Trindade
Capítulo 28
Derry Brewer se perguntou se o conde de Northumberland sofreria um ataque apoplético. O vento subia e emitia um som triste nas paredes do Castelo de Alnwick, assoviando notas descendentes como uma trombeta anunciando a retirada. Na cabeceira da mesa de jantar, Henrique Percy ficara cada vez mais sombrio, o rosto inchando como o de uma criança que prende a respiração até desmaiar.
— Lorde Percy, temos uma causa em comum — lembrou-lhe Derry. — A rainha tem de encontrar um exército onde puder, se quisermos ver a paz restaurada.
— Mas os escoceses! É como se ela tratasse com o diabo em pessoa! — exclamou Henrique Percy.
Sua boca estava aberta enquanto ele balançava a cabeça, dando-lhe um aspecto bobo que deixou Derry com vontade de sorrir. O espião-mor simplesmente esperou o jovem conde voltar a ficar calmo. Para sua surpresa, foi Somerset quem falou, um homem que mal conseguiria entender o ressentimento ancestral daqueles que protegiam as fronteiras.
— Milordes, mestre Brewer, eu aceitaria qualquer força de homens, ah, até os franceses, se nos desse a oportunidade de endireitar esses malfeitos. Aceito minha parte de culpa por Northampton. Se soubesse que os aliados de York viriam para o norte, estaria lá para combatê-los. Todos assumimos uma dívida naquele dia, a responsabilidade pela captura do rei Henrique.
— Meu irmão Tomás morreu lá — retorquiu Henrique Percy. — Acha que não sinto essa dor? Por causa de York, perdi meu pai. Por causa de traidores desonrados, perdi também meu irmão. — Ele parou por um momento. — Talvez eu tenha sofrido o suficiente para suportar os escoceses na Inglaterra, mestre Brewer. Embora fique muito agradecido por meu pai não ter vivido para ver uma coisa dessas. — Ele meneou a cabeça com amargura e comentou ironicamente: — Acho que isso mataria o velho.
— Não sei se chegarão a vir — argumentou Derry. — Embora eu realmente fosse negociar com o diabo se achasse...
Para sua irritação, o barão de Clifford deu uma resposta repentina, interrompendo-o antes que terminasse de falar.
— Não diga isso, Brewer. Nem mesmo de brincadeira ou bravata. O diabo escuta esses ares e promessas... e age de acordo.
Derry trincou os dentes.
— ... se achasse que nos traria a vitória. Milordes, vi York, Salisbury e Warwick transformarem desastre em triunfo. Vivi para ver o rei Henrique capturado e mantido como prisioneiro. — Ele incluiu o barão de Clifford no olhar que lançou a todos. — Os senhores perderam o pai em St. Albans, e depois irmãos e amigos. Enquanto isso, esses traidores se fortaleceram, e toda moeda lançada caiu a favor deles. Os Decretos de Desonra foram rasgados pelo Parlamento. York se transformou em herdeiro do trono... e quanto tempo o rei Henrique viverá, agora que é uma pedra no sapato de York? Estou lhes dizendo, milordes, esse é o amargo cerne da situação. Precisamos de todos os homens leais e, se fracassarmos, a casa de York reinará para sempre. Não haverá Northumberland, Somerset nem Clifford. Eles não perdoarão os Decretos de Desonra, se em algum momento os tiverem à sua mercê. Misericórdia não é uma característica dos Nevilles, milordes, quando estão fortes. Os senhores sabem que é verdade. Portanto, eu daria boas-vindas a escoceses e galeses, até a franceses... por Deus, até a irlandeses nessas costas, se pudessem devolver ao trono os legítimos rei e rainha! Arriscaria minha alma e meu último suspiro para ver York derrotado. Nada mais serviria.
Os três lordes só puderam observar a forte emoção revelada no homem diante deles. Derry Brewer estava imundo depois de passar semanas na estrada. Sabiam que ele fora a Gales e percorrera toda a região, espalhando a ordem para os homens se reunirem. Havia sido educado e divertido durante toda a discussão, mas, por um momento, permitira que vissem sua raiva e determinação.
