Trindade
Capítulo 17
Londres parecia o coração do mundo. Aqueles que morreram estavam no chão, e os ferimentos se tornaram cicatrizes nos que viveram. Os temores e as lembranças sombrias já desbotavam, expulsos e varridos pelos gritos das gargantas que davam vivas.
Uma imensa multidão se reunira, bem antes do amanhecer, para ter a oportunidade única de ver o rei e a rainha da Inglaterra. Nenhum dos presentes lutara na colina de St. Albans. Embora a cidadezinha ficasse a pouco mais de trinta quilômetros da capital, os açougueiros, os curtidores e os vereadores de Londres não estavam lá para ver Henrique cair nem para ver as barricadas serem derrubadas. Só sabiam que a rixa entre as casas havia acabado, que a paz voltara e que o rei Henrique perdoara os lordes rebeldes.
A cidade inteira parecia ter afluído para a rota do cortejo real pela grande e larga estrada de Cheapside rumo à Catedral de São Paulo. A multidão aclamava as linhas de soldados que trajavam cores vivas, o rosto tenso de dever e irritação. Houve alguns problemas — momentos em que se cortava a alça de uma bolsa para que fosse roubada ou moleques de rua corriam gritando no meio do ajuntamento —, mas na maior parte do tempo o clima era tranquilo.
Chovera na véspera, lavando boa parte da cidade e deixando-a mais limpa do que de costume. Aquele dia de julho amanhecera claro e quente, com centenas de carroças chacoalhando ao sol para preparar a rota do rei. De imensos feixes na parte de trás das carroças, as mulheres pegaram e espalharam palha seca e limpa por onde Henrique e Margarida caminhariam mais tarde. A lama úmida que estava embaixo se infiltraria outra vez, mas por algum tempo a rua estava limpa e renovada.
A traição e o derramamento de sangue em St. Albans foram deliberadamente esquecidos enquanto a cidade se preparava para a caminhada do rei e da rainha em meio ao povo da capital. Não se falaria mais de traidores nem de guerra civil, não depois daquele dia. Tudo o que a multidão via era o desfile triunfante pelo coração da cidade, encabeçado por belos corcéis bem-tratados e lustrosos em fileiras perfeitas. Estandartes de diversas casas nobres se erguiam em apoio ao rei e ondulavam ao vento, encimados pelos de Lancaster e de York, levados juntos em paz.
Atrás de seis dúzias de fileiras de cavaleiros vinham centenas de guardas reais com suas vestimentas mais coloridas, tirando de cestos nas laterais flores e até moedas para lançá-las à multidão. Mãos pedintes se estendiam, e mulheres lançavam beijos para os homens mais bonitos. A passagem dos soldados provocava um grande estrépito, e, em seguida, a multidão parecia tomar fôlego, durante um longo tempo em que as pessoas sussurravam admiradas, antes que aplausos e vivas estrondeassem outra vez, a ponto de fazer as casas dos dois lados da rua tremerem.
O rei Henrique da Inglaterra andava sozinho sobre a palha branca. Usava capa, túnica e calças apertadas de um azul bem escuro, quase preto, o peito bordado com três leões dourados, passant guardant, deitados, mas prontos. A capa era presa por um broche de prata.
Não olhava para a direita nem para a esquerda enquanto andava pelo mesmo caminho de centenas antes dele, nem se dava ao trabalho de contornar os montes fumegantes de esterco deixados pelos cavalos de batalha que passaram à frente. Para os que conseguiam enxergar entre lágrimas de alegria, o rei estava bastante pálido, mas com as costas eretas e a cabeça erguida. A notícia da batalha em St. Albans se espalhara pelo reino. Houve boatos sobre o ferimento de Henrique e até sobre sua morte, aumentados e rebordados em histórias fantásticas. Por ordem de York, era preciso que todos o vissem vivo e forte. O rei já havia aberto o Parlamento naquela manhã e recebera novos juramentos de fidelidade encabeçados por Ricardo de York como seu mais ardente defensor. Lordes espirituais e temporais foram se ajoelhar, pegar a mão de Henrique e jurar ao rei a vida e a honra. Ele olhava ao redor com olhos vazios, seguindo os que iam à frente.
