Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 10 de 41

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Trindade

Capítulo 4

 

Ricardo de York estava expansivo, de ótimo humor. O dia estava quente, com um odor de argamassa e pó de pedra no ar seco. A Câmara Pintada do Palácio de Westminster tinha séculos de idade, com o teto vermelho-escuro rachado de fora a fora e quase sempre úmido. Para variar, havia secado, e o cheiro era bastante agradável.

York se recostou enquanto um pedaço de pergaminho do comprimento de seu braço era passado de mão em mão pela longa mesa. Cada um dos homens sentados fazia uma pausa reverente ao recebê-lo, lendo outra vez as palavras que fariam de Eduardo de Westminster príncipe de Gales e herdeiro do trono inglês. Sob o cenho franzido de Ricardo, não foram poucos os lordes reunidos que lançaram olhares furtivos a York, tentando discernir seu jogo mais profundo. Edmundo Beaufort, conde de Somerset, fez com que todos esperassem enquanto lia a declaração formal desde o início mais uma vez, procurando algo que tivesse deixado passar.

A tensão do silêncio aumentou enquanto todos esperavam Somerset pegar a pena e assinar seu nome. Ali perto, o sino de Westminster tocou meio-dia, as notas retumbantes pelos corredores. York pigarreou, fazendo Somerset erguer os olhos de repente.

— O senhor estava presente quando isso foi escrito, milorde — disse York. — Está descontente com seu propósito? Seu efeito?

Somerset colocou a língua entre o lábio superior e os dentes, a boca se contorcendo. Não havia nenhuma cláusula sutil que pudesse ver, nenhum truque na redação que negasse ao filho do rei Henrique seus direitos de nascença e herança. Mas não conseguia deixar de suspeitar de que deixara de perceber algo. Sem dúvida York não ganhava nada permitindo que a linha de Lancaster continuasse por mais uma geração. Se havia um momento para se proclamar pretendente ao trono, Somerset tinha certeza de que era aquele. O rei Henrique ainda estava sem sentidos, sem consciência, afogado em brumas. York reinava em nome de Henrique havia mais de um ano, sem desastres nem invasões da França além dos costumeiros ataques a navios e cidades costeiras. Somerset sabia muito bem que a popularidade de York crescia. Mas ali estava, em documentos que o Parlamento reconhecera e passara para os lordes e, é claro, para o próprio York assinarem, selarem e transformarem em lei. Os homens naquela sala confirmariam um menininho como futuro rei da Inglaterra. Somerset balançou a cabeça, irritado, quando outros dois barões pigarrearam, querendo avançar para o almoço e a tarde.

— Isso levou quatro meses para ser feito — declarou Somerset sem erguer os olhos. — Esperem mais um instante enquanto leio tudo de novo.

York deu um suspiro audível, recostou-se na cadeira e fitou o teto lá no alto. Podia ver nas vigas o ninho de lama de um pardal, algum passarinho valente ou talvez tolo que havia escolhido aquela sala para criar os filhotes. York achou que conseguia ver um cintilar de movimento no buraco de entrada, e fixou o olhar nele, contente de esperar.

— O pequeno Eduardo será coroado em Windsor — disse Somerset em voz alta. — Aqui não há menção de regentes enquanto ele cresce.

York sorriu.

— O pai dele ainda é rei, Edmundo. Nomear um regente seria um erro duplo. Concordei em proteger e defender o reino durante a doença do rei Henrique. Gostaria que eu nomeasse um terceiro ou quarto homem? Talvez preferisse que todos nós governássemos a Inglaterra quando terminar a leitura.

Risinhos serviram de eco a suas palavras em torno da mesa, enquanto Somerset fervia de raiva.

— O rei Henrique acordará daquilo que o prende ao leito, seja o que for — respondeu ele. — Onde o senhor estará então, milorde York?

— Rezo por isso — respondeu York, os olhos mostrando apenas diversão. — Mando rezar missas todos os dias para que eu possa tirar dos ombros o fardo terrível de minha autoridade. Meu pai podia descender do rei Eduardo, mas os filhos de João de Gaunt têm precedência. Não desejei o trono, Edmundo. Só o que tenho feito é manter a Inglaterra unida e a salvo, só isso, enquanto seu rei sonha. Eu não sou o pai dessa criança, apenas seu protetor.

