Trindade
Capítulo 16
Quando York saiu da praça, Salisbury assumiu o comando, gritando ordens para atacar os soldados dos Percys. Tanto o conde Percy quanto lorde Egremont foram forçados a descer correndo pela St. Peter’s Street, para longe da defesa fracassada na praça da feira. Salisbury conseguiu ver o estandarte de Somerset perto de soldados, antes que o homem que o segurava fosse morto e a bandeira sumisse sob os pés. Soldados de tabardo vermelho os atacaram cruelmente, e uma parte da mente de Salisbury notou a utilidade das cores que usavam após todos os outros estandartes terem sido quebrados ou pisoteados.
Com a respiração cansada, deu um tapinha no ombro do filho João.
— Fique perto de mim.
Em formação, os soldados Nevilles avançavam atrás deles. Salisbury sentia a idade a cada passo, porém a fraqueza do corpo era contida pela oportunidade de resolver sua rixa de uma vez por todas. York e o rei foram tirados do centro. A batalha então era entre Neville e Percy, e o efetivo das forças da casa de Neville era o dobro ou o triplo do inimigo.
Salisbury e o filho desceram marchando pela St. Peter’s Street atrás deles, a tempo de ver Somerset e seus guardas arrombarem a porta de uma taverna. Cem metros à frente, Warwick pressionava a facção Percy, sem lhes dar espaço para respirar nem planejar. Mas Somerset estava encurralado, e Salisbury viu a oportunidade de deixar York em dívida consigo. Parou de correr, reuniu homens em torno da porta arrombada da taverna e mandou outros soldados para os fundos da construção, para que ninguém pudesse fugir. Havia escuridão e silêncio no interior, e ninguém tinha pressa de correr para as espadas e os machados dos que os aguardavam.
— Uma bolsa de ouro para um cavaleiro, o título de cavaleiro para um plebeu — anunciou Salisbury às fileiras de soldados ao redor. — Quem matar Somerset escolherá sua recompensa.
Isso bastou para incentivar os indecisos, que correram porta adentro, quatro de cada vez. Salisbury aguardou enquanto grunhidos se seguiam, com o retinir de metal sobre armadura. Mais homens seus entraram, e os golpes e gritos de dor ficaram mais altos, enquanto Salisbury mordia o lábio de irritação. Ele queria avançar, ver os homens de Percy destruídos.
— Depressa, vamos! Entrem mais! — explodiu.
Enquanto falava, alguém saiu pela porta e a rua foi tomada pelo silêncio. A armadura de Somerset estava rubra de sangue, que escorria abundantemente pelas superfícies untadas, pingando enquanto ele permanecia ali, em pé na soleira. Ofegava, mas, ao ver Salisbury, ergueu o machado pesado com ambas as mãos, seus olhos ganhando vida. Não havia sinal dos que entraram para matá-lo nem de nenhum de seus guardas.
Somerset estava sozinho.
— Neville! — chamou Somerset, dando um passo em direção à luz. Parecia não dar atenção aos homens armados por todos os lados. — Traidor, Neville! — vociferou.
Um dos cavaleiros de Salisbury veio depressa, e Somerset se virou para enfrentá-lo, enfiando o machado no pescoço do homem com uma força aterradora antes mesmo que ele pudesse golpear.
— Venha me pegar, Neville! — gritou Somerset, a voz rouca. — Venha, traidor!
Havia algo terrível no duque coberto de sangue, ali em pé, desafiando todos eles. A multidão de soldados ficou parada, os homens apavorados, vendo aquilo como algo de mau agouro. Salisbury se preparou para ser atacado quando Somerset avançou mais pela rua. Outro cavaleiro robusto deu dois passos rápidos e lançou a espada contra o flanco de Somerset, amassando a armadura com sua força e fazendo o homem ofegar. O contra-ataque de Somerset enfiou o machado de baixo para cima nas costelas do soldado, atingindo a cota de malha, e com isso vários anéis caíram nas pedras do calçamento, soando como moedas. O soldado desmoronou de cara no chão, e Somerset ergueu o machado outra vez com enorme esforço. Quando se preparou para deixá-lo cair nas costas do homem, a lâmina acertou a placa pendurada da taverna. Salisbury viu Somerset erguer os olhos ao soltar o machado.
