Quando a Bela Domou a Fera
Capítulo 21
Ela abanou a cabeça.
— Eu prom eti ao Gavan. Ele está cheio de m edo que o Rufus fuj a durante a noite.
— A sala das botas im pedirá que isso aconteça.
— Eu prom eti. Se alguém puder levá-lo lá depois do m eu banho, ficaria m uito agradecida.
— Claro. — O m ordom o assum iu um a atitude m uito profissional, com o se não tivesse
assistido ao beij o deles.
Mas, quando ela subiu as escadas, sentiu olhos a ferroarem os om bros. Estam os em Gales,
disse ela a você própria. Gales. Ninguém se interessa pelo que acontece em Gales. Aí os
criados não podem m exericar com os seus hom ólogos da porta ao lado.
O que acontece em Gales, perm anece em Gales.
21
Robert Yelverton, duque de Windebank, pensava por vezes, com algum desespero, que
tinha legado apenas um a característica a Piers, seu filho e herdeiro: a capacidade de se viciar.
A devoção feroz, determ inada, de Piers pelo trabalho fazia- lem brar nada m ais que a sua
lúgubre queda no consum o de ópio. Apesar de não ser claro para ele se se podia falar de
trabalho — m esm o de um trabalho tão louvável com o o de cirurgião — com o vício.
Talvez não tivesse agradado m uito a Robert aperceber-se de que, de fato, tinha dado a Piers m ais do que um a predisposição para a obsessão; o seu sem blante carregado quando
levou a ex-m ulher, Marguerite, para fora da sala era a cópia de um que se via m uito no filho.
— Alors! — exclam ou Marguerite, tentando em vão torcer o pulso para se libertar da m ão
dele. — Robert, não tens o direito de m e tratar deste m odo brutal, você... você... —
Aparentem ente, não conseguia lem brar-se das palavras adequadas em inglês, porque o que
se seguiu foi um a torrente de francês.
Robert enfiou-se na biblioteca, puxando-a atrás de você. No instante em que chegaram lá
dentro, largou- a m ão. Ela girou à frente dele, um a visão de seios voluptuosos e saias
esvoaçantes, e ele sentiu tal pulsação de desej o que quase caiu de j oelhos. Não era só a beleza
física dela que punha as m ãos a trem er: era o seu afeto, a m em ória da form a com o ela sorria
sobre um a chávena de chá ou um lençol de seda, a alegria perdida de ter Marguerite com o
sua m ulher.
—Você... você... crétini — gritou ela, tão furiosa que a voz falhou.
— Com o te atreves a tratar a m inha pessoa desta m aneira! Com o te atreves sequer a tocar-
m e?
— Não sei — disse Robert. Estava decidido a ser totalm ente honesto com ela. — Mas achei que o seu espetáculo na sala de estar tinha ido longe dem ais e que era a m inha vez de
desem penhar um papel.
— Não há qualquer necessidade de você desem penhares um papel na m inha vida.
Escolhia um hom em da rua, sim , do esgoto, antes de te pedir que ficasses com igo outra vez.
— Eu sei.
Ela pestanej ou e um pouco do ardor abandonou os olhos.
— Então, porque m e trouxeste para aqui? Não tem os nada a dizer um ao outro.
— Eu m udei, Marguerite. Não sou o hom em com quem casaste.
—Já não eras o hom em com que eu casei cinco anos depois da cerim ônia — afirm ou ela,
virando-se para a porta.
— Se houvesse qualquer m odo, qualquer m odo m esm o de eu poder retirar o m al que te
causei, e ao Piers, durante os anos do m eu consum o de ópio, falo — disse ele
desesperadam ente.
— Cortava um braço. Dava a m inha vida para desfazer o que fiz.
Ela parou, a m ão na porta. Os seus om bros estreitos estavam rígidos. Algum as, apenas
m uito poucas, m adeixas brancas brilhavam por entre os seus caracóis cor de bronze.
— Não sou o hom em com quem casaste. Nem o louco que se divorciou de você. Estou m ais
velho e m uito m ais sensato — continuou ele, rezando para que ela ficasse m ais um m om ento.
— Nessa altura, não com preendi quanto devias ser prezada.
