Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 12 de 41

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Trindade

Capítulo 6

 

Os dias frios vieram com força no reino naquele ano. Dezembro começou com geadas rigorosas que congelaram os reservatórios de peixes de cidades e mosteiros, cobrindo as carpas gordas que ficaram lá embaixo na escuridão, mal movendo as nadadeiras.

A cidade de Windsor teve mais sorte que a maioria, com muitos lares com condições de comprar carvão ou madeira suficiente para forrar uma parede e manter as famílias aquecidas. O trabalho continuava mesmo nos meses mais frios, embora, conforme a camada de gelo aumentava, logo surgissem homens famintos pedindo esmolas de Natal em todas as ruas. Com a safra de outono colhida e armazenada, ainda havia algum serviço de conserto de janelas e telhados de madeira para quem tivesse habilidade. Outras centenas de pessoas chegaram para os festins reais que comemorariam o nascimento de Cristo 1454 anos antes. No castelo, banquetes com mais de vinte pratos eram preparados sabendo-se que uma parte seria distribuída entre os pobres. Era uma tradição das residências reais, e os melhores pontos nas ruas próximas às cozinhas estavam todos tomados, ainda que as piores noites revelassem, na manhã seguinte, um ou dois corpos congelados na sarjeta.

Os limpadores de fossas contratavam alguns trabalhadores em busca de serviço, que preferiam escavar as cloacas das casas mais ricas quando o conteúdo ficava consistente por causa do frio. Pelo menos aqueles homens se aqueciam ao descer aos intestinos da terra com pás e trapos amarrados no rosto. Alguns sempre eram sobrepujados pelo fedor e precisavam ser puxados com uma corda. Era um trabalho duro, mas um bom limpador de fossa conseguia ganhar num único dia o pagamento semanal de um trabalhador, e por isso eles defendiam seu direito a trabalhar nas melhores ruas, afastando aqueles que tentavam tomar o ponto.

Conforme o Natal se aproximava, as estradas em torno do castelo se enchiam com os convidados da família real para doze dias de paz e celebração. Parecia que a rainha Margarida havia decidido não permitir que a doença do marido estragasse a festa. Malabaristas, mágicos e cantores competiam por moedas nas estalagens, com todos os quartos da cidade reservados com antecedência; até os estábulos estavam cheios de famílias roncando. Trupes de atores chegavam com a fanfarra barulhenta de seus criados, entrando na cidade em procissões elaboradas, todas na esperança de se apresentar diante da rainha. O Natal, que ofuscava até a Páscoa e o Pentecostes, era a maior festa do ano e a época mais movimentada de Windsor.

Com o rei Henrique ainda perdido em seu devaneio, neste Natal a cura pública não fora planejada, na qual os doentes tinham permissão de se aproximar e tocar a mão do monarca. Os sofredores mais desesperados foram assim mesmo, sem ter mais a quem recorrer. Leprosos e aleijados tocavam sineta nas ruas, reunindo-se para se proteger, porque um ou dois sozinhos podiam ser isolados e espancados por moradores locais.

Os de sangue nobre passavam por lojas e por saltimbancos que se apresentavam em troca de moedas, seguindo para o conforto que o castelo oferecia. O duque de York podia comandar o reino de Londres, mas não conseguiria atrair os condes, os duques e os barões do rei para uma celebração de Natal. A escolha de convidados em Windsor era exclusividade da rainha Margarida, e não foi por acaso que os convites para quarenta e quatro casas nobres omitiam York, Salisbury e umas cinco outras ligadas à família Neville. Margarida tinha pensado em mandar um para o conde de Warwick, o Ricardo Neville mais jovem. Ela o conhecera durante o sítio de Londres, quando Jack Cade levara um exército à cidade. Warwick a impressionara naquela ocasião, mas o chanceler de York era seu pai e, com remorso, Margarida decidiu que a lealdade dele estava fora de sua influência.

