — Enquanto o Piers preferiria m orrer a acom panhá-la num a m issão dessas.
— Sim , m as você é um ano m ais novo do que o m eu Piers — disse Lady Bernaise. — O
Piers devia casar prim eiro.
Linnet abriu a boca para dar um a resposta qualquer, quando Lady Bernaise voltou a abrir
o leque e se escondeu atrás dele.
Toda a gente que estava na sala se virou para a porta, m esm o os j ovens m édicos faladores
e o lacaio que estava j unto ao aparador.
O duque estava m uito pálido e parecia m ais velho do que um as horas antes. Mas
atravessou a sala logo em direção a eles, sem se incom odar a reconhecer a presença dem ais
ninguém .
Vestia calções de veludo e um casaco tam bém de veludo extraordinariam ente elegante,
que realçava o efeito de m oeda rom ana do seu perfil, tinha Linnet de adm itir. Não parecia
um viciado em ópio. Mas, afinal, que sabia ela dessas coisas?
— Atraente, não é? — com entou Piers, com voz arrastada, ao seu ouvido.
— Sim , é — disse ela.
— Não vou dizer à querida m ãe que a senhora disse isso. Nem que ele pode decidir casar
com você se eu a rej eitar. Ela pode ter ainda um pingo de afeição pelo velho estupor.
O duque estava a inclinar-se sobre a m ão da sua anterior m ulher, beij ando-a. Ela havia
baixado o leque, m as o seu rosto não tinha qualquer expressão.
— Meu Deus, ele não poderia m ostrar-se m enos desej oso? — m urm urou Piers. — É um a infâm ia para o sexo m asculino. Acho que a senhora vai ter de se resignar a casar com igo. Ou
com outra pessoa, m as com ele, seguram ente que não.
— Talvez ele sinta que com eteu um erro — respondeu Linnet, perfeitam ente serena.
— Acha que a sua m ãe poderá perdoar- ?
— Por causa do ópio? E possível. Por ele a ter difam ado aos quatro ventos por toda a
cidade de Londres, j á para não falar nos tribunais, com o um a m istura de libertina e
prostituta? Não é provável.
As costas de Lady Bernaise eram direitas com o um fuso e o seu olhar era tudo m enos
atiradiço.
— Então, Windebank — disse ela —, diz-m e lá com o tens passado todos estes anos desde
que eu saí de Inglaterra. — A sua voz tinha o tim bre claro e frio de pedras de granizo, a bater
em m árm ore.
— Ai — ironizou Piers.
— Com certeza — concordou Linnet. — Não devíam os olhar.
— Porque não? E m uito reconfortante ver aquela expressão de angústia no rosto dele. O
velho idiota m andou-a em bora num a fúria provocada pelo ópio, m as penso que m ais tarde
se arrependeu.
Linnet virou-se e ergueu os olhos para Piers.
— Com o se com porta um viciado em ópio?
Os olhos dele tornaram -se som brios.
— Num m om ento, o viciado está m uito contente, a divertir-se, dançando pela casa em
roupa interior e agindo, em geral, com o se tivesse um a insolação. No m om ento seguinte,
vom ita. E um a situação m uito suj a e nada atraente.
— Quando era pequeno e a sua m ãe o levou para França, tinha algum a ideia do que se
passava com ele?
— Era novo dem ais para perceber. Mas j á tinha aprendido a estar atento a intoxicações.
Os filhos de drogados aprendem depressa a recear a fala pouco clara, sinais de confusão,
olhos inj etados de sangue.
— Reparava nos olhos dele?
— Talvez não reparasse nessa altura. Mas agora repararia. As pupilas contraem -se com o
consum o crônico de ópio.
— Deve ter sido terrivelm ente angustiante para um a criança — disse ela, pondo um a m ão
no braço. — Lam ento.
Piers fitou-a, os olhos im possíveis de ler.
— Estou grato por isso.
— Porquê? Porque a sua m ãe o levou para França? — O braço dele estava quente sob os
seus dedos e, estupidam ente, ela pensou nos m úsculos que vira nessa m anhã.
