Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 20 de 41

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Trindade

Capítulo 14

 

Jasper Tudor dividira seus arqueiros galeses nas três barricadas, enviando trinta deles e um capitão experiente a cada uma. Ele sabia que seriam homens valiosos para levar para a viagem do rei, mas não que seriam fundamentais para sua defesa. Os fundos das casas voltados para Key Field tinham nas paredes uma ou duas janelas altas, perfeitas para a tarefa, e seus galeses mantiveram a chuva de flechas sobre os atacantes. Tudor sentiu uma mistura de satisfação e assombro quando as barricadas tremeram ou balançaram. Não era apenas uma investida ou uma escaramuça, isso ele sabia. Três exércitos se formaram na terra sulcada e vieram com rugidos e estrondos.

A barreira gemeu e oscilou de um lado para o outro. Tudor escutou algo estalar no meio dela, um estalo diferente do som dos arcos por todo lado. Os soldados yorkistas usavam alabardas compridas para enganchar as cordas e puxá-las. Outros homens protegiam com escudos as equipes, que conseguiriam despedaçar a barreira em pouquíssimo tempo se não fossem seus rapazes. À distância de apenas uns três metros, seus arqueiros mandavam flechas diretamente nos guerreiros que labutavam, rindo e gritando a contagem daqueles cuja vida roubavam. Um de seus capitães entoava versos de “Y Gododdin”, o poema marcial, para elevar o moral dos que conheciam a língua e irritar os outros.

Tudor viu lorde Egremont, o filho de Percy, descer correndo o morro com algumas dezenas de homens atrás portando machados. Egremont avaliou a situação e sorriu para Tudor, um sinal de apreciação de seu esforço, enquanto organizava seus guerreiros para repelir qualquer avanço súbito. Sem os arqueiros, a barricada teria caído antes que Egremont chegasse, mas os galeses ainda pagavam um preço terrível, esvaziando as aljavas até os ombros tremerem com a tensão constante.

Tudor recuou quando pedaços de tijolo caíram ao seu redor. Alguns dos seus rapazes haviam entrado na casa que dava para o caminho e abrira a chutes um buraco na parede do andar de cima. Um deles se inclinou para fora, o braço seguro pelo colega do lado de dentro, em busca do melhor ponto de observação. Tudor olhava para ele quando uma flecha veio do campo e atravessou o jaquetão do arqueiro, arrancando-o das mãos do amigo. Ele caiu, atingindo o chão de cabeça. Tudor ouviu Egremont praguejar, chocado com o que vira, mas eles sabiam que havia arqueiros com York, trazidos agora e tornando muito mais difícil o trabalho de defender a rua, um jogo de olhares rápidos e disparos mais rápidos ainda. Os arqueiros de Tudor não ousavam mirar por mais de alguns segundos, não com outros arqueiros esperando suas cabeças ficarem à mostra. Como consequência, a pontaria sofreu, e as equipes de piqueiros de York arrancaram as partes mais fracas da barricada, comemorando a cada pequena redução da massa de espinhos, cordas e paus que bloqueava o caminho deles. No lado interno das defesas, Tudor viu os homens de Egremont trazerem mais mesas e, de uma grande pilha, arrastarem os espinheiros arrancados para paramentá-las. A barreira se aprofundou e cresceu, quase com a mesma rapidez com que era destruída.

Jasper Tudor se virou quando Egremont se aproximou. Tudor era um conde diante de um mero barão, e, para imenso prazer do galês, Egremont fez uma profunda reverência. O barão era mais alto e mais corpulento que ele, com o peito e os ombros imensos de um espadachim treinado desde a infância. Por outro lado, Jasper Tudor era meio-irmão do rei. Ele sorriu como saudação.

— Enviei um mensageiro ao meu pai — avisou Egremont. — Acho que conseguimos segurá-los aqui. Precisaremos de mais homens... E devemos postá-los para defender as barreiras.

Ele franziu a testa enquanto falava, e Jasper Tudor entendeu imediatamente. Homens como Egremont eram treinados para realizar manobras no campo de batalha, não para defender mesas e espinheiros num beco. Se os soldados de York rompessem a barreira, a luta seria cruel, mas até então era um impasse sangrento e desgastante.

— Tem notícias de algum plano além de proteger as ruas? — perguntou Tudor.