Um ou dois convidados tinham se escusado por estarem velhos ou doentes demais para a viagem. Mas, durante três dias, trinta e oito lordes chegaram a Windsor com seu séquito, uma demonstração de profundo respeito pelo rei que fez Margarida sentir uma enorme satisfação. Ela fez questão de sair para cumprimentar aqueles de cujo apoio mais precisava, honrando-os em público. Era bastante significativo não os obrigar a ir até ela, e o prazer deles se revelava no rosto corado e no sorriso orgulhoso das esposas.

Derry Brewer se mostrava inestimável a cada família que chegava. Ele vestia uma túnica escura simples e calças apertadas, mantendo-se imperceptível no meio do séquito real. Sorria vagamente para tudo o que via, mas seus olhos eram argutos e ele não perdia nada.

Desde pouco depois da aurora, criados com as cores das grandes casas vinham correndo pela estrada, anunciando seus senhores e senhoras muito antes de serem avistados. Alguns mandavam mordomos para preparar ainda melhor o caminho. Quando os líderes das casas nobres realmente atravessavam os grandes portões, Derry já sussurrara uma torrente de informações no ouvido da rainha. Não levava consigo nenhum livro, meramente batendo na cabeça com a ponta do dedo quando Margarida exprimia surpresa ou até corava com o tanto que ele sabia.

O barão Grey era um de que ela se lembraria. Não mandara ninguém à frente e chegou da cidade a cavalo, com a magérrima esposa ao lado e dois rapazes de rosto jovem se esforçando para acompanhar, vestidos com túnicas iguais, carregando uma caixa pesada. Margarida simpatizou com ele instintivamente, mas sua expressão endureceu quando Derry sussurrou:

— Sodomita e pederasta, como os gregos. Gosta da esposa, mas eu soube que se aproveita de garotos pobres. Bastante discreto. Orgulhoso como o diabo e quase tão cruel.

Margarida olhou de relance para o espião-mor quando o barão Grey se aproximou. Derry havia descrito várias peculiaridades dos hóspedes nobres, das suspeitas de um antigo roubo a uma promessa de casamento rompida e uma menina com a reputação arruinada paga para ficar calada. Mais de uma vez, ouvira na voz dele um toque de humor, mas nenhum julgamento, apenas uma exposição seca de antigos pecados e fraquezas. No entanto algo desagradável surgiu nos olhos de Derry com a aproximação de lorde Grey. Margarida teve um vislumbre antes que sumisse, algo insensível, vazio e mortífero.

O barão Grey se curvou respeitosamente diante dela. Os olhos cinzentos combinavam com o nome, pequenos e duros no rosto carnudo e rosado. A esposa fez uma profunda reverência, a cabeça inteira oculta por uma touca elaborada. Margarida não encontrou palavras e ficou apenas olhando ao estender a mão ao homem. Antes daquele dia, não poderia dizer com franqueza que sabia o que era um pederasta. A breve descrição de Derry enchera sua mente de imagens desagradáveis que tornaram dificílimo não tremer quando Grey tocou com lábios úmidos as costas de sua mão. O momento passou, e o barão seguiu adiante, a esposa olhando para trás com orgulho nos lábios finos enquanto eram levados embora. Margarida se forçou a respirar, concentrando-se em Derry, que dizia algo sobre minas de estanho e um barão idoso que se curvava como um mestre de dança, embora tivesse o dobro da idade dela.

Ao anoitecer, Margarida finalmente se retirou, os pés doloridos por ficar tanto tempo sem se sentar. Ela descansara durante breves períodos ao longo do dia, quando era chamada para as refeições ou quando se instalou numa cadeira providencial para receber outro recém-chegado. Vira o prazer deles quando os cumprimentava, e, assim, embora cansada, não se arrependia do tempo perdido. Nas doze noites seguintes, conheceria cada homem e cada mulher no castelo.

Com a ajuda de Derry, ela fora capaz de separar velhos inimigos. Havia garantido até que a sensibilidade exacerbada de uma condessa idosa não se inflamasse com a visão de uma prima jovem e bonita ao se levantar pela manhã. Por sugestão de Derry, Margarida fizera alarido para o barão de Audley, um velho soldado de barba branca que corou de satisfação com a atenção recebida. Mas, quando o barão de Clifford se aproximou, o espião-mor ficou sério e encarou Margarida para dar as costas ao homem que vinha na direção dos dois.