O nome da taverna era O Castelo, e a placa continha uma pintura grosseira da torre de uma fortaleza cinza sobre um fundo preto. Todo o sangue se esvaiu do rosto de Somerset ao ver aquilo, e ele fechou os olhos um instante, a força e a fúria desaparecendo, deixando-o vazio.
Salisbury fez um gesto rápido, e dois cavaleiros avançaram, enfiando as espadas nas articulações do joelho da armadura de Somerset. Ele gritou ao desmoronar, um som longo interrompido quando um terceiro homem acertou seu pescoço com o machado, cortando o metal e a carne por baixo.
Por um instante, ninguém se moveu, e metade dos homens ali esperava que Somerset voltasse a se levantar. Viram um duque do rei morrer, e o choque se espalhou por eles. Vários fizeram o sinal da cruz, olhando para Salisbury à espera de sua reação.
— Esse é por York — anunciou Salisbury. — Agora, Percy. Depois, acabamos.
Salisbury e o filho João deixaram o corpo para trás e caminharam pela St. Peter’s Street para se unir a Warwick. Seus homens o seguiram em silêncio, cada um deles, ao passar, olhando para o cadáver ensanguentado do conselheiro do rei.
As forças cada vez mais reduzidas que acompanhavam Warwick perseguiram o inimigo desde a praça da feira, lutando contra os soldados mais decididos do conde Percy, que levavam seu senhor embora. Não havia trégua nem misericórdia de nenhum dos lados, mas o efetivo de Warwick era menor, e somente a estreiteza da rua impedia que fossem flanqueados e vencidos. Quando o pai o alcançou, Warwick estava com o conde Percy e o barão de Egremont encurralados em outra estalagem, a Chaves Cruzadas. Havia uma rua lateral logo abaixo, e os homens de Warwick lutaram para alcançar Percy antes que o combate se ampliasse e lhe oferecesse uma oportunidade de fuga.
Warwick olhou para trás temeroso ao som de pés em marcha, e suspirou aliviado ao ver as águias, as cruzes e os losangos vermelhos nos escudos dos cavaleiros do pai. Avistou o irmão João, e o Neville mais jovem lhe fez um sinal de cabeça, um momento de satisfação particular no caos do dia. Eles enfrentavam os homens que atacaram o casamento de João, e Warwick baixou a cabeça, reconhecendo o direito do irmão.
Salisbury trouxera duzentos ou trezentos de seus melhores homens pela rua, deixando o restante das facções ocuparem sozinhas a cidade. Trombetas soaram em algum lugar mais distante, porém o conde as ignorou, dando novas ordens quando se uniram aos tabardos vermelhos de Warwick e passaram por eles para alcançar o inimigo.
Ao se ver diante desse novo grupo de soldados, Henrique Percy, conde de Northumberland, estava exausto. Tinha sido forçado a recuar pela rua principal, sendo várias vezes atacado. O elmo fora retirado de sua cabeça, e o cabelo branco molhado de suor esvoaçava como rabos de rato. De rosto cinzento, parecia que mal conseguiria erguer a espada que empunhava com ambas as mãos. Ele e o filho Tomás estavam na segunda fileira de homens de Percy, resplandecentes em azul e amarelo. O líder do clã Percy teria caído muito antes se não fosse um homenzinho pequeno e robusto de cota de malha que levava uma adaga fina como agulha. Trunning não permitia que ninguém se aproximasse de seu senhor sem avançar e furar um olho ou uma articulação com precisão assustadora. O mestre de armas já era responsável por alguns corpos na rua, e Warwick teria dado os dentes de trás por um único arqueiro que ele deixara para trás na corrida para a praça da feira.
Quando as forças de Percy recuaram outra vez, a rua lateral se abriu em seu flanco esquerdo. Warwick ouviu o conde Percy gritar aos soldados que eles enfrentavam quem matara o rei. Ele empalideceu ao ouvir isso. As palavras do velho deram nova força aos que o cercavam, que voltaram a avançar e ganharam alguns metros. Sangue novo escorria de cavaleiros de armadura e respingava na rua fria.