Marguerite virou-se lentam ente e depois encostou-se à porta.
— Disseste-m e tantas vezes que ias parar de tom ar aquela droga. Prom eteste tantas vezes.
— Eu sei. Não fui capaz de cum prir a m inha palavra.
— Mas estou a ver que, finalm ente, paraste. O Piers diz que não tom as ópio há anos.
— Sete anos. Quase oito.
— Portanto, não conseguiste parar por m im , m as paraste por... por quê? Que encontraste
que am asses m ais do que esse seu sonho de ópio?
— A vida. Estava à beira da m orte, acho eu. E descobri, para surpresa m inha, que queria
viver. — Estava a revelar- as suas verdades m ais tristes. Aproxim ou-se um pouco m ais,
apenas o suficiente para chegar um vestígio do perfum e francês de Marguerite. Ficaram ali
um m om ento a olhar um para o outro, duas pessoas de m eia-idade com anos de raiva e de
m ágoa entre você.
— Estás tão bela com o sem pre — afirm ou ele, aclarando a voz.
— Eras você sem pre quem falava de beleza e via só o que era superficial num a pessoa.
— Mas a fúria tinha escoado da voz.
— Era? — Não se lem brava. — Am ava-te por m ais do que a sua beleza. Adm irava a sua
força, Marguerite, e a sua inteligência. O m odo com o assum iste o papel de duquesa e o fizeste
com tanta graciosidade, e o m odo com o lidaste com a m inha m ãe. O m odo com o educaste o
nosso filho.
— Isso dizes você agora.
— Digo, sim , agora. E lam ento nunca te ter dito nessa altura quão enorm em ente te
adm irava. Só há um a m ulher no m undo que eu adm iro tanto com o te adm iro você, que am o
com o te am o você.
— Quem ?
—Você.
— Oh! O m eu inglês está um bocado enferruj ado. Não com preendi. Ele escolheu as
palavras com todo o cuidado.
— Sei que nunca porias a hipótese de voltar a ser m inha m ulher depois da dor que te
causei, você, é ao Piers. Mas, se algum a vez eu pudesse perdoar-m e por aquilo que vos fiz...
— Parou, engoliu em seco, continuou. — Suponho que é im perdoável, m as só penso nisso.
Ela fez um pequeno encolher de om bros, um gesto inteiram ente gaulês.
— Alors, Robert. Já ultrapassei m uito o ponto em que gostava de te m atar por arruinares
a m inha reputação, ou até por am ares m ais aquela droga do que a m im . Mas o que aconteceu
ao m eu bebê, nosso filho... Isso não posso perdoar.
Robert avançou um passo na direção dela.
— Não esperava que perdoasses.
— Sim , eu acho que ele precisa de te perdoar — disse ela, os olhos perturbados, sem
parecer notar que ele estava m esm o à frente dela. — O Piers é m ais severo para contigo do
que devia ser.
— Eu sei. Talvez... um dia. — Mas, na realidade, ele não queria falar de Piers, e não
conseguiu evitá-lo: as suas m ãos levantaram -se com o se tivessem vontade própria e
envolveram o rosto. E, rapidam ente, antes que ela pudesse recusá-lo, inclinou a cabeça e
beij ou-a. Pôs tudo naquele beij o: o seu arrependim ento, o seu am or, o seu desej o. Os longos
e frios anos de sobriedade, quando ela estivera casada com outro, e ele não tinha nada em
que pensar a não ser na sua estupidez;
Por um instante — um instante abençoado, prim oroso —, ela devolveu- o beij o. Sabia a
dam ascos: sim ultaneam ente doce e ácida e dolorosam ente fam iliar.
Mas, depois, levou- a m ão ao peito e em purrou-o. Sem um a palavra, virou-se, abriu a porta
e saiu, não deixando nada atrás de você além de um esquivo fio de perfum e no ar.
No entanto... tinha havido algo nos seus olhos, no m odo com o os seus lábios se entregaram
aos seus...
Ter esperança era pôr-se em risco. Com toda a probabilidade, as suas esperanças transform ar-se-iam em pó, em rej eição e dor. Não ousara um a em oção tão louca em anos.