Houve uma ênfase sutil nas últimas palavras e, embora soubesse que York implicava com ele, Somerset se irritou mesmo assim, o punho direito cerrado sobre a mesa. Soubera dos boatos que corriam pelas câmaras dos Lordes e dos Comuns. Essas fofocas não mereciam sequer desprezo, nascidas do desejo cruel de arruinar a rainha Margarida e negar ao filho dela seu lugar legítimo. Somerset praguejou em voz baixa, pegou a pena e assinou seu nome com um floreio, permitindo que os escribas à espera tomassem dele o pergaminho e secassem a tinta antes de passá-lo finalmente a York.

Talvez para enfurecer o mais velho, York deixou seus olhos passarem lentamente sobre as palavras, uma de cada vez. Não era hora de se apressar, e ele coçava o pescoço enquanto lia, sentindo a diversão dos outros homens e a raiva fervilhante do duque diante dele à mesa. Na verdade, York pensara em retardar ainda mais a passagem das discussões no Parlamento. Se o rei Henrique se despedisse do mundo antes que o documento fosse assinado e selado, naquele momento York seria o herdeiro real. Um estatuto fizera dele o herdeiro quatro anos antes, quando parecia que a rainha era estéril ou o rei incapaz de cumprir seu dever.

Mesmo então, era como um alfinete em sua mente a ideia de que apenas sua própria assinatura estava entre ele e a Coroa. Mas Salisbury o convencera. O líder da família Neville sabia melhor que ninguém como administrar e assegurar o poder para aqueles de seu sangue. Era muito gratificante ver todo o intelecto e toda a esperteza dos Nevilles usados em seu benefício, pensava York enquanto lia. Quando se casara com Cecily Neville, a casa de York ganhara a força de um clã e de uma linhagem tão amplos e variados que, sem dúvida, chegariam a governar, fossem quais fossem os sobrenomes com que se casassem ou a cota de armas específica. Ele se sentia grato por o terem escolhido como seu defensor. Parecia que, ao lado dos Nevilles, um homem poderia crescer muito. Contra eles, pobres-diabos como Somerset nunca cresceriam.

York por fim fez que sim, satisfeito. Pegou a própria pena, molhou-a e acrescentou seu nome no final da lista, continuando com espirais decorativas, mostrando seu prazer.

Era cedo demais para se declarar pretendente ao trono, disso Salisbury o convencera. Muitos nobres do rei pegariam em armas sem pensar duas vezes assim que um usurpador se declarasse. Passo a passo, o caminho estava diante dele, se escolhesse percorrê-lo. A vida de um recém-nascido era algo delicado. York perdera cinco dos seus devido a desarranjos e resfriados.

Ele sorriu para o escriba que punha pesos de chumbo nos cantos do pergaminho. Como lorde protetor, era York quem devia usar o grande selo do trono da Inglaterra, o estágio final. Quatro plebeus tinham ficado ali de pé durante toda a discussão, de cabeça baixa, à espera do papel que tinham de desempenhar. Quando York lhes fez um sinal com a cabeça, eles se aproximaram da mesa, dispuseram as duas metades do selo de prata e recolheram o cadinho de cera do braseiro minúsculo onde fora aquecida até se liquefazer. Todos os homens ali observaram o selo real se unir com um barulhinho e a imagem do rei Henrique em seu trono ser coberta de cera azul. Um dos homens, o chaff-wax, responsável por lidar com a cera, usou uma faquinha para aparar o disco formado que começava a esfriar, enquanto outro dispunha pedaços de fita sobre o documento propriamente dito. Era um trabalho de artesãos habilidosos, e os presentes acompanharam com interesse o disco morno ser virado e apertado contra o pergaminho, manchando a página de óleo. As metades foram erguidas, e uma fina medalha de dez centímetros de cera ali ficou, pressionada sobre as fitas até não poder mais ser removida sem rasgar o pergaminho ou quebrar o selo.

Estava feito. Os portadores do selo se ocuparam guardando as ferramentas do ofício: colocaram as metades de prata de volta em saquinhos de seda e depois num cofrinho do mesmo metal polido. Após uma reverência diante do protetor, saíram em silêncio, sua participação terminada.

York se levantou e bateu palmas.