Warwick pôde apenas assistir aos homens do pai enfiarem alabardas em escudos, darem golpes e mais golpes até que suas lâminas saíssem rubras e depois as mergulharem outra vez. Via o conde Percy discutindo com Egremont, o mais velho rechaçando o filho e apontando para a rua aberta. Egremont estava com o rosto corado, sem querer partir, enquanto o pai o abraçava e o empurrava para longe com rudeza.
Salisbury apareceu, ofegando pesadamente ao chegar ao lado do filho.
— O rei Henrique só está ferido, embora ainda possa morrer. Você agiu bem. Foi seu rompimento pela cidade que provocou este final aqui hoje. O de nenhum outro homem.
— Onde está York? — perguntou Warwick, sem jamais afastar os olhos de Percy e Egremont.
Os dois quase pareciam não notar a batalha ao redor, enquanto Percy apontava mais uma vez para a rua aberta. Alguns guardas do conde baixaram a cabeça, como se tivessem recebido ordens de acompanhar o filho de Percy. Os mais ousados pegaram Tomás, lorde Egremont, pelos braços e o forçaram a andar de costas, embora ele lutasse contra suas mãos e chamasse o pai. O velho deu as costas ao filho, enfrentando mais uma vez as linhas Nevilles. Warwick praguejou em voz baixa. Poderia ter imaginado isso, mas o conde Percy pareceu cruzar os olhos com os seus e ergueu a cabeça, com uma expressão amarga de orgulho.
— York foi para a abadia, sem dúvida para chorar ou orar pelo rei — respondeu Salisbury. — Não importa. Nosso assunto é aqui.
Ele respirou fundo, enchendo os pulmões para gritar a ordem.
— Acabem com eles! Gritem “Salisbury”! Gritem “Warwick”! Gritem “ Neville”! E matem todos.
O combate se intensificou, auxiliado pela perda dos soldados Percys que partiram com Egremont. Warwick viu o homenzinho com a adaga fina como uma agulha dardejar entre dois cavaleiros lutando, encontrando espaço como se soubesse exatamente para onde se virariam. O mestre de armas dos Percys se esgueirava como uma sombra entre combatentes; esquivou-se para a esquerda e passou pela segunda fileira quando um soldado se virou para o lado errado. Num piscar de olhos, atravessara e os enfrentava. Trunning voou contra Salisbury, mas tanto Warwick quanto João Neville perceberam a ameaça. Eles enfrentaram seu golpe com as espadas erguidas, e Trunning foi perfurado. Mesmo assim, sorriu para eles com os dentes ensanguentados e conseguiu enfiar a adaga estreita na articulação do ombro de João Neville, que deu um grito de agonia enquanto o adversário torcia a lâmina, rindo, e uma torrente de sangue escorria pelo metal polido. Warwick realizou um movimento rápido e potente com a espada e cortou o pescoço de Trunning, derrubando-o.
Salisbury bramiu de triunfo ao ver o conde Percy desmoronar com o estrondo da armadura. Um dos guardas do velho ficou acima da forma caída, usando a espada e o escudo com grande habilidade para rechaçar os soldados Nevilles. O cavaleiro sem nome se movimentava bem, a força aparentemente infinita. Mas ele não podia se afastar de seu senhor. Sempre que se virava e matava, outro homem vinha atacar, até que um poderoso golpe de machado esmagou seu joelho, e ele também caiu para ser pisoteado.
As forças dos Percys estavam isoladas do velho, e Warwick e Salisbury o alcançaram. O conde Percy ainda vivia, embora seus lábios estivessem azulados. Com um gemido, o velho se forçou a sentar, apoiado nos cotovelos travados.
— João! Aqui! — ordenou Salisbury.
O braço do filho havia amolecido, o músculo cortado no ombro. Ele arrancara a adaga de Trunning com a mão esquerda. Estava branco de dor, mas os olhos eram ferozes diante do inimigo.
— Minha morte não o torna menos traidor — declarou o conde Percy, arfando de forma audível. As palavras e o olhar do velho visavam a Salisbury.
