Quando a Bela Domou a Fera

Eloisa James · Capítulo 10 de 36

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Quando a Bela Domou a Fera

Capítulo 10

— Vai rir, sendo m édico e tudo, m as um a vez a m inha m ãe disse um a coisa...

— O quê? — Ele sem pre tivera controle sobre o seu corpo. Sem pre. Aquilo era um a

aberração.

— Ela disse-m e um a vez que os hom ens pendiam .

— Pendiam ? — repetiu ele. Se ele olhasse apenas para o rosto, não veria o m odo com o o

linho fino se colava aos seios, às ancas. Não pensaria no desej o ardente que ardia nas

virilhas. Era apenas um a necessidade biológica, nada m ais.

— Pendiam — disse ela, voltando a dar um a risadinha.

— A frente. O senhor não pende, pois não? — Ela indicou com a m ão as im ediações da

cintura dele. — Não se im porta que eu o diga, pois não? Eu form ei esta visão repugnante de...

de um a coisa pendente e... bem , o senhor não pende nada. Está direito.

Ele desatou a rir.

— Eu sei — disse ela, rindo-se tam bém . — Sou um a idiota. Mas ele tinha a sensação

desagradável de que o idiota era ele.

10

Linnet deixou-se ficar no banho durante um a hora, bebendo chocolate quente e acabando de

ler Cam illa, de Miss Fanny Burney '{5}. Mas, por fim , j á não havia m ais bidões de água quente e ela

tinha acabado o livro, por isso levantou-se.

— Gostava de saber se este castelo tem um a biblioteca— disse ela à criada, Eliza. — Só

trouxe cinco rom ances e li-os todos na carruagem a cam inho de aqui.

— Não pode voltar a lê-los? — sugeriu Eliza, estendendo- um a toalha. — Parece um

desperdício olhar para eles só um a vez.

— Talvez releia aquele — disse Linnet, indicando com a cabeça Cam illa. — Era m uito bom .

Já li duas vezes Miss Butterworth e o Barão Louco. Na verdade, três vezes. — Sentou-se ao

toucador.

— E engraçado, m enina, com o faz todas essas leituras— disse Eliza, com eçando a pentear

o cabelo m olhado de Linnet.

— Se os cavalheiros de Londres soubessem que era um a sabichona assim !

— Que diferença é que poderifazendo?

Eliza franziu os lábios.

— Ninguém gosta de um a m enina com m ais inteligência do que cabelo, m as, por outro

lado, nunca soube de nenhum a senhora que lesse com o a m enina. Havia de os abanar, a todos

esses idiotas que acharam que o príncipe andou a brincar com a m enina.

— Duvido — disse Linnet. — Penso que, é m uito m ais interessante falar do m eu pretenso

bebê real do que dos m eus hábitos de leitura.

— Bem , eu sei que há aqui um a biblioteca. Mister Prufrock falou disso ontem ao j antar.

— Instalaram -te confortavelm ente? — Com um a ponta de culpa por não a acom panhar a

Gales ele próprio, o pai m andara com ela não só Eliza, m as lacaios, m oços de estrebaria e o

engraxador, para j ogar pelo seguro.

— Oh, sim , m enina. Estam os na ala oeste, com as pessoas que estão a m orrer com

gangrenas e tudo isso. Disseram -nos que não fôssem os nunca à ala leste, que é onde põem os

que têm infecções. Que se pode pegar, quer dizer. Há um a governanta para cada ala e outra

para o castelo. Um paciente estava a gem er tão horrivelm ente ontem à noite que eu pensava

que não conseguia dorm ir, m as por fim lá parou. Mister Prufrock disse que, se acontecer

outra vez, devo queixar-m e, e eles calam -no.

— Com o diabo é que podem fazer isso? Se o hom em está com dores, quero dizer.

— Dão- um rem édio, não adm ira — disse Eliza. — Porque é que a m enina não vai para

j unto da lareira à espera que o seu cabelo seque? Linnet lam entou-se.

— Porque não tenho nada para ler. Podes correr a essa biblioteca e trazer-m e um ou dois

livros, Eliza?

