Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 9 de 41

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Trindade

Capítulo 3

 

O clima estava alegre quando os convivas do casamento acordaram. Os que estavam com dor de cabeça devido à noite anterior fizeram fila com paciência para receber pratos de guisado de carne com bolinhos de trigo, uma refeição gordurosa e nutritiva que absorveria a cerveja forte e acalmaria os estômagos inquietos. Como não era quarta, sexta nem sábado, não havia razão para não comer carne, embora poucos dentre eles tivessem o hábito de encher a barriga de manhã tão cedo. Porém casamentos eram oportunidades para excessos, e tanto convidados quanto serviçais poderiam dizer que tinham se banqueteado até a consciência vacilar e o cinto ranger.

Como líder da família Neville, Ricardo, conde de Salisbury, estava de excelente humor ao esvaziar a bexiga num arbusto, observando quase com contentamento o vapor subir. O casamento havia sido um sucesso; seu filho João fizera boa figura e se portara com dignidade. Salisbury sorriu quando se ajeitou e amarrou o cordão das calças, bocejando até o maxilar estalar. Tinha bebido mais do que o indicado para um homem de sua idade, de modo que suava mesmo no frescor da aurora, mas, se um pai não pudesse comemorar o casamento do filho, haveria algo errado no mundo. E era uma vantagem a mais Maud ser de uma beleza rara, de quadris largos, com marquinhas redondas na bochecha direita, mostrando que sobrevivera àquele flagelo e que não levaria varíola à sua família. O conde havia se divertido montando a tenda conjugal no terreno gramado, zombando e gritando instruções com os outros, enquanto o jovem casal enrubescia e a tenda balançava com a luta amorosa e o ataque de risinhos nervosos da noiva. No fim, sua esposa, Alice, o arrastara para longe e enxotara os homens para dar ao casal um pouquinho de privacidade.

Depois disso os vassalos dos Nevilles continuaram a beber e esvaziaram odres de cerveja e xerez branco que tinham trazido em carroças para a viagem pelo campo. Só alguns estavam acordados para dar vivas na manhã seguinte quando o jovem João pendurou um pano manchado com o sangue da virgem. O próprio rapaz saíra pouco depois para andar com orgulho pela multidão, recebendo tapinhas nas costas pelo caminho. A mãe estragara um pouco o clima ao detê-lo para limpar manchas do rosto do filho diante de todos.

Fora um dia bom, e o tempo estava ótimo. Um grupo menor talvez tivesse passado a noite numa estalagem à beira da estrada, mas Salisbury estava com mais de duzentos soldados e arqueiros para a viagem rumo ao norte. No ano anterior, homens demais foram mortos pelo reino para que arriscasse a vida da esposa e dos filhos sem seus melhores guardas à mão.

Seu criado pessoal lhe levara um tamborete de madeira e a mesa de barbear e os pousara na grama com um pano branco, uma navalha, uma garrafa de óleo e uma bacia de água bem quente. Salisbury esfregou preguiçosamente os pelos ásperos do queixo, franzindo a testa ao pensar na trabalheira que o aguardava. Era uma alegria passar alguns dias longe da administração de terras e títulos, dos quais o de lorde chanceler do protetor era um dos mais importantes. Por um curtíssimo tempo, ele não passava de um pai orgulhoso como qualquer outro, levando um jovem casal para casa em segurança. Tinha certeza de que os dias na estrada seriam sua única folga dos deveres daquele ano. Sheriff Hutton era uma de suas casas favoritas, onde ele e a esposa passaram parte da lua de mel. Salisbury sabia que Alice adoraria visitar a velha casa mais uma vez, embora não pudessem permanecer muito tempo. O filho e Maud ficariam lá mais uma semana, organizando a administração dos feudos do dote que ela levara ao clã Neville.

Salisbury sorriu ao pensar nisso, e se instalou no tamborete e aceitou o pano em torno dos ombros, com o criado pincelando óleo morno em seu rosto e afiando a navalha. Na fronteira com a Escócia, lugar que sempre imaginava congelado ou fustigado pela chuva gelada, Salisbury sabia que seu velho colega, o conde Percy, estaria cuspindo fogo de raiva. A ideia trouxe novo bálsamo a uma manhã de verão já perfeita.

