Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 36 de 41

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Trindade

Capítulo 30

 

 

O Natal viera e se fora, um dos mais estranhos que York e Salisbury já passaram, longe da família. Embora marchassem para o norte, para a guerra, nenhum deles podia ignorar o dia do nascimento de Jesus, mesmo que seus homens o permitissem sem considerar esse ato o pior agouro possível.

A presença de oito mil soldados em sua diocese espantara o bispo de Lincoln, e era gente demais, mesmo para aquela vasta catedral no alto da colina. Um número enorme de homens se amontoou de bom humor em torno da congregação local, enquanto o restante se empilhou do lado de fora, olhando com assombro para a torre mais alta da Inglaterra. Para variar, a chuva dera um alívio. Não ventava, e o frio aumentou, de modo que a cidade faiscava com o gelo. Logo as pessoas que ficaram do lado de fora tremiam e sopravam ar quente nas mãos. Durante algumas horas de silêncio e de hinos sendo cantados com o som abafado, o mundo inteiro parecia prender a respiração.

Eles perderam quase dois dias para abrir caminho pelo campo até a catedral, mas York podia ver que a experiência renovara os homens, que andavam com menos peso nos ombros. Sem dúvida muitos tinham confessado seus pecados naquela imobilidade vasta e gelada, pedindo perdão para que, se morressem, tivessem pelo menos uma oportunidade de chegar ao paraíso. Ele fizera o mesmo, e, naquele momento, ajoelhado, sentiu-se grato porque a morte do rei não pesava sobre sua alma. Teria sido peso demais para carregar, coisa demais a perdoar.

York se surpreendeu ao descobrir que apreciava a lenta viagem para o norte. As estradas romanas eram feitas de lajes de pedra sólidas que cortavam as charnecas e as densas florestas de carvalhos, bétulas e freixos. Os soldados em marcha subiam ao topo dos morros e podiam ver, a quilômetros de distância, uma paisagem verde-escura antes de descer aos vales cobertos de florestas e continuar.

A chuva e o vento tempestuoso foram quase incessantes, pingando pelas árvores nos dois lados da estrada, amortecendo o espírito dos homens e deixando roupas e capas tão pesadas quanto as armaduras. Mas, quando York inspirava, era um ar que conhecia bem, às vezes levado aos pulmões com dificuldade. Toda a política e os problemas de Londres haviam ficado para trás, e ele gozava da companhia de Salisbury sem nenhuma preocupação além de cobrir muitos quilômetros por dia. A comida era escassa e, após oito dias comendo pouco, York conseguia dar tapinhas na barriga e se alegrar com o músculo retesado depois de perder um pouco da gordura que atormentara os anos anteriores. Ele se sentia forte e alerta, tanto que era quase uma vergonha levar seus homens contra um exército hostil. Com toda a boa vontade que sentia, esse fato era como uma mortalha envolvendo seu bom humor.

Ele e Salisbury recolheram outros quatrocentos homens em suas propriedades ao passar perto delas, muitas vezes áreas isoladas que pertenciam havia muito tempo às suas famílias e que foram restauradas depois da revogação dos Decretos de Desonra. Edmundo, conde de Rutland, segundo filho de York, estava entre eles, com 17 anos e orgulhoso como o diabo por ter a oportunidade de marchar e lutar ao lado do pai. Edmundo não tinha a altura nem a compleição do irmão mais velho, mas se parecia com o pai, de cabelos pretos e olhos escuros, e era uns dois centímetros mais alto que York. O pai saudou sua chegada com um grito de alegria, embora dissesse em particular a Salisbury que sentia que Cecily matinha seus olhos sobre ele por meio do garoto.

York e Salisbury usavam quaisquer montarias livres como cavalos batedores e posicionavam homens ao longo das estradas para Londres e para oeste, rumo às fronteiras de Gales. Outros cavalgavam quinze quilômetros à frente, em grupos de três cavaleiros de cada vez, para que pelo menos um sobrevivesse às emboscadas e pudesse voltar correndo. Em terreno hostil, fazia todo o sentido ter cavaleiros distantes à frente, como libélulas que iam e vinham o tempo todo, recebendo ordens e transmitindo notícias sobre as terras adiante. A cada dia as linhas se estendiam, de modo que, quando Warwick chegou a Londres, no sul, a notícia levou seis dias para alcançar Salisbury. Warwick ia para o norte atrás deles com os homens de Kent, tirados de suas famílias e resmungando o caminho todo, a julgar pelas poucas linhas concisas que enviou ao pai.

