Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 18 de 41

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Trindade

Capítulo 12

 

Na manhã seguinte, havia várias cabeças doendo e diversos rostos pálidos na coluna do rei. O dia nascera claro e frio, e o estado de espírito era alegre no grande acampamento. Metade dos presentes estava montada, e os cavalos relinchavam e bufavam em grandes manadas, sacudindo a cabeça ao primeiro toque de freio e rédeas tilintantes. Juízes importantes que não tinham encontrado lugar para dormir na cidade se levantaram enrijecidos das tendas, bocejando e coçando debaixo da túnica enquanto recebiam os cuidados dos criados.

Cada lorde que viajava com o rei Henrique escolheu um lugar em torno da cidade de Watford, marcado com os estandartes das casas, de modo que centenas de flâmulas coloridas adejavam à brisa da manhã. Essa reunião aparentemente caótica era bem ordenada em grupos familiares, separados por nome, condição e vassalagem. As fogueiras acesas para cozinhar formavam uma neblina que pendia acima dos campos, como se uma barreira de nuvens baixasse. Às oito da manhã, as carroças tinham sido carregadas e as montarias, seladas. As fileiras dos Percys estavam mais próximas da linha de marcha, mais de seiscentos cavaleiros e homens portando machados, de longe o maior contingente. Ninguém questionou o direito do conde a comandar. Tanto a posição de Somerset quanto a de Buckingham eram superiores à dele, mas juntos mal levavam consigo duzentos soldados veteranos, uma força e um investimento imensos que, mesmo assim, perdiam-se na hoste do rei. Outros nobres brigavam por posições, com os lugares mais próximos do rei muitas vezes vendidos ou disputados nos dados. A coluna tomou forma, e batedores partiram à frente, vasculhando o terreno ao redor em busca de ameaças, seus movimentos visíveis pelas gralhas e corvos que espantavam em árvores distantes.

O rei Henrique vestira a armadura completa na casa senhorial, levantando-se antes do sol para visitar a capela local. Ele brilhava ao cavalgar pelo flanco da coluna, seu grande corcel trotando com facilidade. O elmo que usava tinha um anel dourado e denteado incrustado na testa, uma parte tão integrada do aço quanto a realeza se integrava ao homem. Ele chegou cercado de cavaleiros e arautos com os estandartes dos três leões enquanto conduzia o cavalo até as grandes lajes de pedra que formavam a estrada do norte.

Henrique se sentia alerta e vivo, animado ao ver tantos espicharem o pescoço para vê-lo passar. Todos davam vivas ao avistar o rei, o som arrancado deles num ímpeto de orgulho e prazer. Era dissonante e não planejado, mas exatamente por isso deliciava Henrique. Ele chegou à frente da coluna e ocupou seu lugar atrás das três primeiras fileiras, onde iam os lordes Percy e Buckingham.

— Deus abençoe a todos — desejou Henrique.

Os dois homens sorriram e se curvaram o máximo possível na sela, sentindo que o estado de espírito do rei animava todos ao redor.

Henrique se instalou, tocando em vários pontos da armadura e dos alforjes enquanto conferia o equipamento. Na verdade, era apenas uma exibição, a mente sutilmente distraída enquanto dava tapinhas no grande pescoço do cavalo e esfregava as orelhas do animal. Ele ainda não confiava em sua recuperação, e adotara o hábito de aproveitar qualquer momento a sós para respirar profunda e lentamente, testar a mente e as articulações, em busca de partes quebradas. Sem dúvida havia dores nos ossos e nos músculos, ainda fracos após tanto tempo de cama. Mas os pensamentos eram claros, e ele segurava as rédeas com firmeza. Estava satisfeito. Olhou para trás, ao longo da coluna, vendo sobre si os olhos dos soldados à espera enquanto os fitava. Para muitos, seria um momento para contar aos filhos, que o rei da Inglaterra tinha olhado diretamente para eles e sorrido. Henrique cumprimentou todos os homens com a cabeça e se virou de novo para olhar à frente. O sol estava alto e ele, pronto. Só gostaria que Margarida estivesse ali para vê-lo inteiro.

— Milordes, cavalheiros — disse em voz alta. — Avante.