João Neville simplesmente balançou a cabeça. Com a adaga ainda úmida do próprio sangue, ele estendeu o braço e enfiou a lâmina sob o queixo do velho. O conde Percy se enrijeceu, soltando um grunhido e sibilando de agonia. A cabeça foi forçada para cima pela lâmina, que saiu pela boca. O sangue jorrou como água quando João a puxou e a passou através da garganta. Os três Nevilles observaram o conde cair de lado, os olhos se embaçando enquanto a boca ainda se movia para falar sem som.
— Onde está Egremont? — perguntou Salisbury aos filhos.
Warwick apontou para a rua aberta, onde podiam ver um grupo de cavaleiros se afastando rapidamente. Trombetas soaram de novo à distância, e a boca e o maxilar de Salisbury se retesaram com o som. Ele dera sua palavra a York, e após a violência sentia a exaustão inundá-lo. Salisbury se virou para o filho João e descansou a mão no ombro do rapaz.
— Esta é nossa vitória, João. Egremont não pode fugir para tão longe que não o alcancemos. Acabou. Hoje, acabou.
— Deixe-me levar uns cem homens atrás dele — retrucou João Neville.
Por um instante, ele achou que o pai permitiria, mas a cabeça do conde baixava de cansaço, não de falta de decisão.
— Não. Obedeça-me. Você terá sua oportunidade depois.
O conde encheu os pulmões, o olhar ainda no corpo de seu mais antigo inimigo.
— Chega! — berrou Salisbury.
À esquerda, alguns homens de ambos os lados ainda lutavam, e ele ouviu as trombetas de York tocarem uma terceira vez à distância. Sua hora terminara, e ele obtivera sua vingança.
— Toca trombetas quem as tem. Chega, já disse. Baixem as espadas. Nenhum homem precisa morrer agora, depois disso. Se viverem, baixem as espadas.
Homens ensanguentados e ofegantes o ouviram e desistiram com a esperança desesperada de que tudo pararia, de que talvez sobrevivessem ao dia. Pois, até onde a voz de Salisbury chegava, soldados se afastaram do combate, e depois mais além, quando os capitães Nevilles repetiram as ordens e mais trombetas soaram pela cidade, até que os sons e os gritos de paz fossem ouvidos em todas as ruas e em todas as casas.
Ricardo de York caminhou pelas lajes largas até as imensas portas da abadia. Podia ouvir o tumulto que ainda se desenrolava lá atrás, o estrondo e os gritos de milhares de homens lutando para matar uns aos outros, tão amontoados nas ruas que mal tinham espaço para manejar a espada. Olhou para trás ao ouvir um grande bramido, mas não foi capaz de adivinhar o motivo. As palavras de Salisbury o incomodaram, lançando uma luz diferente sobre os meses anteriores. O objetivo de York sempre fora afastar do rei Henrique os mexeriqueiros antes que sua casa fosse destruída por eles. E agora via que a intenção de Salisbury fora acabar com Percy, antes de qualquer outra consideração. Parecia que o caminho dos dois era o mesmo quando ambos avançaram para St. Albans. York balançou a cabeça, tentando afastar incertezas e preocupações. Estava cansado e com fome, mas o rei Henrique jazia dentro da abadia que assomava tão alta diante de si. Ele nem ao menos sabia se o rei ainda estava vivo.
Os homens que convocara para levar o rei Henrique para um lugar seguro permaneceram junto às portas da abadia, preferindo aquele lugar tranquilo à ideia de voltar ao perigo. Eduardo de March estava com eles, desajeitado, sua posição e juventude eram uma barreira grande demais para que a superasse. Os homens se puseram em posição de sentido quando York veio caminhando em sua direção, soldados cansados e feridos que já haviam lutado naquele dia, mas ainda pareciam envergonhados por se encontrarem longe do combate. York mal os notou, a mente focada no que encontraria no interior das enormes paredes de pedra. Não se via o abade em lugar nenhum, mas ainda assim a abadia era um lugar sagrado — um santuário. York tremeu sob a armadura quando seus homens empurraram as grandes portas para abri-las e ele atravessou a soleira. Seu filho deu um passo em sua direção nesse momento, a expressão esperançosa. York fez que não. Não sabia o que encontraria na abadia nem o que faria.