— Há uma criança que se tornou príncipe de Gales, herdeiro do trono. Milordes, hoje me orgulho da Inglaterra, tanto quanto um pai se orgulha de seu filho.

Ele olhou para Somerset, os olhos brilhantes. Mesmo então Somerset poderia ter ignorado, se um dos outros não soltasse uma gargalhada. Incomodado, o conde pôs a mão no punho da espada, encarando York do outro lado da mesa.

— Explique o que quis dizer, Ricardo. Se tiver coragem de acusar um homem de desonra e traição, faça-o às claras, sem jogar como os franceses.

York abriu ainda mais o sorriso, balançando a cabeça.

— Está me levando a mal, Edmundo. Deixe sua cólera se esvair! Hoje é um dia de alegria, com a linhagem do rei Henrique assegurada.

— Não — retrucou Somerset, a voz ficando mais profunda e mais rouca. Estava com 48 anos, mas não havia enfraquecido nem se curvara enquanto o cabelo agrisalhava. Levantou-se devagar da cadeira, os ombros aprumados, a raiva o impelindo. — Acredito que mereço uma satisfação, Ricardo. Quem espalha boatos falsos terá também de defendê-los. Deus e meu braço direito com certeza decidirão o resultado. Agora se desculpe e implore meu perdão, senão nos encontraremos amanhã ao amanhecer, no pátio lá fora.

Se não fosse a mesa entre eles, Somerset poderia ter puxado a arma e atingido York naquele instante. Os outros na sala tocaram nervosos o punho das espadas, prontos para agir. York manteve as mãos longe da arma, sabendo que estava ao alcance de um golpe súbito e que Somerset era veloz. Com cautela, também se levantou.

— O senhor ameaça o protetor e defensor do reino — avisou York. Sua voz ficara suave, como um aviso, embora ele ainda sorrisse, incapaz de esconder seu prazer com o curso que os fatos tomavam. — Tire a mão da espada.

— Eu disse que quero uma satisfação — respondeu Somerset, com voz irritada, o rosto enrubescido.

York deu uma risadinha, embora a tensão na sala a fizesse soar falsa.

— O senhor está enganado, mas a ameaça é um crime que não posso perdoar. Guardas! — Ele levantou a voz no final, espantando os que o cercavam.

Dois homens robustos entraram no mesmo instante, puxando a espada assim que viram a cena diante deles. York se dirigiu aos soldados do Parlamento sem desviar os olhos de Somerset nem por um instante.

— Prendam lorde Somerset. Ele ameaçou o protetor. Tenho certeza de que a investigação revelará alguma conspiração mais profunda contra o trono e aqueles que o servem.

Finalmente Somerset se mexeu, desembainhando a espada num movimento único e fluido e se lançando com ela por sobre a lateral da mesa. Seu alcance era extraordinário, e York se jogou para trás, batendo com força na parede e fazendo argamassa seca chover do teto em espirais. Admirado, ele levou a mão ao rosto e olhou para os dedos, quase esperando ver sangue. Mas os guardas tinham se jogado sobre Somerset quando ele se moveu, agarrando-o, e impediram o golpe. Enquanto ele se debatia, tiraram-lhe a espada e imobilizaram seu braço às costas dele, fazendo-o rosnar de dor.

— Edmundo, seu idiota — disse York, com uma raiva crescente. — Você será levado daqui pelo Tâmisa até a Torre. Acho que não o verei de novo enquanto as acusações forem preparadas. Enviarei a notícia de sua prisão à rainha, em Windsor. Não duvido de que ela ficará angustiada por perder alguém tão querido.

Somerset foi arrastado, ainda rugindo e se debatendo. York limpou o suor da testa. Fez um gesto para o pergaminho sobre a mesa.

— Mandem levar isso a Windsor, para ser lido e entregue ao rei Henrique. Deus sabe que ele não ouvirá as palavras, mas mesmo assim isso tem de ser feito.

Então York se recompôs, levantou a cabeça e saiu a passos largos para o ar quente do Palácio de Westminster. Os outros lordes foram atrás, sem dizer palavra.