Egremont fechou a cara, balançando a cabeça.

— Nada ainda. Deus sabe que não podemos manter o rei parado para sempre numa cidade. Acho que vi mensageiros partindo para o sul, mas, se estiverem em busca de reforços, ficaremos aqui uma semana à espera deles.

— E podem vir mais para aumentar o efetivo de York — acrescentou Tudor, esfregando o rosto com a mão.

— Meu pai diz que vocês, galeses, são espertos como os escoceses — comentou Egremont com um leve sorriso. — Não pode usar essa inteligência para descobrir um jeito de derrotá-los? Tenho uma vontade enorme de ver a cabeça de Salisbury na haste de uma lança hoje, junto às dos filhos. A família dele ficará alquebrada após essa traição. Pelo menos isso me mantém contente.

— Já notei que seu pai não gosta dos meus conterrâneos — disse Tudor, com cautela.

— Não, ele chama vocês de ogros — confirmou Egremont, despreocupado —, embora goste bastante dos seus arcos. Eu ainda não formei uma opinião.

— Sobre os arcos ou sobre os homens?

— Sobre os homens. Eu daria uma bela mansão por mais arqueiros seus aqui. Isso eu sei. Podem furtar colheres, mas, por Deus, como atiram!

O conde Tudor fitou atentamente o jovem barão, as sobrancelhas erguidas de surpresa. Depois de um instante, percebeu que o outro o alfinetava para se divertir, e deu uma risadinha.

— Eles estavam me dizendo que não conseguem chegar às colheres. Toda vez que entram numa casa, uma de suas virgens inglesas as esconde num armário. Acho que vocês usarão essas colheres para alimentar alguns bastardos galeses no ano que vem.

— É, ele o chama assim também — declarou Egremont. Ele deu um tapinha no ombro de Tudor e ambos riram, a tensão se esvaindo. Tomás estendeu a mão e Jasper Tudor a aceitou. Os dois trocaram um cumprimento com força suficiente para esmagar a mão um do outro.

Enquanto apertavam as mãos, trezentos homens de armas vieram trotando morro abaixo, usando os tabardos azuis e amarelos de Percy e trazendo estandartes. Egremont ergueu os olhos, contente de ver os homens do pai.

— Podemos nos aguentar aqui, o dia todo ou a semana inteira, se for preciso. Embora me irrite ser incapaz de atacar, podemos lhes cobrar um bom preço com nossas barreiras. Seja como for, pelo menos o rei está a salvo. Apesar de toda a sua maldita arrogância, York e os Nevilles escolheram a cidade errada para atacar... E o jeito errado também.

 

Durante uma hora inteira, Warwick observou friamente uma parede de escudos e piqueiros atacarem uma barreira da altura dele montado no cavalo. Escondera a raiva a manhã inteira. Tanto York quanto seu pai tinham motivos próprios para estar ali, mas juntos tolheram os capitães que comandavam. York queria se encontrar com o rei sob trégua, e o pai de Warwick só queria chegar ao alcance dos lordes Percys. Em consequência, desperdiçaram todas as oportunidades de usar o exército em superioridade numérica que levaram a St. Albans. Se Warwick pudesse fazer o sol voltar a nascer, sabia que encontraria o rei na estrada, em campo aberto. O rei Henrique seria forçado a se render, senão destruiriam sua coluna, vencendo-a com o efetivo maior de soldados e arqueiros. Em vez disso, York e seu pai conseguiram se pôr numa posição em que três mil homens teriam de se afunilar por becos estreitos para entrar na cidade. A imensa vantagem numérica era quase inútil, e Warwick só podia agradecer a Deus que seus arqueiros estivessem ali para estorvar as flechas dos galeses do outro lado. Teria sido um massacre sem seus homens de vermelho — mas as barricadas se mantinham, com ambos os lados as beliscando.

Warwick cerrou a mandíbula de frustração. Rejeitara a ideia de pôr fogo nas barricadas assim que vira as casas de vigas de madeira de ambos os lados. A cidade inteira se tornaria uma fornalha e, depois, uma tumba para o rei. York deixara bastante claro que não admitiria uma ação dessas, e a seus soldados só restava arrancar pedaços, lutar e morrer, sem jeito de atravessá-las.