As linhas de cavaleiros e homens com machados se movimentaram a passo marcado, largas demais para a estrada romana, de modo que se estendiam e mergulhavam nos campos dos dois lados. Foi uma ideia indolente, mas Henrique sabia que o pai teria cavalgado com outros tantos quando venceu os franceses em Azincourt. Seu coração se aqueceu com aquela imagem de um homem que não conhecera, sentindo-se mais próximo dele naquele momento do que nunca. Ele fechou os olhos, tentando sentir o espírito do pai. O rei guerreiro sem dúvidas veria o filho, se pudesse. Podia ser um mero tribunal itinerante, com juízes, escribas e advogados de cara fechada na retaguarda, mas também era um exército em campanha, e Henrique sentiu a alegria e a justeza daquilo.

Sem a pressão de avançar por território hostil, os homens das fileiras gritavam e conversavam enquanto marchavam ou cavalgavam, com assuntos tão variados quanto qualquer grupo de lavadeiras. Os primeiros dez quilômetros se passaram sob o sol nascente, emprestando o calor da primavera a um dia que continuava claro.

Atrás da muralha de cavaleiros dos Percys, o rei Henrique não percebeu de imediato o batedor que voltava correndo pela coluna, agitando o braço livre enquanto forçava a montaria a avançar por terreno acidentado, pondo em risco o pescoço de ambos. Era um homem da casa de Henrique, que ignorou as perguntas gritadas por outros homens, empurrando-os, irritado, quando agarravam sua capa ou seu pelote. O conde Percy trocou um olhar com o filho, e tanto ele quanto Egremont puxaram as rédeas e pararam para que as fileiras em marcha os ultrapassassem e eles voltassem à presença real.

— Escudeiro James! Aproxime-se — gritou Henrique ao reconhecer o rapaz.

Ele o chamou com um gesto, e o batedor se curvou na sela, ofegando antes de conseguir falar.

— Vossa Alteza, há um exército em St. Albans. Vi a rosa branca de York, a águia de Salisbury e o urso com cajado branco sobre o fundo vermelho de Warwick. Estão acampados a leste da cidade, e não vi sinal deles nas ruas propriamente ditas.

O conde Percy aproximara bastante o cavalo para escutar cada palavra, e o velho parecia se encher de indignação em nome do rei.

— Posso interrogá-lo, Vossa Alteza? — perguntou Percy, baixando a cabeça.

Henrique fez que sim, disposto a deixar os homens falarem enquanto pensava.

— Quantos? — vociferou o conde Percy para o batedor. — Qual o efetivo deles? Você já mostrou que tem olhos argutos.

— Estavam bem juntos, milorde. Um ao lado do outro, como juncos. Eu diria mais do que temos aqui, porém não posso ter certeza, pois uma coluna se espalha, e eles estavam meramente em pé.

— Em que formação? — perguntou-lhe Percy, com rispidez.

O jovem começou a gaguejar, sabendo que suas palavras poderiam levá-los à batalha. Com apenas 16 anos, ele não tinha a experiência em dar boas respostas.

— Eu... não, milorde... Eu...

— Fale logo, garoto! Eles vieram para lutar ou não? Você viu piques prontos nas mãos ou ainda apontados para o céu, prontos para serem empunhados? Os cavalos estavam selados? Havia fogueiras acesas ou apagadas?

Enquanto o jovem batedor abria a boca, Tomás, lorde Egremont, acrescentou suas perguntas.

— Onde estava a bagagem? Na retaguarda? Quais estandartes nobres estavam mais perto da cidade?

— Eu... acredito que eles tenham piques à mão, milordes. Não me lembro de fogueiras nem de ter visto se os cavalos estavam todos selados. Não, esperem, sim, vi alguns cavaleiros à frente que estavam de armadura e com estribos. Não todos, milordes.

— Basta, milorde Percy, Tomás — disse o rei Henrique a pai e filho. — Deixem o garoto em paz. Logo veremos. Quanto falta agora? Quatro, cinco quilômetros até a cidade? Saberemos de tudo em cerca de uma hora.

O conde Percy fez um muxoxo com a resposta do rei, alisando o rosto antes de responder.

— Vossa Alteza, deveríamos parar e pensar em nossa formação. Se formos para uma batalha, eu poria os homens numa linha mais larga, com cavalos nos dois flancos. Traria os arqueiros galeses de Tudor para a vanguarda e...

— Eu disse basta — interrompeu Henrique.

Sua voz era clara e firme, e silenciou o conde como se o tivesse golpeado. Henrique sentiu as orelhas de todos os homens em volta se remexerem e tamborilou sobre o cabeçote da sela.