 

O barão de Egremont cavalgava velozmente no centro dos Nevilles. Sabia muito bem que estava totalmente comprometido com a destruição da festa de casamento. Mesmo com as armas dos Percys raspadas ou cobertas, seus arqueiros tinham derramado o sangue inimigo primeiro e matado uns seis cavaleiros e homens de armas. Depois disso, não haveria retirada tranquila nem segunda oportunidade. Conforme se aproximava, conseguia ver a fúria do conde de Salisbury escrita em seu rosto. O conde Neville estava cercado por seus melhores guerreiros e brandia a espada para a direita e para a esquerda, enquanto a usava para apontar e berrava para que alterassem a formação. Tomás conduziu seu cavalo diretamente para o homem mais velho, o escudo e a espada parecendo leves em suas mãos. Havia treinado para isso. Trouxera sete centenas contra menos de um terço disso. Ele os destruiria antes que o sol chegasse ao meio-dia.

Ao longo de toda a linha, cavaleiros Percys e Nevilles se chocaram e se cruzaram, desferindo ao passar golpes violentos que deixavam um ou ambos tontos e cambaleantes. Para os cavaleiros da casa Percy foi um momento assustador, pois golpearam e foram arrastados pela própria velocidade, afastando-se dos que cavalgavam com eles. Os cavalos desaceleraram contra a massa sólida de homens de Neville, e, de repente, os guerreiros Percys se viram num impasse, golpeando e se defendendo, as montarias escoiceando qualquer um que se aproximasse de suas patas.

Tomás desferiu um golpe selvagem no primeiro cavaleiro Neville que enfrentou. O homem se esquivou com tanta rapidez que a espada resvalou na armadura, acertando uma apara espiralada de metal brilhante. Tomás ganiu quando sua perna esquerda foi atingida com um clangor, instantaneamente entorpecido ao passar pelo homem que tentava matar. Ele ouviu o xingamento grunhido pelo cavaleiro, mas nenhum dos dois podia se virar. Outros dois homens enfrentaram Tomás e, além deles, via-se Ricardo Neville, conde de Salisbury.

— Balion, avançar! — vociferou Tomás, sentindo o cavalo enorme se curvar debaixo dele em resposta.

Levara quase um ano para treinar o animal a não empinar totalmente, como faria contra outro garanhão. Em vez disso, Balion empinou e mergulhou quase no mesmo instante, mal saindo do chão antes de golpear os cavalos à frente com os cascos dianteiros.

Deus sabia que, se fosse selvagem, Balion comandaria qualquer manada. O imenso cavalo de guerra não precisava ser incitado, e o perigo era apenas perder o controle quando ele começava a corcovear e esmagar. Tomás viu movimento atrás de si e rugiu “Atrás!” enquanto aparava um golpe com o escudo. Ouviu um grito agudo se interromper quando Balion lançou a pata traseira em algum atacante invisível. Tomás percebeu que ria dentro do elmo, exultante com o dano que podia causar usando apenas uma palavra.

— E firme! — gritou para o garanhão empolgado, embora Balion ainda empinasse e se agitasse, bufando e querendo empinar mais uma vez.

Enquanto o enorme animal se acalmava, Tomás recebeu um forte impacto nas costas da armadura. Ergueu-se nos estribos para ficar mais alto enquanto girava com toda a força em resposta. Gritou de triunfo quando a espada pesada abriu um grande corte no flanco de um cavaleiro, fazendo o sangue jorrar sobre lábios de metal rasgado. Não era um ferimento fatal, mas o inimigo caiu de lado, perdendo a força na sela. O homem Neville caiu de cabeça para baixo, com uma das pernas se agitando, dando chutes, e a outra presa no estribo torcido. Lorde Egremont observou deliciado o guerreiro que o enfrentara na batalha ser arrastado do campo pela montaria em disparada.

Então algo se chocou em seu elmo. Tomás grunhiu de dor e recuou automaticamente quando a visão se borrou. Conseguia ouvir o tumulto em toda a linha e, com um toque de culpa, torceu para Trunning estar por ali, mantendo a cabeça fria. Não havia como supervisionar o combate, não ali no meio dele. Os homens ao seu redor atacavam com vigor selvagem, amassando e arranhando sua armadura, tentando quebrar as articulações metálicas ou ferir e rasgar Balion para que a queda do animal o derrubasse.

