Trindade
Parte I
Fim do verão de 1454
Aos esmagados pela lei, só resta a esperança no poder.
Se as leis forem suas inimigas, serão inimigos das leis.
Edmund Burke
1
Com a luz ainda fria e cinzenta, o castelo ganhou vida. Cavalos foram tirados de suas baias e esfregados; cães latiam e brigavam entre si, enxotados a pontapés por aqueles que os encontravam no caminho. Centenas de rapazes se ocupavam reunindo tachas e armas, correndo pelo pátio principal com braçadas de equipamento.
Na grande torre, Henrique Percy, conde de Northumberland, fitava pela janela o terreno movimentado em torno da fortaleza. As pedras do castelo estavam mornas com o calor de agosto, mas mesmo assim o velho usava capa e manto de pele sobre os ombros, segurando-os com força junto ao peito. Ele ainda era alto e largo, embora a idade o tivesse curvado. Sua sexta década trouxera dores e rigidez nas articulações que dificultavam os movimentos e causavam mau humor.
O conde observava com raiva através do vidro da janela. A cidade despertava. O mundo se erguia com o sol, e ele estava pronto para agir após aguardar tanto tempo. Observou os cavaleiros de armadura se reunirem, os criados lhes passarem escudos que tinham sido pintados de preto ou cobertos de aniagem amarrada com barbante. As cores azul e amarelo dos Percys não estavam à mostra em lugar nenhum, bem escondidas para que os soldados que aguardavam sua ordem tivessem uma aparência sombria. Por algum tempo, seriam homens cinzentos, cavaleiros andantes sem casa nem família. Homens sem honra, quando a honra era uma corrente que os unia.
O velho fungou, esfregando o nariz com força. O ardil não enganaria ninguém, mas, quando a matança acabasse, ele ainda seria capaz de afirmar que nenhum cavaleiro ou arqueiro Percy participara. O mais importante é que quem poderia vociferar contra ele estaria frio no chão.
Enquanto ficava ali, mergulhado em pensamentos, ele ouviu o filho se aproximar, as esporas dos calcanhares do rapaz batendo e chocalhando no assoalho de madeira. O conde olhou em volta, sentindo o velho coração bater forte de expectativa.
— Que Deus lhe dê um dia bom — saudou Tomás Percy, curvando-se.
Ele também permitiu que seu olhar vagasse pela janela até a agitação no pátio do castelo lá embaixo. Tomás ergueu uma sobrancelha numa pergunta calada, e o pai grunhiu, irritado com os passos de criados por todo lado.
— Venha comigo.
Sem esperar resposta, o conde saiu pelo corredor, a força de sua autoridade puxando Tomás. Ele chegou à porta de seus aposentos particulares e quase arrastou o filho para dentro, batendo a porta. Enquanto Tomás observava de pé, o velho andou desajeitado pelos cômodos, batendo as portas pelo caminho. Sua desconfiança ficava evidente no rubor que se aprofundava no rosto, a pele ainda mais escura com uma mancha de veias rompidas que se estendia pelas bochechas e pelo nariz. O conde nunca empalidecia com aquele aspecto marmóreo. Se tivesse sido obtido com a bebida forte do outro lado da fronteira escocesa, combinaria muito bem com seu estado de espírito. A idade não amolecera o velho, embora o tivesse secado e enrijecido.
Convencido de que estavam a sós, o conde voltou ao filho, que ainda aguardava pacientemente com as costas voltadas para a porta. Tomás Percy, barão de Egremont, não era mais alto que o pai já fora, mas, sem a curvatura da idade, conseguia olhar por cima da cabeça do velho. Com 32 anos, Tomás estava no auge de sua masculinidade, o cabelo preto e os antebraços grossos de músculos e tendões conquistados em mais de seis mil dias de treinamento. Enquanto ficava ali, parecia quase reluzir de saúde e força, a pele avermelhada sem marcas de doença ou cicatriz. Apesar dos anos que os separavam, ambos tinham o nariz dos Percys, aquela grande cunha que podia ser vista em dúzias de sítios e aldeias em torno de Alnwick.