— Fez de m im um m édico — disse ele, indiferente. — Se não fosse o vício dele, eu estaria
sentado num clube londrino a j ogar xadrez e a pôr a hipótese de rebentar com os m iolos de
aborrecim ento.
Lady Bernaise estava aparentem ente cansada de conversar com o seu ex-m arido.
Apareceu ao lado de Linnet.
— Meus lindos — disse ela. — Estou com dores de cabeça.
— A dor de cabeça m atrim onial? — questionou Piers. — Pensava que um a pessoa tinha
de ser casada para ser incom odada por um a coisa dessas.
— Sem pre, você dizes a graça — disse ela, agitando o leque na sua direção. — A vida não
é a graça, sem pre a graça. O seu pai podia dar-m e um a dor de cabeça m esm o quando eu estou
afastada dele por um continente inteiro, garanto-te.
— Peço desculpa — disse o duque atrás dela. — Por favor, não recolhas ao seu quarto. Eu
vou-m e em bora.
— Não, você ficas aqui com o nosso filho — disse ela, sem olhar para ele. — Perdeste
dem asiados anos da com panhia dele. Merecidam ente, m as suponho que agora estás
consciente da perda em que incorreste.
— Sim . — O duque não estava, no entanto, a olhar para Piers. Tinha os olhos postos na ex-
m ulher, na sua pequena figura, nas suas curvas perfeitas, no brilho do seu cabelo, na
elegância com que estendia a m ão, prim eiro a Linnet, depois a Piers.
— Penso que Sua Graça fez bem quando a escolheu para o Piers — disse ela. — Sim , acho
que realm ente fez um a coisa bem . — O seu tom m ostrava perfeitam ente que o duque a
surpreendera com aquele m om ento de sucesso.
E depois afastou-se a passo rápido.
— Controle-se — disse Piers ao pai. — Parece um cão a babar-se por um grande osso
suculento. Diabo, nesta altura j á devia ter arranj ado um a segunda m ulher. Ela casou com
outra pessoa; porque não fez o m esm o? Nesse caso, teríam os um a nova duquesa por aí a
tentar tratar a m ãe de form a paternalista. Ora, isso seria interessante.
O duque engoliu em seco.
— Nunca haverá m ais ninguém para m im — disse ele. — Eu m agoei-a tanto porque a
am ava ainda m ais. Em bora nessa altura eu não pudesse com preender, claro. Agora, vivo com
essa decisão, com o hom em que eu era.
— O pai parece a personagem principal de um m au m elodram a — disse Piers, sem hesitar.
— Shhh — apaziguou Linnet.
— Miss Thry nne, recebi a sua nota pedindo para partir am anhã de m anhã — disse o
duque. Tinha um ar desesperado.
—Talvez se ficássem os uns dias... o senhor e Lady Bernaise pudessem ter tem po para
conversar — reconsiderou Linnet.
— Não há pressa especial.
— Eu sabia — disse Piers, recuando dram aticam ente. — Durante todo este tem po esteve
apenas a fingir que não queria casar com igo.
Linnet olhou para ele e desatou a rir.
— Sim , o dia de hoj e fez-m e com preender o santo que o senhor é. O sonho de qualquer
m ulher.
— Seria m uito gentil da sua parte — disse o duque. — Em bora eu não queira que ela fique
ainda m ais zangada com igo.
— Oh, isto é m aravilhoso — ironizou Piers. — A noiva não desej ada e o ainda m enos
desej ado parente de sangue decidem ...
Linnet deu- um a forte cotovelada no estôm ago e ele engoliu as palavras.
— Ficarem os o tem po que desej ar — disse Linnet ao duque. — Afinal, talvez devesse
refletir m ais nas m inhas expectativas m atrim oniais. Talvez haj a no seu filho m ais do que
aquilo que se vê. — Lançou um olhar sardônico. — Não devia rej eitá-lo tão depressa.
Provavelm ente, só parece um pateta infantil. Ou, provavelm ente, só age com o tal, m as há um
adulto lá dentro, pronto a sair um dia.
— Eu vou ser duque, quer ultrapasse o m eu estado infantil ou não — observou Piers.