Eduardo de March foi ainda mais lacônico quando sua mensagem lhes chegou. Não deu nenhuma notícia do Castelo de Ludlow e simplesmente avisava que estava a postos e transmitia o amor de sua mãe. York havia sorrido consigo ao ler a única linha assinada “E. March”, imaginando o filho dividido entre a responsabilidade de comandar um exército e a necessidade de aguentar as instruções da mãe. Ainda assim, York estava satisfeito. Estavam todos a caminho. Apesar da chuva, da escuridão e do frio, ele tinha três exércitos em campo, prontos para esmagar qualquer força que a rainha Margarida pudesse reunir. Estava quase disposto a abençoar os inimigos por se reunirem num único lugar, mesmo no inverno, onde poderia vencê-los todos de uma vez. O ano terminava, e York sentiu que era justo. Quando a primavera chegasse, ele teria toda a Inglaterra em suas mãos.

Então ele pensou num rapaz solitário no palácio do bispo, sem dúvida lendo à luz da lâmpada. Balançou a cabeça para afastar a imagem. O destino de Henrique era uma ponta solta, e ele sabia que ainda não terminara com o rei. Mas, por enquanto, só olharia para a frente.

Ter batedores tão distantes fazia com que fosse impossível surpreender York e Salisbury. Nenhum deles viu nada de incomum no cavaleiro a galope que agitava as rédeas para levar o cavalo açoitado até suas fileiras. Quando passaram pela cidade de Sheffield, sede do conde de Shrewsbury, York entrou em terras que conhecia particularmente bem desde a infância. A grande cidade de York estava a apenas dois dias ao norte, e ele sentia que voltara para casa. Seus homens deixaram o batedor passar, como fizeram muitas vezes. A maioria não tinha nada de novo a contar, e York o recebeu com um sorriso quando o rapaz apeou e se curvou. O batedor estava estranhamente pálido e molhado de suor, mas York apenas ergueu as sobrancelhas, aguardando que ele se acalmasse.

— Milorde, há uma grande hoste junto à cidade de York, à frente. Um exército como nunca vi.

Eles passavam por um trecho de floresta escura, a estrada apenas uma linha interrompida, com metade das pedras faltando. As árvores invadiam ambos os lados, às vezes crescendo bem no meio das lajes romanas. York viu Salisbury virar o cavalo e se aproximar o suficiente para ouvir.

— Parece que esse rapaz encontrou nossa presa — avisou York, forçando leveza na voz. — Onde estão seus companheiros?

— Milorde, n-não sei. Vimos que eles tinham batedores à frente, e depois disso foi tudo uma correria. Eu os perdi de vista.

Sem pensar conscientemente, o rapaz deu um tapinha no pescoço da montaria com a mão trêmula, o animal coberto de espuma, com longos fios de saliva balançando do focinho.

— A que distância você chegou antes de voltar? — perguntou York. Para sua surpresa, o rapaz corou, como se sua coragem tivesse sido questionada. — Basta me contar o que viu.

Ele e Salisbury faziam questão de escolher apenas batedores que soubessem contar ou, pelo menos, estimar grandes números. York observou com impaciência o rapaz torcer os dedos e murmurar entre os dentes.

— Estavam em três batalhões, milorde. Três grandes quadrados, acampados perto da cidade. Cada um tinha coisa de s-seis mil homens, se pude avaliar bem. Um pouco menos, talvez, mas eu diria que são dezoito mil, contando tudo.

York engoliu em seco, sentindo um arrepio na espinha. Enfrentara quase tantos em Ludlow, mas os nobres do rei tinham perdido milhares desde então, assim como a liderança de homens como Buckingham e Egremont. Ele sentiu um toque de desespero ao pensar num exército daqueles. A rainha e seus nobres pareciam reunir exércitos como enxames de gafanhotos aonde quer que fossem. York olhou de relance para Salisbury e viu o homem mais velho fitá-lo de cara feia. O nome do rei era um auxílio poderoso ao recrutamento em sua ausência, ou mais provavelmente devido a ela. York não encarou Salisbury, pensando depressa enquanto o batedor o olhava.

— Eles saberão que estamos vindo se os batedores se cruzaram — comentou Salisbury de repente. — Há quanto tempo foi isso?

O jovem cavaleiro pareceu aliviado por desviar o olhar da dor no rosto de York.

— Eu os vi ontem de manhã, milorde. Tive de dar uma grande volta para ultrapassar os cavaleiros que vinham atrás de mim, mas não podem ser mais de trinta, talvez quarenta quilômetros. Não avancei mais.

— E eles tiveram um dia inteiro para virem para o sul, se marcharam assim que nossos batedores foram avistados.

