Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 30
— Então, vai e trá-la de volta — disse Sebastian, sorrindo- .
Piers levantou o braço e bateu no teto da carruagem .
— Sai da frente, Seb. Eu tenho... — A porta fechou-se antes de ele acabar a frase.
— Um a esposa para encontrar — disse ele para a carruagem vazia. — Tenho a Linnet para
encontrar, para trazer para casa, para casar.
30
Llanddowrr era um a aldeia pequena, sonhando ao sol da tarde. Piers entrou
violentam ente pela porta da estalagem , que ficava no m eio da rua principal, em punhando a
bengala com o um m aníaco. Não viu sinais de viaj antes doentes... de fato, absolutam ente
nenhum sinal de escarlatina. Nada de panos carm esim pendurados das j anelas com o aviso,
nenhum a aflição aparente.
— Ouvim os falar disso, claro — disse o estalaj adeiro, os olhos tem erosos só com a ideia.
— Passou por aqui um grande grupo de pessoas, o pessoal dom éstico de um duque. Ficaram
para um a refeição e depois apressaram -se a prosseguir, pondo-se a andar.
— Os criados do duque de Windebank — concluiu Piers.
— Estiveram aqui algum tem po?
— Até ao fim da tarde.
— Veio j untar um a senhora j ovem que viaj ava num a das outras carruagens do duque?
O estalaj adeiro pestanej ou.
— Bem , em relação a isso não posso realm ente pronunciar-m e. Havia três carruagens e a
m ulher e eu estávam os a preparar um a refeição para todos eles. Catorze eram eles, todos de
um a vez, em pilhando-se nas salas de convívio, percebe?
— Todos de um a vez — repetiu Piers. — Mas a j ovem senhora? Ela teria chegado ao final
da tarde.
— Isso não sei, a não ser que ela não tivesse querido com er.
Piers pensou em Linnet tal com o a vira da últim a vez, da expressão m agoada nos seus
olhos.
— Talvez não tenha querido com er.
— Vam os perguntar ao m oço de estrebaria — disse o estalaj adeiro, saindo de trás do
balcão. — Ele é que sabe se um a quarta carruagem veio a seguir às outras. Eles estavam
terrivelm ente nervosos, isso sei eu. Estavam sem pre a dizer que o duque lhes ordenara que
continuassem se ele não chegasse até ao crepúsculo.
— Mas, certam ente, esperaram pelo duque — disse Piers, controlando a voz.
Provavelm ente não se saiu bem , porque o estalaj adeiro olhou nervosam ente por cim a do
om bro antes de correr porta fora a gritar.
— Daw! Daw, onde diabo te m eteste?
Daw estava a inspecionar os cavalos de Piers, lim pando-os e conversando anim adam ente com Buller. Levantou-se repentinam ente com o rugido do estalaj adeiro.
— Viste se veio um a j ovem senhora noutra carruagem j untar-se às três carruagens que
pertenciam ao duque? — perguntou o estalaj adeiro.
Daw abanou a cabeça.
— Eles esperaram , até cerca das oito. O que era um a hora louca para arrancar estrada fora
para o norte, m as eles estavam todos im pacientes e com m edo de adoecer. Tencionavam
conduzir noite dentro, acho eu.
— Ela não chegou a vir — disse Piers, sentindo-se desanim ado. Ela tinha partido do
castelo por volta das três horas, nessa tarde. Devia ter chegado com tem po de sobra antes de
a caravana partir.
— Eles falaram da vinda do duque — avançou Daw. — Mas ninguém veio, por isso foram -
se em bora.
Ela devia ter ido para um a aldeia errada. Piers atirou um a m oeda de ouro ao estalaj adeiro
e virou-se para gritar a Buller:
— Tem os de voltar para trás. Vam os para Llanddowll.
— Llanddowll — disse Daw. — Não é m aior que um telheiro, é m esm o um a aldeia m uito
pequena.
— Está m ais pequena agora — retorquiu Piers. — A aldeia foi gravem ente atingida pela
escarlatina.
O m oço de estrebaria chegou-se para trás e os cavalos partiram . Piers sentou-se na
carruagem , os dedos a tam borilarem contra o peitoril. Ela nunca chegara a Llanddowrr. Isso
queria dizer... isso queria dizer o quê? Ela devia ter ido para Llanddowll.