— Não, Eduardo. Fique aí.
York atravessou a entrada, aguardou as portas serem fechadas e ergueu os olhos.
Um grande esplendor de cores encontrou seus olhos por todo lado, brigando por atenção em cada coluna e parede pintadas. Uma imensa imagem de Cristo na cruz atraiu seu olhar, reluzente em vermelhos, azuis e dourados tão vivos que poderia ter sido criada dias antes. Outras cenas da Bíblia se combinavam para formar uma panóplia imensa de cores vivas se espalhando. Era avassalador, e York tomou consciência de que trajava uma armadura suja, observando a longa nave à frente até a grade de pedra do coro. Havia um altar diante dela, onde o rei jazia como uma boneca quebrada. Havia apenas dois homens com Henrique, silhuetas distantes que viraram os rostos pálidos para o homem que entrava como um lobo no aprisco das ovelhas.
York parou um pouco além da soleira e escorou o escudo numa coluna de pedra que se elevava até um teto absurdamente alto. Com mãos doloridas, desafivelou espada e bainha, deixou a arma ao lado do escudo e se endireitou. O líder da casa de Lancaster jazia indefeso diante dele, um primo que descendia do mesmo rei guerreiro da Inglaterra e que recebera o trono pela distância de um filho. York ergueu a cabeça, recusando-se a se intimidar com a cena dos condenados caindo num inferno em chamas. A armadura rangia, e os passos ressoavam conforme ele percorria a extensão da igreja, seguindo a longa linha da cruz latina.
Ele deu cem passos para chegar ao rei da Inglaterra. Henrique estava vivo, de costas para o altar, sentado no chão frio de pedra com uma perna dobrada. York podia ver que o rei observava sua aproximação, o rosto do homem mais jovem tão branco e exangue que a pele parecia de linho fino. O gorjal de cota de malha e as ombreiras de Henrique tinham sido removidos, e viam-se as ataduras, bem firmes no pescoço e sob uma das axilas. Scruton, o cirurgião, se afastou com a aproximação de York, baixando a cabeça e juntando as mãos em oração.
Na lateral do altar, o duque de Buckingham descansava, tão perto de Henrique que poderia tocá-lo. O duque respirava em arfadas rápidas e intensas, com dores tão terríveis que não podia fazer nada além de suportá-las. York viu o homem se virar para acompanhar sua aproximação, e sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao ver a ruína da boca do outro. Os olhos vermelhos e chamuscados de Buckingham ainda lacrimejavam, e York não sabia se a causa era o ferimento ou a batalha perdida.
York parou e fitou os homens à sua frente. Embora tivesse deixado a espada para trás, ainda trazia uma adaga no quadril direito, bem consciente de sua presença. Sabia que, se tomasse a decisão de atacar, nenhum daqueles três conseguiria detê-lo.
Ele ergueu os olhos um instante, a atenção atraída por alguma agitação. Viu passarinhos voando pelo vasto espaço aberto, a representação mais próxima da abóbada celeste na Terra. Fez o sinal da cruz, lembrando-se mais uma vez do chão sagrado em que pisava. Podia sentir a presença de Deus naquela fria eternidade ao redor, uma pressão sutil que o fez baixar a cabeça outra vez.
York se ajoelhou diante do rei.
— Vossa Majestade, sofro ao vê-lo ferido. Peço-lhe perdão por tudo que fiz, seu perdão.
Henrique se esforçou para se sentar mais empertigado, firmando-se com as mãos nuas pressionadas contra a pedra até ficarem brancas. Seus olhos pareciam entrar em foco e perdê-lo, e ele virava a cabeça só um pouquinho, de um lado para o outro, para espiar o homem que provocara tanta destruição.
— E se eu não conceder o que me pede? — sussurrou.
York fechou os olhos um instante. Quando voltou a abri-los, a expressão era dura e severa.
— Então terei de exigi-lo. Seu perdão real por tudo o que aconteceu hoje. A mim e a todos os homens comigo. Chamaram-me de traidor, Vossa Graça. Não serei chamado assim outra vez.