— Se a rosa, a águia e o urso estão em campo para a guerra, milorde Percy, tenha a certeza de que não os desapontarei. Há tempo suficiente para nos organizarmos para a batalha quando pudermos ver o que nos espera. Não farei nossos cavalos ficarem exaustos na lama se há uma bela estrada até a cidade diante de nós.

Seu olhar recaiu sobre o batedor, que observava e escutava boquiaberto, como o idiota de uma aldeia.

— Passe a notícia pela linha, escudeiro James. Que os homens saibam o que nos espera, o que podemos enfrentar esta manhã. E encontre Derry Brewer, onde quer que ele esteja à espreita. Quero saber o que pensa. Traga-o a mim e depois leve esses seus olhos argutos até lá outra vez. Você tem minha gratidão e minha bênção pelo serviço.

O batedor enrubesceu com uma mistura de vergonha e prazer, quase caindo da sela quando fez uma reverência diante do rei. Sem confiar em si para falar, tirou o cavalo da coluna e fincou os calcanhares em seus flancos, galopando para a retaguarda.

 

Ricardo de York cavalgava pela borda de um campo arado, evitando os sulcos profundos, enquanto examinava a cidade com a torre da abadia visível acima do resto. À sua direita, três mil homens enchiam Key Field de um lado ao outro, aguardando ordens. Ele olhou por cima das cabeças enquanto seguia pelo limite leste da cidade, ocultando a preocupação da melhor maneira possível. Ainda não sabia o que o dia lhe traria, se restauraria suas boas graças ou se as destruiria por completo. Salisbury e Warwick haviam ficado um pouco para trás quando ele apressou o passo, embora o filho Eduardo permanecesse a seu lado, olhando para o pai com alegria descomplicada só por estar presente. Os quatro passavam pelo muro traseiro de casas feitas de troncos, vislumbrando rostos espantados nas janelas abertas.

York ficava irritado por nem Salisbury nem Warwick parecerem partilhar de seus temores. O rei vinha para o norte com um grande corpo de homens. O duque sabia que reunir um exército no caminho de Henrique já era uma provocação perigosíssima. Mas fora forçado a aceitar o conselho de Salisbury, dado várias vezes nos meses anteriores. Eles não poderiam se aproximar do rei sem presença armada. York tinha seus espiões em Westminster e, sem exceção, todos relataram apenas hostilidade crescente a seu nome e sua causa. Os informantes de Salisbury revelaram ainda mais — que a rainha e homens como o duque de Somerset defendiam abertamente sua destruição. York balançou a cabeça como um tique nervoso. Se ele e os Nevilles avançassem sozinhos, poderiam ser capturados e julgados na mesma hora. O rei estava com seus juízes e seu selo, além dos pares do reino. Não precisava de mais nada.

Nervoso, York deteve o cavalo, olhando por cima das entradas da cidade a leste. Havia três caminhos à frente, tão claros quanto as três entradas de St. Albans. Uma escolha já havia sido feita quando decidira não ficar em Ludlow de cabeça baixa. York fora lugar-tenente do rei na França e na Irlanda, e não ficaria sentado esperando seu destino ser decidido por outros. Sabia que, se tomasse o caminho da covardia, o rei chegaria a Leicester em paz — e imediatamente acusaria York e Salisbury de traição. Os homens de Salisbury, especificamente, tinham certeza disso. O que quer que acontecesse, York não permitiria que essa declaração fosse feita.

York removeu a manopla, pousando-a no cabeçote da sela enquanto limpava o suor do rosto, olhando para a estrada de pedra ao sul, que se estendia pelos morros. Tinha forças para atacar, uma escolha sem resultado garantido, uma escolha que significaria que era mesmo um traidor da Coroa. Seria jurado e condenado diante do filho mais velho, ideia que o enojava. Um ato desses faria o reino se levantar com fúria justificada contra um matador de reis. Ele nunca voltaria a ter paz, e não dormiria, com medo de homens enviados para matá-lo à noite. York tremeu, girando os ombros dentro da armadura. Homens assim existiam, ele sabia muito bem. Dois séculos antes, o rei Eduardo I fora cortado por um maníaco de pele escura, e lutou com ele usando uma cadeira de seus aposentos. Não era um destino agradável para se escolher.

Ele não podia fugir e não ousava lutar. A escolha que fizera fora a mais débil de todas, embora talvez um pouco menos provável de acabar num desastre total. York virou o cavalo para encarar Salisbury e Warwick, enfrentando os olhos do mais velho, que caíram sobre ele, observando e avaliando cada mudança de expressão.