— A não ser que a senhora case aqui com o m eu pai, provavelm ente nunca voltará a
receber um a proposta desta m agnitude.
— Ah, estava fazendo um a oferta? — disse ela, com doçura.
— Não, o m eu pai fê-la por m im — disse ele. — Então, que pensa, Vossa Graça? Vai ficar
aqui e tentar voltar a cair nas boas graças da m ãe? E im possível, para o caso de estar
pensando nisso.
Linnet deu- um beliscão.
— Claro que não é im possível. Especialm ente desde que possa contar com os bons
conselhos do seu filho e herdeiro.
— Posso aj udá-lo, se ele tiver hem orroidas — disse Piers.
— Mas tenho ouvido dizer que o casam ento é realm ente o pior desses dois m ales.
O duque olhou para ele, abanando a cabeça.
— Você nunca casarás, pois não? Linnet sentiu pena dele.
— Se calhar, terá de se decidir a fazê-lo — disse ela. — Terá de encontrar a sua própria
m ulher.
— E tão fácil fazer isso por aqui — interpôs Piers. — Não pode im aginar quantas j ovens
senhoras sobem o cam inho, queixando-se de edem as estranhos, cegueira, vôm itos... toda a
espécie de doenças m aravilhosas.
— Bem , é esse o grupo do qual tem de escolher — declarou Linnet, encolhendo os om bros.
— Talvez devesse ficar com você — disse Piers.
— Não se cansa de se com portar com o um garoto? — perguntou ela. — Não dê ouvidos
— aconselhou ela, virando-se para o duque. — Um destes dias vai aparecer um a m ulher à
espera de bebê e ele casa com ela porque é o m ais prudente.
— Não é prudente a não ser que eu tenha a certeza absoluta de que ela está à espera de
um rapaz — disse Piers — e, tanto quanto sei, não há m aneira de com provar isso.
— O senhor pode sem pre substituir um dos outros filhos dela — sugeriu Linnet. Piers riu-
se à gargalhada.
O duque sorriu, constrangido.
— A prim ogenitura pode ser assunto de risota, para am bos, m as a m inha fam ília tem tido
este título durante centenas de anos.
— Até o senhor ter arrastado o seu nom e pela lam a tornando-se fanático do ópio — atirou
Piers, virando-se. — Devem ser horas de j antar. Prufrock, de que diabo é que estás à espera?
Toca essa cam painha antes que com ecem os a roer as pernas uns dos outros.
Linnet enfiou o braço no do duque.
— Dia difícil — disse ela.
Ele deu- um as palm adinhas na m ão.
— Eu escolhi bem , escolhendo-a a você, m as percebo o que quer dizer. — Piers cam inhava
à frente, a passos largos, j á fora da sala, não prestando qualquer atenção às convenções
sociais que exigiam que ele esperasse que, se não ela, certam ente o pai, entrasse prim eiro na
sala.
— Pode j á ter reparado que eu não estou à espera de bebê — arriscou Linnet. Estava a
sentir m ais do que um laivo de culpa pelas falsidades que a tinham levado a Gales.
O duque ficou com um a expressão profundam ente em baraçada e agitou a m ão, com o se a
dizer que era irrelevante.
— Eu penso honestam ente que o seu filho vai casar um dia — disse Linnet. Em bora
estivesse a m entir. Não conseguia im aginar a m ulher que não só suportasse Piers com o
tam bém conseguisse fazer- frente.
— Talvez, talvez. Tinha tido esperanças... m as agora vej o que são m uito parecidos.
— Ora isso, Vossa Graça, é um insulto, se m e perdoa a m inha franqueza — disse Linnet,
sorrindo- .
— Não era certam ente essa a m inha intenção. Que vai fazer a seguir, m inha querida?
— Vou voltar para Londres — disse Linnet. — Talvez vá para o estrangeiro. Ou talvez vá
diretam ente para casa de Lady Jersey dizer- que não estou à espera de bebê. E depois obrigo
o príncipe a reconhecer que não havia qualquer possibilidade de isso acontecer. E depois
caso com alguém .
— Muito bem — concordou o duque. — Pode contar com o m eu apoio. Creio que a m inha
opinião terá um a influência significativa em Lady Jersey.