— Já sabe onde eles mantêm o rei? — perguntou Somerset.
— Não está na Torre — respondeu Derry. — Ela ainda está em obras depois que aquele idiota do Scales deixou a turba derrubar uma muralha. Fico surpreso que Salisbury lhe tenha permitido se render, com Londres inteira clamando por seu sangue. Eis um homem cuja morte não chorarei, embora tenha lutado ao seu lado uma vez. Usar canhões e fogo grego contra o povo de Londres! Disseram que Scales foi encontrado na cela com a garganta cortada. Eu pagaria uma cerveja ao homem que fez isso, se é que o encontrarão. — Ele balançou a cabeça com desagrado. — Não, milorde, eles devem estar com o rei preso em algum lugar próximo. Tenho rapazes procurando, mas há mil casas e nenhum modo de descobrir qual delas.
Uma lembrança lhe ocorreu. Ele correndo pelo Palácio de Westminster em busca de William de la Pole, há muitos anos. Não a revelou aos presentes, sabendo que não a entenderiam nem lhe dariam importância.
— Milordes, às vezes penso que dediquei toda a minha vida ao cordeiro, a manter Henrique a salvo dos inimigos. É como um espinho em minha pele saber que eles o têm e que sua vida é frágil como um cristal. — Derry fechou os olhos um instante, franzindo o cenho. — Talvez não consigamos salvá-lo agora. Mas verei York morto no fim, mesmo que tenha de escalar suas torres e esfaqueá-lo durante o sono!
O conde Percy deu uma risadinha, gostando do rancor na expressão de Derry Brewer. A postura do espião refletia perfeitamente seus sentimentos sobre a questão, e ele segurou o braço do espião-mor do rei para mostrar seu apoio. Uma nuvem de poeira da estrada se levantou entre os dois.
— Temos doze mil homens, mestre Brewer. Soldados de verdade, com lanças, cavalaria e canhões. Se a rainha conseguir trazer mais alguns escoceses grandes e cabeludos, acho que o senhor não precisará escalar nenhuma torre. Poremos a cabeça de York numa muralha da cidade.
— Rezo por isso, milorde — declarou Derry.
Margarida apertou mais a capa em torno dos ombros, sentindo o vento frio fustigando sua pele, algo pelo que nunca havia passado. A princípio, ao sol do fim do verão, a viagem marítima fora quase agradável, uma semana bordejando o litoral sem nada a fazer além de planejar e observar o príncipe Eduardo correr descalço pelo convés. A pele dele havia ficado vermelha e depois dourada com a exposição ao sol, mas ela mantinha a sua bem coberta. Conforme avançavam para o norte, o tempo parecia esfriar a cada quilômetro. Margarida se espantara ao ver granizo respingando nas ondas quando atracaram.
Ela encontrou um reino de luto, sem nenhuma alegria com sua chegada. Os lairds de três clãs a receberam nas docas, fazendo uma profunda reverência e explicando que o rei Jaime fora assassinado havia apenas uma semana. Margarida não recebeu mais detalhes enquanto a escoltavam para as terras baixas, com a tropa de soldados de Jasper Tudor guardando a retaguarda em cota de malha polida. Os escoceses não pareceram impressionados com aqueles homens, embora ela achasse que não era por acaso que tinham uma vantagem numérica de quatro para um sobre sua pequena força, um grupo de mais de cem cavaleiros vindos da fronteira com a Inglaterra.
Eles levaram três dias para chegar a um imenso castelo no litoral, ainda em construção, com penhascos negros de um lado e gaivotas gritando no ar ao redor. Margarida se sentiu mais forte, embora as costas doessem depois de tanto tempo na sela. Todas as noites ela comera com lairds, em estalagens à beira da estrada, mantendo conversas leves que nunca se desviavam para as razões de sua vinda. Eles olhavam para Margarida com pena, e em consequência ela ficara irritada com os escoceses, sentindo-se quase como se fosse para o combate. Várias vezes perguntou sobre o rei Jaime, e fora engabelada com educação, suspiros e dar de ombros, enquanto os lairds se calavam e pediam uísque para brindar ao grande homem que havia partido.