— Ceda um centímetro e ele interpretará como fraqueza, milady — murmurou Derry. — Lorde Clifford só enxerga lobos ou cervos, nada que esteja no meio. Não é preciso dizer que ele não respeita os cervos.

Com isso, Margarida erguera a cabeça, decidida a não murchar. Mostrara uma expressão gelada ao cumprimentar o barão de Clifford. O homem igualou seu nível de rigidez e seguiu os criados até aposentos distantes dos salões principais.

A ausência de um nome foi fonte de grande amargura. Margarida considerava Somerset um amigo e detestava pensar que ele estava preso. A posição do conde lhe permitia algumas liberdades na Torre, mesmo aguardando julgamento. Mas York se recusara a lhe conceder liberdade condicional e respondera ao pedido de Margarida com uma carta pomposa sobre crimes graves contra autoridades de Estado. York havia escrito com sua letra cheia de arabescos num papel lacrado com o selo do próprio marido da rainha. Ela sabia que não devia remoer o prazer do duque com isso. Quando se permitia pensar em York por muito tempo ou com muita frequência, percebera que enrolava madeixas nos dedos até ficarem roxos. Ela já chorara por Somerset, sua perda como mais um ramo espinhoso em seu fogo íntimo, um ardor constante que se esforçava para ocultar.

O Castelo de Windsor estava mais movimentado que durante o ano inteiro. Caçadas enormes e elaboradas mantinham os convidados ocupados, assim como peças de teatro, mágicos e música à noite. O estado de espírito entre eles era leve, apesar da presença de tantos acompanhantes e criados armados, sintoma da época. Até no castelo real havia medo em meio à celebração.

Quando o sol nasceu na manhã de Natal, Margarida voltou aos seus aposentos particulares a tempo de ver o filho mamar na ama de leite, sugando com força o seio rosado até arrotar e ser posto para descansar um pouco. O jovem Eduardo tinha 1 ano e havia aprendido a engatinhar, não podendo mais ser deixado sozinho na expectativa de permanecer no mesmo lugar ou até no mesmo quarto. A ama limpou um pouquinho da golfada e pôs um pano no ombro de Margarida antes de lhe entregar a criança. A rainha sentiu o calor do filho que gritava e se remexia, contorcendo o rostinho, irritado com alguma coisa. Ela sorriu, e a ama respondeu à sua expressão franca antes de fazer uma profunda reverência e sair do quarto.

Margarida ficou sozinha por pouco tempo. Viu-se bocejando e balançou a cabeça, distraída, pensando em tudo o que ainda precisava ser feito antes do grande banquete mais tarde. Teria de comparecer a uma missa na capela e, enquanto todos rezassem pela saúde do rei, as cozinhas estariam tão ocupadas quanto um campo de batalha. A equipe já devia estar decorando e empalando carcaças, temperando e tostando pratos para impressionar os nobres do marido — todos homens e mulheres que empregavam seus próprios cozinheiros. Margarida insistira num sabor francês em tudo, sabendo que os pratos de Anjou seriam quase todos desconhecidos dos convidados. Haveria gansos, é claro, assados às dezenas, mas também galinhola, perdiz e pombo, tortas e doces delicados, geleias temperadas servidas em imensos moldes de cobre e sopas, ameixas recheadas, bolos, enguias em salmoura, uma centena de pratos diferentes para o banquete de Natal.

Ela começou a cantarolar baixinho para o filho apoiado em seu ombro, sentindo-o se mexer e espiar ao redor antes de pousar a cabeça outra vez. Os seios tinham doído horrivelmente por algum tempo depois que ele nascera, mas Margarida ficou satisfeita de dar continuidade ao costume da ama de leite entre os ingleses.

