Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 15 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 15

A m ãe podia bem recusar-se a dançar com o pai, m as Sebastian não ia desperdiçar a

oportunidade de dançar com Linnet e, raios o partissem , se ficasse a olhar, do sofá, enquanto

Sebastian sussurrava ao ouvido da sua noiva.

Levantou-se para se ir em bora, m as depois hesitou.

— Boa sorte — disse ao pai.

— Tarde dem ais para isso — disse o duque. — Boa noite.

15

— O senhor é grosseiro — foi a inform ação que Linnet deu a Piers. Ele acordara-a

baloiçando um a fita sobre o rosto, de m aneira a esta fazer cócegas no nariz.

— Trouxe- chocolate quente.

— Isso, de certa m aneira, contribui para m elhorar a sua grosseria — disse ela, erguendo-

se contra as costas da cam a de m odo a poder beber o chocolate. E observar Piers sub-

repticiam ente, apesar de dificilm ente poder dizer por que razão estava enfeitiçada por

aquela personagem im becil.

Mas um a m ulher que sonhou toda a noite que certo m édico estava a beij á-la — e que não

se ficava por m eros beij os — não pode fazer de conta que não está fascinada.

— Não faça um a m arcação tão cerrada ao Sebastian — disse ele. Ainda não a tinha olhado

nos olhos. Estava a brincar com a fita precisam ente com o brincaria um a criança, atando-a

com nós e testando a sua força.

— Está a estragar a fita e é um a das m inhas preferidas.

— Feita de seda? — Deu outro nó.

— Claro. Porquê?

— Precisam os de qualquer coisa m elhor para atar os pacientes à m esa durante os

procedim entos cirúrgicos. Estam os a usar cordas e depois eles queixam -se de queim aduras.

Talvez a seda resultasse. — Testou-a outra vez, fazendo-a passar pela aresta dos pés da cam a.

Rasgou-se rapidam ente ao m eio.

— Oh, por am or de Deus — lam entou Linnet. — Tem de rasgar isso? Enrole seda à volta

das cordas.

— Boa ideia. Ouviu o que eu disse sobre o Sebastian?

— Sim . Está preocupado com a hipótese de perder a sua com panheira de brincadeiras?

Piers resfolegou.

— Quem m e dera ser o rapaz que insiste em cham ar-m e.

— Porquê?

— Dentro de trinta, quarenta anos, terem os qualquer coisa para controlar as infecções.

Irá haver um a revolução na cirurgia.

— O senhor tem quantos? Trinta anos? Podia estar a operar aos setenta e cinco, apoiado

à m esa.

— Arrancando o nariz aos pacientes com as m inhas m ãos trêm ulas — interrom peu ele.

— Eu cham o- rapaz porque o senhor age com o um a criança cuj os pais a desiludiram e

que está determ inada a pagar na m esm a m oeda.

— Eu am o a m inha m ãe. — Parecia estar realm ente a escutá-la. Mas depois Linnet

apercebeu-se de que não estava na natureza de Piers não escutar.

— Claro que am a a sua m ãe. Mas am a tam bém o seu pai. E ele am a-o a você.

— Toda esta terna em oção de m anhã tão cedo está a azedar-m e o estôm ago.

— Parece ter problem as de estôm ago — disse ela, m ordazm ente. — Talvez o Sebastian

possa estar a operá-lo a você daqui a trinta anos.

— Raios, espero que não. Ele é bom com o tudo, m as não é um a coisa agradável. Vam os,

está bem ? Não com você aceitar tanta intim idade, principalm ente com um a m ulher com

quem nunca dorm i.

Linnet acabou de beber o chocolate e depois balançou os pés para fora da cam a. Sentiu

um a pontada de genuína tristeza ante a ideia de Piers não poder fazer am or.

— Com o lesionou a sua perna e... e o resto? — perguntou ela, dirigindo-se ao biom bo. Na

noite anterior tinha preparado a roupa.

Com o ele não respondeu, ela virou-se e deu com ele a olhar- fixam ente para as costas.

— Que foi? Entornei o chocolate?

— Essa cam isa de noite é praticam ente transparente — disse ele, a voz baixa e rouca.

— Vej o- o rabo.