— Não — interrompeu York. — Temos outros batedores a dez e vinte quilômetros. Nenhum deles voltou com notícias. O exército da rainha não se moveu, ou pelo menos não tão depressa.

— Ainda assim são muitos, Ricardo — disse Salisbury em voz baixa.

York olhou para o conde irritado, e levou algum tempo para dispensar o batedor ofegante e mandar outro partir atrás dele. Naquele instante, precisava mais que nunca de suas libélulas com tamanha multidão contra ele.

— Não, não são — retrucou York com firmeza. — Mesmo que o inverno roube o coração de metade dos homens de Kent, Warwick trará seis mil... ou muito mais. Meu filho tem três mil com ele.

York falava devagar, pensando nas probabilidades. Se chamasse Eduardo de volta, não haveria ninguém na fronteira galesa para resistir aos Tudors. Tudo dependia de quantos marchavam com Warwick — e a que distância estariam. York praguejou sozinho, e Salisbury assentiu.

— Precisamos de uma fortaleza — declarou Salisbury. — Algum lugar seguro onde esperar. Middleham fica longe demais e é pequena demais para oito mil homens.

— Sandal, então — sugeriu York. — Fica a menos de vinte quilômetros de onde estamos.

— E talvez já tenha sido ultrapassada pelo exército da rainha — contrapôs Salisbury. — Prefiro ir para oeste ou para o norte, talvez mesmo de volta a Ludlow.

— Eles nos alcançariam antes de chegarmos lá. — York esfregou o rosto, como se quisesse trazer um pouco de vida de volta à carne. — E não farei a história se repetir. Não. Nenhum de nossos outros batedores voltou. Podemos chegar ao Castelo de Sandal. É quase uma ilha, uma fortaleza numa colina, e simples de defender. Servirá.

— Não gosto do risco — comentou Salisbury com firmeza. — Você vai me fazer cair de cabeça sobre um inimigo com o dobro de nosso efetivo.

Ele levou um susto quando York riu e respirou fundo, enchendo o peito.

— Estou em casa. Eles me fizeram marchar por chuva e tempestades, e só me fortaleci com tudo isso. Este ano está acabando, e com ele esta última grande caçada. Sandal fica a poucos quilômetros daqui. Não temo seu “risco” nem os movimentos de meus inimigos, não importa quantos soldados eles trouxeram. — York balançou a cabeça melancólico, mas se divertindo. — Não fugirei. Não hoje nem em dia nenhum. Ser forçado a sair de Ludlow já bastou pela vida inteira. Estou lhe dizendo, eles não verão mais minhas costas.

Seus olhos estavam frios enquanto aguardava uma resposta, sem saber se Salisbury continuaria a discutir enquanto o tempo de que precisavam se esgotava.

— Vinte quilômetros até Sandal? Tem certeza? — questionou Salisbury, por fim.

York sorriu para o amigo.

— Não mais que isso, juro. Costumava cavalgar de York até o mercado de Sheffield quando menino, viajando com seu pai. Conheço estas terras. Estaremos a salvo dentro das muralhas de Sandal antes mesmo que o sol comece a se pôr.

— Então apressemos o passo — ajuntou Salisbury. — Não podemos fazer o sol parar.

 

O exército acampado perto da cidade de York era o maior que Derry Brewer já vira. Mesmo assim, ele continuava nervoso, remexendo com os dentes o arranhão infeccionado no dedo, pressionando a região ao redor com os dentes e cuspindo quando o amargor escorria para a boca. Nuvens de tempestade jaziam sobre os vastos campos de homens e tendas, todos sofrendo na umidade constante. Tinham cavado valas para seus dejetos, mas viram-nos transbordar numa única noite de chuva forte, produzindo uma torrente de imundície que corria pelo campo, misturando-se à água estagnada. Doenças também se espalhavam entre eles, de modo que, a qualquer momento, haveria algumas centenas de homens gemendo enquanto esvaziavam o intestino com as meias ou as calças gaulesas baixadas até o tornozelo. Por alguma razão, os escoceses sofriam mais que os outros homens, reduzidos a uma situação de dar pena pelo estranho expurgo e fracos como crianças enquanto aquilo ardia por dentro.

Derry apeou à beira da tenda da rainha, a maior estrutura isolada na planície. Passou as rédeas de Represália a um criado e levou algum tempo para explicar o desejo intenso do cavalo por uma maçã murcha de inverno, caso tal coisa pudesse ser encontrada. Derry mostrou ao menino um centavo como promessa e foi para o conselho de guerra, ouvindo as vozes de Margarida e seus lordes enquanto ainda estava a passos de distância.