O criado ergueu a lâmina e Salisbury levantou a mão.

— Vamos fazer algo interessante, que tal, Rankin? Uma chicotada em suas costas a cada corte, uma moeda de ouro se terminar a tarefa sem nenhum. Será que isso agrada seu negro coração apostador?

— Agrada muito mesmo, milorde — respondeu Rankin.

Era um velho jogo entre os dois. Embora o criado tivesse sido açoitado algumas poucas vezes ao longo dos anos, ele ganhara o suficiente para dar um bom dote às três filhas, e tinha certeza de que o conde sabia muito bem disso. A mão de Rankin permanecia firme ao raspar os pelos da garganta de Salisbury. Em torno do senhor e do criado, os homens de armas dos Nevilles riam e se cutucavam, fazendo apostas silenciosas entre si enquanto levantavam acampamento e se preparavam para marchar para o norte.

Alice, condessa de Salisbury, saiu descalça da tenda, sentindo a terra com os pés e respirando profundamente o ar da manhã. Viu que o marido estava sendo barbeado e decidiu não o chamar. Sabia que Rankin guardava as moedas que ganhava, bem mais que o salário costumeiro. Por um longo tempo, Alice ficou ali, observando o marido com evidente afeição, contente por ele continuar tão forte e saudável apesar da idade. O quinquagésimo quinto aniversário seria dali a poucos meses, lembrou-se, já pensando em que presente mandaria fazer para ele.

Passos apressados fizeram alguns homens desviar o olhar da cena, embora Rankin continuasse alisando e raspando, concentrado na tarefa e na recompensa. Salisbury ergueu os olhos devagar, com cuidado, e viu um dos jovens que acompanharam a festa de casamento. Tinha uma vaga lembrança do rapaz na noite anterior, bebendo profundamente o vinho de um odre antes de passar muito mal e divertir os homens.

— Milorde! — gritou o menino ao chegar correndo e parar de repente. Seus olhos estavam arregalados ao ver um homem ser barbeado no campo.

— O que foi? — perguntou Salisbury com calma, esticando o queixo para dar a Rankin uma linha reta para a navalha.

— Homens chegando, milorde. Soldados e arqueiros, todos se dirigindo para cá.

Salisbury fez um movimento brusco e praguejou quando a navalha cortou sua bochecha. Levantou-se de repente, agarrando o pano do pescoço para limpar o óleo e a mancha de sangue do rosto.

— Montar! — vociferou Salisbury para os homens espantados ao redor.

Eles saíram correndo em direção aos cavalos e armas.

— Tragam meu cavalo! Rankin, seu desajeitado, você me cortou. Cavalo! Alice! Pelo amor de Deus, vá se calçar!

O quadro sonolento se desfez, com homens correndo em todas as direções, tropeçando e berrando pelos capitães que os comandavam. Quando Salisbury montou, havia fileiras de cavaleiros entre o senhor e quem se aproximava. Aqueles com olhos mais argutos gritaram “Arqueiros!” várias vezes, então escudos foram lançados para os cavaleiros, e os arqueiros Nevilles correram à frente, encordoando os arcos no caminho.

— Milorde, sua armadura! — exclamou Rankin.

O homem havia pego uma braçada de metal, um braço enfiado num gorjal circular, pendurado meio aberto pela dobradiça. Ele corria ao lado do estribo conforme o conde fazia o cavalo trotar. Os ajudantes que teriam equipado o senhor não estavam em lugar nenhum. Rankin entregou uma espada longa e quase sumiu sob os cascos ao tropeçar.

— Não há tempo, Rankin. Mas aquele gorjal eu aceito. E busque um escudo para mim, por favor. Há um pendurado lá naquela árvore, está vendo?

Ele estendeu a mão quando Rankin lhe jogou o gorjal; pegou-o no ar e o fechou em torno da garganta. À frente, cento e cinquenta soldados de infantaria e sessenta arqueiros aguardavam pacientemente que se juntasse a eles. Salisbury olhou para trás e viu que a esposa e o filho tinham arranjado cavalos. A nova noiva também estava lá, torcendo as mãos brancas diante do corpo. Uma expressão preocupada atravessou o rosto do conde ao ver aquele grupinho vulnerável. Ele se virou para trás, e o filho olhou para cima ao ouvir o som de cascos.