— Acho que posso pedir a um lacaio que m e aj ude a encontrá-la — disse Eliza. — Há um

que é m uito giro, com um nom e m uito engraçado. Esteve a dizer-m e, ontem à noite, que o

m édico am eaçou cortar a cabeça e ver se ele conseguia andar por aí sem ela.

Dez m inutos m ais tarde, tinha regressado com um a pilha de livros.

— Há lá, oh, tantos livros — inform ou. — No entanto, não consegui encontrar nada

parecido com o gênero de rom ances que a m enina gosta de ler.

Os livros não eram exatam ente o tipo de leitura de Linnet, m as um a m ulher desesperada

lê qualquer coisa.

— Sabes que com er um m elão cura o inchaço? — perguntou a Eliza algum tem po depois.

— A sério? Talvez de um dedo do pé. Mas duvido que cure outro qualquer. O m eu pai

ficava com o nariz terrivelm ente inchado se bebesse dem ais. Largue esse livro agora, m enina.

Tenho o seu corpete pronto.

Bastante relutantem ente, Linnet pôs o livro de parte.

— Tam bém diz que se deve usar cebolas para refrescar o hálito.

— Puro disparate — declarou Eliza, apertando- o corpete e depois fazendo-deslizar um

vestido sobre os caracóis, que estavam puxados para cim a e presos em volta da cabeça com

florezinhas de esm alte brilhante. Quando com eçou a abotoar- - as costas do vestido, Linnet

voltou a pegar no livro.

— A m inha tia bebe enorm es quantidades de Elixir Daffy {6} — disse Linnet. — Acha que a

m antém m agra. Este livro sugere bochecha de vaca guisada.

— Isso é noj ento. — Eliza parou e depois acrescentou, pensativa: — Provavelm ente

funciona precisam ente por essa razão.

— Gostava de saber o que Lorde Marchant pensa de especialidades farm acêuticas — disse

Linnet. — Sabes onde posso encontrá-lo?

— Segundo dizem , em geral está com os pacientes. Estej a quieta, m enina. Só preciso de

abotoar o últim o botão... pronto. Tem um a hora antes da cam painha para o alm oço.

Linnet lançou um olhar rápido ao espelho... frente e lados.

— Não há sinal de bebê — disse Eliza, alegrem ente. — Vam os lá ver quando é que o duque

nota. Segundo consta, ele é louco pelo assunto da realeza, m esm o louco. Vai ficar m uito

desiludido quando se souber que a m enina não é a m ulher perdida que ele queria para o

filho.

Linnet suspirou.

— Toda a gente da casa sabe tudo?

— Nesta casa, não — disse Eliza, chocada. — Em bora eu tenha de adm itir que eles

com eçaram um a aposta nos baixos da casa. Mister Prufrock é m uito m enos conservador do

que Mister Tinkle, lá em casa; Mister Tinkle nunca teria perm itido um a coisa dessas.

— A aposta é sobre se eu estou à espera de bebê ou não?

— Oh, não! Nós, quer dizer, todos os que viem os lá de casa sabem os que a m enina m andou

o Stubbins conduzi-la às voltas por Londres sem um a única paragem para apanhar aquele

príncipe. E sobre se Lorde Marchant vai apaixonar-se por você.

— Espero sinceram ente que não tenhas apostado as tuas poupanças — disse Linnet,

dirigindo-se à porta.

— Todos nós, os que viem os com a m enina, estam os a apostar em você. E o pessoal todo

daqui, bem , está a apostar em sua senhoria. Ele tem -nos, a todos, com um m edo de m orte.

Eles pensam que ele é desum ano.

— Por um bom m otivo, sem dúvida — disse Linnet. — Afinal, trabalham para ele. Vais

perder o seu dinheiro, Eliza. Eu e Lorde Marchant j á concordam os que não som os feitos um

para o outro.

Eliza m ostrou um sorriso rasgado.

— Porque não vai até lá acim a perguntar- pela bochecha de vitela em conserva ou lá o

que era? — Atravessou o quarto com o um a flecha e puxou o corpete de Linnet um pouco

m ais para baixo. — Agora está pronta.