Por algum tempo, parecia que não conseguiriam tocá-lo. Sua armadura era boa, mais rígida e espessa do que os pedaços de ferro usados pelos cavaleiros mais pobres. Deus sabia como doía ser atingido, mas Tomás estava envolto, protegido, enquanto outros caíam diante dos movimentos de sua espada. Salisbury parecia ter sumido na confusão, mas Tomás o viu de novo e enfiou as esporas nas feridas dos flancos de Balion, fazendo sangue novo correr. O garanhão avançou, esmagando dois homens armados de machado que tinham se esgueirado pelas fileiras de cavalos. Eles mal tiveram tempo para erguer as armas antes de serem derrubados e pisoteados. Tomás só tinha olhos para o tio, a expressão enlouquecida dentro da viseira. A cabeça ainda retinia com o golpe e ele sentia gosto de sangue na boca, mas, se ele eliminasse o próprio líder do clã Neville, o pai saberia. A família Percy talvez não fosse capaz de se gabar de uma vitória de cavaleiros andantes, mas o pai saberia que mandara o filho certo.

— Salisbury! — berrou Tomás, vendo o mais velho se torcer na sela para ver quem chamara o seu nome.

Neville não usava peitoral nem armadura, apenas um gorjal de ferro. O escudo ainda não estava marcado, porque ninguém o alcançara através dos guardas. Talvez por seu senhor estar tão mal-equipado, aqueles homens se juntaram em torno dele, perdendo uns seis na luta para proteger o conde a quem serviam. Assim era melhor. Tomás podia ver que a vantagem numérica começava a surtir efeito. A voz rouca e terrível de Trunning podia ser ouvida em algum ponto à direita, ordenando que os homens atacassem os flancos. Não demoraria muito, percebeu Tomás, para que fosse o senhor do campo de batalha, vitorioso por sua casa.

— Percy! — cuspiu Salisbury em sua direção.

Tomás quase deu um puxão nas rédeas, em choque, uma hesitação momentânea que fez Ricardo Neville mostrar os dentes.

— É claro, um filho dos Percys! Quem mais cavalgaria sem cores para atacar um casamento? Qual dos filhotes sem honra é você? Henrique? Tomás? Levante a viseira, homem, para que eu possa enfiar minha espada nesse focinho Percy feio.

Com um grito ensandecido, Tomás acertou as esporas mais uma vez no flanco do animal, fazendo Balion investir. Ele conseguia ouvir lorde Neville rir quando seu caminho foi bloqueado. Pela primeira vez, Tomás viu que enfrentava homens tão habilidosos quanto ele. Não, percebeu; era superado pelo braço da espada dos outros. Não conseguiu forçar o caminho e, o tempo todo, o velho bastardo uivava para o mundo inteiro, num eco do desdém do pai que fez sua visão turvar e correr sangue em seus ouvidos como se fossem ondas do mar se quebrando. Tomás piscou para afastar o sangue que escorria de algum corte na cabeça. O elmo era bem acolchoado, mas o golpe de uma maça pesada o amassara, e uma borda afiada apertava seu crânio como se estivesse sendo trepanado. Sentia a respiração quente forçada contra as aberturas do elmo, e ele ainda se virava e esporeava Balion para atacar, embora o animal espumasse pelo nariz e perdesse forças com o sangue que escorria pelas costelas.

Em meio aos pés dos cavaleiros em combate, homens cinzentos portando machados tinham chegado à luta. As feridas que causavam eram horrendas, pois atacavam as pernas dos cavalos para fazer os homens caírem com os animais berrando. No chão, cavaleiros de armadura ficavam tontos e vulneráveis até se levantarem outra vez. A luta se tornara uma confusão selvagem, e nenhum dos lados cedia. Os soldados Percys ainda enxameavam em grande número, mas Tomás viu um número grande demais deles derrubados por homens de Salisbury. A guarda pessoal de Neville era rápida e vigorosa, jurara proteger seu senhor e estava tão bem protegida quanto o próprio Tomás. Quando lutavam com ferreiros e açougueiros armados de machado, aqueles homens passavam rapidamente por eles, distribuindo golpes.