— O que foi, senhor? Quem está vindo?

— Ainda não sei — respondeu Salisbury. — Acho que terei de deixar alguns deles vivos para perguntar, não é? Sua tarefa é levar sua mãe e Maud para um lugar seguro. Isso aqui não lhe diz respeito, João, não hoje.

Ele não falou que, se o jovem casal morresse, haveria a possibilidade de os valiosos feudos do dote retornarem a lorde Cromwell ou até voltarem a cair nas mãos de Percy, exatamente o tipo de disputa que mantinha os juízes do Tribunal do Rei ocupados por meses ou anos. Não era algo a se dizer diante de uma recém-casada, embora Salisbury tivesse gostado de ver Maud pular na sela, tão ágil quanto qualquer moça de fazenda de boa linhagem. A saia comprida subiu até o alto das pernas e, na presença da esposa, Salisbury desviou o olhar. O filho enrubesceu e apeou para baixar as camadas de pano.

— Deixe para lá, João. Já vi as pernas de muitas moças. Alice? Ajude seu filho nisso. Quero você a salvo. Fique longe dos combates, a menos que sejamos derrotados. Então, corram para o sul, de volta a Tattershall.

— Sheriff Hutton fica mais perto e é nosso — argumentou a mulher, sem desperdiçar palavras com o marido ansioso para se afastar.

— Não sabemos o que está à frente, Alice, só atrás. Siga João. O caminho para o sul está livre, e não há dúvida de que Cromwell a manterá a salvo até alguém da família se vingar. Isso se eu cair. Esses são meus melhores homens, Alice. Apostaria neles minha última moeda.

— Quer que partamos agora? — perguntou a esposa.

Ele a amou neste momento, pelo olhar sério e pela total falta de medo. Salisbury viu que Maud observava a mulher mais velha, aprendendo só um pouquinho do que era ser uma Neville naquele dia.

— Apenas se souber que caí ou que fomos derrotados. Você estará mais segura aqui, com meus homens ao alcance, do que cavalgando.

Ele parou ao perceber que o inimigo poderia tê-los cercado à noite, pronto para capturar qualquer um que fugisse para o sul.

— Carter! Venha cá, por favor! — gritou a um cavaleiro robusto que passava.

O homem parou na sela, virando a cabeça para ver quem chamara seu nome, depois fez o cavalo dar meia-volta com grande habilidade.

— Meu bom Carter — começou o conde quando o cavaleiro se aproximou. — Preciso que alguns rapazes examinem o sul para verificar a linha de retirada. Leve quatro homens e relate à condessa aqui.

— Sim, milorde — respondeu o homem, erguendo a viseira do elmo e assoviando com força para chamar atenção de um grupo de cavaleiros que passava.

— Muito bom — disse Salisbury. Ele sorriu para a mulher e para o filho. — Agora meus homens precisam de mim. Que a bênção de Deus esteja com vocês. Senhoras, João, boa sorte.

Salisbury baixou a viseira e bateu com os calcanhares nos flancos do cavalo, sentindo falta das botas com esporas que fariam sua montaria avançar sem se importar com o que houvesse à frente. Mas tinha uma espada na mão direita, um escudo na esquerda e um bom ferro em torno da garganta. Teria de ser o suficiente.

Ele foi a meio galope até as fileiras dos Nevilles montados e passou por elas, que se abriram para deixá-lo chegar à frente. Salisbury viu um grande número de soldados cavalgando e marchando sem pressa rumo à sua posição. Franziu o cenho para enxergar à distância, desejando ter os olhos aguçados do rapaz que os vira primeiro. Quem quer que fossem, não usavam cores, não traziam estandartes à frente. Ele engoliu em seco ao ver seu número, mais que o triplo de seu efetivo.

— Minha esposa falou que eu não precisaria de tantos homens, não para um casamento no campo — comentou ao homem ao lado, fazendo-o sorrir. — Se algum de nós sobreviver, você faria a gentileza de lhe dizer que estava errada? Tenho certeza de que ela ficaria agradecida de saber.