Linnet dirigiu-se à enferm aria, no terceiro andar, m as, quando enfiou a cabeça pela porta,

não viu sinais de Piers, nem , na verdade, de nenhum dos m édicos. O doente da véspera,

todavia, levantou a cabeça e disse qualquer coisa que ela não percebeu, por isso foi até j unto

dele.

Ele parecia m ais um cão, o gênero de cão felpudo que vagueia pelos becos com um ar

patético e escabroso.

— A sua doença de pele parece ser m uito dolorosa — disse ela. — Ontem não tivem os

oportunidade de nos apresentarm os, m as o m eu nom e é Miss Thry nne.

— O m eu é Ham m erhock — disse o paciente, com dificuldade. Tinha certam ente a língua

inchada.

— Posso aj udá-lo em algum a coisa? — perguntou ela. — Quer água?

— O m édico disse que não há nada que se possa fazer— disse um a voz atrás dela. Virou-

se e viu um rapazinho na cam a ao lado. Todo ele pele e osso, não era m uito m ais atraente do

que Mr. Ham m erhock. Tam bém tinha um a espécie de desalinho de cão vadio, com cabelo

castanho espetado em todas as direções. Estava dem asiado pálido! Ela sentiu um palpitar de

alarm e; ele não era, com certeza, um dos pacientes m oribundos que Eliza m encionara.

— Nada que se possa fazer não significa que não pode beber água — disse ela. — Com o te

cham as?

— Gavan — disse ele, soerguendo-se na cam a. — Aí o Ham m erhock, sabe, ontem

concluíram que ele tinha um a febre qualquer. Por isso, a enferm eira aparece de vez em

quando para pôr um pano húm ido na cara e dar- um rem édio.

Ham m erhock estava a confirm ar com a cabeça.

— Onde está a enferm eira? — perguntou ela. Estava a sentir-se, verdade fosse dita, com o

peixe fora de água.

— Fez um intervalo — disse Gavan. — Fica neura de estar aqui enj aulada com todos nós,

que estam os a m orrer.

— A m orrer? Estás a m orrer?

Gavan esboçou um sorriso tolo.

— O m édico diz que estam os todos a m orrer.

Mr. Ham m erhock em itiu um ruído abafado da sua cam a, por isso Linnet virou-se para ele.

Apontou para um copo de água e ela aj udou-o a beber um golinho. Ele deitou-se e fechou os

olhos.

Linnet olhou para a fila de pacientes, m as, na sua m aioria, pareciam estar entorpecidos,

por isso sentou-se na cam a de Gavan.

— Com o vieste aqui parar?

— Foi a m inha m ãe que m e trouxe — disse ele, franzindo a sobrancelha. — E deixou-m e

aqui.

— Vives m uito longe do castelo?

— Não m uito longe. Bem , é m ais longe do que o m ercado.

— E agora o m édico está a tom ar conta de você — disse Linnet.

— Em breve vais poder voltar para casa.

— Não posso ir para casa — afirm ou Gavan. — Não posso ir para casa porque estou

doente, e aqui tenho esta cam a, sabe. Por isso, a m inha m ãe disse que eu tinha de ficar aqui

porque, bem , tenho lençóis, não tenho? E com ida, a com ida toda que quiser.

A porta atrás do om bro de Linnet abriu-se e um bando de hom ens entrou de rom pante.

Mesm o antes de se virar, ouviu o grunhido de Piers.

— Ora, ora, vej am quem aqui está, a tentar polir o seu halo.

Linnet estava a observar Gavan, que tentava erguer-se ainda m ais na cam a, sorrindo

loucam ente.

Depois ouviu o som bem conhecido de um a bengala e Piers apareceu do outro lado da

cam a.

— A divertir-se, visitando o que está a m orrer e o recentem ente gerado, não é?

— O que é recentem ente gerado? — E sem parar: — Viu esta senhora? — Gavan apontou

para Linnet.

A sobrancelha de Piers ergueu-se.

— Vi esta senhora, sim . Que achas dela? Estava a considerar casar com ela.