Ela sorriu- .
— Obrigada.
Linnet estava a sonhar que a m ãe se encontrava sentada aos pés da: cam a, a rir e a atirar
cerej as. Não tinha m uito boa pontaria e um a ressaltou no om bro de Linnet e caiu ao chão;
outra caiu em cim a dos lençóis. Mãe/, protestou ela. Vão fazer um a porcaria. E m anchar a
roupa de cam a.
A m ãe apenas riu. É tudo um a brincadeira, querida. Tens de...-
Mas o que quer que a m ãe tenha dito perdeu-se quando Linnet foi bruscam ente acordada.
Pestanej ou através de um a cortina de cabelo desgrenhado e viu que não era a m ãe que estava
aos pés da cam a. Era Piers, sentado ali, tão à vontade com o se fosse o irm ão que ela não
tivera.
E no entanto... ela lançou um olhar ao seu rosto esguio, agora som breado pela barba, e
todo o seu corpo disse que não era um irm ão que estava no quarto. Não tinha casaco e os
om bros esticavam as m angas da sua cam isa branca de linho. Sentiu calor subir-às faces.
— Olá — disse ela.
Aquilo era absurdo! Ele era im potente e havia de fazer troça dela de um m odo intolerável,
se tivesse a m ais pequena ideia de que ela gostava tanto da aparência dele. Não, era m ais do
que isso: um a adm iração perfeitam ente norm al de beleza física.
— Está a planear levantar-se nas próxim as horas? — perguntou Piers, a voz tão
perem ptória com o sem pre. — Trouxe- um a chávena de chocolate quente. Senti-m e tal e qual
a criada de um a senhora, em bora um desses eunucos que andavam a servir os im peradores
fosse m ais m eticuloso.
Ele não parecia um eunuco, não que ela tivesse algum a vez visto algum . Linnet estendeu
a m ão e pegou na chávena de chocolate quente, envolvendo-a com as m ãos. Era rico e escuro,
quase picante.
Percebia porque é que as pessoas gostavam do casam ento, pelo m enos aquelas que
gostavam realm ente do casam ento. Era engraçado ter m ais alguém ali, de m anhã, com quem
conversar bebendo chocolate quente. Mais ainda, ela gostava de olhar para ele, e, j á que ele
não estava a prestar- qualquer atenção, ela fazia precisam ente isso, observando o j ogo dos
seus m úsculos por entre as pestanas.
O corpo m asculino era tão diferente do dela, tão atraente à sua m aneira. Silenciosam ente,
enviou um pedido de desculpas à m ãe. Tinha razão, m ãe. Piers estendeu o braço e a cam isa
ficou esticada dos m úsculos do om bro.
Pela prim eira vez, pela prim eiríssim a vez, com preendeu o que fazia os olhos da m ãe
ficarem tão brilhantes quando ela saía para um dos seus encontros.
Depois, de súbito, percebeu exatam ente para onde estava a olhar. Piers tinha a bengala na
m ão e estava inclinado para a frente. Percorreu com os olhos a haste da bengala e soergueu-
se com um gritinho, quase entornando o chocolate.
— Pare com isso, j á!
Ele voltou a tocar.
— E tão difícil acordá-la que pensei que um pouco de artilharia aj udava.
Ele tinha a caixa das j oias dela equilibrada m esm o na beira do toucador. Mais um toque e
caía.
Linnet pousou o chocolate na m esinha de cabeceira.
— Dê-m e isso! — exigiu ela, agarrando a bengala e voltando a deitar-se para trás. — Não
pode exercer o seu sentido de hum or infantil sobre a m inha caixa das j oias. Herdei-a da
m inha m ãe. Tem incrustações de m adrepérola, feita em Veneza.
Piers inclinou-se na sua direção, pondo um a m ão ao lado de cada anca.
— E a segunda vez que m e cham a infantil. Já houve hom ens que foram desafiados para
um duelo por coisas piores.
— Não por você. O senhor é aleij ado.
Houve um a pausa de um a fração de segundo.
— Ora, isso é m esm o cruel — disse ele baixinho, inclinando-se para a frente.