Warwick fincou as esporas nos flancos do cavalo e fez a montaria avançar ao longo da linha de paredes dos fundos das casas. Conseguia ver a torre da Igreja de São Pedro acima da cidade, e sentiu que o observavam. Entrecerrar olhos foi o único sinal de sua intenção, invisível a quem observasse. St. Albans era uma cidade antiga, que se espalhava em todas as direções a partir das ruas principais. Algumas casas tinham hortas nos fundos, e ele vira um pequeno trecho de cerca de madeira ao longo de uma grande casa branca. Parecia que depois dela havia terreno aberto, como se o espaço corresse ao longo da lateral da casa.

Os homens do rei bloquearam as ruas, e obviamente seu pai e York tinham atacado as barreiras. Quanto mais Warwick observava, mais se perguntava se não teriam ignorado outras maneiras de entrar. Ele lutara em Londres quando os homens de Kent de Jack Cade atacaram a cidade. Talvez fossem aquelas corridas loucas pelas ruelas e as meias-voltas na escuridão que o faziam procurar outra rota para contornar os obstáculos do caminho.

Um de seus cavaleiros passava a trote seguido por doze homens com machado e cota de malha. Warwick o chamou.

— Gaverick! Sir Howard! — gritou ele, sentindo um arrepio de empolgação.

Quando o cavaleiro ergueu a viseira e olhou em volta, Warwick acenou para que ele se aproximasse. O grupo parou, relaxando imediatamente com a mínima oportunidade de descanso.

— Preciso... de trezentos homens descansados. Cem dos meus arqueiros vermelhos e o restante com machados e escudos. Homens velozes, Sir Howard, homens capazes de correr e provocar o caos se conseguirmos romper a barreira. Não faça com que soem as trombetas. Há olhos argutos em todas as janelas da cidade, prontos para correr com novidades até os partidários do rei. Reúna os homens para mim e se prepare para me seguir.

Por um instante, o olhar do cavaleiro passou rapidamente por onde York e Salisbury observavam o ataque às barricadas. Warwick fez que não antes que Sir Howard pudesse perguntar.

— Não, não incomodarei York com essa tarefa, não antes de saber aonde ela nos leva.

Warwick tinha 26 anos e herdara o serviço de homens como Sir Howard havia apenas seis. Falava com o máximo de confiança que conseguia demonstrar; dependia da lealdade do outro a suas cores e condição.

— Tudo bem, milorde — aceitou Sir Howard com rigidez, curvando-se. — Rapazes, fiquem aqui com lorde Warwick. Não crie problemas.

Ele proferiu a última frase apontando para um brutamontes de aparência ameaçadora que já se instalara na terra escura e remexia o bolso em busca de algo de comer. O homem lhe lançou um olhar furioso, arrancando um pedaço de carne seca com os dentes de trás. Warwick viu Sir Howard abrir a boca para comentar algo e depois decidir não o fazer, virar a montaria e galopar rumo à força principal.

Warwick o observou partir, os olhos se estreitando com o pensamento. Ele se virou enquanto os outros homens se sentavam onde estavam, incentivados pelo exemplo do primeiro. Warwick hesitou e depois sentiu raiva de si mesmo, tanto quanto deles.

— Levantem-se. Vamos, levantem-se, todos vocês. Quero todos prontos para marchar e lutar.

Nenhum deles respondeu, embora alguns tivessem ficado de pé prontamente. Outros se ergueram mais devagar, mostrando apenas irritação. Warwick lhes devolveu o olhar até ver que apenas o primeiro homem continuava sentado, olhando para cima com um sorrisinho no rosto.

— Qual é seu nome, para se recusar a cumprir uma ordem no campo de batalha? — perguntou Warwick.

O homem se levantou rapidamente ao ouvir isso, revelando grande altura e largura, com um rosto meio oculto por suíças negras.

— Fowler, milorde. Não ouvi a ordem, milorde. Obedecerei, não precisa se preocupar comigo, milorde.

O homem falava com uma insolência calculada, embora os que estavam ao redor demonstrassem apenas desconforto. Warwick percebeu que os outros não gostavam muito dele, talvez fosse uma pessoa do tipo que criava certo nível de raiva por todo caminho que cruzava. Mas o conde precisava de homens com raiva para o que tinha em mente.

