Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 12
— Não, fique aí — disse ele. — Vire-se ao contrário.
— Não!
— Vou ensiná-la, em terra, a nadar. Vai ser m ais fácil do que gritar- instruções ao ouvido,
enquanto a Linnet grita de frio.
— Ah! — Ela rebolou, contorcendo-se para ficar confortável no ninho de toalhas e na
rocha quente. Depois olhou-o por cim a do om bro. — Muito bem , que faço eu agora?
12
Piers olhou para o corpo absolutam ente delicioso da noiva — da pretensa noiva — e
percebeu que estava m etido num grande, negro sarilho.
Tão negro com o a fenda entre os seus absolutam ente...
Ela fora escolhida pelo pai. Não podia ter nada que ver com ela, nem que ela fosse a m ulher
m ais bela de toda a Inglaterra.
O que ela era, observou um a vozinha na sua cabeça. Nunca vira nenhum a m ulher tão
perfeita. Nem im aginava que pudesse existir, para ser sincero.
Aj oelhou ao lado dela, reprim indo cruelm ente a parte dele que queria acariciar aquelas
lindas costas m acias, subir a elevação das suas nádegas, descer aquelas pernas sedosas.
— Estenda os braços para o lado — disse ele, a voz a em ergir do peito tão áspera com o a
de um hom em que tivesse fum ado charutos anos a fio. Inclinou-se para m ostrar a braçada.
— Vê, deste lado, depois do outro. E, quando dá a braçada deste lado, virar a cabeça para o
outro para inspirar.
Ela virou a cabeça e m oveu os braços escrupulosam ente.
— E isso m esm o — disse ele, os olhos voltando às suas nádegas. — As pernas têm de estar
esticadas e a bater suavem ente.
Afinal, não havia m al nenhum em olhar. Era só olhar. Em bora outra m aneira de o
descrever fosse cham ar- torm ento. Tinha visto centenas de corpos de m ulheres. Talvez até
um m ilhar. Tinham desnudado os seios, o rabo, todas as partes m ais íntim as, e ele nunca
tinha pestanej ado.
Mas agora o seu corpo estava a pulsar, literalm ente a enraivecer, de paixão.
Piers pôs-se de pé e enrolou a toalha, castigadoram ente apertada, à volta da cintura. Raios
partissem se ele se deixasse m anipular pelo pai, o seu desprezível e desprezado pai, para
aceitar a noiva que ele tinha escolhido.
Observava a braçada de Linnet, obrigando-se a ignorar a sua sensualidade. Ela parecia ter
um razoável sentido de ritm o.
Claro que tem , m urm urou um a voz dentro dele. Ele podia ensinar- ritm o e ela...
Afastou a ideia.
— São horas de ir em bora — disse ele, bruscam ente, afastando-se. — Tenho um a ala cheia de pacientes à m inha espera, alguns deles provavelm ente cadáveres por esta altura. Não
posso fazer esperar esses cadáveres. Não é educado.
Ela pôs-se de pé precipitadam ente e ele ouviu-a enfiar o vestido.
— Espere — cham ou ela, quando ele com eçou a subir o cam inho. — Preciso que m e
abotoe o vestido, lem bra-se?
Ele virou-se. Ela estava ali, à beira da piscina, o cabelo ruivo caindo- em caracóis úm idos
sobre os om bros, as m açãs do rosto rosadas do exercício. E estava a sorrir, a sorrir com o
deve ser, não com aquele sorriso patenteado que usava para hipnotizar os seus estudantes.
— Não posso voltar assim para casa — disse ela. — Adm ito, não tenho dam a de
com panhia. Mas, a não ser que queira que todo o m eu pessoal com ece pensando que
estivem os nus j untos, tem de m e abotoar o vestido.
— Não sej a idiota. Os criados sabem exatam ente o que estivem os fazendo. Não há nada
que possam , ou queiram , fazer em relação a isso.
— Bem , o seu pai ficaria escandalizado.
Ele grunhiu, não querendo entrar num a discussão acerca de quão pouco se im portava com
a opinião do pai.
— Então, venha aqui. Não quero atravessar essa rocha com a bengala. Ela pestanej ou e
precipitou-se para ele.
— Desculpe. Vendo-o nadar, parece-m e tão forte que m e esqueço que a sua perna está
aleij ada. Com o aconteceu isso, a propósito? — Virou-se de costas e ele com eçou a abotoar o
vestido.
A espinha de um a m ulher é um a coisa m uito delicada. Ele j á o sabia, claro, m as o seu
conhecim ento provinha da observação de espinhas que tinham sofrido lesões. A de Linnet
curvava-se num a exibição perfeita de desenho im aculado, um a pequena saliência a seguir a
outra, todos os ossos que ele aprendera na escola m édica com um aspecto tão diferente
cobertos de pele pálida.