Ela pôs-se rapidam ente atrás do biom bo, sentindo um a onda de calor no ventre — e um a

correspondente pontada de tristeza.

Ela, que nunca tinha querido dorm ir com um hom em (se adm itisse a verdade), bem ,

conseguia ver-se na cam a com um .

Piers.

Piers, que era im potente. Era a ironia m ais cruel.

— Eu não gosto dessa palavra, rabo — respondeu ela, controlando a voz para que não

transparecesse nem um laivo de desej o. — É um a palavra de m édico.

— Qual preferia? Nádegas? Traseiro? Cu?

— Nádegas, suponho.

— Eu acho que gosto de cu. Tem um som redondo. Redondo e saboroso.

Linnet enfiou o vestido pela cabeça e deixou-o assentar à sua volta. Depois estendeu a m ão

para trás e apalpou as nádegas. Eram realm ente redondas. Tom ara que fossem tam bém

saborosas.

Saiu dali e dirigiu-se ao toucador.

— Só tenho de escovar o cabelo. Decidi que ia entrançá-lo hoj e e ver se isso evita que fique

dem asiado em baraçado. Está a dar im enso trabalho à Eliza.

Ele dirigiu-se para trás dela e com eçou a abotoar o vestido sem ela pedir. Linnet passou

a escova pelo cabelo e depois cruzou os olhos com os dele, no espelhe, e parou.

— Exatam ente com o se j á estivéssem os casados há dez anos— disse ele com um sorriso

assim étrico.

— Não tenciona casar nunca, pois não?

— Não vej o qualquer interesse.

— Porque não? — Depois percebeu porquê. — Oh, porque não pode ter filhos?

— A instituição é concebida precisam ente para isso — disse ele. — De outra m aneira, não

há qualquer interesse.

Ela abriu a boca, m as apercebeu-se de que não apetecia defender o am or, ou m esm o o

com panheirism o, a um m isantropo. Além disso, ela concordara com Piers que am or e

casam ento tinham frequentem ente pouco em com um . Atou a m etade da fita em volta da

ponta da trança e levantou-se.

— Vam os?

Ele olhou a de alto a baixo.

— Com essa trança parece que tem catorze anos. E não calçou as m eias.

— Acabei por concordar que não vale a pena. De qualquer m aneira, nunca vem os ninguém

lá fora.

— O Prufrock não é um desses m ordom os que creem que o pessoal tem de estar a pé e

andar por aí ao rom per da m adrugada.

— Ele é um m ordom o m uito fora do com um — com entou Linnet, com eçando a andar

enquanto enfiava a m ão debaixo do braço de Piers.

— Eu disse- . Ele não é m ordom o; é um espião do m eu pai.

— Mas porque tem o seu pai um espião em sua casa?

Piers encolheu os om bros.

— Pare de encolher os om bros; faz isso vezes dem ais, quando quer evitar um a pergunta.

Porque tem o seu pai um espião em sua casa?

— Suponho que ele quer saber o que se passa por aqui.

— E o senhor disse que tam bém tem um em casa da sua m ãe.

— Sim .

— Ele ainda está apaixonado por ela, sabe bem . E o sentim ento é recíproco.

— O Sebastian disse-m e o m esm o. Eles têm de decidir se querem fazer algum a coisa em

relação a isso.

Linnet olhou para ele, m as percebeu, pelo seu m axilar, que ele não queria continuar a falar

no assunto. Além disso, não era, afinal, da sua conta.

— Então, disse-m e que os quartos do castelo estão todos organizados de acordo com as

várias doenças.

— Assim com o pelo sexo — disse ele, utilizando a bengala para afastar um a pedra do

cam inho antes de avançar. — Os doentes são m uito irritantes no que respeita a decência e

decoro.

— Então porque está o Gavan ao lado de Mister Ham m erhock? Disse-m e que Mister

Ham m erhock podia estar contagioso.

— E pouco provável. A febre petequial parece deixar de ser contagiosa depois de as lesões

cutâneas rebentarem . Eu estava só a tentar im pedi-la de se apaixonar por ele. A sua erupção

cutânea faz dele um perigo para qualquer m ulher. Já para não falar naquele adorável ceceio

que ele contraiu. Em bora sej a pena, parece ter com eçado a desaparecer ontem à noite.