— Pronto, estamos a sós — concluiu o conde, finalmente. — Ela tem ouvidos por toda parte, a sua mãe. Não posso sequer conversar com meu próprio filho sem que o pessoal dela lhe conte cada palavra.
— Então, o que houve? — perguntou o filho. — Vi os homens juntando arcos e espadas. É a fronteira?
— Hoje, não. Aqueles malditos escoceses estão tranquilos, embora eu não duvide de que os Douglas estejam farejando minhas terras, como sempre. Eles virão no inverno, quando passarem fome, para roubar minhas vacas. E vamos mandá-los correndo de volta quando vierem.
O filho escondeu a impaciência, sabendo muito bem que o pai poderia resmungar sobre os “ardilosos Douglas” durante uma hora se lhe desse a oportunidade.
— Mas os homens, pai. Eles cobriram nossas cores. Quem nos ameaça a ponto de ser enfrentado por cavaleiros sem senhor?
O pai se aproximou dele, estendeu a mão ossuda e a enfiou na borda de couro do peitoral para puxá-lo para mais perto.
— Os Nevilles de sua mãe, garoto, sempre e para sempre os Nevilles. Para onde quer que eu me vire em minha angústia, lá estão eles, no meu caminho! — O conde Percy ergueu a outra mão enquanto falava, mantendo-a erguida com os dedos unidos como um bico. Golpeou o ar com ela, próximo do rosto do filho. — Em número tão grande que nunca se consegue contar. Casados com todas as linhagens nobres! Com todas as casas! Os malditos escoceses estão rasgando meu flanco, atacando a Inglaterra, queimando aldeias em minha própria terra. Se eu não resistisse a eles, se numa única estação eu deixasse de matar os jovens que mandam para me testar, os escoceses viriam para o sul como se uma represa se rompesse. E então, onde a Inglaterra estaria, sem os braços dos Percys para servi-la? Mas os Nevilles não se preocupam com isso. Não, eles entregam seu peso e sua riqueza a York, aquele filhotinho. Ele ascende, mantido lá no alto por mãos Nevilles, enquanto nossos títulos e propriedades são roubados.
— Guardião da Fronteira Oeste — murmurou o filho, cansado. Já ouvira muitas vezes as queixas do pai.
O olhar raivoso do conde Percy se intensificou.
— Um dentre muitos. Um título que deveria ser de seu irmão, com 1.500 libras por ano, até que Salisbury, aquele Neville, o recebeu. Engoli isso, garoto. Engoli que ele se tornasse chanceler enquanto meu rei dorme e sonha e a França foi perdida. Engoli tanto deles que acho que estou empanturrado.
O velho havia puxado o filho para tão perto que seus rostos quase se tocavam. Henrique deu um beijo rápido na bochecha de Tomás e o soltou. Por um hábito antigo, verificou o quarto ao redor deles outra vez, embora estivessem sozinhos.
— Você tem o bom sangue Percy, Tomás. Com o tempo ele expulsará o sangue de sua mãe, como expulsarei os Nevilles sobre a terra. Eles me foram entregues, Tomás, entende? Pela graça de Deus, me deram a oportunidade de tomar de volta tudo o que roubaram. Se eu fosse vinte anos mais jovem, pegaria Golpe de Vento e eu mesmo os comandaria, mas... esses dias ficaram para trás. — Os olhos do velho estavam quase febris enquanto fitava o filho. — Você tem de ser meu braço direito nisso, Tomás. Você tem de ser minha espada e meu mangual.
— É uma honra — murmurou Tomás, a voz falhando.
Como mero segundo filho, chegara à idade adulta tendo pouca afeição do pai. Henrique, o irmão mais velho, estava longe, com mil homens, do outro lado da fronteira da Escócia, para atacar, queimar e enfraquecer os clãs selvagens. Tomás pensou nele e soube que a ausência de Henrique era a verdadeira razão para o pai tê-lo chamado. Não havia mais ninguém para enviar. Embora ter conhecimento disso o deixasse amargurado, não podia resistir à oportunidade de demonstrar seu valor ao único homem a quem permitia julgá-lo.
— Henrique está com nossos melhores galos de briga — disse o pai, repetindo seus pensamentos. — E preciso manter algumas mãos fortes em Alnwick, para o caso do ardiloso Douglas escapar de seu irmão e vir para o sul roubar e estuprar. O maior prazer daquele sujeitinho é tomar o que é meu. Juro que ele...