— Você demorou para se levantar, Fowler. Irá à frente comigo até a cidade. Atrase-se e seja enforcado, ou lute bem e ascenda. — Warwick deu de ombros deliberadamente, como se não tivesse a mínima importância. — Escolha agora e verei o que faço.

Durante um tempo enorme, Fowler sustentou seu olhar, revelando algum ressentimento mal escondido no fundo dos olhos escuros.

— Lutarei bem, milorde. Uma oportunidade de enfiar um bom aço nas entranhas dos elegantes nobres do rei? Eu não perderia essa oportunidade por nada, nem por dois Natais este ano. Se o senhor comandar, milorde, é claro.

— Atenção — respondeu Warwick, irritado com o homem.

Ele foi salvo da conversa pelo retorno de Sir Howard, que trazia centenas de homens para cercar o jovem conde em seu corcel.

— Com olhos sobre nós, não apontarei o caminho — gritou-lhes Warwick quando se instalaram, à espera de ordens. — O objetivo é atravessar as hortas das casas e abrir caminho morro acima até a posição do rei. Quem tiver martelo vai à frente. Derrubem o que houver no caminho. Não vamos pular cercas como meninos atrás de maçãs roubadas. — Ele parou enquanto os homens reunidos riam. — Se houver por onde passar, não paramos. Se houver outras barreiras à frente, desviaremos e cairemos sobre os defensores da primeira linha. Estas são minhas ordens. O grito é “Warwick”, mas só depois de atravessarmos as linhas inimigas. Está claro?

Trezentas vozes murmuraram “Sim, milorde”, enquanto Warwick apeava.

Ele viu as sobrancelhas de Fowler se erguerem, mas o caminho que esperava tomar só seria possível a pé. Contudo, não abriria mão da armadura, por mais que reduzisse sua velocidade. Mais uma vez, Warwick recordou os becos escuros da rebelião de Cade e reprimiu um arrepio. Sacou a espada e baixou o escudo, segurando-o pelas tiras.

— Sigam-me. Martelos e machados à frente.

Não seria possível sair correndo com armadura completa. Warwick andou o mais depressa que pôde, avançando a passos largos enquanto trezentos homens trotavam atrás dele. A princípio, parecia que a intenção era reforçar a parede de escudos nas barricadas, mas então ele virou para a direita, ao longo das paredes dos fundos das casas. O barulho que faziam não era um tilintar agradável; eram os passos e o tinido de homens armados, dispostos a massacrar o que estivesse no caminho.

 

Warwick chegou à casa que avistara antes e deteve seus seguidores erguendo a mão. O tal Fowler fora fiel à palavra e estava tão perto de Warwick que o jovem conde se perguntou se não seria uma ameaça. Fowler permaneceu parado, pronto, uma das sobrancelhas erguidas.

— Segure meu pé e me levante, Fowler — ordenou Warwick. — Preciso enxergar.

O grandalhão grunhiu e encostou o machado na cerca, segurando e erguendo o conde com tanta força que ele quase passou por cima da cerca e caiu na horta.

Warwick suspirou de alívio ao agarrar uma tábua da cerca. Além dela, um beco minúsculo, com no máximo a largura dos ombros de um homem, estendia-se ao longo da casa. Dava para ver um portão que bloqueava a rua mais adiante, mas parecia promissor.

— Desça, Fowler — disse Warwick.

O homem parecia disposto a mantê-lo lá o dia inteiro, mas o soltou, e Warwick caiu com um estrondo de metal. O conde ergueu os olhos com raiva, irritado ao perceber que sua cabeça só chegava ao ponto mais baixo da barba do outro. Fowler pareceu perceber no mesmo instante que era mais alto, e um sorriso se espalhou por seu rosto.

— Obrigado — disse Warwick, ganhando um dar de ombros ao se virar para os outros. — Esta cerca tem de cair. Depois, seguiremos pela cidade. Se chegarmos à rua principal, a tarefa é rugir “Warwick” e inspirar o temor de Deus nos homens do rei. A maioria deles está aqui embaixo para defender Key Field, mas o rei estará protegido. Saberei mais quando chegarmos ao alto do morro. Espero que tenham pulmões e coração para correr.

— Se o senhor tiver, milorde — murmurou Fowler.