Margarida desviou o olhar da criança irrequieta ao ouvir passos de botas ali perto. Alguém a chamava e perguntava em voz alta onde poderia ser encontrada. Ela estalou a língua com impaciência, olhando para o príncipe de Gales, que chupava o polegar e abria os olhos um instante. Eram muito azuis. O que ele viu pareceu satisfazê-lo, e os fechou de novo, mas a gritaria não parava. Margarida franziu o cenho. Os momentos a sós com o filho eram preciosos e raríssimos. Ela torceu para que ninguém tivesse se ferido no imenso campo de caça. Um dos criados do duque de Buckingham havia fraturado o tornozelo no dia anterior, e ela não queria que os nobres se lembrassem de um período de azar durante a temporada.

A ama retornou ao cômodo, o rosto bastante corado. Por instinto, a moça estendeu as mãos para a criança adormecida, e Margarida a entregou, sentindo uma profunda pontada no útero quando o peso saiu de seu ombro.

— Milady... — começou a ama, tão nervosa que mal conseguia falar.

Seus movimentos eram descuidados enquanto aconchegava novamente o príncipe Eduardo no colo. É claro que ele escolheu este momento para começar a chorar, sacudindo os punhos minúsculos para o mundo num paroxismo de fúria.

— O que foi, Katie? Não lhe pedi que me desse uma hora? Uma única hora por dia é pedir demais?

— M-Milady, Sua Alteza...

As vozes e os passos ainda se aproximavam. Margarida sentiu um súbito espasmo de medo, imaginando assassinos ou homicídios.

— Basta! O que a deixou tão nervosa, Katie?

— Seu marido, o rei, milady. Estão dizendo que ele acordou.

Margarida deu um passo atrás, tamanha a força com que as palavras a atingiram. Seus olhos se arregalaram, e ela segurou as saias, correndo para a porta. Quando chegou à soleira, os criados da câmara do rei já entravam, ofegantes com a corrida.

— O rei, Vossa Alteza! — exclamou um deles.

Sua presença no meio do caminho refreou o corpo e a mente da rainha, permitindo-lhe um momento de imobilidade.

— Espere — retorquiu Margarida.

Ela ergueu a mão como se fosse empurrar o homem para fora. Ele recuou apressado até Margarida fechar a porta em sua expressão espantada. Virou-se para a ama e o filho, ambos a fitando.

Margarida cultivara a dignidade em seus modos desde que havia chegado à corte inglesa, com apenas 15 anos. Em respeito a Henrique, tentou se tornar rainha na postura, um cisne nobre tanto nos modos quanto no símbolo da família. Aprendera tudo o que era possível, mas ser esposa dele exigia muito mais que apenas conhecer o nome das casas e das propriedades, mais que saber as leis da Inglaterra e suas tradiçõezinhas peculiares que pareciam tão entrelaçadas. Acima de tudo, ser rainha de um rei indefeso significava que Margarida tinha de pensar antes de sair correndo. Significava que tinha de provar antes de comer ou beber.

Henrique tinha passado mais de um ano fraco e em perigo. Ela morria de vontade de correr para ele, as saias erguidas até as coxas, disparada pelos corredores como um moleque numa feira. Em vez disso, pensou, pensou e por fim fez que sim com a cabeça e abriu a porta. Então, caminhou.

Aquela era a notícia que tanto havia esperado, que desejara mil vezes, mas a realidade trazia seus medos. Muitos se alegrariam com o despertar de Henrique, ao passo que outros se enfureceriam, se agitariam e praguejariam. Não duvidava de que alguns de seus lordes esperavam que ele fosse morrer — e se planejaram para esse fim. Margarida parou à entrada dos aposentos de Henrique. Escancarou a porta, machucando a mão dos que tentavam abri-la.