Margarida apeou com rigidez quando a chuva começou a cair, trazida do mar. Puxou o capuz da capa sobre os cabelos e correu para se abrigar, empurrando Eduardo à frente. Havia guardas no portão e em todas as portas internas, homens de túnica negra que a fitavam com fascínio. Ela manteve a cabeça erguida e seguiu os lairds até chegar a um cômodo de aparência confortável, bem no interior do castelo. Aquela parte já estava pronta, embora alas e paredes inteiras ainda estivessem em construção. O príncipe Eduardo correu para uma janela. Fitou o mar lá fora, enquanto a mãe alisava as saias e arrumava um grampo solto no cabelo.
Não sabia o que esperar, mas com certeza não a bela moça de cabelos pretos que entrou no quarto e foi até ela sem nenhum anúncio formal. Margarida se levantou rapidamente e viu suas mãos serem tomadas e seguradas.
Maria de Gueldres tinha a cor dos portugueses, mas quando falava seu sotaque era levemente escocês.
— Gostaria de tê-la conhecido em tempos mais felizes. Mas não importam as razões, a senhora é bem-vinda aqui. Esse belo menino é seu filho?
— Eduardo — disse Margarida, totalmente desarmada. Ela esperara ferozes líderes escoceses e não uma mulher mais nova que ela, com os olhos ainda vermelhos de chorar.
— Que rapazote! Que belo e adorável rapazote! — exclamou Maria, ajoelhando-se e abrindo os braços.
Eduardo se aproximou com muita relutância, permitindo-se ser abraçado, embora se encolhesse.
— Agora, Eduardo, você encontrará meu filho se descer até a cozinha. O pequeno Jaime tem mais ou menos a sua idade, mas não brigue com ele, entendeu? A cozinheira lhe servirá um caldo, se você pedir com educação.
Com isso, Eduardo sorriu. Ficou imóvel quando ela lhe deu um beijo no rosto e depois saiu correndo do quarto.
— Jaime cuidará dele — avisou Maria, sorrindo com o som dos passos se distanciando. — Sente-se, Margarida. Quero saber de tudo.
Margarida se sentou num divã comprido, rearranjando os pensamentos que se espalharam.
— Soube da triste notícia pelos lairds, milady. Eu...
— Pode me chamar de Maria! Não somos ambas rainhas? Meu marido também era apaixonado por seu canhão, Margarida. Eu o alertei muitas vezes sobre essas coisas horríveis, mas ele não me deu ouvidos. Já os viu? São feitos para matar, e sua aparência é cruel. E eles explodem sem aviso, arrancando bons homens do mundo cedo demais.
Os olhos dela se encheram de lágrimas e, sem pensar, Margarida estendeu os braços e a puxou para um abraço. Maria chorou em seu ombro, recompondo-se com dificuldade. Por fim se afastou e secou as lágrimas.
— Para os homens de meu marido, tenho de me manter fria, entende? Não posso deixar que me vejam chorar, com todos eles duvidando de que eu seja forte o bastante para ser regente enquanto meu filho cresce. Psiu, me escute! Uma desconsolada com minha tristeza. Você conheceu essa dor, Margarida. Seu pobre marido aprisionado por inimigos! Acho que eu não suportaria uma coisa dessas, acho mesmo.
Margarida hesitou com surpresa, a culpa subindo pela garganta. Ela não falaria da sensação de vergonha que a corroía a todo instante, como uma mosca no verão. Havia salvado o filho antes do marido. Não, salvara-se e o abandonara. Não permitiria nenhum consolo com mentiras. Havia despeito também, por um homem que não se levantara, por mais que ela implorasse. A vergonha daquilo tinha deixado Margarida desesperada para tirar Henrique das garras dos inimigos. Ela sabia que faria qualquer coisa, daria qualquer coisa para vê-lo de novo.
Margarida sentiu muralhas desmoronarem quando Maria segurou suas mãos. Ela havia pensado em se mostrar dura e fria, mas não tinha defesas contra a gentileza daquela mulher estranha, capaz de ir das lágrimas ao riso num só fôlego, sem parar de falar. Maria a viu tremer e fez um gesto como se afastasse a tristeza.