— Cale-se, Fowler — retorquiu Warwick.

O grandalhão pareceu assomar sobre ele no instante seguinte, porém um dos guerreiros com machado deu um cutucão em Fowler, num aviso rude.

— Ah, cale a boca, seu sodomita — disse outro homem. — Ou prefere voltar para lá e cutucar aquelas barricadas? Prefiro estar aqui.

Warwick viu que quem falava era um de seus arqueiros de vermelho, e sorriu com seus botões ao ver que o tecido estava limpo e escovado, uma vestimenta usada com orgulho.

Fowler fungou e baixou a cabeça com teimosia, embora percebesse que o clima estava contra ele. Warwick não esperou mais.

— Derrubem a cerca — gritou. — Machados e martelos.

Havia espaço para poucos homens lançarem o peso do ferro na madeira. A cerca era antiga, seus principais esteios de carvalho resistente. Mesmo assim, reduziu-se a gravetos em instantes, e o primeiro grupo incluía Warwick e Fowler, ainda agarrado à sua sombra.

O peso das armas e das cotas de malha bastaria para esmagar o portão bambo na outra ponta do beco minúsculo. Os homens da primeira fileira lançaram os martelos contra ele, que explodiu em pedaços na rua. À esquerda, podiam ouvir o tumulto da barricada mais próxima, o rugido e os gritos do combate de homens furiosos. À frente havia um caminho estreito entre filas de casas, estendendo-se morro acima.

— Continuem avançando para lá! Ninguém para! — gritou Warwick para trás.

Ele viu dois soldados com as cores de Percy pararem, chocados. Ambos foram derrubados com golpes cruéis de machado antes que pudessem gritar e depois, esfaqueados e pisoteados pelos que vinham atrás.

O sol estava quase a pino, e o calor do dia aumentava quando os trezentos de Warwick correram uns atrás dos outros morro acima. Nenhum deles conhecia bem a cidade, mas sem dúvida o rei ocuparia o ponto mais alto. Contanto que subissem, iriam encontrá-lo.

Em algum ponto mais abaixo, Warwick ouviu soar trombetas de alarme, e, num tom diferente, homens de ambos os lados berraram a notícia do rompimento da barreira. Sorriu ao pensar no pai e em York descobrindo que ele já entrara na cidade. Os guerreiros que estavam nas barricadas teriam de abandonar o posto para impedir seu avanço. A vantagem numérica de York enfim teria efeito.

Para sua consternação, Warwick percebeu que ofegava desesperadamente, que o coração batia forte e o suor fazia os olhos arderem com o sal. Mantivera a viseira erguida, mas subir um morro correndo de armadura era um exercício violento, e ele achou que, quando chegasse lá em cima, o coração explodiria com o esforço.

As mulheres gritavam de medo e alerta das janelas altas quando ele passava, mas seus trezentos homens subiram pela cidade como um golpe de adaga, mal avistando outros guerreiros. Warwick podia ver, cruzando o caminho, uma rua larga ao longo do topo, sem nada mais acima. Mal podia acreditar que sua sorte durasse tanto, embora estivesse quase caindo de exaustão ao parar pouco antes da esquina, inclinando-se para se apoiar numa parede e arrancando o elmo para respirar. Sir Howard observou um instante e depois apontou para o homem ao lado de Warwick.

— Fowler! — ordenou. — Espiche o pescoço e me diga o que vê.

Fowler franziu o lábio, mas não precisou olhar para o homem que o fitava irritado para saber que não dava para discutir. Foi de lado até a esquina, olhou em volta, parou para observar.

— E então? — perguntou Warwick atrás dele.

— Ninguém em cem metros — respondeu Fowler, virando-se. Seus olhos estavam arregalados, e ele balançou a cabeça com descrença e espanto. — Vi o rei lá.

— Os estandartes? — indagou Sir Howard, enquanto copiava a ação furtiva do homem e se inclinava na esquina para olhar.

— Não, o rei em pessoa, tão certo quanto estou aqui em pé. Cercado por centenas de homens e um tipo de barraca do tamanho de uma casa, toda esticada.