Os soldados ao redor dele riram, e Salisbury ficou satisfeito com a confiança. Todos os homens ali lutaram na fronteira contra hordas de escoceses selvagens quando ele fora guardião do rei pela última vez. Conheciam o ofício e estavam bem-armados, com cotas de malha ou armaduras, apoiados por sessenta bons arqueiros capazes de acertar um pássaro em voo se alguém apostasse uma jarra de cerveja.

— Guerreiros! Atrás deles! — vociferou Salisbury, mandando os arqueiros avançarem pelo mato alto.

Ele viu a força que se aproximava enviar a vanguarda conforme ele fazia o mesmo, trilhas escuras de arqueiros em trote se afastando da força principal para provocar caos e destruição. Eles se encontrariam nos prados secos pelo sol ali no meio, enfiando flechas na garganta dos adversários. Ali o efetivo contaria, e ele forçou o olhar para ver quantos vinham contra ele. O cavalo bufou, irritado com os arreios e a demora, e Salisbury se abaixou para lhe dar um tapinha no pescoço.

— Calma, garoto. Espere os arqueiros abrirem caminho.

Ambos os lados haviam parado, enquanto arqueiros corriam disparando flechas em meio às árvores e ao capim alto que os separavam, erguendo poeira e borboletas atrás de si. Era uma manhã dourada e, embora estivesse em desvantagem numérica, Salisbury segurou a espada com força, ouvindo a sela de couro ranger quando se inclinou para a frente. Possuía uma dezena de inimigos ou mais, no entanto apenas um poria em risco uma força daquelas e teria recursos e homens para mandá-la contra ele.

— Percy — murmurou Salisbury para si mesmo.

Tinha esperanças de que o velho estivesse ali em pessoa, para que pudesse vê-lo morto. Era tarde demais para se amaldiçoar por não prever o ataque. Salisbury levara para o casamento do filho uma força maior do que todos acharam necessário, mas ainda assim era um verdadeiro exército que cavalgava contra ele. Disse a si mesmo que deveria ter previsto que lorde Percy não ficaria quieto em Alnwick enquanto perdia propriedades. Salisbury conhecia cada detalhe das terras do dote de Cromwell. Era uma das razões de ter ficado tão contente em recebê-las: irritar o velho amargo que governava o norte.

Ele balançou a cabeça, apagando dúvidas e arrependimentos. Seus homens eram bem treinados, e a lealdade deles beirava o fanatismo. Seriam o suficiente.

 

*

 

Tomás, lorde Egremont, observou as filas organizadas de arqueiros se afastarem. No longo verão, o capim havia secado até ficar quase branco, mas crescera tanto que um homem só precisaria se ajoelhar para sumir. Ele tivera uma dificuldade e tanto para encontrar a festa dos Nevilles em terras que não conhecia bem. Trunning mandara batedores se espalharem em todas as direções durante a noite, lançando a rede cada vez mais longe até que um deles voltou a toda, o rosto corado, gritando a notícia. O mestre de armas de Percy mandou os homens se levantarem e se prepararem para marchar enquanto Tomás ainda bocejava e olhava em volta.

Ele e Trunning pouco conversaram depois de traçarem as linhas no pátio de Alnwick. Tomás dissera a si mesmo que não precisava daquele pedaço de tendão azedo, mas a verdade era que Trunning sabia organizar uma campanha. Os velhos soldados e os moradores da cidade esperavam ordens de Trunning porque ele sempre estava por perto para dá-las. Não era um grande talento, até onde Tomás entendia. Só exigia um olho bom para pequenos detalhes e um temperamento explosivo. Tomás gostaria de saber se imaginava o desdém do outro sempre que seus olhos se cruzavam. Mas não importava. Haviam encontrado a festa de casamento dos Nevilles e, embora houvesse muito mais soldados do que ambos esperavam, ainda tinham efetivo suficiente para massacrar todos.

Tomás avançou pelo meio de uma linha de cavaleiros que formava a ala direita de quinhentos homens com espadas e machados, já cobertos de suor pela marcha acelerada antes do amanhecer. Enquanto os arqueiros avançavam, aqueles homens tinham a oportunidade de recuperar o fôlego. Pelo menos, o calor do dia ainda não passava de uma ameaça. Seria um sofrimento mais tarde, com o peso da armadura e das armas e a exaustão esgotante de seu uso. Lorde Egremont sorriu com a ideia, expressão que se desfez em parte ao ver Trunning conduzir a montaria até perto dele e inserir o animal na linha de espera. O homem nunca ficava parado, e Tomás ouvia sua voz rouca berrando ameaças a algum infeliz que saíra da posição.