— Não é pior do que a m aneira com o o senhor fala com as pessoas — disse ela, consciente
de que o seu tom de voz era nitidam ente j ubiloso.
Ele m udou de posição e, subitam ente, as suas m ãos estavam de cada lado da cintura dela,
tão perto que ela sentia o seu calor. Ela apertou a bengala com força, incapaz de reprim ir o
sorriso. Arreliá-lo era inebriante... e perigoso,
Piers confirm ou exatam ente aquilo que ela estava pensando.
— Nunca ninguém disse que a m inha alcunha é o Monstro?
Ela franziu o nariz.
— Com o todos os m eninos de dois anos são cham ados pela am a. Que vai fazer, cham ar-
m e nom es? Não vai ter qualquer efeito; toda a cidade de Londres j á se refere a m im pelos
piores nom es que se podem cham ar a um a senhora.
— Bem , há um a coisa que a senhora e a m inha m ãe têm em com um — disse ele. —
Enroscar-m e com um a prostituta vai fazer-m e sentir em casa.
Um pouco desaj eitadam ente, ela virou a bengala e espetou-a no peito dele.
— Pode fazer o favor de se chegar para trás? Isto é extrem am ente im próprio.
Ele não se m exeu. Os olhos cintilavam com um a espécie de em oção que ia m uito para lá
da im propriedade.
De repente, Linnet apercebeu-se de que se tinha enganado em relação a ele. Tinha
pressuposto que um hom em im potente era... bem ... incapaz de sentir desej o.
Era óbvio que Piers não tinha qualquer problem a com desej o.
Ele sabia o que ela estava pensando. Os seus olhos desceram lentam ente pelo rosto de
Linnet, parando nos lábios, lentam ente pelo pescoço, parando...
E ficaram paralisados.
Ela olhou para baixo e viu que a fina cam braia da sua cam isa de noite estava presa debaixo
dela, puxando-a, j usta, sobre o corpo. Os seus seios m al estavam cobertos, os m am ilos
rosados nitidam ente visíveis. Ela atirou a bengala para o lado e dobrou os braços sobre o
peito.
— Não devia estar a olhar para m im dessa m aneira — declarou.
— A senhora é m inha noiva. — A sua voz era rouca e pesada, sem qualquer das habituais
nuances trocistas que geralm ente acom panhavam cada um a das suas palavras.
— Já não sou — disse ela, lam bendo o lábio inferior.
— Sabe — disse ele —, acho que devíam os explorar toda esta questão do noivado um
pouco m ais m inuciosam ente. Podem os estar a deitar fora o bebê com a água do banho.
Ele aproxim ou-se m ais um a vez. Agora, as suas m ãos estavam na alm ofada dela, o seu
rosto m esm o por cim a do dela.
— Fui beij ada por um príncipe — contou- ela. A sua voz não saiu m elíflua com o a dele;
rangia.
— Com petição — disse ele, os olhos a cintilarem ainda com m ais brilho. — Eu sou
ferozm ente com petitivo, sabia? — Baixou a cabeça e lam beu o lábio inferior com um
m ovim ento doce e suave.
Linnet pestanej ou com a onda de excitação que percorreu o corpo.
— O príncipe Augustus ganha — conseguiu dizer.
— Mas eu ainda nem sequer com ecei — disse Piers. — E sabe? Acho que devem os ficar
por aqui, por agora. Provavelm ente, eu devia m elhorar a m inha técnica. Ler uns livros.
Refletir na m inha estratégia.
A respiração de Linnet estava acelerada e ela tinha os olhos m eio fechados, à espera que
os lábios dele descessem sobre os seus, à espera que ele...
— Com o? — guinchou ela. Que havia nele que a fazia perder todo o seu encanto natural?
— Sabe a chocolate — grunhiu ele, os lábios ainda a pairar sobre os dela. Linnet sentiu os
olhos a fecharem -se. Sim ... por favor... o seu estôm ago apertou-se quando sentiu o hálito dele,
chocolate e m enta.
— Se fosse um bom bom , dava- um a dentada. — Baixou a cabeça e... m ordeu-a? Mordeu o
lábio inferior. Contra todo o pensam ento racional, Linnet sentiu um a onda de calor
perpassar- o corpo.