— Onde está a sua chem ise? — perguntou ele, abruptam ente.
— Oh, tirei-a — disse ela. — Não há nada m ais frio do que tecido m olhado, sabe.
Ela tinha afastado o cabelo para não ficar preso nos botões, e o seu pescoço m acio dobrou-
se à frente dele, com o um caule a suster um a flor delicada. As suas palavras caíram na m ente
dele m uito devagar. Ela tinha despido a chem ise enquanto ele estava de costas viradas. Tinha
estado nua, m esm o que só por um segundo, ali, ao ar livre.
— Piers? — perguntou ela. — Com o m agoou a sua perna?
— Foi há tanto tem po que m e esqueci — disse ele, fazendo deslizar o últim o botão para a
casa.
Ela fez um barulhinho ofegante, m as baixou-se para apanhar um feixe de tecido m olhado,
a sua chem ise, e depois segurou- o braço. Ele nem sequer se apercebera de que tinha
esperado por ela até a sua m ão esguia deslizar debaixo do braço.
— Então apareceram doentes novos ontem à noite? — perguntou ela, conversadora.
— E pode dizer-m e com o organiza os quartos dos pacientes? A Eliza disse-m e que há
enferm arias nas duas alas.
— De acordo com a doença que eu penso que eles têm — disse ele, ainda pensando sobre
o m odo com o a boa educação, um a vez entranhada nos ossos de um hom em , aí ficava a vida
toda.
— Com o?
— Doenças infeciosas com doenças infeciosas. E são tam bém segregados quanto ao sexo.
As m ulheres num a sala, os hom ens noutra. Não posso ter os devassos a saltarem uns em cim a
dos outros a m eio da noite.
— Há m ais m ulheres do que hom ens ou vice-versa?
— As m ulheres ganham .
— Porquê? Nós adoecem os m ais vezes?
— Não, m as o seu sexo é m uito m ais sensato em relação a pedir aj uda. Os hom ens têm
tendência a cair para o lado no cam po, aqui em Gales. É um a m aneira sim pática e lim pa de
partir e eu recom endo-a.
— E crianças?
— Às vezes. As gripes deitam -nas abaixo, por isso a m aior parte das m ais novas m orre
antes de aqui chegar.
Ele sentiu-a estrem ecer m esm o ao seu lado.
— Isso é horrível, Piers.
— E a vida.
— Neste m om ento, tem o Gavan; há m ais crianças?
— Duas raparigas. — Estavam , então, na casa pequena. Ela não disse m ais nada, m as ele
conseguia, praticam ente, senti-la pensar. — Não — disse ele, em tom de aviso.
— Não o quê?
— O que quer que estej a a planear. Está a ficar com um a espécie de brilho convencido. O
que quer que sej a, acho-o incom odativo.
— Eu não tenho nada que fazer — disse ela, com um tom cordato que fazia soar
cam painhas de alarm e. — Estou quase a acabar o livro Observações do Doutor Fothergill e,
de qualquer m odo, o senhor disse-m e que as observações dele eram tolas. Estive a ver a sua
biblioteca e não tem rom ances.
— E isso que costum fazendo? Ler rom ances?
— Não há rom ances suficientes. Tam bém leio guias de viagem e peças de teatro. —
Encolheu os om bros.
Ele virou-se e olhou para ela, ignorando a pele m acia e as pestanas curvas — bem , não as
ignorando, m as tentando olhar para lá delas. — E vendo todos os sinais de elevada
inteligência.
Com o fizera o pai aquilo? Onde a teria encontrado?
— Um dos m elhores m édicos que algum a vez encontrei foi um a m ulher da Catalunha —
contou ele.
— Com o conseguiu ela isso? — perguntou Linnet. — Em Espanha perm item que as
m ulheres frequentem escolas m édicas?
— Sabe onde é a Catalunha?
— Disse- que leio guias de viagem — lem brou ela, com um laivo de irritação.
— O pai dela é um dos m elhores m édicos desse país — disse ele. — Ensinou-a e depois
obrigou-os a deixarem -na entrar na escola m édica. O que penso é que, quando ela entrou, j á
sabia m ais do que m uitos m édicos diplom ados, m as, pelo m enos, isso garantiu- o diplom a.
Ela foi em silêncio enquanto subiram os degraus até à porta do castelo e Prufrock abriu-
a.
— Estás à nossa espera, hein? — perguntou Piers.
— Três novos pacientes é que estão — disse o m ordom o.
— Pus dois deles lá em cim a e um deles na sala de arm as. O m arquês e os m édicos m ais