Henrique amoleceu o corpo, e as costas da armadura arranharam a pedra quando ele escorregou de volta para onde jazia antes. Sabia que sua vida pendia pelo fio da paciência de um homem, e sua força de vontade se esvaiu, uma rocha engolida pela maré alta.
— Como quiser, então, Ricardo. Não o considerarei culpado por nada do que fez. Você tem razão, é claro. Como quiser.
Os olhos do rei se fecharam, e York sentiu o médico dar um passo curto para avançar. O duque ergueu a mão, detendo-o. Estendeu o braço e pousou a manopla na face do rei.
Os olhos de Henrique se abriram mais uma vez com o toque do metal frio.
— Quem é? Ricardo, ainda? O que quer de mim?
— O senhor é o meu rei — declarou York em voz baixa. — Peço apenas para ficar ao seu lado. Precisa de bons conselhos, primo. Precisa de mim.
— Como quiser — respondeu Henrique, a voz pouco mais que um sopro quando o terrível cansaço dentro dele roubou sua força de vontade.
York assentiu, satisfeito. Levantou-se, ainda incapaz de desviar os olhos do rei.
Buckingham então tentou falar, as palavras saindo como um mingau que fez mais sangue escorrer de sua boca.
— O rei é um bom homem. Bom demais, Ricardo. Eu o chamarei de traidor, se ele não o fizer.
York mal conseguia entender a fala do outro. Poderia ter ignorado o duque ferido, mas balançou a cabeça.
— Suas palavras são vento e lama, Buckingham. Você será preso. Desconfio de que a fiança que pagará por sua liberdade cobrirá meus custos.
Buckingham corou em torno da ferida e da carne inchada, esforçando-se para falar com clareza.
— Que crime pode me imputar, a mim, que servi ao rei?
— Você se levantou contra seus leais lordes, Buckingham. Levantou-se contra York e contra Salisbury quando tentamos salvar o rei de conselheiros diabólicos. Não voltará a falar com clareza, acho. Uma língua fendida já é o suficiente, mas fale comigo com demasiada rudeza e hoje não será o fim de seu sofrimento.
Buckingham tentou amaldiçoá-lo, porém mais sangue jorrou do palato rasgado e as palavras saíram ininteligíveis.
— O rei vive e eu viverei — declarou York em voz alta. — Sou leal à casa de Lancaster.
Ele concedeu ao balbuciante duque de Buckingham um sorriso rígido e se virou para descer outra vez pela nave, chamando seus homens.
Em pé, encostado num pilar do transepto, Derry Brewer fitava a cena com pesar. Tinha entrado na abadia por uma porta mais humilde, esgueirara-se até uma sala onde havia hábitos de monge pendurados em ganchos e decidira na hora enfiar um deles sobre as próprias roupas. Depois da experiência com os franciscanos, o hábito beneditino não tinha mistérios.
Quando se virou para sair e puxava o capuz para esconder o rosto, ouviu a voz de York, voz que conhecia melhor que qualquer outra. De seu esconderijo, Derry assistira a toda a reunião, os dedos segurando o seax que pendia na cintura debaixo do hábito. Chegou a pensar que veria o assassinato de Henrique. Mas York refreara a mão, e Derry havia assistido com tristeza à humilhação do rei.
Quando York voltou a passos largos pela nave, Derry soube enfim que tudo estava em ruínas. Tinha visto a queda de Somerset, derrubado em meio a sangue e violência. Derry tentara ficar ao lado do rei. Lutara para alcançá-lo contra a maré de homens. Ver Somerset ser massacrado o fizera entender. O dia estava perdido. A causa estava perdida. O rei estava perdido. Cego de lágrimas e mudo de pesar, Derry correra para a abadia, pensando apenas em fugir.
Ele puxou o capuz, a cabeça baixa. York, Salisbury e Warwick triunfaram, conquistaram tudo o que queriam.
Derry sentiu um incômodo nos olhos de novo e os esfregou com a manga do hábito, irritado consigo por sua fraqueza. Com as mãos diante do corpo, ele adotou os passos deslizantes do disfarce enquanto seguia para longe de seu rei caído.