Os olhos abriram -se de repente.
— Tenho de pensar que precisa m esm o de ler um ou dois livros — disse ela. — Eu sou a
prim eira m ulher que o senhor beij a? Se cham a a isso beij ar?
Piers endireitou-se e bateu no queixo com o dedo.
— Deixe-m e ver... parece que m e lem bro... Não! Não é a prim eira m ulher. Acha
decepcionante?
— De qualquer m aneira, não m e interessa.
Ele levantou-se.
— Que diabo fez com a m inha bengala? Oh, está ali. Agora pode fazer o favor de se levantar
dessa cam a e vestir qualquer coisa para poderm os ir nadar?
Mas agora era tudo diferente. Piers podia parecer exatam ente o m esm o, tão indiferente e
sardônico com o sem pre, m as Linnet não se sentia a m esm a. Ela não podia sim plesm ente
saltar da cam a e atravessar o quarto em cam isa de noite depois daquele beij o. Ou m eio beij o.
Ele olhou e percebeu o que ela estava pensando.
— Núm ero um , eu nem sequer a beij ei. Núm ero dois, eu não podifazendo suceder ao beij o,
se eu tivesse ido tão longe, um a desfloração. Núm ero três... bem , não há núm ero três, m as
penso realm ente que o núm ero dois diz tudo, não acha?
Linnet aclarou a voz.
— Eu levanto-m e se o senhor se sentar ali. — Indicou com a cabeça um a cadeira. —
Voltado para a parede.
— E com o pensa que eu devo nadar? Se eu m e virar para o outro lado da piscina, a senhora
afoga-se — disse ele, categoricam ente. — Se é isso que pensa, vou-m e em bora. Tenho de
nadar todas as m anhãs, caso contrário a m inha perna castiga-m e.
— Não! — disse ela. — Quero voltar à piscina e aprender a nadar. — Na noite anterior até
tinha tirado para fora um vestido, um a chem ise e m eias, para o caso de ele aparecer.
— Pensei que queria. Então vista-se trem endam ente bem e vam os descer até lá antes que
desapareça toda a luz da m anhã. Em breve terei de ir ver os m eus pacientes. Eles têm o hábito
irritante de m orrer durante a noite.
Os seus olhos j á não cintilavam . De fato, tinha um ar tão indiferente com o sem pre, por isso
Linnet precipitou-se para fora da cam a e correu para trás do biom bo que estava ao canto.
— Estou a ler um dos livros da sua biblioteca — disse- . — Um livro de m edicina. — Ah, sim ? Qual? — Parecia não ter qualquer curiosidade.
— Observações e Investigações Médicas do Dr. Fothergil{7}. E m uito interessante.
— É um perfeito disparate. Não confie em nada do que ele diz. De fato, não confie em nada
do que lê em qualquer desses livros que encontra na biblioteca. A m aior parte deles foi
escrita por idiotas tagarelas.
Ela espetou a cabeça para fora do biom bo.
— Quer dizer que sum o de narciso não fará um hom em perder a sua potência? Que
desilusão!
— Estou a ver que está a planear com antecedência — disse ele, tirando um caracol de
cabelo dos olhos. — Para o próxim o hom em na sua vida, ditoso im becil.
— Bem , daria resultado? — perguntou ela, voltando a baixar-se atrás do biom bo.
— Altam ente im provável. Quer a m eia que acabou de cair ao chão?
— Sim , por favor — disse ela.
Um a m eia de seda voou por cim a do biom bo e pousou no om bro de Linnet.
— Porque se dá ao trabalho de calçar m eias? — perguntou ele. — De qualquer m aneira,
vai tirá-las daqui a cinco m inutos.
Ela j á estava a atar a liga.
— Eu não podia sair sem m eias!
— Daqui a nada vai estar lá fora só com um pedaço de tecido em volta do corpo.
— Não posso ser vista sem as m inhas m eias. — Mas tinha decidido que podia ser vista
sem o corpete. Era dem asiado incôm odo apertá-lo. — Pode aj udar-m e outra vez a abotoar o
vestido?