Lá dentro, o barulho da chuva era muito mais alto. A tenda tinha mais de dez goteiras pingando em panelas de cor baça e tornando o ar espesso de umidade. Braseiros de campanha se erguiam sobre a lona encharcada do chão, fazendo subir fios de névoa e somando à atmosfera a fumaça pungente de carvão e lenha verde crepitante. Quase sem ser notado, Derry deixou a capa num banco para secar e se aproximou para ouvir.

Lorde Clifford estava no meio da discussão, um homem baixo de ossos frágeis com um bigode delicado que precisava ser aparado todos os dias para manter o desenho. Embora fosse apenas um de uma dúzia de baronetes naquela multidão, ele havia ousado utilizar a morte do pai em St. Albans com homens como Somerset e Percy para garantir estar presente. Por aquela perda em comum, eles concederam a Clifford um lugar à mesa e autoridade bem além da que merecia pela sua posição.

Derry não gostava nem um pouco daquele homem. O jovem barão tinha a tendência de lhe falar de cima, como se a opinião de Derry não tivesse valor nenhum. Sempre fora difícil respeitar homens assim, mas, na verdade, Derry não tinha feito nenhum esforço especial para aprender o truque.

Em pé no canto, Derry se perguntou se tinha sido intencional o grupo inteiro de nobres estar de frente para a rainha, como se ela fosse o fogo que aquecia a todos. Ele notou o enorme escocês de barba ruiva em pé ao seu lado, como um guarda. O homem estava impassível, mas escutava com atenção suficiente o que diziam aqueles que acabariam comandando seus companheiros na batalha.

Derry absorveu todos os detalhes numa olhada rápida, instalou-se e ignorou o cheiro de doença e intestino fraco que impregnava o ar, juntamente com lã molhada e couro apodrecido. Pelo menos estava quente, pensou com gratidão.

— Se York trouxe o rei para o norte, foi como prisioneiro — dizia Clifford. — Instruí meus capitães a ignorar quaisquer estandartes reais, caso os vejam. Eles sabem que o rei Henrique nunca marcharia contra sua esposa e seu filho, portanto não temo deserções. Como sabem, esses homens ficam mais contentes quando as instruções são simples. Mas são resolutos, milady. Acho que ver leões no campo de batalha animará seu espírito e lhes confirmará que estão resgatando o rei Henrique. Vamos rezar para que York o tenha trazido! Dará coragem aos homens.

Margarida notou Derry Brewer se aproximando aos poucos. Acenou para que se aproximasse mais, ignorando o resmungo exasperado de Clifford quando Somerset e Percy permitiram que chegasse à frente do grupo.

— Notícias, mestre Brewer?

— Ainda há doença no acampamento, milady, mas menos homens afetados hoje do que ontem. Vi coisas assim na França, mas até agora só perdemos alguns soldados mais fracos. Acho que vai acabar em vez de se espalhar mais, se Deus quiser. Mandei os cerca de sessenta piores descansar na cidade, com ordens para lhes darem caldo e cerveja. Tive de insistir que “um entra, outro sai”, senão teríamos o exército inteiro descansando num lugar quentinho. — Ele ergueu os olhos para a cara impassível do escocês ao lado da rainha. — Os rapazes escoceses se recusaram a ir, milady. Parece que preferem cuidar sozinhos de suas enfermidades.

Inexpressivo, o homenzarrão lhe fez um sinal de cabeça, bem leve, levando Derry a sorrir.

— Esse homem não tem nada mais importante a relatar? — interveio lorde Clifford de repente, a voz alta demais para o espaço confinado. — Sabemos que há doença no acampamento, Brewer. Imagino que também haja ladrões furtando o equipamento dos amigos. E daí?

Ele olhou para os outros em volta como se esperasse que expulsassem Derry para a chuva.

Somerset balançou a cabeça, preferindo ignorar a explosão em troca de questões mais prementes.

— Aguardamos a ordem de marchar, milady. Será hoje? Leva algum tempo para desmontar acampamento, e a luz já está acabando. Gostaria que os homens estivessem prontos para avançar.

O silêncio caiu sobre a tenda enquanto todos os homens ali se viraram para receber a resposta de Margarida. Duas rugas idênticas surgiram entre seus olhos, e Derry notou que ela cutucava a unha do polegar com o dedo médio enquanto permanecia parada. Ele entendia a preocupação dela, com tantos lordes importantes observando-a. Margarida insistira em sua obediência, fazendo com que engolissem à força sua condição e seu direito. Era esse o preço: ter de dar uma ordem que poderia mandar todos eles para a morte. Todos os homens ali tinham alguma razão pessoal para ir a campo contra York, mas a responsabilidade era dela, pelo marido e pelo filho.