— Pai, não falharei — interrompeu Tomás. — Quantos mandará comigo?
O pai parou, irritado com a interrupção, os olhos afiados de censura. Por fim, relaxou e fez que sim.
— Setecentos, mais ou menos. Duzentos homens de armas, embora os outros sejam oleiros, ferreiros e homens comuns com arcos. Você terá Trunning e, se tiver juízo, deixará que ele o aconselhe... e lhe dará ouvidos. Ele conhece a terra em torno de York e conhece os homens. Talvez, se você não tivesse passado tantos anos de sua juventude com bebida e meretrizes, eu não duvidasse de sua capacidade. Psiu! Não me leve a mal, garoto. Tem de haver um filho meu nessa empreitada, para dar coragem aos homens. Mas eles são meus homens, não seus. Siga Trunning. Ele não lhe dará maus conselhos.
Tomás corou, sua própria raiva aumentando. A ideia dos dois velhos planejando algo juntos criou tamanha tensão em seu corpo que o pai notou.
— Entendeu? — ralhou o conde Percy. — Dê ouvidos a Trunning. É a minha ordem.
— Entendi — respondeu Tomás, esforçando-se para esconder o desapontamento.
Por um instante, havia pensado que o pai lhe confiaria o comando em vez de pôr o irmão ou outro homem acima dele. Sentiu a perda de algo que nunca tivera.
— O senhor vai me dizer para onde devo cavalgar ou devo perguntar isso a Trunning também? — indagou Tomás.
Sua voz estava tensa, e a boca do pai se franziu em resposta, com divertimento e desdém.
— Eu disse para não me levar a mal, garoto. Você tem um bom braço direito e é meu filho, mas nunca comandou, não além de algumas escaramuças. Os homens não o respeitam como respeitam Trunning. Como poderiam? Ele luta há vinte anos, tanto na França quanto na Inglaterra. Vai deixá-lo a salvo.
O conde aguardou algum sinal de que o filho aceitara a situação, mas Tomás o olhava com raiva, ferido e zangado. O conde Percy balançou a cabeça e continuou:
— Há um matrimônio Neville amanhã, Tomás, lá em Tattershall. O clã de sua mãe estendeu a mão para trazer mais um para seu domínio. Aquele frangote presunçoso do Salisbury estará lá para ver o filho se casar. Eles estarão em paz, contentes de levar a nova noiva de volta às suas terras, à mansão de Sheriff Hutton. Meu homem me contou tudo, arriscando a pele para vir a mim a tempo. Saiba que ele foi bem pago por isso. Agora, escute. Eles estarão a cavalo e a pé, uma alegre festa de casamento que se transformará num banquete num lindo dia de verão. E você estará lá, Tomás. Você os caçará e não deixará ninguém vivo. Essa é minha ordem, entendeu?
Tomás engoliu em seco enquanto o pai o observava. O conde de Salisbury era irmão de sua mãe, os filhos dele, seus primos. Tomás pensara que avançaria sobre algum ramo mais fraco da árvore Neville, não sobre a própria raiz e a cabeça do clã. Se cumprisse a ordem, criaria mais inimigos de sangue num só dia do que em toda a vida até então. Mesmo assim, fez que sim com a cabeça, incapaz de confiar na voz. A boca do pai se torceu de azedume ao ver novamente a fraqueza e a indecisão do filho.
— O garoto de Salisbury vai se casar com Maud Cromwell. Você sabe que o tio dela ocupa terras dos Percys e recusa minha reivindicação por elas. Ele parece achar que pode dar minhas propriedades como dote aos Nevilles, que agora são tão fortes que serei forçado a abandonar meus casos e processos contra ele. Estou enviando você para fazer justiça. Para lhes mostrar a autoridade que Cromwell desdenha ao buscar uma sombra maior para se esconder! Agora escute bem. Leve meus setecentos e mate todos, Tomás. Garanta que a sobrinha de Cromwell esteja entre os mortos, para que eu possa invocar seu nome na próxima vez que encontrar o tio choroso na corte do rei, entendeu?