A luta violenta se concentrava na linha de batalha — os que haviam nascido e treinado para esse trabalho, que tinham acumulado fôlego e músculos para lutar o dia inteiro. Uma armadura era fundamental para suportar os golpes esmagadores que vinham de todos os lados enquanto os homens lutavam, rasgavam tendões, torciam membros e articulações para massacrar o inimigo num frenesi. Os que não tinham tal proteção caíam como trigo diante da foice, o capim branco aplainado por moribundos. O tempo todo, o sol continuava a subir, trazendo o calor que fazia os cavaleiros ofegarem, a boca aberta dentro do elmo, de modo que os dentes se chocavam e se quebravam contra o ferro quando eram atingidos.

Em menos de uma hora, o combate perdeu o ritmo delirante e sobressaltado. Morte e vida passaram a ser decididas apenas pela perseverança, enquanto cada par ou trio de homens se chocava, lutava e cambaleava. A maioria dos aldeões Percys já havia morrido ou sofrido ferimentos tão selvagens que só conseguiam mancar e se afastar, segurando braços e barrigas como trapos ensanguentados. Os guardas Nevilles foram reduzidos a oitenta homens, no máximo, cercados pelo dobro disso com boas armaduras.

Tomás, um pouco afastado, mal conseguia erguer a cabeça quando parou Balion para avaliar o progresso e olhar de cara feia para a energia aparentemente inexaurível de Trunning. Via o mestre de armas cavalgar de um lado para o outro pela linha Percy, exortando os homens cansados a se esforçar mais. Tomás tentou cerrar a mão direita na manopla que pingava sangue de alguma ferida que ele não sabia onde estava. A primeira dor aguda no couro cabeludo ferido fora reduzida para um fraco latejar. Até a grande cabeça protegida de Balion caía em direção ao capim alto e, pelo que Tomás podia ver, Salisbury ainda estava vivo. Ele trincou os dentes de frustração. Não tinha visto o filho do outro, o noivo, em nenhum momento da luta. Os mortos jaziam pelo campo, mas os que caíram eram todos plebeus das duas casas, sem nenhum nome nobre entre eles.

Tomás tentou reunir energia para lutar de novo, e só precisou imaginar o desprezo do pai para forçar o espírito a sair daquele estupor sonolento. Pelo canto do olho, via Trunning lhe fazer gestos, e foi a insinuação de que recuara por medo que verdadeiramente lhe deu vontade de atacar mais uma vez. Chamá-lo para a luta como se fosse um moleque relutante! Tomás desejou que algum Neville cortasse a cabeça imunda de Trunning dos ombros. Esse era um nome que ele gostaria de deixar no campo de batalha, mesmo que fosse o único.

Enquanto trotava de volta ao combate, sentiu Balion tropeçar e se recuperar tão devagar que quase caiu. Ele tomou uma decisão rápida ao ver como eram poucos os Nevilles ainda montados. Ergueu a viseira e assoviou para um par de feridos que assistiam à luta sanguinária, verificando antes se não usavam cores. Eles pegaram as rédeas e o ajudaram a apear; as pernas que se sentiram estranhamente fracas ao tocar o chão o fizeram perceber como haviam sido golpeadas. Tomás cambaleou de leve, mas, fora os hematomas e um pouco de sangue, tinha certeza de que ainda estava forte, ainda bastante rápido. Deu um tapinha no pescoço de Balion, contente porque o valente animal não morreria de exaustão.

— Deem-lhe água, se puderem. Quero que, quando eu vier buscá-lo, ele tenha sido escovado e suas feridas cobertas com gordura de ganso.

Os homens ficaram bastante satisfeitos de sair do prado sangrento. Bateram continência e fizeram uma reverência para lorde Egremont, então levaram seu cavalo de guerra.

Tomás se virou e levantou a cabeça para a brisa. Deus, que alívio sentir o ar batendo no rosto depois de tanto tempo confinado. Ele andou a passos largos por um tufo de flores amarelas que se destacava em meio ao capim branco. A armadura guinchava e rangia, as articulações já sem óleo. Girou a espada enquanto avançava, afrouxando as ombreiras da armadura que lhe cobriam os ombros e o peito, assim como os músculos que se enegreciam debaixo delas.

— Egremont! — gritou Tomás ao se aproximar do combate, deixando seus homens saberem quem era e onde estava.

Ele praguejou e baixou a viseira um instante depois, chocado ao ver Salisbury dar meia-volta entre seus homens, começando a abandonar o combate. Estavam indo embora com seu senhor, e de repente Tomás desejou ter mantido Balion. Os que ainda estavam montados perseguiam a linha Neville, mas não havia dúvida de que estavam em retirada.