Atrás de Henrique, a rainha Margarida caminhava com o duque de York, o peito dele estufado de prazer enquanto segurava a mão dela e não a largava. Em seus pensamentos, York gostaria que Henrique manifestasse apreço pela multidão. Havia algo desconcertante no rei de rosto branco que seguia rigidamente a rota traçada, como se nenhuma fagulha de vida o animasse. York e Margarida seguiam três passos atrás, longe demais dele para trocar uma palavra que fosse. Em vez do rei, era York quem erguia a mão esquerda para as fileiras de rostos que passavam, amontoados e pendurados em todas as janelas. Ele viu flores pisoteadas na palha enquanto a multidão se agitava e empurrava as fileiras de soldados. Alguns de seus homens juntaram bastões na altura da cintura, formando com eles uma barreira, enquanto os moradores de Londres num frenesi tentavam ver e guardar uma lembrança que cultivariam pelo resto da vida.
— Veja como eles amam o rei — comentou York, virando-se para Margarida.
Ela não respondeu, e ele se aproximou mais da rainha, de modo que seus lábios quase tocaram a orelha de Margarida.
— Eles amam seu marido! — gritou acima da algazarra.
Margarida ergueu um olhar tão frio para ele que York logo se desviou, voltando a observar o povo dando vivas. A grande procissão em Londres fora ideia de Salisbury, que agora andava um pouco mais atrás com os dois filhos. Talvez a sugestão fosse alguma compensação pelas palavras irritadas que trocaram na praça da feira de St. Albans; York não tinha certeza. O povo de Londres veria que a casa de York voltara ao âmago do favor real. Não haveria mais intrigas sobre seu nome nem sobre sua linhagem. York sentiu a mão da rainha se mexer dentro da dele, ambas as palmas escorregadias de suor depois de tanto tempo juntas. O duque a segurou com mais força, temendo que ela escapasse. Não a viu se retrair nem o jeito como ela recuperou cuidadosamente a expressão vazia.
Aquele era o dia de York, disso Margarida não duvidava. O marido andava como um prisioneiro à frente dos carrascos, e ela morria de vontade de avançar e ficar ao lado dele. Não tinha opção senão andar atrás, fitando as costas de Henrique como se pudesse estender a mão e consolá-lo apenas com seu amor e seus pensamentos.
A Catedral de São Paulo estava à frente deles, aquele antigo templo onde uma multidão ainda maior estava reunida desde muito antes da aurora para ver o rei receber a coroa das mãos de York. Não havia símbolo maior de poder, e York sentiu o espírito se elevar ao avistar a imensa construção. Deus e a boa sorte o acompanharam, a ele e à sua casa. Se o ferimento de Henrique fosse só um pouquinho mais perto da garganta, o príncipe Eduardo teria se tornado rei. Na presente situação, o rei Henrique vivia, mas York governava. Ele deu graças a Deus por isso, recordando que mandara rezar missas dia e noite para agradecer pela boa sorte.
Warwick recebera a capitania de Calais, aquele porto rico, em troca de seu papel na ação para salvar o rei em St. Albans. Salisbury era mais uma vez lorde chanceler do rei, embora sua verdadeira recompensa fosse a morte do conde Percy e seu triunfo na luta entre sua família e Northumberland. York pedira e recebera o título de condestável da Inglaterra, com poder de comandar em nome do rei. Talvez o mais importante fosse Henrique ter assinado docilmente o perdão de todos os envolvidos na batalha, absolvendo-os de toda culpa ou mácula em sua honra. As casas de York e Lancaster renasciam juntas num dia de verão e céu azul.
Margarida ergueu os olhos para o homem que odiava com um azedume capaz de talhar leite. Quando a farsa acabasse, com seus jogos de cena de coroas entregues ao rei por mãos indignas, veria quem ainda estaria com ela e Henrique. Quando a multidão voltasse para casa e houvesse silêncio, ela veria. Aprendera muito desde que havia chegado à Inglaterra ainda menina. Não avançaria com pressa nem rapidez. Mas, quando a hora chegasse, avançaria.
York sentiu o olhar dela. Quando baixou os olhos para a rainha que andava a seu lado, ficou aliviado ao ver que Margarida sorria.