Margarida começou a falar e depois estrangulou o som que saiu, transformando-o numa longa inspiração. Ela havia assistido a um terrível massacre em Blore Heath e vira exércitos inteiros serem dilacerados por Warwick e March em Northampton. Viajara centenas de quilômetros para reunir homens suficientes para marchar sobre Londres e salvar o rei. Muito antes de estarem prontos, York viera para o norte.

A decisão fora forçada pela presença dele. Margarida só precisava arriscar tudo. O dedo que cutucava a unha do polegar ficou mais agitado, de modo que Derry conseguia ouvir seus estalidos. Seu coração se condoeu por ela enquanto o silêncio continuava. Margarida se aliara aos Tudors e aos escoceses para conquistar seu apoio. O próprio filho estava prometido em casamento, e o futuro da rainha dependia de um único golpe. Derry conseguia entender como ela devia temer estender o braço e lançar os dados outra vez. Se York arrancasse outro triunfo dos homens naquela tenda, ela não teria mais nada para dar.

— Milorde Somerset me afirma que a cautela não vence guerras — respondeu Margarida, por fim. Algo se aliviou em sua expressão, alguma tensão terrível desapareceu de seu corpo. Os dedos pararam de se cutucar febrilmente e relaxaram. Ela respirou fundo, quase arfando. — Passem a ordem de levantar acampamento, milordes. Iremos ao campo de batalha contra o exército de York e quem estiver ao lado dele. Lembrem-se de que os senhores lutam para salvar o rei de Inglaterra, aprisionado por traidores imundos. Os senhores estão do lado justo. Que a bênção de Deus e minha gratidão acompanhem todos.

Ela baixou a cabeça ao terminar, parte da ferocidade eriçada se esvaindo, de modo que pareceu novamente triste e cansada. Os lordes reunidos se curvaram e lhe agradeceram num coro rouco, liberados da situação embaraçosa e já saindo para se unir aos seus homens.

Derry não ficou sozinho com a rainha, pois o escocês havia permanecido na tenda, observando-o com atenção. Depois do trato que ela fizera além da fronteira, eles claramente tinham decidido protegê-la tempo suficiente para que fosse cumprido. Derry piscou para o homenzarrão, fazendo-o pousar a mão no punho do grande facão em seu cinto como resposta.

— Eu devia ter perguntado se a senhora tinha alguma instrução especial para mim, milady, embora talvez não estejamos suficientemente a sós. — De modo teatral, ele inclinou a cabeça para o austero guerreiro.

O homem simplesmente o fitou.

Margarida torceu um fio de cabelo entre os dedos, cada vez mais apertado. Sua voz estava lúgubre quando respondeu.

— Você sempre disse que seu trabalho termina quando a batalha começa, Derry. Você já me ajudou mais do que posso dizer, mas a batalha chegou. Suponho que agora tudo será resolvido por arqueiros, cavaleiros e homens de armas. — Ela fechou os olhos com força por um instante. — Derry, já vi Salisbury comandar. Vi quando destruiu um exército três vezes maior que o seu em Blore Heath. Não conheço o suficiente para temer York no campo de batalha, mas temo Salisbury. Você ficará perto de mim?

— É claro que ficarei! Quanto ao resto, a senhora tem bons homens em Somerset e Percy, milady. Não precisa se preocupar. Somerset é um bom comandante. O pai o educou direito e os rapazes confiam nele. Pelo que posso ver, ele tem o dom, e não se recusa a aceitar conselhos. Nenhum deles gosta de York, Margarida. Sabem o que está em jogo, e posso jurar que não hesitarão. Nem os escoceses, provavelmente.

O grandalhão ao lado de Margarida soltou um grunhido de irritação e a fez dar uma risadinha.

— Não cutuque o homem, Derry. Ele o cortaria ao meio.

— Ora, ele tem metade da minha idade e o dobro da minha altura, quase — disse Derry. — Mas acho que antes eu conseguiria dar um pouco de trabalho.

O escocês deu um sorriso lento, mostrando que havia pensado na sugestão.

— Mandarei trazerem meu cavalo, Derry — avisou Margarida. — O seu está por perto?

— Represália? Mal preciso amarrá-lo de tanto que ele me ama. É tão leal quanto um cão, milady.

Margarida sorriu, apreciando o esforço do espião para alegrá-la.

— Esperemos então que seu nome seja um bom presságio.