— Eu acho que hoj e o ar está m ais quente — disse Linnet, quando descreveram a últim a

curva, passaram a casa do guarda e viram a piscina.

— Não estou a gostar do céu — observou Piers, olhando para cim a e franzindo os olhos.

— O que tem ? Não há m uitas nuvens. — Largou- o braço e virou as costas para

ele desabotoar o vestido.

— Aquela cor pesada significa tem pestade. Talvez.

— Talvez? O senhor é um diagnosticador de doenças, não do tem po. Despiu o vestido.

— Dispa-se, está bem ? Ontem à noite estive a praticar natação...

— Esteve?

— No chão. A Eliza entrou, o que confirm ou todas as suas suspeitas de que eu endoideci com pletam ente. — Correu para a rocha que se erguia acim a da piscina.

— Vá m ais devagar. Faz-m e sentir um aleij ado.

— Ferindo os seus sentim entos inexistentes? — picou-o ela. Foi m esm o até à beira da

rocha. Havia um vento fraco que vinha do oceano, transportando para o ar um a espécie de

febre salgada.

Piers estava a descalçar as botas. Tinha- lançado um olhar e depois voltado à tarefa de

tirar a roupa. Obstinadam ente, ela queria que ele olhasse outra vez. Ela sabia que o vento

tinha- m oldado a chem ise ao corpo, revelando cada curva. Ela queria...

Com um estrem ecim ento de culpa, apercebeu-se de quão cruel estava a ser. Era

verdadeiram ente atroz exibir perante ele aquilo que ele nunca poderia saborear.

Sentou-se, puxando os j oelhos para o peito. Piers estava a despir a cam isa, e ela observava-

o, fingindo que estava a olhar para a água. O seu tórax era belo, com um a pequena quantidade

de pelo que escurecia ao entrar, qual flecha, nos calções. Os dedos dela trem iam de ânsia

de tocar, de percorrer o peito, para trás até às costas, para baixo até ao...

Rabo. Ou talvez a palavra certa para o traseiro de um hom em fosse cu, pensou ela, vendo-

o virar-se para pôr de lado os calções e a cam isa.

Um m om ento depois, estavam os dois a m ergulhar na água. Em vez de sentir um frio

m ortal, ela adorava a em oção da queda, o m odo com o a água a despertava, com o se tivesse

estado a dorm ir até ao instante em que chegava à água.

E, depois, adorava a form a com o Piers a içava e a puxava contra o seu corpo. Mas não a

deixava ficar agarrada m uito tem po.

— Um a m ão na borda — gritou ele. — Agora, tente nadar.

Ela inspirou fundo e afastou-se da borda da piscina. E afundou-se rapidam ente. Ele voltou

a puxá-la para cim a e em purrou-a de novo para a borda da piscina.

— Flutue um bocadinho e depois com ece a m exer os braços — ordenou ele. — E não se

esqueça de bater as pernas.

Ela trem ia tão violentam ente que achava que não conseguia m exer-se... m as conseguiu.

Um m om ento depois, estava a deslocar-se na água: devagar, m as deslocava-se, não se

afundando. Piers perm anecia ao lado dela, gritando instruções, a m aior parte das quais ela

não conseguia ouvir. Mas, finalm ente, ela com eçou a com preender, o m odo com o os seus

braços se m oviam , um de cada vez, para cim a e à volta, o m odo com o a sua cabeça se virava

para o lado, o m odo com o as suas pernas...

Ele agarrou- as pernas com aquelas m ãos ágeis, m ãos de cirurgião, e m anteve-as esticadas

para ensinar a batê-las.

Sendo um a palerm a fraca, ela deixou im ediatam ente de pensar na natação e pensou,

deslize as m ãos para cim a, para cim a.

Ele não o fez.

Cinco m inutos m ais tarde, tinha coberto o com prim ento todo da piscina. O coração

batia- acelerado e ela não conseguia parar de sorrir.

— Está preparada para voltar para trás da m esm a m aneira? — gritou ele.

Sem responder, afastou-se da borda da piscina e com eçou a abrir cam inho através da

água. A m eio, os olhos ardiam - , a boca estava cheia de água do m ar e os braços exaustos.