— Não! — urrou Tomás para eles. — Fiquem e nos enfrentem! — Conseguia ver a forma preta e arqueada de Balion diminuindo atrás dele, e começou a correr, sem mais saber o que fazer.

Um cavaleiro Neville parou e acenou com os braços, talvez na esperança de chamar os seus de volta. Com uma força selvagem, Tomás atingiu o pescoço do homem ao passar, fazendo-o cair ferido no capim. Ele continuou correndo, e ofegava tanto que teve de levantar a viseira outra vez. Trunning veio a cavalo, o rosto do mestre de armas apenas levemente mais corado do que de costume. Ele mascava o bigode comprido e olhava para Tomás Percy de cima para baixo.

— Trunning! — ofegou Tomás, aliviado. — Dê-me seu cavalo. Temos de pegá-los, alcançá-los. Balion está acabado, exausto. Depressa, homem, apeie.

— Essa seria uma ordem de batalha, milorde Egremont. Não a política e os propósitos da casa de seu pai, mas uma simples questão de qual de nós cavalgará e qual de nós andará. Creio que prefiro cavalgar, milorde.

— Seu desleal... — disse Tomás, ofegante. Estendeu a mão para as rédeas do outro, mas o pangaré de Trunning se afastou de seu alcance. — Vou mandar enforcá-lo por me desobedecer.

— Acha mesmo, milorde? Em meu entender, seu pai ficará mais preocupado com a quantidade de homens que o senhor perdeu hoje, sem uma única cabeça Neville para lhe levar em troca. Ou encontrou alguma, barão de Egremont? Achou alguma boa cabeça Neville para amarrar na sela pelo cabelo? Não vi nenhuma.

Tomás ficou calado, recusando-se a responder às farpas do homem. Nem ele nem o pai tinham como saber que Salisbury levaria consigo tantos de seus melhores espadachins. Tomás soprou o ar das bochechas cheias. O pessoal de sua mãe tinha lutado bem. Os Nevilles só precisavam sobreviver ao ataque, e isso conseguiram. Tomás sabia que ele e seus homens talvez tivessem massacrado mais de cem dos melhores soldados de Salisbury, mas, enquanto ele olhava, o núcleo protegido deles se afastava cada vez mais, recuando ordenadamente. Algumas dezenas de arqueiros poderiam tê-los atacado, se ele tivesse mantido uma reserva. Tomás só pôde observar, mal-humorado, o tio escapar da armadilha que montara. Praguejou, ofegante. Queria tirar o elmo, mas o sangue devia tê-lo grudado numa massa encharcada de cabelo e couro cabeludo, e a ideia deteve sua mão. Trunning ainda estava lá observando-o, mastigando o bigode como se fosse um banquete para um homem faminto.

— Pode dizer a seu pai que lutou com bravura, milorde. Sobre isso não vou mentir. O senhor quase atingiu o velho diabo em pessoa. Eu vi.

Tomás ergueu os olhos, surpreso, imaginando se não seria alguma implicância sutil. Não viu zombaria na expressão de Trunning e deu de ombros.

— Mas não bastou, não é?

— Hoje, não — respondeu Trunning. — Homens tropeçam e caem, o mundo é assim. Não importa. Quem fica em pé no final é que importa.

Tomás sentiu a testa se franzir enquanto ficava parado ali, espantado porque Trunning não parecia lançar nele a culpa de não terem sido vitoriosos. Balançou a cabeça e fez o homenzinho sorrir.

— Vou buscar seu cavalo, milorde — avisou Trunning. — Eu lhe disse quando o senhor o trouxe que ele era grande demais, mas é corajoso aquele lá. Ferido ou não, ele o levará para casa.

A brisa aumentou, e o cavalo de Trunning se afastou trotando. Tomás sentiu diversos pontos com dores agudas se espalharem pelo corpo quando a carne entendeu que não voltaria a lutar e poderia começar a doer e se curar. Ele não vencera, mas se pusera à prova. Para sua surpresa, não se sentia envergonhado. Ergueu a mão para que todos pudessem ver, fazendo um arco no ar que apontava para o caminho por onde vieram, uma manhã e uma era inteira atrás.