Gavan assentiu com a cabeça.

— O m eu pai diz. . — hesitou.

— Desem bucha — disse Piers. — Ela parece um a senhora, m as não é. Linnet fulm inou-o

com os olhos.

— O m eu pai diz que as m elhores m ulheres têm m arm elos m uito grandes — disse Gavan.

Olhou fixam ente para o peito de Linnet de um m odo tão natural que Piers fez o m esm o.

— O m elhor é ficar com ela — disse ele a Piers. — Por ser coxo, algum as m ulheres não vão

querê-lo.

Ignorando o olhar carrancudo de Linnet, Piers inclinou-se para olhar m ais de perto para

os atributos em causa.

— Tens a certeza? Eu sem pre im aginei para m im um a m enina de cabelo preto, com certo

ar de cigana.

Gavan lançou um olhar enoj ado.

— Não sabe nada sobre as m ulheres?

— Talvez não saiba tanto com o você.

— Um a m enina que parece um a cigana, bem , se calhar é um a cigana. E, se casar com ela,

tem de sair daqui e viver na sarj eta, porque ela não vai querer parar num único lugar, pelo

m enos durante m uito tem po.

— Não podia deixá-la ir sozinha?

— Não, se forem casados — disse Gavan. — Nesse caso, estão acorrentados um ao outro,

sabe. E o que o m eu pai diz sem pre.

— Com o te sentes hoj e? — Piers m udou de assunto. — Já te levantaste?

— A enferm eira deixou-m e levantar para utilizar o bacio. Mas depois eu fingi que não

acertava e salpiquei o sapato e ela disse-m e que eu era m au com o o diabo e voltou a m eter-

m e na cam a, — Tinha o riso claro e feliz de crianças num parque.

— Onde está a enferm eira? — perguntou Linnet, erguendo os olhos para Piers. — O Gavan

acha que ela está a ter um ataque de neura.

— Dem asiadas m ortes por aqui — disse Gavan, alegrem ente.

— Provavelm ente está a roubar-m e o brande — calculou Piers. — Era o que eu faria se

tivesse de enfrentar o Gavan a urinar-m e nos sapatos. Gavan, você dizes-m e se a enferm eira

Matilda aparecer aqui bêbada com o um cacho, não dizes?

Gavan assentiu que sim com a cabeça, vigorosam ente.

— Gostas da enferm eira? — perguntou- Linnet.

— Ela não m e deixa levantar. Diz que, se eu m e levantar, dá a m inha cam a a outra pessoa.

Ouviu-se outro barulho abafado vindo da cam a do lado. Piers e o seu pequeno grupo

tinham avançado um pouco m ais ao longo da fila, por isso Linnet inclinou-se para Mr.

Ham m erhock.

— Sim ?

— Por am or de Deus, m ulher, afaste-se para trás — ouviu-se um berro vindo de trás dela.

— Há a possibilidade de ele estar contagioso, sua palerm a desm iolada.

Linnet ignorou-o, porque Mr. Ham m erhock estava, a m uito custo, a tentar dizer algum as

palavras.

— A enferm eira é um a m egera — disse ele, finalm ente, ofegando do esforço.

— Então vai m esm o casar com o m édico? — perguntou Gavan. — Porque ele não é m uito

sim pático. Está sem pre a cham ar nom es feios às pessoas e a enferm eira tam bém cham a

diabo.

Do outro lado da enferm aria, m esm o a propósito, Piers rugiu a um dos seus j ovens

m édicos.

— A ’nha m ãe dava- um a tareia — disse Gavan. — Eu acho que, se casar com ele, terá

de dar um a tareia de vez em quando.

Am bos olharam para a figura im ponente de Piers, um pouco m ais à frente.

— Pode não ser fácil — acrescentou Gavan.

— Percebo o que queres dizer — concordou Linnet. — Então gostavas de sair da cam a?

— Não posso — afirm ou Gavan. — Posso perder o lugar. Há sem pre tantas pessoas

doentes que querem estar aqui, sabe.

— Eu não a deixo dar a sua cam a a ninguém — disse Linnet, vendo que Mr. Ham m erhock

estava a acenar com a cabeça.