— É claro que entendi! — declarou Tomás, endurecendo a voz.
Ele sentiu as mãos tremerem enquanto olhava furioso para o pai, mas não suportaria o desprezo do velho caso recusasse. Trincou os dentes, a decisão tomada.
Uma batida soou na porta atrás de Tomás, fazendo os dois homens se assustarem como culpados de uma conspiração. Tomás se afastou para deixar a porta se abrir e empalideceu ao ver a mãe ali parada.
O pai se recompôs e inflou o peito.
— Agora vá, Tomás. Traga honra para sua família e seu nome.
— Fique, Tomás — retrucou a mãe rapidamente, a expressão fria.
Tomás hesitou, depois baixou a cabeça, passou por ela e saiu a passos largos. Sozinha, a condessa Eleanor Percy se virou rapidamente para o marido.
— Vejo seus guardas e soldados se armando e escondendo as cores dos Percys. Agora meu filho corre de mim como um vira-lata açoitado. Então vai me forçar a perguntar? Que plano imundo andou cochichando no ouvido dele desta vez, Henrique? O que você fez?
O conde Percy respirou fundo, seu triunfo evidente.
— Então você não estava escutando atrás das portas como uma criada? Fico surpreso — comentou ele. — O que fiz não é da sua conta.
Enquanto falava, Henrique se moveu para passar por ela e chegar ao corredor lá fora. Eleanor se pôs no caminho para detê-lo e ergueu a mão contra o peito do marido. Em resposta, o conde a agarrou com crueldade, apertando os dedos da condessa até ela gritar. Torceu com mais força, controlando-a, a mão em seu cotovelo.
— Por favor, Henrique. Meu braço... — disse ela, ofegante.
Com isso, ele torceu com mais força, fazendo-a dar um grito agudo. No corredor, ele avistou um criado se aproximando às pressas, e deu um violento chute para bater a porta. Enquanto a esposa gemia, o velho a curvou para a frente, quase até se dobrar, segurando com força a mão e o braço dela.
— Fiz apenas o que seus Nevilles fariam comigo se eu estivesse à mercê deles — explicou no ouvido de Eleanor. — Acha que eu permitiria que seu irmão se elevasse acima do nome Percy? Chanceler do duque de York, agora ele ameaça tudo o que sou, tudo o que devo proteger. Você entende? Aceitei-a para me dar filhos, uma fértil noiva Neville. Bem, isso você fez. Agora não ouse me perguntar sobre os assuntos de minha casa.
— Você está me machucando — disse ela, o rosto contraído de raiva e dor. — Você vê inimigos onde não há nenhum. E, se for atrás de meu irmão, ele o matará, Henrique. Ricardo o matará.
Com um grunhido de ofensa, o marido a jogou do outro lado do quarto, fazendo-a cair na cama de braços abertos. Ele se lançou sobre a condessa antes que a mulher conseguisse se levantar, rasgou seu vestido e urrou com o rosto vermelho de fúria enquanto puxava o tecido e desnudava sua pele. Eleanor lutava e soluçava, mas, em sua raiva, ele estava infernalmente forte e ignorava as unhas dela que deixavam vergões rubros em seu rosto e braços. Henrique a segurou com uma das mãos, expondo a linha longa e pálida das costas, ao mesmo tempo que puxava o cinto das calças e o dobrava num açoite curto.
— Você não falará comigo dessa maneira em minha própria casa.
Ele lhe deu um golpe atrás do outro, com estalos tão altos quanto os gritos desesperados da condessa. Ninguém apareceu, embora o conde batesse e batesse até ela ficar imóvel, sem mais lutar. Sangue escorria de longos vergões vermelhos, manchando o tecido fino, enquanto Henrique arfava para recuperar o fôlego, grandes gotas de suor pingando da testa e do nariz sobre a pele de Eleanor. Com soturna satisfação, o conde colocou o cinto nas calças novamente e deixou a esposa chorando sobre a colcha.