Porque não regressara ao castelo, quando não conseguiu encontrar os criados do duque?
Não podia ter prosseguido para Londres sozinha.
Im possível. Ela não tinha pertences, nem criada. Estava tudo nos baús que haviam seguido
com os criados do duque. Ela nem era capaz de desabotoar o vestido sozinha.
O que ele tinha dito não era assim tão terrível, que a fizesse fugir sem um a peça de roupa.
Floresta, hectares de floresta, corriam pela j anela. Llanddowll era na direção oposta a
Llanddowrr, relativam ente ao castelo. Finalm ente, viu os torreões do seu castelo a um a curta
distância. Os cavalos abrandaram e depois pararam .
— Não podem os parar, raios! — exclam ou Piers abrindo a porta e gritando ao cocheiro.
— Os cavalos estão estoirados — disse apologeticam ente o hom em . — Se não os
trocarm os, terei de abrandar e acho que vai dem orar m enos tem po se puserm os um a parelha
nova.
O que Piers respondeu a isto era im possível de im prim ir, ou de pronunciar. Não aj udou.
Os cavalos, cansados, foram lentam ente até casa. O Sol estava a desaparecer. O tem po, o
tem po escapava-se por entre os dedos, e ele continuava a correr ao longo daquele cam inho
para o m ar. Ia chegar tarde dem ais.
Prufrock apareceu.
— Meu senhor?
— Ela nunca chegou a Llanddowrr — declarou Piers. — Vam os para Llanddowll.
— Raios — disse sucintam ente o m ordom o.
Piers engoliu em seco.
— Ela pode ter ido para Londres sozinha, quando não encontrou os criados. Prufrock
assentiu com a cabeça.
— Provavelm ente foi isso. Miss Thry nne não teria querido...— Parou.
— Não teria querido regressar aqui — concluiu Piers, com o coração a bater- na caixa
torácica com o um pássaro num a arm adilha.
— Então, foi isso que ela fez — disse o m ordom o, apesar de, obviam ente, não acreditar
nisso.
— Alguns pacientes novos?
— Não — disse Prufrock. — E um dos que pareciam estar m ortos de certeza, Barris
Connah, parece estar a safar-se.
Cavalos frescos estavam a postos e Piers subiu novam ente para a carruagem , coxeando, quase caindo ao passar pela porta. Puseram -se outra vez a cam inho.
Se Llanddowrr era pequena, Llanddowll era um pontinho talhado a custo na floresta. Um a
estalagem castigada pelo tem po, um sapateiro, um a aglom eração de casas. Nenhum m oinho,
o que colocava a aldeia, de im ediato, no percurso original de entrega de farinha do paciente.
Cinquenta alm as no total, se tanto.
Estava fazendo-se tarde quando chegaram à estalagem . O estalaj adeiro apareceu quando
a carruagem parou. Tinha um nariz fino e o rosto chupado, com um a barba im unda e um
ainda m ais im undo lenço encarnado à volta do pescoço. Estava a esfregar ás m ãos, com um
ar cauteloso, m as acolhedor.
— Boa noite para você, senhor — disse ele, assim que Piers pôs os pés no chão. — E bem -
vindo ao Tolo Jogador. Eu sou Mister Sórdido, seu anfitrião, m as talvez deva dizer-que
tivem os um pequeno problem a na aldeia...
— Escarlatina — interrom peu-o Piers. — Eu sou o conde de Marchant e adm itim os quatro
pacientes desta aldeia.
— Fizem os o m elhor que pudem os — disse o estalaj adeiro, pressentindo um a crítica.
— Isolam o-los assim que...
— Chegou aqui um a j ovem senhora num a carruagem com o brasão do duque de
Windebank?
Piers viu-o nos olhos de Sórdido antes de ele falar, na form a com o evitaram os seus, na
form a com o o seu peso passou de um pé para o outro. Num instante, Piers agarrou-o pelo
lenço de pescoço encardido.
— Onde está ela? Está m orta?
— Nós não fizem os nada! — guinchou o estalaj adeiro, o rosto a ficar verm elho vivo.
— Estam os a tratar dela, a tratá-la bem . E tam bém fizem os o m esm o pelo cocheiro, antes
de ele m orrer.
Ela ainda estava viva. Piers largou o lenço verm elho e afastou-se para trás.
— Onde está ela?