— Podes estar um pouco cansado, por isso talvez um lacaio possa levar-te lá fora. Calculo

que fosses um rapaz m uito ativo antes de vires para aqui.

— Ontem não consegui ir à retrete — disse Gavan, hesitante. — Não consegui ir sem m e

pendurar no braço da enferm eira com o se ela fosse um a árvore.

— Que aborrecido — disse Linnet. — Vam os lá então.

— Levantou-se e tocou a cam painha. Nessa altura, Piers j á estava ao fundo da sala,

arengando com os m édicos e não deu atenção quando um lacaio sim pático, cham ado

Ney then, pegou em Gavan e no seu cobertor e saiu porta fora.

Linnet foi atrás.

— Onde quer ir, m enina? — perguntou Ney then por cim a do om bro.

— À piscina — disse ela.

— O que é um a piscina? — perguntou Gavan. O seu olho aberto brilhava de excitação. —

Quer dizer um lago de peixes? Porque eu j á vi um . Eu. .

Falou o tem po todo enquanto desceram as escadas e percorreram o cam inho e só parou

quando chegaram à piscina, e foi porque ficou de boca aberta.

— É bonita, não é? — perguntou Linnet, a sorrir. — Ney then, pode, por favor, pôr o Gavan

aqui, nesta pedra grande?

— E tão grande — exclam ou Gavan e Linnet apercebeu-se de que ele estava a olhar para

lá da piscina, para o oceano.

— Não sabia que era tão grande. Toda aquela água... para onde vai?

— Anda para aqui e para lá.

Sentaram -se, os três, e observaram as ondas durante um bocado.

— Quantos anos tens, Gavan? — perguntou ela.

— Seis e três quartos — disse ele. — Vê com o o sol faz aquele carreiro no m ar? Havia um

carreiro largo e dourado que se estendia até ao horizonte.

— É com o um a estrada — com entou Gavan. — Se calhar, é a estrada para o céu de que a

’nha m ãe m e falou.

Ney then m udou de posição.

— Tem de voltar ao seu trabalho? — perguntou- Linnet.

— Mister Prufrock vai com preender — disse Ney then. — E um a pessoa decente. —

Estendeu a m ão e puxou o cobertor de Gavan m ais para os seus om bros.

— Eu acho que não vou para o céu — disse Gavan. Não parecia dem asiado preocupado

com isso.

— Claro que vais — afirm ou Linnet. — Mas não para j á, espero.

— Penso que não nos deixam entrar na porta se não acreditarm os em todos os sím bolos.

As nuvens e as harpas e coisas desse gênero.

— Não tens de acreditar nisso — disse Linnet, resolutam ente.

— Quando precisares, a porta abre-se. — Voltou a olhar para Gavan. Poderia estar a

m orrer de um a doença horrível? A ideia era de partir o coração.

Gavan suspirou.

— Há cães por aqui?

Linnet virou-se para Ney then.

— Há um cão lá ao fundo, nos estábulos. Mas é um bicho velho e feio que não é de ninguém .

— Então pode ser m eu — sugeriu Gavan. — O m eu irm ão tem um cão, m as eu não tenho

um , só m eu. — Claram ente, j á não estava interessado em m ais discussão filosófica sobre a

vida no além . — Vam os! — disse ele.

— A sua enferm eira pode estar preocupada sem saber onde você estás — disse Linnet.

Mas Gavan era de opinião de que a enferm eira nem sequer repararia que ele não estava lá.

E, se reparasse, iria, ao que parecia, ficar encantada.

— Ela diz que eu sou um torm ento constante para ela— confidenciou ele. — Por favor,

podem os só dar um a espreitadela ao cão?

Portanto, estavam no estábulo, a tentar aliciar um pequeno rafeiro pardo cuj os únicos

sinais distintivos eram olhos pretos brilhantes e um a aura geral de suj idade, quando Linnet

ouviu o som pesado da bengala de Piers.

— Cá estão — disse ele de um a form a nada sim pática. — Por am or de Deus, a enferm eira

pensa que o rapaz foi roubado.