— Soubemos de tudo, querida. Meu marido era favorável a York, mas nunca concordei com ele! Acho que Jaime pensaria diferente se um de seus lordes marchasse contra ele, não é? Não, eu e você somos iguais. Trazidas a novos lares para sermos rainhas, casadas e vendidas por um belo dote. Lembro-me de como fiquei orgulhosa quando William Crighton foi me buscar, meu próprio guerreiro escocês, para me trazer a Jaime. Ah, olhe só isso, estou chorando de novo. É tudo muito recente.
— William de la Pole foi me buscar para me levar à Inglaterra — acrescentou Margarida em voz baixa.
Em reação, seus olhos se encheram de lágrimas. Ela e Maria limparam o rosto com as costas da mão. De repente, ver a própria ação refletida na outra fez com que ambas rissem.
— Olhe só para nós com nosso pesar — comentou Maria. — Os homens de meu marido arrancariam as barbas de desgosto se soubessem. Bom, não vamos lhes contar. Diremos que nos enfrentamos e conversamos como se tivéssemos gelo no sangue. Não acreditarão, mas diremos mesmo assim. Uma rainha francesa da Inglaterra, uma rainha portuguesa da Escócia. Somos duas flores raras, Margarida; dois brotos de urze.
— Então não me envergonho em dizer que espero sua ajuda, Maria — respondeu Margarida. — Preciso de homens para ir ao sul comigo, se eu quiser libertar o meu marido.
Maria fungou e fez que sim, passando a mão pelo cabelo preso.
— Eu soube disso quando seu homem Brewer mandou a Jaime a notícia de sua vinda. Acho que meu marido a mandaria de volta de mãos vazias, Margarida, mas não eu! Não abandonarei uma irmã, mas gostaria de ter alguma coisa em troca para mostrar aos meus lairds.
Margarida fez que sim, questionando-se se as lágrimas e a afeição da outra não seriam fingidas, pelo menos em parte. A dúvida deve ter aparecido em seu rosto, porque Maria se inclinou e apertou a mão em seu braço.
— Não vou barganhar com você nem contar moedas. Ajudarei com o que puder. Você deve ter pensado nos termos durante a viagem. Diga-me o que pretendia, Margarida, e concordarei com tudo. Você terá quatro mil homens, um excelente grupo de rapazes fortes para lutar por você.
Mais uma vez, Margarida foi assaltada por dúvidas e suspeitas. Se aquilo era uma negociação, parecia simples demais ou muito mais complicada do que esperara. Naquele momento, sentiu falta da franqueza rude de Owen Tudor, apesar de toda a camaradagem demonstrada.
— Eu esperava que seu marido concordasse com o noivado de meu filho com uma de suas filhas. Os filhos deles se sentarão no trono da Inglaterra.
— Aceito! — exclamou Maria. — Pronto! Minha filha se chama Margarida por sua causa. Tem 5 anos e, quando crescer, será uma bela rainha para o seu rapaz.
— Por minha causa? — perguntou Margarida, os olhos se arregalando.
— A rainha francesa da Inglaterra que manteve o marido a salvo de lobos por tanto tempo? Que nome melhor para minha filha? Só lamento não termos nos conhecido antes. Eu poderia tê-la ajudado, se meu Jaime deixasse. Ele era um homem raro. Nunca mais verei outro como ele.
Uma sombra atravessou o rosto de Maria com a lembrança do marido. A cabeça dela se inclinou, quase como se conseguisse ouvir sua voz.
— Recordo que ele sempre falava de um lugar, um espinho em sua grande pata, que queria e não podia ter. Talvez em homenagem à sua memória eu pudesse acrescentar isso ao nosso acordo, mas não, não o farei. Eu lhe disse que a apoiaria com quatro mil homens, e o noivado é suficiente, mais que suficiente.
— De que lugar você fala? — indagou Margarida baixinho.