— Quando o rei chegar, não haverá movimento súbito entre os nossos, entendido? — ordenou York. — Minhas ordens são de parar, esperar. Os homens das fileiras do rei chegarão arrepiados ao ver tantos reunidos contra eles. Um único idiota entre nós, apenas um que grite um insulto na hora errada, e tudo o que planejamos e pelo que rezamos desmoronará.

Embora fossem quatro, a conversa era entre os dois pais daquele grupo. York e Salisbury se encaravam na terra escura, enquanto os filhos observavam e nada diziam.

— Concordei com tudo isso, Ricardo — respondeu Salisbury. — Você quer uma oportunidade para lancetar o furúnculo. Entendo. Meus homens me obedecerão inteiramente, você tem minha palavra. Envie seu arauto ao rei, faça as exigências que discutimos. Acredito que as palavras não chegarão a Henrique ou, se chegarem, ele não lhes dará ouvidos, mas já fiz minhas objeções. Dançaremos conforme sua música, Ricardo. Meus homens não começarão a lutar, a menos que sejam atacados. Não posso responder pela paz nesse caso.

York contraiu um lado do rosto e ergueu a mão para coçar e esfregar a pele áspera. Sabia muito bem que o filho escutava cada palavra sua e, pela primeira vez, preferiu não o ter trazido de Ludlow. A altura e a largura de Eduardo o faziam parecer um jovem cavaleiro, ainda mais com a viseira baixada. Mas ele tinha 13 anos. O menino ainda acreditava que o pai não podia errar, enquanto York só via caminhos fechados à frente. Irritado consigo, York engoliu em seco e calçou de novo a manopla, puxando-a até os dedos chegarem à ponta, e depois cerrando o punho até tremer.

— O rei Henrique irá me ouvir — disse ele, com o máximo de confiança possível. — Se permitir uma trégua ou oportunidade, irei à sua presença antes do meio-dia de hoje. Irei me ajoelhar e farei qualquer juramento de lealdade que ele quiser, como meu rei legítimo. É como eu gostaria que isso terminasse, milorde Salisbury. Em paz e com nossos cargos restaurados, com você como chanceler outra vez, seu filho como capitão de Calais.

— E você? — perguntou Salisbury. — Que título gostaria de receber do rei?

York deu de ombros, despreocupado.

— Primeiro conselheiro, talvez, ou condestável-mor da Inglaterra... qualquer nome que signifique que estou novamente a seu lado direito. Nada além do que me devem por meu serviço.

York examinou o sul, forçando os olhos para tentar avistar os primeiros sinais do exército do rei. O vento estava ficando mais forte e roubava um pouco do calor do ar. Ele não viu Salisbury e Warwick se entreolharem, ambos afastando rapidamente os olhos.

— Ele me ouvirá — repetiu York.

 

Derry Brewer correu ao longo da coluna, apressado pelo jovem batedor que não conseguia entender por que ele recusara o cavalo. Em vez de se demorar explicando que não fazia ideia de como subir num deles, se é que algum dia já montara, Derry havia decidido correr até o rei. Não contara com o fato de que a coluna continuava em movimento, pelo menos dobrando a distância que teria de percorrer desde a retaguarda. Quando chegou às primeiras fileiras, ofegava e suava em bicas, mal conseguindo falar.

Edmundo, duque de Somerset, baixou os olhos para o corado espião-mor com uma expressão de divertimento. Até o azedo conde Percy desfranziu a testa ao vê-lo.

Derry ofegava tanto que teve de estender a mão para o estribo do rei para se manter ao lado dele em vez de cair para trás.

— Vossa Alteza, cheguei — arfou.

— Meio morto e meio tarde — murmurou Buckingham à sua direita, o que lhe fez merecer um olhar furioso.

— Queria seu conselho algum tempo atrás, mestre Brewer — explicou o rei Henrique com rigidez. — Aprenda a cavalgar por ordem minha. Arranje uma montaria emprestada e mande um dos batedores lhe mostrar como se faz.

— Sim, Vossa Alteza. Sinto muito — respondeu Derry, com a respiração chiada.

Ele estava furioso por dentro, sabendo muito bem que antigamente teria conseguido correr o triplo e ainda chegar disposto a lutar ou correr de novo.