O sol nascia atrás do marido. Margarida levou a mão ao coração, incapaz de falar ao ver que ele estava em pé — por Deus, em pé — e olhava para ela. O rei Henrique estava magro, os ossos aparentes sob a pele. Vestia uma camisola branca comprida que chegava aos seus tornozelos, uma das mãos apoiada na cabeceira da cama. Enquanto a observava, dois homens se agitavam ao redor dele, tocando seus pulsos com os dedos e se inclinando à sua frente. Os doutores John Fauceby e William Hatclyf eram os médicos reais, com três auxiliares e Michael Scruton, o sargento-cirurgião do rei. Vasilhas de urina e sangue fumegavam em mesas junto à cama, com dois homens examinando-as, gritando suas observações sobre claridade e sedimento para o escriba que as registrava. Margarida viu quando Hatclyf mergulhou os dedos e provou a urina, dizendo ao escriba que estava doce demais e recomendando que se acrescentassem verduras amargas às refeições do rei. Seu colega sentiu o cheiro do sangue do rei e também tocou o líquido na vasilha, esfregando os dedos para verificar a gordura antes de a língua rosada sair da boca. Suas vozes se chocavam e competiam, uma mais alta que a outra, cada um deles se esforçando para ser ouvido e ter suas observações registradas primeiro.

Era uma cena agitada, mas no centro dela estava o rei, acordado, completamente imóvel e muito pálido. Os olhos dele estavam límpidos, e Margarida sentiu os seus se encherem de lágrimas ao se aproximar. Para seu espanto, Henrique levantou a mão para detê-la.

— Margarida? Estou cercado de estranhos. Esses homens estão dizendo que tenho um filho. É verdade? Pelas chagas de Cristo, quanto tempo fiquei aqui deitado?

Margarida abriu a boca, chocada ao ouvir o marido dizer uma imprecação pela primeira vez desde quando podia se lembrar. Ela o conhecera como um homem afogado, afundado em febres e sonhos até se perder por completo. O homem que a fitava não piscava nem desviava o olhar. Nervosa, ela engoliu em seco.

— Você tem um filho. Eduardo está com pouco mais de 1 ano. Mostrei-o quando você foi tomado pela doença. Não se lembra dele?

— Nem dele nem de mais nada, não... Momentos, instantes, nada que eu possa... Um filho, Margarida! — Os olhos dele se estreitaram de repente, uma expressão de sombria desconfiança. — Quando ele nasceu, esse príncipe de Lancaster?

Margarida enrubesceu, mas depois ergueu a cabeça, subitamente zangada.

— No décimo terceiro dia de outubro, no ano de Nosso Senhor de 1453. Seis meses depois de você cair doente.

Henrique parou um momento, esfregando os dedos da mão direita uns nos outros enquanto pensava. Margarida só podia esperar, felicíssima quando ele fez que sim e pareceu satisfeito.

— E você ainda está aí! Traga-o para mim, Margarida. Quero ver meu herdeiro. Não, por Deus, mande alguém. Tenho de saber tudo que aconteceu. Mal posso acreditar que perdi tanto tempo. É como se um ano me fosse roubado, arrancado de minha vida.

Margarida fez um gesto para uma das criadas de quarto, mandando a moça correr para buscar o príncipe de Gales.

— Mais tempo, Henrique. Você ficou... ausente, não, doente durante dezoito meses. Rezei e mandei rezar missas todos os dias. Eu... Você não sabe o que é vê-lo acordado.

O lábio de Margarida tremeu de repente, e lágrimas escorreram por seu rosto, rapidamente enxugadas. Ela observou o olhar do marido ficar introspectivo, a tensão franzindo sua testa.

— Como está minha Inglaterra, Margarida? A última coisa de que me lembro... Não, não importa. Tudo de que me lembro aconteceu há muito tempo. Diga-me depressa. Perdi tanta coisa!

— Ricardo de York foi nomeado protetor, Henrique, um regente para comandar o reino enquanto você estava... incapaz.

Ela viu com assombro os punhos do marido se cerrarem, quase num espasmo. Henrique não agradecera a Deus por sua libertação uma única vez, esse homem que rezava horas e horas por dia desde que ela o havia conhecido.

— York? Como deve ter ficado satisfeito ao ter minha coroa jogada em seu colo. — O rei torceu um anel no dedo quase com crueldade, como se quisesse arrancá-lo. — Qual de meus lordes esqueceu sua honra a esse ponto? Percy, não, sem dúvida. Buckingham, não, sem dúvida.

— Não, Henrique. Eles se afastaram da votação, como muitos outros. Somerset também, embora ele esteja preso na Torre por se recusar a aceitar a autoridade de York.