Os criados abriram a porta do pátio de manobras quando Tomás Percy, barão de Egremont, saiu. O ruído de centenas de homens sob o céu azul o envolveu, fazendo seu coração bater mais rápido. Com um olhar irritado, viu que membros de seu próprio séquito já estavam lá, subornados pelo pai e esperando pacientemente por ele. Traziam suas armas e armadura, enquanto outros cuidavam de Balion, o grande cavalo de batalha negro que comprara por um preço absurdo no ano anterior. Parecia que o pai não tivera dúvidas sobre o resultado da conversa. Tomás franziu a testa ao se aproximar do grupo em meio à massa de homens em movimento, absorvendo a total complexidade da cena. Muito acima deles, podia ouvir a mãe berrar como uma porca sacrificada, sem dúvida enquanto o velho a surrava de novo. Tomás se sentiu apenas irritado por ela se intrometer assim em seus pensamentos. Foi forçado a olhar para baixo para não suportar a intimidade indesejada dos olhos dos outros. A cada novo gemido, eles sorriam ou faziam caretas, e a raiva de Tomás só aumentava. A ascensão da família Neville consumia seu pai, arruinava o velho com suspeitas e ataques de fúria, enquanto o conde deveria estar gozando anos de tranquilidade e entregando aos filhos a administração das propriedades. Quando os sons finalmente morreram, Tomás ergueu os olhos para a janela dos aposentos particulares do pai. Era típico do velho pôr seus planos em ação durante dias ou semanas sem sequer se dar ao trabalho de contar ao próprio filho o que pretendia.
Com movimentos rápidos e precisos, Tomás removeu o peitoral de couro e a capa, despindo-se no pátio até ficar só de calças e túnica, já mostrando manchas escuras de suor. Não havia recato ali, e dezenas de rapazes brincavam e gritavam uns com os outros enquanto pulavam com uma bota de armadura ou pediam aos gritos algum equipamento que fora parar junto de outra pessoa. Com paciência, Tomás se sentou num banco alto, e os criados se esforçavam para prender o pelote acolchoado e afivelar cada uma das partes da armadura pessoal. Ela se encaixava bem nele e, embora os riscos e as marcas viessem do pátio de treinos e não de batalhas, ainda assim era um bom conjunto e bem gasto. Quando levantou os braços para que lhe afivelassem o peitoral, ele olhou com raiva para as marcas do polimento, o metal tornado fosco por alguma moça da cozinha que trabalhou nele como se fosse uma panela. O escudo azul e amarelo tinha sido obliterado, e ele esticou o pescoço para ver a espada, pronta para lhe ser entregue. Então praguejou em voz baixa ao ver que a bela insígnia de esmalte fora arrancada da guarda. Ordem do pai, é claro, mas Tomás usava aquela espada desde o décimo segundo aniversário e doía vê-la avariada.
Peça por peça, a armadura foi vestida, até ele se levantar com a sensação maravilhosa de força e invulnerabilidade que ela lhe dava. Lorde Egremont pegou o elmo que o mordomo lhe estendia com reverência. Enquanto o enfiava na cabeça, ouviu a voz do mestre de armas do pai ecoar pelo pátio de manobras.
— Quando o portão se abrir, partimos — berrou Trunning aos homens reunidos. — Preparem-se, porque ninguém vai dar meia-volta como uma dama de companhia que perdeu a luva. Nada de criados pessoais além dos que tiverem montaria, souberem usar espada ou arco e acompanharem o ritmo. Carne seca e aveia crua, um pouco de cerveja e vinho e nada mais! Provisões para seis dias, mas com leveza, senão ficarão para trás.
Trunning parou, o olhar varrendo homens e cavaleiros ao se preparar para dar mais algumas instruções. Ele avistou o filho de Percy e se deslocou no mesmo instante para ficar ao seu lado. Tomás sentiu uma breve satisfação ao olhar de cima para o mestre de armas, mais baixo que ele.
— O que foi, Trunning? — perguntou, mantendo a voz deliberadamente fria.