Os olhos de Sórdido m overam -se novam ente.
— Nós isolam o-la, tal com o o padre disse que devíam os fazer. Se fizer o favor de entrar na
sala de convívio, m eu senhor, eu peço à m inha senhora que vá ver com o está a j ovem m ulher
e certificar-se de que ela pode receber visitas.
— Jovem m ulher?
O estalaj adeiro recuou um passo.
— Nós pensam os... o m édico disse... nós pensam os que ela devia ser um a criada ao serviço
do duque.
— Um a criada? Pensaram que um a futura condessa era um a criada? Onde tinha havido
verm elho vivo, havia agora apenas am arelo pálido.
— Não tínham os qualquer indicação para pensar que ela era um a senhora, m eu senhor.
Sem criada e sem baús.
— O cocheiro teria dito antes de m orrer. — Piers deu um passo determ inado em frente.
Os olhos de Sórdido pestanej aram para a bengala de Piers e depois para o seu rosto.
— Ele não disse nada. O hom em estava doente, doente de m orte. Delirou um pouco, m as
nada do que disse fez sentido para nós. Depois m orreu depressa.
Piers fechou os olhos por um segundo. Que estava ele fazendo, a brigar com o estalaj adeiro
enquanto Linnet...
— Leva-m e até ela. — Não era um pedido; era um a ordem .
O hom em olhou desesperadam ente para trás de você. E depois berrou:
— Moll!
A m ulher estava um pouco m ais asseada que o m arido, m as os seus olhos eram pequenos
e j untos, com o os de um furão. Havia um pânico crescente na garganta de Piers. O cocheiro
tinha estado a assistir silenciosam ente do seu assento; depois, apeou-se, atirou a rédea
principal dos cavalos por cim a de um poste de atrelar cavalos e aproxim ou-se de Piers.
— Sua senhoria veio aqui à procura dessa m ulher — o estalaj adeiro corrigiu-se a você
próprio —, da senhora que tem estado de cam a, doente. As nossas próprias custas, tem os
estado a tratar dela — disse ele, esticando o queixo. — Por ela não ter dinheiro nenhum com
ela.
Piers franziu a sobrancelha. Era inteiram ente possível que Linnet não tivesse levado com
você um saco de rede, ou que o tivesse deixado na sala de estar quando saiu pela j anela. O
cocheiro do duque teria recebido dinheiro do am o para despesas im ediatas, m as se, quando
chegaram , ele sucum bira im ediatam ente com o afirm ava o estalaj adeiro...
A m ulher do estalaj adeiro fez um a reverência.
— Ela tem estado terrivelm ente doente, lam ento dizer. Ainda ontem trouxe aqui o m édico
e ele disse que nós fizem os tudo o que um m ortal podia ter feito.
Piers cerrou o m axilar com tanta força que m al conseguia proferir as palavras.
— Leva-m e até ela.
— Tal com o eu disse, se esperar um m om ento na m inha sala de convívio, aqui a m inha
m ulher, Mistress Sordido, ela vai ver se a j ovem senhora pode aceitar visitas.
— Leva-m e até ela.
Mrs. Sordido fez outra reverência.
— Peço desculpa, m eu senhor, m as eu não poderia fazer isso de consciência tranquila. A
j ovem senhora é de tenra idade e não é casada. Eu vou apenas certificar-m e de que ela está...
A voz de Piers estalou com o um chicote no tranquilo pátio da estalagem .
— Leva-m e até ela j á.
Dirigiu-se para a porta, batendo com a bengala nas duras pedras da calçada, quando o
cocheiro disse:
— Meu senhor.
A m ulher do estalaj adeiro ia a dobrar a esquina da estalagem a correr, ficando o m arido,
sem iniciativa, no sítio onde estava.
Piers alterou o seu traj eto. Claro que eles não a tinham aloj ado na estalagem . Ele próprio
tinha garantido isso, quando em itira as ordens de quarentena. Contornaram a esquina, Mrs.
Sordido a correr à frente. Piers olhou por cim a do om bro.
O cocheiro, Buller, depressa agarrou o cotovelo.
— Vam os todos j untos, está bem ? — sugeriu ele. Buller era um hom em grande e a sua voz,
apesar de suave, pareceu assustá-la.
— Não é decente! — gritou ela. — Ela não está devidam ente vestida.