— Berwick, no rio Tweed. É quase Escócia, ele dizia. Bem na fronteira. Significaria deslocar a fronteira menos de dois quilômetros, mas agradaria à sua sombra, e devo homenageá-lo. Seus lairds me considerarão esperta se eu puder lhes dizer que consegui isso.
— Tenho certeza de que já consideram — murmurou Margarida.
Nisso ela já tinha certeza de que a moça levara a conversa exatamente aonde queria, mas mesmo assim o preço não era alto demais. Perder Henrique era uma culpa e uma vergonha que Margarida não suportava mais, não importava a que custo. Bastava a ideia de que homens como York poderiam machucá-lo para fazer seu útero e suas entranhas se contorcerem como se tivesse levado um chute. Margarida baixou a cabeça.
— Berwick é sua, Maria. Meu marido não lamentaria perder menos de dois quilômetros comparado a todo o seu reino.
Mais uma vez, Maria de Gueldres pegou suas mãos e as segurou com força.
— Então está combinado. Você terá os melhores combatentes da Escócia para levar para o sul. Meu marido era o chefe dos clãs, entende? A palavra é clanna, filhos. Eram todos seus filhos, e ele era um bom pai. Escolherei pessoalmente barbas, músculos e habilidade com a espada. Você fez de mim sua aliada, Margarida, se eu já não fosse. Anunciaremos o noivado imediatamente. Jantaria comigo agora? Quero saber muito mais sobre Londres e França.
York ouvia a chuva tamborilar nas janelas do palácio do bispo. O quarto do rei estava iluminado pelo fogo que ardia baixo numa parede e por uma única lâmpada de cobre e ferro polido, posta junto ao rei para que ele pudesse ler. Além do ruído da chuva, os únicos sons eram o sussurro da mão de Henrique passando pelo papel e o murmurar suave de sua voz enquanto proferia as palavras, os lábios se movendo constantemente.
Estavam sozinhos. Todos os criados do bispo foram mandados rio abaixo até Londres durante a noite, para escoltar seu senhor, de modo que ninguém vira York chegar e tirar a capa encharcada. A porta principal se abrira com seu toque, e ele havia andado por corredores vazios levando a própria lâmpada, ouvindo apenas os próprios passos.
York se sentou ao lado da cadeira do rei, diante do fogo, e suficientemente perto para qualquer observador acreditar que estavam profundamente envolvidos numa conversa particular. Embora os troncos ardessem com fogo baixo, o quarto estava quente, as paredes revestidas com a cor dourada do carvalho antigo. York se perguntou quem seria o rei quando aquelas árvores foram derrubadas. Sem dúvida, as tábuas de carvalho tinham sido cortadas muito antes da invasão normanda, já velhas então. Æthelstan? Antes mesmo dele. Talvez tivessem secado e recebido polimento quando os reinos de Wessex e da Mércia ainda não estavam unidos sob um único trono inglês. York achou que conseguia sentir o peso da história naquele quarto. Ele inspirou os odores de cera e fumaça como se fossem o mais fino incenso.
Havia uma mesinha redonda entre eles com uma taça, um frasco de vinho e uma garrafa de madeira muito menor com tampa de vidro. O olhar de York foi atraído por esses objetos, e em seguida observou as gotas de chuva da capa escorrendo, cintilando com o reflexo das brasas como gotas de ouro respingadas.
O murmúrio parou, e York ergueu a cabeça devagar, vendo que Henrique o olhava com leve interesse.
— Sei por que está aqui — disse Henrique de repente. — Suportei essa doença, essa loucura por muito, muito tempo, acho que anos inteiros me foram roubados. Mas não sou tolo. Nunca fui tolo.
York desviou o olhar, inclinando-se mais sobre os cotovelos apoiados nos joelhos, ali sentado, fitando o assoalho de madeira polida. Não levantou a cabeça quando o rei voltou a falar.
— Tem notícias de minha esposa e de meu filho, Ricardo? Os criados se movem à minha volta com o rosto vazio, como se eu fosse um fantasma, como se fossem todos surdos. Mas você me vê, não é? Você me ouve?