O rosto do rei Henrique se tornou sombrio, o sangue que lhe subiu à face se destacando como um estandarte contra a pele branca.

— Isso posso mudar hoje mesmo. Onde está meu selo para que eu assine a ordem de sua soltura?

O mordomo do rei escolheu este momento para falar, seus olhos ainda brilhando de umidade por ter testemunhado o despertar do rei.

— Vossa Graça, o duque de York está com o selo real em Londres.

Henrique cambaleou de leve, estendendo a mão para a cabeceira. Seu braço estava fraco demais para sustentá-lo e cedeu, fazendo-o cair sentado com força na cama. Os médicos reagiram com uma empolgação febril, murmurando o tempo todo sobre sua cor e sua disposição, soando como um enxame de abelhas em torno do rei. O doutor Fauceby estendeu a mão outra vez para o pescoço de Henrique, para verificar a força das batidas do coração, e levou um tapa do rei.

— Por Deus, estou fraco como uma criança! — exclamou Henrique, o rubor aumentando de raiva e vergonha. — Muito bem. Verei meu filho e os criados me vestirão. Depois irei a Londres para tirar York de meu lugar. Agora me ajudem a me levantar de novo, um de vocês. Quero estar de pé quando vir meu filho pela primeira vez.

— Vossa Alteza, é a crise — avisou Hatclyf com a voz mais firme que conseguiu. — Recomendo que descanse.

Margarida percebeu que o médico tremia. Durante mais de um ano, Henrique havia sido pouco mais que um corpo pálido a ser lavado e vestido, auscultado e medido como um bezerro cego. Os homens em torno do rei estavam intimamente acostumados com sua carne, mas não conheciam Henrique em nada. Ela mesma se perguntou se o conhecia.

A rainha observou Fauceby trocar olhares com Hatclyf. Ambos os médicos tinham um jeito monástico, com dedos finos e bochechas encovadas. Mas Fauceby era o mais velho, e, quando falou, sua voz era firme e baixa.

— Vossa Alteza, meu colega está certo. O senhor esteve muito doente por um tempo prolongado. Está suando, sinal de que seu fígado e suas tripas ainda estão fracos. Caso se agite demais, corre o risco de desmaiar e a doença retornar. Vossa Alteza deveria descansar agora, com sono normal. Hatclyf e eu prepararemos um caldo de repolho-roxo, ciclame e artemísia para quando Vossa Alteza voltar a acordar, com sua permissão. Ele purgará e restaurará seus humores, para que sua recuperação seja mais duradoura.

Henrique parou e pensou, olhando para o outro lado enquanto avaliava a própria força. Estava consternado com a fraqueza que tomara conta dele, mas, se calculara corretamente o tempo perdido, tinha 33 anos. A percepção de que era a idade de Cristo quando foi crucificado fortaleceu sua vontade. Ele havia despertado no Natal com a idade da morte de Cristo. Era um sinal, tinha certeza. Não desanimaria nem passaria mais nenhum momento no leito de doente, por mais que isso lhe custasse.

— Não — retrucou ele. — Vocês dois aí. Ajudem-me a ficar em pé.

Os dois criados nobres reagiram instantaneamente. Seguraram Henrique por debaixo dos braços estendidos e o puseram de pé mais uma vez, afastando-se com a cabeça baixa enquanto o rei se equilibrava nas pernas bambas. Todos ouviram passos se aproximando, e a ama de leite entrou no quarto neste momento, esforçando-se para fazer uma reverência e erguer o príncipe bebê ao mesmo tempo. Ela não deixou seus olhos se direcionarem ao rei Henrique, que ainda usava camisola.

— Traga-o aqui — pediu o rei, o sorriso não forçado.

Ele pegou a criança e a segurou no alto, embora os braços tremessem com o esforço.

Margarida cobriu a boca com a mão, tentando não chorar de alívio e alegria.

— Você — disse Henrique ao menininho que olhava para ele. — Por Deus, eu o vejo, meu próprio filho. Meu filho.