Piers concentrava-se apenas em escolher o cam inho por entre as pedras na escuridão que
j á caía. Sabia que o estalaj adeiro vinha atrás dele, que as som bras crescentes lhes estendiam
os dedos do bosque que os circundava. Mas o m edo invadia a m ente. O m edo m artelava na
cabeça e no coração.
Levaram dois ou três m inutos a cam inhar até lá; pareceu um a hora. Mrs. Sordido
protestou o cam inho todo, m as Buller continuou a agarrar- firm em ente o cotovelo.
— Ali — disse ela finalm ente, cuspindo a palavra à laia de desafio. Piers olhou, m as Buller
falou prim eiro.
— Aquilo é para as galinhas. E um galinheiro.
— E um bom galinheiro — afirm ou ela. — Suficientem ente alto para se entrar. E não há lá
galinhas há m eses, há seis m eses, provavelm ente. Nós m etem o-la lá dentro e eu m andei a
m inha criada visitá-la de m anhã e à noite, graças à m inha boa vontade cristã, deixe-m e dizer-
. E trouxe- o m édico duas vezes, e m andei-o tentar tudo o que podia, as sanguessugas e tudo,
apesar de não haver ninguém para pagar.
Piers ficou colado ao chão. O galinheiro não tinha j anelas e a porta estava pendurada de
um a única dobradiça de cabedal. Era feita de tábuas grosseiras, que aparentem ente tinham
com eçado a desfazer-se, visto que tinham sido pregadas peças de m adeira ao acaso, aqui e
ali.
— Que cheiro é este? — perguntou Buller, a voz a descer um a oitava. A m ão que tinha no
braço de Mrs. Sordido deve ter-se apertado, porque ela guinchou em protesto.
— E das galinhas — disse ela. — Quer dizer, as galinhas cheiram m al e nós não tivem os
tem po de lim par.
Piers tinha-se libertado da sua paralisia e deslocava-se o m ais depressa que conseguia
através da pequena clareira em frente do galinheiro. Um a parte da sua m ente gritava
silenciosam ente de pânico, a outra estava sinistram ente consciente de que ele estava a
reviver o seu pesadelo, a tentar alcançar Linnet... tarde dem ais.
Atrás de você, ouvia os protestos de Mrs. Sordido e Buller a grunhir em resposta. Chegou
à porta e abriu-a de par em par. A dobradiça estalou e a porta caiu ao chão com um estrondo.
Um a vez lá dentro, Piers não conseguia ver nada na escuridão e os seus olhos com eçaram
im ediatam ente a lacrim ej ar devido ao ar fétido. Cuidadosam ente, avançou com a bengala
devagar, dando um passo, esperando que os olhos se adaptassem .
— Linnet — disse, suavem ente. Suavem ente, porque, no seu coração, sabia a verdade. Ela
estava m orta e a culpa era sua.
Nenhum a resposta. Deu outro passo em frente e finalm ente os seus olhos com eçaram a
adaptar-se. Não havia cam a. Olhou para baixou e apercebeu-se de que estava prestes a pisá-
la.
A m ulher que estava a seus pés não tinha qualquer sem elhança com a sua alegre e bonita
Linnet. Mas o m édico dentro de você veio ao de cim a, pondo de lado a sua aflição, largando a
bengala para poder aj oelhar-se ao lado dela e agarrar- o pulso.
Por um m om ento, perdeu as esperanças de sentir o pulso, m as depois sentiu-o; filiform e
e fraco, m as presente.
— Linnet — disse, com a m ão na face dela, sem ver a sua pele deteriorada ou o cabelo
em aranhado, m as a form a do seu querido rosto, a m aneira com o ela se curvava ligeiram ente
para o lado, com o sem pre fazia quando dorm ia. Ele am ava-a; ele am ava-a tanto que o seu
coração estava destroçado.
Nenhum a resposta. Um a nuvem de eflúvio de galinha erguia-se em volta dos j oelhos
quando se m exia. Ela fervia, claro. Entorpecido, catalogou os sintom as que era possível ver
à m eia-luz — e não foi capaz de os j untar para a conclusão óbvia.
Em vez disso, apanhou a bengala, pôs-se de pé e depois dobrou-se para sair pela porta de
entrada.
— A culpa não foi nossa — gritou Mrs. Sordido assim que ele saiu. Buller ainda agarrava
o braço.