Ela apareceu de trás do biom bo e encontrou Piers a olhar pela j anela.
— O Sol j á vai alto. Eu devia ir lá para cim a.
— Não. Nadar — declarou ela. — Abotoe-m e o vestido e vam os.
Desta vez, o ím peto da água gelada sobre o seu corpo, sobre o seu rosto, foi m enos
inesperado, m as não m enos brutal.
Piers puxou-a para cim a e ela agarrou-se a ele, exclam ando baixinho:
— Oh, m eu Deus, oh, m eu Deus.
O braço dele, forte e quente, envolveu o corpo.
— Recuperou o fôlego? — gritou- ele ao ouvido.
Ela abanou a cabeça. Não queria soltar-se, m as ele em purrou-a para trás im piedosam ente.
— Boie. Ela boiou.
— Ótim o. Agora faça o m esm o de barriga para baixo. — Ela olhou-o fixam ente, incrédula,
por isso ele estendeu o braço e virou-a ao contrário.
Ela afundou-se de im ediato, m as ele voltou a puxá-la para cim a.
— Sobre a barriga — disse- ao ouvido. — Quero que feche os olhos e flutue de barriga
para baixo. E tão fácil com o boiar de costas.
— Aq-aqueça, aqueça-m e-m e prim eiro — pediu ela, com os dentes a baterem loucam ente.
Ele virou-a, de m aneira que as costas dela ficaram encostadas ao seu estôm ago e voltou a
enrolar um braço em volta dela. O braço estava m esm o abaixo dos seus seios, e, m esm o no
m eio da água gelada, Linnet sentiu... qualquer coisa. Um afluxo de sangue quente que desceu
pelo corpo todo até aos dedos dos pés, que fez a pele form igar, que a tornou consciente do
corpo m usculado atrás dela... e da parte dura dele que a m ãe...
Mas pensar na m ãe no contexto de Piers não parecia correto, por isso afastou esse
pensam ento.
— Está bem — disse ela, respirando fundo. Ele deixou cair o braço, ela balançou para a
frente e boiou, m ais ou m enos.
— Está quase a nadar — gritou- ele ao ouvido.
Ela abriu a boca para responder e engoliu água do m ar.
— Uf — Cuspiu. — Uf!
— E altura de sair da água. Os seus lábios estão a ficar roxos, j á para não falar nos seus
dedos. E, partes im portantes de m im , tam bém . Tenho de com eçar a m exer-m e.
Toda a trem er, Linnet foi aos tropeções até ao m onte de toalhas e em brulhou-se dos pés
à cabeça. Depois, voltou para a piscina e sentou-se na rocha lisa para observar Piers a abrir
cam inho através da água, de um lado para o outro.
O sol estava ainda m ais quente do que na véspera e, em bora ela soubesse que as sardas
eram praticam ente certas, não conseguia evitar levantar o rosto para ele e deliciar-se ao sol.
Nem , daí a pouco, deitar-se na rocha quente para que o sol chegasse ao pescoço e aos
om bros.
A rocha debaixo dela irradiava calor, por isso ela desenrolou a toalha que tinha à volta da
cabeça para deixar o cabelo secar. E depois retirou cuidadosam ente a toalha das pernas para
que a chem ise pudesse aquecer tam bém .
Na altura em que Piers se içou da piscina, ela estava quase a dorm ir, aninhada em toalhas
e sol. Piscou os olhos para ele.
— Acabou?
— Parece que sim . E, m ais um a vez, a Linnet ficou com as toalhas todas.
Ela sentou-se.
— Desculpe. Tom e... tom e esta. — Tirou a que tinha debaixo da cabeça. — Receio que
estej a um pouco úm ida.
Ele pegou- sem com entários e com eçou a esfregar o corpo e o cabelo, enquanto ela estava
deitada para trás e observava. Ela não fazia ideia nenhum a — ideia nenhum a — de que os
hom ens fossem assim . Tão, tão inebriantes. Tão...
Talvez ela fosse m ais parecida com a m ãe do que pensara. A ideia era repugnante e ela
com eçou a soerguer-se.