À frente deles, cento e vinte arqueiros desapareceram no mato, cada homem por conta própria, avançando em busca de alvos. Tomás não sabia se os Nevilles tinham trazido arqueiros. Se não tivessem, os seus começariam o massacre com flechas, picando-os em pedacinhos sem perder ninguém de seu pequeno exército.

Tomás ergueu a cabeça ao ouvir alguém gritar, uma figura distante saindo de onde se escondera. Mais gritos soaram e, do outro lado do terreno aberto, a um quilômetro e meio, conseguiu ver homens que corriam, paravam, pareciam se contorcer e depois continuavam, enviando flechas adiante. Tremeu, imaginando os arqueiros ofegantes tentando olhar em todas as direções, sempre à espera da súbita agonia se fossem avistados e atravessados por uma flecha. Era um serviço sujo, e já estava claro que os Nevilles tinham seus rapazes com arcos para enfrentá-los.

Tomás respirou fundo, olhando firme para a frente em vez de buscar a aprovação de Trunning.

— Para cima deles! Comigo, em boa ordem! — berrou ele pela linha.

Os homens de armas seguraram as espadas e os machados com mais força, e os cavaleiros estalaram a língua, instando as montarias a avançar devagar. Os arqueiros deviam estar se aproximando das linhas dos Nevilles, perto o suficiente para derrubá-las.

À frente, Tomás viu dois homens robustos se levantarem de repente, surgindo entre tojos e arbustos. Viu-os curvarem os arcos longos e ergueu o escudo, lançado para trás um instante depois ao ser atingido por uma flecha com um estalo alto. A outra sumiu atrás dele, fazendo alguém gritar de dor ou choque. Trunning berrava uma ordem, mas a linha já se movia. Arqueiros precisavam ser atacados, e a linha de cavaleiros se lançou à frente da infantaria, com escudos erguidos e viseiras baixadas, as espadas prontas para atacar. Tomás sentiu a empolgação aumentar e usou as esporas para lançar seu imenso cavalo preto num meio galope.

Os dois arqueiros tentaram se esquivar, jogando-se no chão quando os primeiros cavaleiros reduziram a distância. Tomás os viu numa nuvem de poeira, debatendo-se desesperados para rechaçar os cascos e o golpe de espada de um cavaleiro que galopou sobre eles. Depois ficaram para trás, deixados para serem retalhados pelos homens com machados que vinham correndo.

Ele cavalgava a toda, a linha de cavaleiros de armadura se desfazendo ao encontrar os obstáculos naturais do terreno. Tomás sentiu sua montaria se curvar e a conduziu por cima de um espinheiro, despedaçando-o com os cascos e deixando a planta balançando no caminho. Ele ajustou o escudo e se inclinou para trás, reduzindo o ritmo para não avançar demais. Os Nevilles estavam lá, a menos de oitocentos metros de distância, se tanto, parecendo pequenos e fracos contra a linha de cavalos que fazia o chão tremer.

— Lorde Egremont! Mais devagar, seu estúpido...

Tomás olhou ao redor furioso quando o cavalo de Trunning passou à frente. O homem teve a impertinência de segurar suas rédeas e puxá-las.

— Tire as mãos daí! — exclamou Tomás com rispidez. Então ele olhou em volta e viu que deixara para trás a força principal.

Trunning afastou a mão e ergueu a viseira do elmo, controlando a raiva com certa dificuldade.

— Milorde, o senhor vai acabar com os homens que tentam protegê-lo. Oitocentos metros é uma distância muito longa para se correr com cota de malha. Onde está seu juízo? Aqueles arqueiros acabaram com sua coragem? Calma, homem, já não são muitos agora.