— Presum o que não têm hóspedes na estalagem — afirm ou Piers.
— Não — disse ela, m eio a arfar. — Não tem os de m om ento, m as...
— Vou ocupar a vossa estalagem . Você e o seu m arido vão ter de sair.
— Onde está a carruagem , do duque? — perguntou repentinam ente Buller. — Tam bém
não estou a ver onde m eteram os cavalos.
Houve um segundo de silêncio, depois Sordido disse:
— Mandam o-los para o duque, claro. Para Londres.
Buller agarrou novam ente o braço de Mrs. Sordido. Mas deve ter havido algum a coisa nos
olhos de Piers que foi m ais assustadora do que a am eaça da força. Ela vacilou e disse:
— Atrás da estalagem , no alpendre.
— Não, não estão — disse Sordido, m uito alto. — Nós...
— Vocês roubaram a carruagem — afirm ou Piers. — Vocês roubaram os cavalos. Vocês
provavelm ente roubaram a roupa da m inha m ulher.
— Nunca tinha dito que ela era sua m ulher! — acrescentou Sordido.
— Ela é m inha. Vocês roubaram - a roupa, e o dinheiro que eles tinham , e tenho quase a
certeza que m ataram o cocheiro do duque de Windebank.
— Não — disse Sordido, a arfar. — Não tivem os nada que ver com isso.
— Ele m orreu da doença que tinha — retorquiu a m ulher, as palavras a saírem agora em
catadupa. — Eles chegaram tarde, de noite, e ele foi-se deitar por cim a dos estábulos, m as,
na m anhã seguinte, estava com febre alta, m uito quente, a balbuciar e a tossir. Acabou por
nunca m elhorar.
Piers olhou para ela.
— Ele não o m atou! — repetiu ela, com um a voz estridente. — Ele delirou e disse m uitas
coisas incom preensíveis, m as nós não podíam os estar à sua cabeceira todos os m inutos do
dia. Além disso, ela estava doente, e o ferreiro tam bém estava de cam a com o m esm o, assim
com o a m ulher. Não parávam os um instante, a tentar trazer aqui o m édico da aldeia vizinha.
E depois veio o padre e disse que os que estavam doentes tinham de ser isolados. — Perdeu
o gás.
— Ele m orreu — acrescentou Sordido. — Ele m orreu depressa. Mas ela não. Por isso,
tivem os de a pôr em algum sítio.
—Você e o seu m arido, saiam — ordenou Piers. — Se estiverem nesta casa daqui a um a
hora, terei de m andar pô-los nas m asm orras do m eu castelo. São ligeiram ente piores do que
o sítio onde puseram a m inha m ulher.
A boca dela abriu-se.
— Não... não vai! — Com um sacão feroz, libertou o braço da m ão de Buller. — O senhor
não pode vir aqui e fazer o que apetece com a propriedade de um a pessoa! Esta é a m inha
estalagem , m inha e do Sordido. Com pram o-la livre de encargos por cinquenta libras e não
vam os... Sordido!
— Se deixarem a estalagem agora, não os levo a tribunal perante o j uiz.
— Não pode fazer isso! — exclam ou ela, estridente. — Sordido, diz algum a coisa! Não
fizem os m ais do que a nossa obrigação para com aquela m ulher. Graças à bondade dos
nossos corações.
— Vocês não têm coração — afirm ou Piers. — O que vocês têm é um a hora para j untarem
os vossos bens e saírem . Não os quero num raio de dez m ilhas do m eu castelo; Não os quero
sequer em Gales. Se não estiverem fora daqui dentro de um a hora, m ando deportá-los para
as colônias.
Mrs. Sordido era obviam ente o poder por trás do trono, por assim dizer. Tinha as m ãos
nas ancas agora.
— Não pode! — gritou ela. — A propriedade é nossa, livre de encargos. Pagam o-la.
— Se estiverem fora da estalagem dentro de um a hora, não os processos. Se não
estiverem , m ando-os perante o j uiz logo ao am anhecer.
— Não podem os — disse Sordido, com eçando a lam uriar-se. — A noite está a chegar, e
que faríam os para arranj ar dinheiro? Investi tudo nesta estalagem , todos os tostões que
tinha.
Mas Piers estava farto da conversa.