— Ela não vai dar a m inha cam a a m ais ninguém , pois não? — gritou Gavan. Tentou pôr-

se em pé e com eçou a inclinar-se para o lado, apesar de Ney then o ter agarrado m esm o no

m om ento certo.

— Ela não pode dar a sua cam a a m ais ninguém , tem as tuas pulgas — declarou Piers.

— Eu não tenho pulgas — retorquiu Gavan. — Acha que...

— Claro que não acho — disse rapidam ente Piers. — Que estás fazendo com este rafeiro

noj ento?

— Ele vai ser m eu — respondeu Gavan. — Vou dom esticá-lo e vai dorm ir na m inha cam a.

Tinham o cão encurralado num a m anj edoura, m as m esm o assim ele não m ostrava

qualquer interesse em se aproxim ar, por m uitas vezes que Gavan cham asse anda aqui, rapaz,

anda aqui, rapaz.

— Espero que o nom e dele não sej a Rapaz — observou Piers. Mal olhava para Linnet. E a

coisa m ais aborrecida era a m aneira com o o coração dela tinha acelerado quando ele entrara

nos estábulos. Muito em breve ficaria à espera de ouvir o som da sua bengala com o um a

palerm a perdida de am ores.

— Com o se cham a ele? — perguntou ansiosam ente Gavan.

— Dantes ele era seu?

— Claro que não era m eu. Se queres que ele venha, é m elhor ofereceres- carne. — Acenou

com a cabeça a Ney then. — O Prufrock anda à sua procura. Vai dizer- onde estás e depois

volta aqui e leva esta peste lá para cim a.

— Bem , então se ele não é seu, pode ser m eu — acrescentou Gavan. — Talvez cham e

Rufus.

— Sugiro Marm elos — disse Piers, olhando de lado para Linnet. — Um nom e que te fará

lem brar o conselho do seu pai.

— Esse não é um nom e bom — disse Gavan, abanando a cabeça. — É nom e de m enina. Ele

é m ais Rufus. Anda, Rufus.

Linnet endireitou-se, j á que parecia que Gavan estava ocupado a tentar convencer Rufus

a brincar com um pau.

— E que raio é que a senhora pensa que anda fazendo? — perguntou- Piers. — Não

alm oçou.

Ele elevava-se acim a dela de um m odo m uito incom odativo.

— Lim itei-m e a trazer o Gavan aqui fora — disse ela. — A m enos que eu queira sentar-m e

na sua biblioteca a ler escritos m édicos, não tenho m ais nada para fazer.

— Devifazendo o que quer que sej a que as senhoras fazem o dia todo. Mas m antenha-se

longe dos m eus pacientes.

— Porquê?

— Porquê? Porque eu m andei!

Ela resfolegou.

— Tem m edo da sua enferm eira.

— Não tenho m edo da enferm eira Matilda. Ela é m uito boa a im por disciplina.

— Então porque se incom odou a percorrer este cam inho todo até aos estábulos para nos

encontrar?

— Talvez estej a a apaixonar-m e por você, tal com o a m aioria do m eu pessoal pensa.

— Eles não pensam isso — observou ela. — O m eu pessoal é que pensa.

— O m eu criado contou-m e tudo sobre a aposta. O seu pessoal vai perder um a porção de

dinheiro — disse ele com algum a satisfação. — Espero que lhes pague bem , para eles

poderem dar-se a esse luxo.

Linnet fez- um a careta e depois voltou a olhar para baixo. Gavan tinha gatinhado para a

frente e Rufus estava cautelosam ente a cheirar- os dedos.

— Não pode deixar esta criança m orrer com um a m egera de um a enferm eira e sem m ais

ninguém , a não ser gente doente, à volta dele.

Piers deu um a gargalhada, por isso ela olhou para ele.

— Eu sou um estaferm o insensível, não sou? — perguntou ele.

— É.

Ele apoiou-se com m ais força à bengala.

— Vam os ficar aqui a ter um a discussão relevante sobre cuidados a ter com pacientes, ou

posso voltar para dentro?