Um a onda caiu- em cim a da cabeça e ela hesitou, precisam ente o tem po suficiente para

com eçar a afundar-se.

O braço de Piers envolveu a cintura.

— Muito bem — disse- ao ouvido. — Vam os. — Puxou-a para a borda, contra o seu corpo.

Ela enroscou-se a ele, agora naturalm ente, com o um bebê agarrado à m ãe. Mas o m odo com o

o corpo duro dele tocava no dela não tinha nada de m aternal.

— Tem o coração a bater com m uita força — disse ele. — Dem asiado exercício para um a

pessoa que pouco m ais faz para além de dançar.

Ela não ia explicar porque tinha o coração a bater tanto, por isso deixou-o içá-la para fora

da piscina e nem o viu afastar-se a toda a velocidade, através da água, dom inando as ondas

com o se elas m ais não fossem do que um a pequena ondulação na banheira.

Linnet sentia as pernas com o pudim de pão ensopado. Talvez ele tivesse razão. Encontrou

a pilha de toalhas que Prufrock tinha m andado e voltou a ficar com todas.

Na realidade, devia dizer a Prufrock que precisavam de um a toalha extra, um a só para

Piers. Mas, deitada na rocha, tinha de adm itir que gostava de tirar um a do corpo para dar.

Ou duas.

Fazia-o olhar. Fazia-a sentir-se ferozm ente viva, com o se o sangue cantasse nas veias.

Claro, era por isso que a m ãe ia tão contente para os seus encontros. Faziam -na sentir-se

viva, podia im aginar. Pobre m ãe.

Linnet virou-se para um lado no seu ninho de toalhas, recordando o riso da m ãe. Ela devia

ter sido viciada naquele gênero de prazer que Linnet sentia quando estava perto de Piers.

Tão fácil de explicar com o o fato de o pai de Piers ser viciado em ópio.

Tão sim ples com o isso.

E Piers tinha razão: ela nunca havia perdoado realm ente à m ãe o fato de querer estar com

hom ens estranhos m ais do que com a filha.

Tanto assim que ela tinha saído, num a noite de chuva, para ir ter com um hom em — nunca

souberam quem — e m orreu quando a carruagem em que seguia chocou contra um a

estacaria.

Eu nunca faria isso, pensou Linnet. Eu nunca... m as isso não significa que não possa

com preender. Principalm ente quando o sim ples toque de Piers fazia o fogo

correr- violentam ente no sangue.

Algures j unto ao seu coração, um a espécie de vazio, tão gelado com o a água,

descom prim iu e desvaneceu-se.

— Am o-te — sussurrou Linnet, dizendo ao vento, à rocha quente sob as suas costas, ao

cheiro a peixe e a m ar, à m em ória da m ãe.

Piers chegou, a escorrer água, e salpicou- água fria no rosto.

— Está a planear partilhar algum a dessas toalhas? Não interessa o fato de o m eu corpo

ser m uito m aior do que o seu.

Tirou a toalha da cabeça e deu.

— Preciso de outra — disse ele, esfregando o cabelo.

Deu- a que estava enrolada à volta dos pés.

— Sabe quantas pessoas têm doenças que lhes fazem cair os dedos dos pés? Quero outra

toalha.

Linnet pestanej ou.

— Os m eus dedos dos pés estão m uito bem agarrados.

Havia algo perverso nos olhos dele, algo prim itivo que fez todo o seu corpo reagir.

Instantaneam ente. Sentiu-se com o um a m enina escrava deitada aos pés do raj á, sem energia

e sem vontade própria.

— Outra toalha — reclam ou ele.

Ela dem orou o seu tem po, puxando a ponta da toalha de debaixo dos om bros, rolando um

pouco para o lado, desem brulhando-se com o se fosse um presente. Não precisava de olhar

para baixo para saber que os m am ilos sobressaíam debaixo da chem ise. Não precisava de

olhar para cim a para saber que ele estava a devorá-la com os olhos.

Ela atirou com a toalha na sua direção e voltou a deitar-se, os braços por cim a da cabeça.

Ele esfregou o corpo, olhando para ela o tem po todo, sem um a partícula de rem orso ou de

decoro.

— A Linnet — disse ele, por fim , enrolando a toalha à cintura

— é...