A princípio, Trunning não respondeu, apenas permaneceu ali parado, observando-o e mascando o bigode branco que caía sobre o lábio. O mestre de armas do pai treinara ambos os filhos de Percy na tática e no uso de armas, e havia começado tão cedo que Tomás não conseguia se lembrar de uma época sem sua presença, gritando com raiva por algum golpe medíocre ou exigindo saber quem lhe ensinara a segurar o escudo “como uma donzela escocesa”. Sem forçar a memória, Tomás se lembrava de cinco ossos quebrados com o passar dos anos pelo homenzinho de cara vermelha: dois na mão direita, dois ossos dos antebraços trincados e um pequeno osso do pé que Trunning pisara numa luta. Cada um deles significara semanas de dor e talas e um desdém abrasador a cada gemido que dera quando as talas foram enfaixadas. Não que Tomás odiasse ou mesmo temesse o homem de seu pai. Ele sabia que Trunning era intensamente leal à casa de Percy e Northumberland, como um cachorro selvagem velho. Mas, apesar de todas as diferenças de condição, Tomás, lorde Egremont, não conseguia imaginar que aquele homem algum dia o aceitaria como um igual, muito menos como seu superior. O próprio fato de o pai ter colocado Trunning no comando do ataque era prova disso. Aqueles dois velhos canalhas eram farinha do mesmo saco, sem uma gota de bondade ou misericórdia. Não admirava que se dessem tão bem.
— Seu pai lhe falou? Explicou como vai ser? — perguntou Trunning, finalmente. — Explicou que é para observar minhas ordens em tudo para que eu o traga para casa são e salvo, com alguns arranhões novos nessa sua bela armadura?
Tomás reprimiu um arrepio ao ouvir a voz do outro. Talvez em consequência de tantos anos urrando por campos e ruas com os homens que treinava, Trunning estava sempre rouco, as palavras misturadas aos chiados profundos da respiração.
— Ele me disse que você comandará, Trunning, é verdade. Até certo ponto.
Trunning piscou com indolência, avaliando o outro.
— E que ponto seria esse, meu nobre lorde Egremont?
Consternado, Tomás sentiu o coração bater forte e a respiração se apressar. Ele torceu para o mestre de armas não sentir sua tensão, embora fosse quase certo que sentiria, conhecendo-o havia tanto tempo. Ainda assim, falou com firmeza, decidido a não permitir que o homem de seu pai mandasse nele.
— O ponto em que discordarmos, Trunning. Cabe a mim guardar e proteger a honra da casa. Você pode dar ordens para marchar, atacar e assim por diante, mas eu ponderarei a política, as metas do que vamos fazer.
Trunning o encarou, inclinando a cabeça e esfregando um ponto acima do olho direito.
— Se eu disser ao seu pai que o senhor está irritado, ele o fará servir o rancho, no máximo — declarou, com um sorriso desagradável. Ficou surpreso quando o jovem se virou para encará-lo, inclinando-se para baixo.
— Se contar histórias ao velho, eu ficarei aqui. Veja até onde consegue se afastar dos portões sem um filho da família Percy à frente. E então, Trunning, você terá transformado Egremont em inimigo. Agora lhe disse meus termos. Faça como quiser.
Tomás deliberadamente se virou para os criados, pedindo-lhes que ajustassem e pingassem uma gota de óleo na viseira. Sentia o olhar de Trunning, e o coração continuava disparado, mas estava seguro de si naquela única questão. Não se virou quando o mestre de armas saiu batendo os pés, nem mesmo para ver se Trunning entraria no castelo para se queixar ao seu pai. Lorde Egremont baixou a viseira para esconder a expressão. O pai e Trunning eram ambos velhos e, apesar de toda a sua maldade e força, os velhos acabam partindo. Tomás levaria os arqueiros e os espadachins para a festa de casamento do tio, com ou sem Trunning, não importava. Ele olhou de novo para o pequeno exército que o pai convocara a servir aos Percys. Centenas não passavam de homens da cidade, convocados pelo senhor feudal. Mas, quer trabalhassem como ferreiros, quer como açougueiros ou curtidores, todos haviam treinado com arcos ou machados desde os primeiros anos de vida, desenvolvendo habilidades que os tornariam úteis para homens como o conde Percy de Alnwick. Tomás sorriu consigo mesmo, erguendo a viseira outra vez.
— Formem-se junto ao portão! — berrou para eles. Com o canto do olho, viu a forma magra de Trunning se virar de repente, mas Tomás o ignorou. Os velhos se vão, disse a si mesmo, com satisfação. Os jovens vieram para dominar.