— Eu o ouço, Vossa Majestade. Eu o vejo — disse York num só fôlego. — Tenho certeza de que sua esposa e seu filho estão bem.
— Margarida chamou meu menino de Eduardo, assim como você o fez, Ricardo. É um belo rapaz, sempre rindo. Que idade tem o seu garoto agora, 13 anos? Mais?
— Tem 18 e é mais alto que a maioria dos homens.
— Ah, sinto muito. Perdi tanta coisa. Dizem que o filho é o maior orgulho do pai, e a filha o seu consolo. Gostaria de ter filhas, Ricardo, embora talvez ainda venha a tê-las.
O olhar de York passou rapidamente pelas garrafas sobre a mesa.
— Talvez, Vossa Majestade.
— Meu pai morreu antes mesmo que eu o conhecesse — continuou Henrique, olhando para longe pela luz tênue e dourada do quarto. — Não se orgulhava de mim, não poderia. Às vezes gostaria de o ter conhecido. Gostaria que ele me conhecesse.
— Seu pai foi um grande homem, Vossa Majestade, um grande rei. — A cabeça de York baixou ainda mais. — Se tivesse vivido alguns anos a mais, muita coisa seria diferente.
— Sim. Eu gostaria de conhecê-lo. Mas devo ficar contente. Eu o verei de novo, com minha mãe. Isso me traz consolo, Ricardo, quando a doença cai sobre mim. Haverá um dia em que estarei diante dele. Direi a ele que fui rei por algum tempo. Descreverei Margarida e meu filho Eduardo. Ele ficará desapontado, Ricardo? Não venci nenhuma guerra como ele venceu. — Os olhos dele estavam grandes na luz fraca, as pupilas como poças negras de tristeza quando se virou para York. — Como ele me reconhecerá? Eu era apenas uma criança quando ele morreu.
— Ele o reconhecerá, Vossa Majestade. Ele o abraçará.
Henrique bocejou, olhando ao redor em busca dos criados que não estavam presentes e franzindo a testa.
— É tarde, Ricardo. Agora me levanto muito cedo, antes do sol. Estive lendo tempo demais, agora minha cabeça dói.
— Quer que lhe sirva vinho, Vossa Majestade?
— Quero, obrigado. Ele me ajuda a dormir sem sonhos. Não devo sonhar, Ricardo. Vejo coisas tão terríveis...
York quebrou o selo de cera do vinho e removeu a rolha, enchendo a taça com o líquido vermelho-escuro que parecia negro à luz fraca. Henrique pareceu tê-lo esquecido, a atenção atraída pelas brasas reluzentes do fogo que se apagava. A sensação de York era de estar sozinho, mal percebendo a presença do rei. O silêncio dominou o quarto como ar quente, espesso e lento, quando a mão de York se estendeu para a segunda garrafa. Ele abriu a tampa de vidro com uma minúscula dobradiça, mas não depositou seu líquido na taça. O rosto de Henrique estava iluminado em ouro e sombras, os olhos cobertos enquanto fitava o carvão.
York fechou os olhos, apertando o punho contra a testa, a garrafa aberta ainda na mão.
Levantou-se de repente, espantando Henrique, que ergueu os olhos para ele.
— Que Deus lhe abençoe, Vossa Majestade — disse York, a voz rouca.
— Não ficará comigo? — perguntou Henrique, o olhar caindo sobre a taça de vinho.
— Não posso. Há exércitos se reunindo no norte. Exércitos que devo encontrar e vencer. Seus criados terão voltado quando o senhor acordar.
Henrique pegou a taça e a levou aos lábios, inclinando-a. Seus olhos permaneceram em York enquanto bebia e a baixava, vazia.
— Desejo-lhe boa sorte, Ricardo. Você é um homem melhor do que pensam.
York emitiu um som rouco, quase um grito de dor. Saiu depressa do quarto, a garrafinha ainda na mão. Henrique se virou de novo para o fogo, encostando a cabeça no tecido da cadeira e sentindo o sono se instalar sobre ele. Os passos de York pareceram ecoar naquele lugar vazio por muito tempo, até não serem mais ouvidos.