— York e Salisbury estão à nossa frente, mestre Brewer, com Warwick. Meu batedor descreve um exército pelo menos igual a esta coluna. Devo conhecer as intenções deles, Brewer, antes de levar os homens até a cidade.

Derry ouvira a notícia ser gritada uma dezena de vezes enquanto trotava ao longo da linha. Tivera tempo de pensar, embora nunca fosse suficiente com tão pouca informação para ajudá-lo.

— Vossa Alteza, é impossível saber o que se passa na mente de York neste momento. Eu não acreditava que ele deixaria Ludlow, mas, como deixou, a ameaça não pode ser ignorada. Ele tem se queixado da influência de Somerset e Percy sobre sua real pessoa. Pode ser que aproveite a oportunidade para defender sua posição, se o senhor lhe garantir passagem a salvo sob trégua. Mas eu não confiaria nele, Vossa Alteza. Além disso, eu mandaria o conde Percy para a retaguarda.

— O quê? — retorquiu Percy imediatamente. — Você não me mandará a lugar nenhum, seu filho da puta insolente! Como ousa aconselhar o rei dessa maneira? Vou mandar despi-lo e açoitá-lo, seu...

— Eu chamei o mestre Brewer para lhe pedir conselhos — interrompeu o rei Henrique, erguendo a voz acima da fúria do velho. — Agradeço-lhe se ficar quieto enquanto ele fala. Eu avaliarei o valor do que ele diz.

O conde Percy cedeu de má vontade, os olhos prometendo terrível represália enquanto continuava a fitar furioso o pobre espião-mor.

A respiração de Derry começou a voltar ao normal.

— Não há segredo na briga entre Percy e os Nevilles, Vossa Alteza. Não importa o que York pretende; os homens de armas que ambos comandam não deveriam ter permissão de se aproximar uns dos outros. Cães brigam, Vossa Alteza. A lealdade a seus senhores pode dar início ao derramamento de sangue, ainda que os suseranos só queiram paz.

— Você acha que York trouxe um exército só para ser ouvido, então? — perguntou o rei, fitando a estrada à frente. As primeiras casas da cidade começavam a ser avistadas, a menos de um quilômetro e meio, apressando-o.

— Acho que ele nos encontraria em campo aberto se sua intenção fosse lutar — respondeu Derry. — Não se travam batalhas em cidades, Vossa Alteza, pelo menos não boas batalhas. Eu estava em Londres quando Jack Cade invadiu a cidade, e me lembro do caos daquela noite. O jovem Warwick estava lá, e suas lembranças não são mais doces que as minhas. Não havia tática nem manobras de campanha; só correria, pânico e assassinatos sangrentos nos becos. Se York pretendesse atacar, não permitiria que esta coluna entrasse em St. Albans.

— Obrigado, mestre Brewer — disse o rei Henrique. Uma lembrança surgiu, e ele deu um leve sorriso ao continuar. — Embora não tenha cerveja, você tem minha

confiança.*

Derry piscou com o eco de uma época diferente, uma sombra quase esquecida. Em seu olhar claro, o rei que encarava mostrava poucos sinais daquele homem afogado.

— Obrigado, Vossa Majestade — respondeu ele. — Sinto-me honrado.

Então Derry ergueu os olhos para o ainda furioso conde Percy, na esperança de que o velho notasse sua posição junto ao rei. Já tinha inimigos suficientes.

— A cidade está lá, e não há sinal das fileiras de York marchando para nos encontrar — declarou Henrique. Ele cerrou o punho direito nas rédeas, e Derry viu a raiva crescer e manchar o rosto do rei. — Mas há um exército em meu caminho, uma pedra em meu caminho. Isso não será tolerado, milordes. Não por mim. Não passaremos de St. Albans até eu estar satisfeito; e, se houver traidores e homens malditos, forrarei a estrada de Londres com suas cabeças, cada filho da mãe dos que nos aguardam. Cada um deles!

— Devo me retirar para a retaguarda, Vossa Alteza? — perguntou o conde Percy ao rei, o olhar malévolo ainda fixo em Derry Brewer.

— Não — respondeu Henrique sem hesitar. — Encabece o caminho da cidade, conde Percy. Mande soar as trombetas e erguer os estandartes. Que aqueles à frente saibam que estou aqui e não me perturbo com sua presença. Que temam a danação e a morte se empunharem a espada contra seu legítimo rei.

Nota:

* Brewer, do inglês, mestre-cervejeiro. (N. do E.)