Warwick recuperava o fôlego quando Sir Howard voltou a ele à espera das ordens. Todos os homens ali e na rua abaixo aguardavam sua palavra, qualquer que fosse. Warwick descalçou a manopla para enxugar o suor do rosto. Não tinha direito à sorte que tivera, mas a aproveitaria mesmo assim. Eles abriram caminho até lá e era tarde demais para desejar ter levado mil homens em vez de apenas trezentos.

— O senhor esperará, milorde? — perguntou Sir Howard, claramente pensando a mesma coisa. — Posso mandar um mensageiro buscar mais homens.

— Não. Aquele jardim dos fundos pode ser bloqueado com tanta facilidade quanto os outros — declarou Warwick. — Fomos vistos, e dez homens protegeriam aquele caminho até o Dia do Juízo Final. Não, Sir Howard, aprontaremos uma confusão aqui em cima. Atacaremos. Os homens que estão nas barricadas subirão o morro correndo para proteger o rei. Não terão escolha. Então aquelas barreiras serão derrubadas, e vamos pegá-los pelos dois lados.

A possibilidade de pegar em armas contra os nobres e os homens da casa do rei era uma ideia seríssima para a maioria deles. Homens com arcos e machados trocaram olhares inquietos, e muitos fizeram o sinal da cruz, com medo do juízo divino de seus atos. Mas ninguém voltou atrás, e Fowler sorria como se o tivessem transformado em prefeito por um dia.

— Arqueiros, do outro lado desta rua — ordenou Warwick, a voz apertada na garganta. — Na fileira mais larga que conseguirem formar. Não quero vocês disparando nas minhas costas, então terão uma única oportunidade de acabar com a vontade deles de lutar. Depois, entraremos. Defendam este lugar para o caso de serem muitos e termos de retornar para cá.

— Milorde, posso dizer uma coisa? — perguntou Sir Howard, pigarreando.

Warwick franziu a testa, mas deixou que o homem o levasse para longe dos ouvidos mais próximos.

— O que foi? — indagou Warwick. — Não vou perder a oportunidade com discussões, Sir Howard. Depressa, homem.

— Se o senhor fizer os arqueiros atirarem na rua, o rei pode ser morto, milorde. Já pensou nisso? As flechas não distinguem sangue nobre de sangue plebeu.

Warwick encarou o cavaleiro. Com a morte do pai e do irmão de sua esposa, ele herdara doze castelos e mais de cem propriedades, que iam da Escócia a Devon. Com essa riqueza extraordinária, vieram mais de mil soldados a seu serviço, legados a ele como novo conde de Warwick. Sir Howard era seu vassalo feudal, e Warwick sabia que podia ordenar sua total obediência. Ele podia ver que o homem tremia um pouco ali de pé, sabendo muito bem que punha em risco sua honra e seu juramento apenas por questionar a ordem. Sir Howard Gaverick não era tolo, porém Warwick sabia que o tempo era curto, a vantagem que caíra em seu colo era frágil demais para ser debatida. O sino da igreja começou a soar o alarme ali perto, rompendo o momento de silêncio.

— Pode se retirar, Sir Howard, se não se sente capaz de ficar ao meu lado. Recebi essa oportunidade e assumirei toda a responsabilidade pelo que acontecer. Absolvo-o de qualquer culpa nessa questão. É o que decido. Se quiser partir, não o prejudicarei, nem a si nem aos seus, após a vitória. Tem minha palavra, mas escolha logo se quer ficar ou partir.

Warwick deixou o homem mais velho ali, a boca entreaberta e os olhos arregalados. Quando olhou para trás, o jovem conde viu Sir Howard marchar sozinho morro abaixo, entre as fileiras de homens à espera.

— Arqueiros! — gritou Warwick. — Isso tem de ser resolvido hoje. Todos ouviram milorde York. Se fracassarmos aqui, seremos caçados como traidores. Condição e riqueza não são proteção, não aqui, nesta cidade. Minha ordem é de que mandem suas flechas nessa rua. Agora! Gritem meu nome para que saibam que estamos aqui.

Trezentas vozes vociferaram “Warwick!” a plenos pulmões, sufocando o ruído de cem arqueiros formando fileiras com as aljavas penduradas na altura do quadril.

Um instante se passou, e a St. Peter’s Street se encheu de flechas voadoras. Outro instante trouxe a resposta: gritos, berros e pânico na praça da feira onde estava o rei.