Tomás sentiu um desejo quase avassalador de derrubar Trunning da sela. Se achasse que o homem de seu pai pudesse ser surpreendido, talvez arriscasse, mas Trunning era um veterano, sempre pronto a se esquivar ou atacar. Até o cavalo do mestre de armas parecia inquieto, dando passinhos de um lado para o outro, um velho saco de ossos tão acostumado com o choque das armas quanto seu senhor. Nisso, Tomás já sabia que Trunning acertara ao detê-lo, mas as palavras ainda doíam, e ele mal conseguia enxergar de tanta raiva.

— Cuide dos homens, Trunning. Grite e dê as ordens que quiser, mas porei sua cabeça na ponta de uma lança se ousar tocar nas minhas rédeas outra vez.

Para seu desgosto, Trunning simplesmente sorriu e apontou para a força dos Nevilles.

— O inimigo está lá, lorde Egremont, caso haja alguma dúvida. Não aqui.

— Às vezes eu duvido, seu filho da puta pomposo — retrucou Tomás.

Pelo menos marcara um ponto com o homem de seu pai. O rosto de Trunning se fechou e ele abriu a boca para responder, mas de repente se abaixou por instinto quando flechas voaram ao redor deles, mandadas de ambos os lados. Tomás praguejou ao ver dois arqueiros de pelote prata e vermelho caírem com flechas no peito. Levantou a mão para agradecer a seus dois homens que os tinham derrubado. Eles acenaram em resposta e continuaram a avançar.

— Juntos! — vociferou Trunning. — Juntos a Egremont! Aqui!

As linhas voltaram a se formar em torno de Tomás, que, sentado na sela, fervia de raiva. Conseguia ouvir a respiração rascante dos homens de armas que o alcançaram. Ofegavam profundamente no calor denso da manhã, e era muito irritante saber que Trunning estava certo, como sempre.

— Fiquem aqui e descansem — gritou-lhes Tomás, percebendo o alívio tomar o rosto deles. — Tomem água e aguardem. Temos o triplo de homens, não estão vendo?

Quando se recuperaram, Tomás avançou com todos, a montaria pisando com cuidado nos corpos de arqueiros mortos quando passavam por eles, cada um caído sozinho, com flechas como espinhos na carne. Ainda conseguia escutar o estalo dos arcos na faixa que se estreitava entre as duas forças, mas achou que havia mais corpos com as cores dos Nevilles do que seus homens cinzentos.

O tempo inteiro em que correra pelo prado com Trunning e os cavaleiros, os Nevilles ficaram parados à sua espera. Quando seus homens passaram a uma caminhada lenta, ele viu a linha inimiga avançar de repente, vindo a toda. Tomás hesitou. Os Nevilles estavam em tamanha desvantagem numérica que era suicídio vir até onde ele poderia cercá-los e destruí-los. Supusera que Salisbury manteria sua posição para defender o acampamento pelo máximo de tempo possível, talvez enquanto mandava cavaleiros pedir ajuda. O ataque deles não fazia sentido nenhum.

— Arqueiros! Mirem nas primeiras fileiras! — ouviu Trunning berrar.

O espírito de Tomás se animou ao ver uma dúzia de homens escondidos se erguer do capim alto, abandonando o jogo selvagem com os arqueiros Nevilles para atender à ordem de Trunning. Assim que abandonaram a cobertura, os arqueiros inimigos também se levantaram, e flechas voaram outra vez: golpes curtos e cortantes que os atingiram de baixo para cima. O custo foi pavoroso de ambos os lados, mas Tomás viu seis ou oito arqueiros seus sobreviverem para mirar na linha Neville. Era tarde demais para correrem, e dispararam saraivada atrás de saraivada até serem cercados.

Com um forte rugido, os cavaleiros de Salisbury passaram por cima daqueles que os feriram, cavalos e homens desabando juntos e ficando para trás. Menos de duzentos metros separavam as forças, e Tomás sentiu a boca seca e a bexiga cheia. Eles se deslocavam bem, aqueles cavaleiros Neville. Tomás engoliu em seco, nervoso, compreendendo por fim que enfrentava a guarda pessoal de Salisbury. Uma olhada rápida para a esquerda e para a direita o tranquilizou. Tinha a largura da linha. Tinha a vantagem numérica. Tomás Percy, barão de Egremont, ergueu o braço por um glorioso momento e, então, Trunning deu a ordem de atacar antes dele, aquele canalha traiçoeiro.