— Porque não se senta naquele lindo banco? — perguntou Linnet.

— Porque não vou eu para dentro...

— Porque eu quero falar com você acerca da m aneira com o tem os pacientes deitados

naquelas cam as à espera que chegue ao fim .

— Porque diabo é que eu havia de querer falar com você sobre isso? A sua beleza não

basta para a habilitar com o um profissional de saúde.

— Não é preciso ser-se profissional de saúde para se saber que não está certo deixar um

rapaz m oribundo, um a criança, lá dentro com todas aquelas pessoas doentes. Ele está na

cam a o dia inteiro. A enferm eira nem o deixa sair um bocadinho.

— Fui eu que m andei — explicitou Piers, divertido. — Em geral, ela obedece-m e porque

eu pago o salário.

— Isso é ridículo — com entou Linnet. — Devia ter visto com o ele ficou feliz por ver o m ar.

E agora, com ... — Olhou para baixo. Rufus tinha-se aproxim ado e parecia estar a olhar para

os pés descalços de Gavan.

— A enferm eira Matilda não vai gostar nada disso — disse Piers, com um nítido tom de

j úbilo. — Vai censurá-la.

Linnet encolheu os om bros.

— O Ney then pode m ergulhar os pés do Gavan na gam ela dos cavalos, à porta, antes de o

devolver à enferm aria.

— Então que acha que eu devifazendo de m aneira diferente na ala oeste?

— Torná-la m ais alegre.

— Isto é tudo por causa da m orte, não é? — Piers inclinou-se um pouco m ais para ela. —

Tem m edo dela.

— Isto não é por causa da m orte — respondeu rapidam ente Linnet.

— Ótim o — disse Piers. — Bem , foi um a conversa fascinante, m as a m inha perna não

aguenta o entusiasm o durante m ais tem po. — Virou-se para se ir em bora.

Linnet estreitou os olhos. Sentia o seu m au hum or a aum entar.

— Está a fugir de m im ?

Piers olhou por cim a do om bro.

— Estou? Estou a quê? A... fugir? — Resfolegou. — Sim , estou. Ela correu em volta dele e

pôs-se à frente da porta.

— Porque não m e ouve?

— Porque a senhora é asinina.

— Devia ter visto a cara do Gavan quando falou do céu — disse ela, furiosa. — Disse que

o sol a bater no m ar parecia m esm o...

— Podia ter ficado com ar de vaca m oribunda — disse Piers, interrom pendo-a. — Mas eu

não vej o com o isso possa ser relevante.

— Porque ele está a m orrer, seu palerm a — disse rapidam ente Linnet.

— Estam os todos a m orrer.

— Não do m esm o m odo que o Gavan. Ou, pelo m enos, não tão em breve, ou não tão j ovens.

— Quem sabe quando o Gavan vai m orrer? — Encolheu os om bros. — Tenho de dizer

que há boas hipóteses de a senhora m orrer antes dele. Mesm o tendo em conta a longevidade

das m ulheres, ele tem só seis anos e a m enina deve ter uns vinte e cinco.

— Tenho vinte e três — em endou Linnet, franzindo a sobrancelha.

— Considerando o que eu vi da m ãe dele, diria que ele vai viver até um a idade avançada.

E um a m ulher rij a e foi suficientem ente esperta para o trazer para aqui quando ele caiu da

m eda de feno e fez um a fratura exposta.

— Exposta...

— Fratura. Partiu um osso — disse Piers, de m odo prestável.

— Agora im porta-se m uito que eu volte a coxear para casa e conte que o paciente foi

descoberto, se bem que coberto de xixi e sem dúvida cheio de pulgas? A enferm eira Matilda

não vai gostar disso.

— Eu pensei que ele estava a m orrer. Ele disse que o senhor o obrigava a estar na cam a.

— Estupidez! — retorquiu Piers, de form a pouco gentil. — Eu obriguei-o realm ente a estar

na cam a. Experim entam os um m étodo bastante inovador de consertar o osso im obilizando-

o com um aparelho de gesso, e funcionou com o um m ilagre, se não m e fica m al afirm á-lo.