— Buller, preciso que leves a m inha... que leves a Linnet para dentro da estalagem . Um a
hora — disse bruscam ente a Mrs. Sordido. — Para o caso de, estarem a questionar-se se a
m inha palavra terá influência sobre o m agistrado, acabei de salvar a filha dele de m orrer de
escarlatina.
— Fiz o que pude, por pura m isericórdia cristã — gritou Mrs. Sordido.
Piers levantou a m ão.
— Ela está às portas da m orte. Estou a dizer que saiam por pura m isericórdia cristã.
Porque se ela m orre...
Mrs. Sordido recuou, rem exendo o avental nas m ãos.
— Sordido! — gritou, virando-se para com eçar a correr.
— Despacha-te, hom em , despacha-te!
— Leva a Linnet para a estalagem — disse Piers, virando-se para Buller. — Eu vou à frente
procurar um a cam a aceitável. Depois dá a esses idiotas alguns guinéus e um vale de
cinquenta libras e leva a carruagem im ediatam ente de volta ao castelo. Podes dorm ir um as
horas e voltar de m anhã. Nós precisam os de aj uda.
Buller assentiu com a cabeça e dirigiu-se ao galinheiro, dobrando-se para entrar. Piers
virou-se e com eçou a atravessar o pátio em direção à estalagem .
Ouvia Mrs. Sordido a gritar com o m arido, ao m esm o tem po que fazia um a algazarra no
andar de cim a.
Dirigiu-se de im ediato ao m elhor quarto de dorm ir.
— Esses lençóis são m eus — disse Mrs. Sordido, aparecendo à porta. — O senhor disse
que podíam os ficar com as nossas coisas.
O guinéu rodopiou pelo ar e ela apanhou-o m uito bem .
— E a cozinha? — perguntou ela. — Penso que o senhor vai precisar de um tacho ou dois
e eu tenho um a despensa cheia j á preparada para o inverno.
Ele duvidou, m as atirou- m ais uns. E depois:
— Sai.
Ela correu.
Pelo m enos, os lençóis estavam lim pos e eram razoavelm ente m acios. Ele puxou as
cobertas para trás, correu as cortinas e abriu as j anelas de par em par enquanto ouvia o som
de Buller a subir lentam ente as escadas.
Juntos, deitaram -na na cam a.
— Deus Todo-Poderoso — sussurrou Buller. — Que fizeram ? Nunca cheirei nada assim .
E a cara dela...
Piers olhou para o rosto e pele de Linnet, arruinados.
— E da escarlatina, não do galinheiro. Preciso de água, Buller, im ensa água. Um balde
im ediatam ente e vários tachos a ferver no fogão. E traz-m e a sacola da carruagem . Assim que
vires esses labregos fora das instalações, tens de regressar ao castelo e trazer aj uda. Nós
ficam os bem sem você, entretanto.
— Ficam bem ? — sussurrou Buller. Os seus olhos estavam , fixos em Linnet. — Não diria
que era ela. Nunca vi nada assim . Ela era a coisinha m ais bonita...
— Vai — disse Piers, fazendo um m ovim ento brusco com a cabeça. Esperou até ouvir os
passos do hom em a com eçarem a descer as escadas e depois rasgou o vergonhoso sim ulacro
de cam isa de noite que Linnet usava. Estava esfarrapada e rasgada; os Sordido tinham
obviam ente levado toda a roupa dela quando a depositaram no galinheiro. Atirou-a para o
canto.
Contudo, ela não se m exeu, o pescoço e a cabeça extrem am ente frouxos, enquanto
Piers afastava o cabelo im undo do rosto, em pilhando-o em cim a da alm ofada. Então,
com eçou a falar com ela, um a conversa lenta e contínua, dizendo- exatam ente o que estava
fazendo, enquanto observava os ouvidos, a garganta, a língua escurecida, a pele. Encontrou
sinais de sanguessugas na garganta e soltou um palavrão que interrom peu o seu m onólogo
tranquilizador.
Os pesados pés de Buller ressoaram novam ente nas escadas pelo que Piers foi à porta.
— Preciso que tragas do castelo colchões lim pos, pelo m enos dois. Vou estragar este, a
refrescá-la e a lavá-la, e acho que existe um a razoável probabilidade de haver parasitas em
qualquer cam a da casa.
Buller assentiu com a cabeça.